Lou Reed ameaça e provoca o ouvinte
Ana Maria Bahiana
Dura, a tarefa dos heróis no dia de hoje. Antes era fácil: bastava reformar o mundo, coisa para qual todo herói tem pose e platéia. Hoje, há apenas montes de lixo e fumaça, e diante deles o herói deve, para manter o cargo, permanecer digno. Permanecer digno. Dura tarefa.
O rock, coisa sabida, acabou. Foi bom enquanto durou. Primeiro um grande baile, depois uma orgia ingênua de bons propósitos e justos sonhos, e eu seria temerária em dizer que tudo isso passou em brancas nuvens. Não passou. Mesmo enlatado precocemente – mais precocemente do que todos nós pudemos supor e perceber – ele arranhou superfícies e, em algumas marcas, deixou sementes. Mas a maioria dos solos, como os da parábola cristã, eram péssimos. Pedra e espinho. Haja semente.
Hoje, as discotecas vão tomando com rapidez o lugar dos grandes concertos superproduzidos como forma de emular e entorpecer coletivamente. (Os grandes concertos, por sua vez, já tinham tomado o lugar da emoção genuína que, um dia, foi chamada de rock’n roll). Hoje, temos Travolta, Bee Gees, Robert Stigwood e seus afilhados. E temos o rabo da linha de montagem do rock: Kiss, Peter Frampton, etc., etc., etc.,
E temos os heróis. Não se intitulam assim. Apenas ficam sendo, se olhados de fora, em sua solitária compostura fora de moda. Nada a ver com seriedade. Estes heróis de fim de estação são, justamente, os que ainda tocam no nervo doído da verdadeira emoção, onde se incluem o riso e o deboche, certamente. Essa é a sua dignidade: a de ainda, contra todos os vapores, manter seu compromisso com uma visão perfurante do mundo. Coisa que também pode ser rock’n roll.
Lou Reed é isso. Não usemos o velho jogo de espelhos da mídia – tantas vezes incorporados pelos próprios artistas – de justapor e contrapor obra e estilo de vida. Falo aqui, estritamente, da música de Lou Reed e de seu último álbum, “Street Hassle”. Não recomendaria a todos que comprassem o disco. Não é fácil, não tem nada de doce ou acessível ou mesmo melodioso ou, no mínimo, bem produzido ou qualquer uma dessas coisas que, sem hesitar, poderíamos dizer de 90% da produção internacional mais ou menos ligada ao rock. “Street Hassle” é o sumo imaginário de uma Nova York arquetípica de fim de século. Arde, queima, entontece. E fede.
O material musical foi gravado ao vivo, em sua maior parte. Só a faixa-título é de estúdio, mas o ouvinte leigo não perceberá, porque nas canções de palco a platéia foi eliminada, o som trabalhado. Do ao vivo restou o que, com certeza, Lou Reed queria: o fio cortante, a crueza.

São canções maníacas que começam aos pedaços, aos estilhaços e, subitamente, tomam forma, uma cacofonia urbana sob controle, como o rock um dia planejou ser. São canções violentas que mantém o pulso sempre na mesma tensão, com as quais Lou ameaça e provoca o ouvinte, convida-o, repele-o, coça seus instintos, cospe em seu rosto. E as letras fazem o serviço final: às vezes se comovem, às vezes riem com o canto da boca. Nelas desfilam os traficantes, as prostitutazinhas, os viciados, os zé-manés. Engolem o choro ou escarnecem. Mas o olho está lá, não sai da cena nem quando a garota morre de superdose de heroína, e o amigo convence seu namorado a jogá-la no meio da rua “onde, de manhã cedo, ela será só mais um atropelado”.
A tarefa do herói para os anos 80: lixeiro poético dos restos do sonho. Em tempo: este disco não vendeu praticamente nada nos Estados Unidos, apesar dos ingentes e dramáticos esforços de divulgação de sua gravadora. Tirem as conclusões que quiserem.
Publicado na revista Som Três, 1978/79.
Lou Reed em estúdio, Nova York, 1977 - Fotos de Lynn Goldsmith.



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