David Bowie veio pela primeira vez ao Brasil em 1990, na turnê que promovia a luxuosa caixa multimídia Sound+Vision, lançada pela gravadora Rykodisc. O material fazia uma retrospectiva de sua carreira, de 1969 até 1980, e incluía seis LPs, três Cds, três cassetes e um laserdisc. A turnê foi abrilhantada pela presença do guitarrista Adrian Belew, um velho conhecido - já havia gravado e excursionado com Bowie no fim dos anos 1970.
Bowie voltaria ao Brasil em 1997, na turnê do álbum Earthling. Belew voltaria em 2016, com seu Power Trio. Os perfis de ambos, que vêm a seguir, são de 1990, por ocasião da passagem da turnê Sound+Vision por São Paulo.
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Inveterado mutante
O rock and roll dos anos 1950 eletrizou a imaginação e disparou o coração do garoto inglês David Jones quando, perplexo, ele viu uma prima dançar freneticamente ao som de Hound Dog, de Elvis Presley. Chuck Berry, jazz e rhythm’n’blues era tudo o que ele queria. Já em 1963, abandonava seu primeiro grupo, o Kon-Rads, porque os outros integrantes se recusavam a tocar Can I Get a Witness, de Marvin Gaye.
Três anos mais tarde, na Inglaterra, a moda era mod e David trocava o King Bees pelo Lower Third, que tinha um som idêntico ao do Who, banda de Pete Townshend. “Eu achava o Who o máximo”, diria. Outros grupos vieram depois, como o Buzz e o Hype. Dedicava o tempo livre para estudar mímica com Lindsay Kemp e trabalhar numa agência de publicidade - detestou o que viu por lá e caiu fora.
No final dos anos 1960, para evitar confusão com o famoso homônimo dos Monkees, mudou o nome para David Bowie e gravou dois LPs, David Bowie e Space Oddity, nome também de seu primeiro hit, que narrava a história de um astronauta convertido em eremita espacial.
Os anos 1970 se iniciam sob um nevoeiro de haxixe e com o álbum The Man Who Sold the World. O passo seguinte, Hunky Dory, foi apenas um aperitivo para The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, sucesso absoluto de crítica e público. No palco, Bowie personificava Ziggy Stardust, um alienígena que vem à Terra trazendo, de forma subliminar, a mensagem “espero morrer antes de ficar velho”, já enviada pelo Who na década anterior. O personagem Ziggy foi inspirado no roqueiro americano Vince Taylor, que acreditava ser Jesus Cristo. “Eu me divertia com a ideia de fabricar algo totalmente irreal e dar-lhe vida na forma de um ícone”, declarava seu criador.
A imprensa europeia comparava as apresentações, nas quais Bowie era acompanhado pela banda inglesa The Rats (que encarnava os Spiders from Mars), a um comício nazista. Ele ignorava, preferindo voltar as atenções para seu novo amigo, Lou Reed, tirando-o da obscuridade com a produção do álbum Transformer (1972), um de seus maiores sucessos.
Sua encarnação seguinte foi Alladin Sane (trocadilho com a lad insane – um cara doido), nome com o qual batizou o álbum de 1973. Com o personagem, Bowie, segundo as próprias palavras, exteriorizava sua paranoia em relação à América. Pin Ups, que vem a seguir, é uma coletânea de covers, pretexto para recuperar o fôlego criativo. Em 1974, na capa de Diamond Dogs, uma ilustração do artista belga Guy Peellaert transforma Bowie em um ser híbrido, meio homem, meio cão. As letras, escritas em forma de colagens, remetiam aos cut-ups dos dadaístas e do escritor beat William Burroughs. No shows, Bowie interpreta o soturno Thin White Duke. Lança David Live, álbum-duplo gravado ao vivo. Descontente com a qualidade do trabalho, avisa que o disco deveria se chamar David is Live... But Only in Theory.
Dois anos depois, outra virada. Abandona o rock e se aproxima da soul music. Os produtos deste flerte são dois álbuns excelentes: Young Americans e Station to Station. No primeiro, está registrada a parceria com John Lennon, em Fame.
Em 1976, o cinema, pelas mãos de Nicolas Roeg, agarra Bowie, que faz o papel de um Howard Hughes extraterrestre que vira alcoólatra em O Homem que Caiu na Terra (The Man Who Felt to Earth). Nessa época, para curar uma pesada ressaca de cocaína, parte para Berlim com Iggy Pop. Lá, dá uma mãozinha para o amigo, produzindo dois de seus melhores trabalhos - The Idiot e Lust for Life. Ao mesmo tempo, junta-se a Brian Eno para lançar Low, “Heroes” e Lodger, uma trilogia que influenciaria o trabalho de muita gente nos anos seguintes. Nesse ínterim, voltaria às telas ao lado de Marlene Dietrich, em Apenas um Gigolô (Just a Gigolo, 1978), de David Hemmings.
Começa a década de 1980 com o arrasador Scary Monsters and Super Creeps, um álbum repleto de convidados ilustres, como o antigo ídolo Pete Townshend. O grande destaque, porém, é a guitarra ensandecida de Robert Fripp, que já arrancara elogios em “Heroes”.
O teatro não escapa, e Bowie interpreta o personagem central de O Homem Elefante, nos EUA. Em 1982, é a vez de Baal, de Brecht, para a BBC. Na música, ao lado de Giorgio Moroder, compõe o tema de A Marca da Pantera (Cat People, 1982), filme de Paul Schrader, e com o grupo Queen, frequenta as paradas de sucesso com Under Pressure.
Arremesa, então, mais um petardo: Let’s Dance, espécie de Young Americans dos anos 1980. O álbum é produzido por Nile Rodgers, guitarrista e fundador do Chic, um dos maiores nomes da black music. O destaque agora é a guitarra de Stevie Ray Vaughn, morto recentemente em um acidente de helicóptero. O sucesso estrondoso de Let’s Dance abafou os discos seguintes, Tonight (1984) e Never Let Me Down (1987).
Bowie parece mais atraído pelo cinema e volta às telas em variadas mutações: o vampiro agonizante, em Fome de Viver (The Hunger, 1983); o prisioneiro de guerra, em Furyo – Em Nome da Honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence, 1983); o assassino profissional, em Um Romance Muito Perigoso (Into the Night, 1985); o executivo inescrupuloso, em Absolute Beginners (1986); e o mago maléfico, em Labirinto (Labyritnth, 1986). Em parceria com o guitarrista Pat Metheny, grava o tema de A Traição do Falcão (Falcon and the Snowman, 1985).
Produz Blah Blah Blah, outro álbum de Iggy Pop, transformando o energético Iguana num clone mal-acabado de si próprio. Em 1989, cria o Tin Machine, grupo que dá mais o que falar pelo visual yuppie do que pelo som, um apanhado de cacoetes do hard rock dos anos 1970.
Se, desde Let’s Dance, Bowie não surpreende seus fãs, isso não significa que deixou de ser um desbravador da música pop. Não segue nem cria modas - ele as recria, à sua maneira. Sound+Vision, o show, torna-se um programa obrigatório. Afinal, uma carreira de mais de vinte anos, que têm influenciado um número incontável de artistas, não pode ser desprezada. Sound+Vision pode confirmar o que as últimas duas décadas vêm mostrando: a versatilidade de Bowie é imbatível.
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O nome Epstein deu duas contribuições inestimáveis à musica pop do século 20. O caçador de talentos Brian Epstein revelou ao mundo os Beatles, banda mais popular que Jesus Cristo. Epstein-Barr, o vírus da mononucleose, foi responsável pelo aparecimento do guitarrista Adrian Belew.
Definido, na revista Guitar Player, como uma “louca mistura de Jimi Hendrix, Jack Kerouac e Huckleberry Finn” e “o Hieronymus Bosch da guitarra”, Belew foi considerado, num livro sobre rock progressivo, escrito por um brasileiro, “a pior contratação feita pelo King Crimson, pois é um músico mais dado a pirotecnias do que a sutilezas harmônicas”. Definições à parte, o público que comparecer ao show Sound+Vision, de David Bowie, terá o privilégio de tirar suas próprias conclusões quando o guitarrista norte-americano pisar no palco.
Músico dos mais requisitados desde o final da década de 1970, Belew, atualmente com 41 anos, começou a carreira como baterista da Denims, banda de baile que tocava Beatles. Contraiu mononucleose e, durante a convalescença, passava o tempo dedilhando uma guitarra. Recuperado, trocou as baquetas pela palheta e formou um trio inspirado no Jimi Hendrix Experience. Fortemente influenciado por Eric Clapton e Jeff Beck, decidiu se retirar por dois anos, "para perder velhos hábitos como o de fazer um som que os outros guitarristas já faziam". Neste período de aprimoramento estilístico e incubação criativa, comprou uma Fender Stratocaster, tirando dela sons que, normalmente, os guitarristas não tiravam.
Em 1977, quando tocava em Nashville, Frank Zappa, que estava na plateia, convidou-o a participar do filme Baby Snakes. Numa aparição insólita, vestindo um traje militar feminino, Belew rebolava enquanto os músicos tocavam. Seu début como guitarrista e vocalista, num álbum de Zappa, aconteceu em Sheik Yerbouti, no qual, entre outras coisas, fez uma antológica e hilariante imitação de Bob Dylan na faixa Flakes. Nessa mesma época, Brian Eno trabalhava com Bowie e alertou-o sobre Belew. O primeiro contato com Bowie se deu nos bastidores de um show de Zappa, na Alemanha, e se estendeu aos álbuns Stage e Lodger, gravados pelo cantor.
Por volta de 1980, durante um concerto de Steve Reich, em Nova York, Belew foi apresentado ao guitarrista Robert Fripp, que excursionava pelos EUA com o The League of Gentlemen. Fripp convidou Belew, que então integrava uma banda chamada Ga-Ga, para abrir seus shows. O plano de Fripp, porém, era mais ambicioso: reestruturar o King Crimson, grupo desativado desde 1974. E foi durante uma excursão europeia do Talking Heads, da qual Belew participava como convidado, que Fripp revelou seu desejo de tê-lo como um dos integrantes do novo Crimson.
Aceitando a proposta, Belew encontrou no Crimson o laboratório perfeito para suas experiências como letrista, vocalista e guitarrista. Considerado por Fripp “a personificação da indisciplina, com estilo agressivo, selvagem e imprevisível”, durante os shows da banda, além de dar uma canja na bateria, Belew reproduzia, pelas cordas de sua guitarra, sons inusitados, como as vozes de elefantes e gaivotas.
Em 1984, o King Crimson, mais uma vez, encerrou suas atividades, após gravar três álbuns e dois vídeos que registram a experiência musical mais enriquecedora de Belew. Convertido em session man, garantiu participação em trabalhos de Herbie Hancock, Laurie Anderson, Peter Wolf, Jean-Michel Jarre, Paul Simon, Garland Jeffreys, Robert Palmer e The Bears. Sua carreira solo já rendeu cinco álbuns, todos inéditos no Brasil.
Com um currículo desses, tudo indica que Bowie não será a única estrela a brilhar quando Belew entrar no palco empunhando sua Fender. E que ele entre com todas as suas pirotecnias. Sem nenhuma sutileza.
Textos de 1990. Foram revistos.



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