Biotônico Fontoura: vendido como fortificante, tinha álcool na fórmula
“Ele chegou ao meu consultório no dia seguinte, muito nervoso e quase em estado de colapso, dizendo que não podia mais comprar sua Coca-Cola e que tinha certeza de que tinha algum problema”. “Ele” era um garoto de 13 anos que bebia de dez a doze copos de Coca-Cola diariamente, e que, por perder o emprego, não teria como comprar a bebida.
As palavras, reproduzidas no livro Por Deus, Pela Pátria e Pela Coca-Cola, de Mark Pendergrast, são do depoimento de um médico de Atlanta num processo que a Coca-Cola moveu contra o Departamento da Receita Federal norte-americano em 1902, último ano em que a bebida teve “uma proporção muito pequena” de cocaína em sua fórmula, como admitiu, também em depoimento, Asa Candler, seu fabricante.
A Coca-Cola chegaria ao Brasil na década de 1940 e, embora não tivesse cocaína, foi bastante criticada pelo doutor Antônio da Silva Mello, importante nome da medicina brasileira da época. Segundo ele, o refrigerante seria extremamente nocivo para crianças sensíveis à cafeína, alcaloide presente na sua fórmula.
Em julho de 1998, a revista Caros Amigos publicou um artigo do jornalista Ricardo Vespucci sobre o Biotônico Fontoura, suposto fortificante que a criançada bebia para abrir o apetite. Criada pelo médico Cândido Fontoura Silveira em 1910, a beberagem teve álcool em sua fórmula até 2001.
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Ba-a-bá, be-e-be, be-i-bi
Os fortificantes que não alertam sobre o álcool na sua fórmula
Ricardo Vespucci
Sorrindo e cantando, Angélica anuncia Biotônico Fontoura na TV. Angélica não sabe o que faz. Quase ninguém, aliás, tem ideia do que significa anunciar ou dar Biotônico Fontoura às crianças. Boa moça, como parece, se Angélica soubesse, certamente recusaria o papel.
O Biotônico Fontoura é antigo pra chuchu. Conforme está impresso na embalagem, foi registrado no Ministério da Saúde e no Serviço Sanitário de São Paulo em 16 de dezembro de 1910. Por curiosidade, quinze dias depois do nascimento do Sport Club Corinthians Paulista. Quer dizer: velho pra caramba. Naquela época – em que se escrevia sport e club e, horror dos horrores, a prática médica ainda recorria à sangria como método terapêutico – era muito natural que o surgimento do Biotônico fosse aclamado pelas mães, tias, avós e babás. Doce de estalar a língua, cheiroso e saboroso, dava água na boca, não havia criança que recusasse uma colherada e, o bom observador notaria, funcionava direitinho como o aperitivo dos adultos, aquela cachaça no balcão antes das refeições: abria o apetite que era uma beleza, mesmo dos mais magricelas, dos anoréxicos mais obstinados. Uma beleza.
O Biotônico Fontoura, como o Corinthians, varou décadas, cresceu em popularidade a cada vez que uma mãe se queixava da magreza real ou imaginária de um filho e a comadre receitava: “Dá Biotônico”. Para as crianças, uma colher de sopa antes do almoço, outra antes do jantar. Se houvesse na casa algum barbado inapetente, duas colheres de cada vez. Isso valeu para os anos 10, 20, 30, 40, 50, 60, 70 – e até se entende que valesse. Mas o tal remédio manteve o sucesso nos anos 80, 90, e às portas do novo século Angélica anuncia cantando a vetusta fórmula consagrada: sulfato ferroso, ácido fosfórico, extratos de plantas tônicas, aromáticas e eupépticas (que facilitam a digestão) e...álcool. O próprio rótulo deixa bem claro: teor alcoólico 9,5 por cento – mais alto do que o das cervejas fortes europeias, o dobro de concentração alcoólica das cervejas comuns. Hoje, ao contrário da leniência compreensível das décadas passadas, não dá pra aceitar que uma fórmula dessas continue livremente à venda nas farmácias e cantada com alegria e despreocupação nos anúncios.
Acontece que, enquanto o Biotônico Fontoura ganhava adeptos pelas gerações sucessivas, a ciência evoluiu, não é preciso dizer como e quanto. Uma das descobertas da medicina – que, por sinal, dispensou aparatos mirabolantes, raios laser, isótopos radiativos, ultrassom – deu-se mediante lenta e paciente observação, e algumas conclusões desse esforço foram aos poucos se confirmando em laboratório ou na experiência clínica. Era a medicina descobrindo que, longe de denunciar simples sem-vergonhice, problema mental ou fraqueza de caráter, o alcoolismo representava na verdade uma doença com raízes físicas (e implicações psicológicas anteriores ou posteriores ao ato de beber em demasia). Descobriu-se mais: que a doença é de forte componente hereditário e, o principal, preexiste ao beber. Ou seja, o alcoólatra nasce portador de características físicas que dão uma “resposta” diferente ao álcool no organismo, assim como o diabético “responde” de forma diferente ao açúcar. Decorre daí que um alcoólatra poderia passar a vida toda sem manifestar a doença, desde que jamais entrasse em contato com o álcool – sem, por isso, deixar de ser alcoólatra, que ele de fato é, bêbado ou sóbrio.
O pior da história – a ciência já apurou também – é que 10 a 12 por cento da população mundial apresenta tal “resposta” orgânica diferente ao álcool, ou seja, são alcoólatras – e quando Angélica canta e anuncia, está atingindo 10 a 12 por cento de crianças que, um dia, em contato com o álcool, exteriorizarão o alcoolismo que carregam, daquela forma peculiar: bebedeira, dependência química, destruição pessoal, delirium tremens, coma...As colheradas do Biotônico Fontoura docinho e cheiroso podem ser o início dessa escalada.
Iguais ou parecidos com o Biotônico há vários outros “fortificantes”, ou “aperientes” ou “tônicos”, nas farmácias. Todos de venda livre e sem nenhum traço de advertência quanto à presença de álcool, além de várias tinturas e xaropes que o contêm, mas o omitem.
O Tônico Blumen é praticamente igual ao Biotônico Fontoura, só que ainda mais forte em teor alcoólico declarado. A bula fala em “álcool etílico: 0,10 ml em cada ml” (o que significa 10%) e adverte que “interações medicamentosas podem ocorrer pela presença de álcool etílico e sacarose”. Sobre o perigo do alcoolismo, nada.
O Apevitin BC tem álcool em seu “veículo”, isto é, a substância (no caso, o líquido) que “transporta” a droga principal (cloridrato de ciproeptadina). Indicado para crianças a partir dos dois anos.
Outro “fortificante”, o Sadol, até na embalagem imita o Biotônico Fontoura, mas não se refere ao álcool (estará dissimulado no “excipiente”, que é sinônimo de “veículo”?). Há mais um, o Vigonal, semelhante aos demais.
Imagina, um biotoniquinho à toa, que mal há de fazer?
Pois é, você até pode achar que isso tudo aqui é um monte de exageros. Então, tome lá mais unzinho: há casos muito bem registrados de alcoólatras que detiveram a doença pela abstinência completa e um belo dia recaíram...com inofensivos florais de Bach que levam na fórmula um cheirinho, um cheirinho apenas, de conhaque.
De qualquer forma, Angélica ficaria melhor cantando o hino do Corinthians.



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