Os consumidores potenciais de bonecos Simpsons não
são apenas crianças, mas também adultos na faixa dos 18 aos 35 anos
É possível observar, num passeio
pelas redes sociais, a grande quantidade de grupos dedicados à nostalgia e ao
saudosismo. Seus seguidores são pessoas maduras, ou em processo de amadurecimento, que não conseguem se desgrudar do passado e tentam trazê-lo de volta. Formam uma legião de adultos posando de
adolescentes e jovens posando de crianças, incentivados pela indústria do
entretenimento: cinema, música pop e histórias
em quadrinhos são três segmentos do mercado que farejaram a oportunidade de lucrar
em cima da permanência no/do passado.
É um público que tem dinheiro e está disposto a gastá-lo com bugigangas que tragam a sensação de uma volta aos “bons
tempos”. Revival, remake, retrô, memorabilia e vintage são termos que viraram lugar-comum. É como se o tempo tivesse empacado. Consumir produtos que tenham alguma ligação com a infância ou a adolescência foi a maneira encontrada para estancar o tempo e permanecer eternamente jovem.
Os filmes de super-heróis monopolizaram os cinemas e conquistaram, além da criançada, papais que colecionam bonequinhos (action figures) e vestem camiseta de
super-herói igualzinha à do filho de sete anos. Fora da época de carnaval, rapazes e garotas bem
crescidinhos - os cosplayers - se fantasiam de super-heróis e personagens de Star Wars, mangás e animes. São como os trekkers, adoradores de Star Trek (Jornada nas Estrelas) que se reúnem vestidos como os personagens do seriado, e teve no músico brasileiro Zé Rodrix um de seus mais ilustres representantes. A música deu uma boa amostra com a volta do disco de vinil. Bandas e artistas que se recusam a deixar o palco seguem apresentando o mesmo repertório
de cinquenta anos atrás para velhos roqueiros que não se cansam de fazer o gesto da mão com chifres. Astros da música pop esquecidos, aposentados ou mortos têm a oportunidade de retornar à ativa em
versão cover, em musicais no estilo
Broadway e em biopics.
Na busca do elixir da eterna juventude via consumo
de produtos ligados ao passado, quem fica na saudade é a parcela do público sedenta de experiências inéditas, de algo que a surpreenda. No império do mais do mesmo, investir na oferta de algo que ninguém ainda tenha
experimentado gera incertezas como a possibilidade
de pouco retorno financeiro e prejuízos. Além de não estar disposto a correr
riscos, o mercado tem pressa. Mais interessado em quantidade do que em
qualidade, ele precisa do dinheiro do consumidor para ontem.
O sociólogo Frank Furedi esmiuçou o fenômeno dos kidults e dos adultescentes.
***
Não quero ser grande
Fusão em inglês das palavras crianças e adultos, "kidults" questionam noções como maturidade e autonomia e põem em xeque a patologia da vida adulta na sociedade contemporânea
Frank Furedi
Os alarmes começaram a tocar alguns anos atrás. Eu estava mostrando a um amigo
o campus em que leciono quando topamos com um grupo de universitários absortos,
num bar, assistindo aos "Teletubbies".
Normalmente, a visão de um grupo de estudantes de 18 a 21 anos curtindo um
programa feito para crianças que ainda estão aprendendo a andar não teria tido
grande impacto sobre minha imaginação.
Mas nem todos os jovens de
20 anos curtem "Teletubbies"
- na realidade, muitos dos estudantes de hoje parecem preferir os personagens
favoritos das crianças de idade pré-escolar um pouco mais avançada, "The Tweenies". No entanto, quando
reclamo do fascínio manifestado por jovens adultos pela televisão feita para a
primeira infância, John Russell, 28 anos, me olha como se eu fosse um caso
perdido. Advogado bem pago, John diz que não se interessa em fazer "coisas
de adulto". Ele adora seu PlayStation
e gasta uma parte considerável de sua renda com brinquedos de alta tecnologia.
Fred Simons e Oliver Bailer,
ambos corretores de imóveis no final da casa dos 20 anos, jogam Nintendo e se gabam de não ter mudado
muito desde a época do colégio. A designer
de 27 anos Helen Timerman me mostra sua coleção de brinquedos de pelúcia com
muito orgulho. Ela adora abraçá-los e acha que seus bichinhos, dispostos
ordenadamente em seu quarto, lhe proporcionam uma zona de segurança.
Londres virou um ímã que
atrai jovens, homens e mulheres, decididos a reviver sua infância. Todo final
de semana, milhares de jovens de 20 e poucos anos vestem seus uniformes
escolares e vão se divertir como clubbers
na School Disco. Pessoas de todas as
profissões e áreas -médicos, programadores de computadores, cabeleireiras,
advogados- aderem a essa nostalgia com entusiasmo.
Os rapazes de camisa branca
e blazer e as moças usando saias "escolares" curtas se divertem,
fazendo de conta que são adolescentes malcomportados trocando amassos na pista
de dança.
Em Nova York, pessoas na
casa dos 20 e dos 30 anos consomem produtos que lembram sua infância. Na
esquina da Bleecker com West 11th, elas fazem fila, pacientes,
diante da padaria Magnolia para
conseguir sua dose diária de bolinhos amarelos com glacê de chocolate e
confeitos coloridos. No Dylan's Candy Bar,
pessoas de 20 e poucos anos se aglomeram em volta dos recipientes de balas Pez
e de uma enorme árvore de pirulitos.
Para descrever a tendência,
dois publicitários americanos, Becky Ebenkamp e Jeff Odiorne, cunharam o termo
"Peterpandemônio". "Pessoas na casa dos 20 e dos 30 anos buscam
produtos que lhes dêem a sensação de serem reconfortadas. Elas querem
experiências sensórias que lhes tragam de volta uma fase da vida mais inocente
e mais feliz: a infância", observam.
Nostalgia "cool"
Houve época em que a
nostalgia era prerrogativa de avós, evocando memórias da Segunda Guerra ou dos
anos 1950. Hoje ela é promovida como algo "cool" a ser curtido por pessoas que mal deixaram a fase "teen". Cada vez mais, os "bons
velhos tempos" são associados aos anos 1980 ou até mesmo aos 1990. O
sucesso do seriado da BBC "I Love
the 1970s/1980s/1990s" (culminando com "I Love 1999", exibido no verão de 2001) indica que os jovens
andam se tornando nostálgicos cada vez mais cedo. Essa preocupação em reviver a
época em que se estava na escola é o que transformou o site britânico "Friends Reunited" em sucesso
absoluto. Quase 9 milhões de professores e ex-alunos de escolas já se
matricularam no "Friends Reunited"
para embarcar numa viagem pela estrada da memória.
Atender à demanda da
enxurrada de peter pans virou grande
negócio. O site da artista Minx Kelly possui uma página de "segunda
infância", "na qual os adultos podem ser como crianças sem se
infantilizar". "Quem foi que disse que não podemos brincar com
brinquedos depois de adultos?", pergunta a página. Suas "bonecas Barbie únicas" e "bonecas de
papel nostálgicas" são voltadas a "kidults" [algo como "criançadultos"]
que tomaram a "decisão consciente" de deixar que "sua criança
interior consiga o que quer".
Vale observar o sucesso
atual da marca Purple Ronnie, que
inclui cartões, óculos, chaveiros e livros de poesia. A Purple Ronnie transformou em forma de arte os cartuns bonitinhos e
frases como "bottom burp"
(algo como "arroto de bumbum"). Inspirado no romantismo dessa poesia
de humor de banheiro, os objetos que cercam o Valentine's Day (Dia dos Namorados) passaram de água-com-açúcar a
infantilizados. De acordo com o grupo britânico de pesquisas de mercado Mintel,
em 2002, 43% dos jovens de 20 a 24 anos citaram como uma de suas escolhas
favoritas de presente para dar ou receber no Dia dos Namorados um bichinho de
pelúcia.
Quem precisa dos "Teletubbies" quando ainda é
possível brincar com os brinquedos que se tinha quando criança? A indústria de
brinquedos norte-americana descobriu que os adultos jovens constituem um
mercado enorme. Movidas a saudosismo, as vendas de brinquedos antigos, como o Homem de Seis Milhões de Dólares e
bonecos de "Jornada nas Estrelas"
e "Guerra nas Estrelas",
estão em franco crescimento. Também existem novas linhas de brinquedo voltadas
ao mercado adulto. A Playmate Toys
hoje dirige suas promoções aos adultos, tendo percebido que os consumidores
potenciais de seus bonecos Simpsons
não são apenas as crianças, mas também adultos na faixa dos 18 aos 35 anos.
A nostalgia retrô não é um
fenômeno apenas anglo-americano. A Hello
Kitty, uma gatinha branca cuja marca registrada é uma flor ou um laço
vermelho, tem popularidade tremenda entre os adultos japoneses. Profissionais e
funcionárias de escritório levam material de escritório Hello Kitty para o trabalho. Depois do expediente, quando lotam os
bares, conversam com seus amigos em celulares Hello Kitty e oferecem cigarros de seus estojos Hello Kitty a empresários que usam
gravatas do Snoopy.
Após o incrível sucesso dos
livros de J.K. Rowling sobre Harry Potter
entre o público adulto, a editora Bloomsbury,
que publica os livros de Rowling, lançou uma edição dos livros ostentando capas
"adultas" (não que isso tenha impedido profissionais da City de
abertamente ler as edições para crianças, mais baratas, no metrô londrino). O revival subsequente de "O Senhor dos Anéis", de J.R.R.
Tolkien, se deveu em grande medida ao fato de a obra ter sido redescoberta por
leitores adultos.
A manifestação provavelmente
mais significativa dessa cultura infantil que atinge o público adulto pode ser
vista na mídia. As cifras de audiência atestam a popularidade da rede Cartoon entre telespectadores de 18 a 34
anos de idade. Dois dos maiores sucessos de Hollywood em 2001 foram "Shrek" e "Monstros S.A.". Como "Toy
Story" e "A Fuga das
Galinhas" antes delas, essas produções animadas fazem sucesso com um público
embaraçosamente adulto.
A celebração da imaturidade
é reafirmada constantemente pela mídia. Atores de meia-idade vivem à procura de
papéis que lhes permitam manifestar seu lado juvenil. John Travolta quase se
esborrachou para ser um doce-de-coco em "Olhe Quem Está Falando", e Robin Williams mostrou ser adorável
no papel de Peter Pan em "Hook".
Tom Hanks é sempre bonitinho - uma criança presa dentro do corpo de um adulto
em "Quero Ser Grande" e,
depois, como "Forrest Gump",
o menino-homem que personifica a nova virtude do infantilismo psicológico.
Peter Pan, o garoto que não queria crescer, teria poucas razões para fugir de
casa se vivesse em Londres, Nova York ou Tóquio hoje.
A ausência de uma palavra prontamente
reconhecida para descrever esses adultos infantilizados demonstra o mal-estar
com que esse fenômeno é saudado. Para descrever esse segmento do mercado,
publicitários e fabricantes de brinquedos cunharam o termo "kidult" ("criançadulto"). Outro termo às vezes usado para descrever
essas pessoas na faixa dos 20 aos 35 anos é "adultescente", normalmente definido como alguém que se nega a
se assentar e a assumir compromissos na vida, uma pessoa que preferiria chegar
à meia-idade ainda fazendo farra.
É importante não confundir adultescentes com as pessoas descritas
como estando na "meia juventude". Estas se encontram uma geração à
frente dos adultescentes. São pessoas
de 35 a 45 anos que se vêem como estando na vanguarda da cultura jovem; elas
passam por uma fase conhecida como "mediascência"
("middlescence"), um estado
de espírito que resiste ferozmente a tudo o que costuma acompanhar a chegada da
meia-idade.
Uma razão pela qual palavras
como kidult e adultescente não entraram na linguagem do dia-a-dia é que a
sociedade não sabe como lidar com a gradativa erosão da linha divisória entre
infância e idade adulta. A sociedade já aceitou a idéia de que as pessoas só se
tornam adultas quando estão no final da casa dos 30 anos. Em consequência, a
adolescência foi estendida para a casa dos 20 anos. É interessante observar que
a Sociedade de Medicina Adolescente, uma organização médica americana, afirma
em seu site que cuida de pessoas "dos 10 aos 26 anos de idade". Há
pouco tempo a Fundação MacArthur financiou um grande projeto de pesquisa
intitulado "Transições para a Idade Adulta", que situa o final dessa
transição nos 34 anos.
Mas será que tem importância
o fato de estarmos pouco a pouco perdendo de vista o que distingue os adultos
das crianças? Afinal, sempre existiram homens e mulheres tristes que sentiam
grande prazer em coisas infantis. E o desejo de permanecer jovem tampouco
constitui algo especialmente recente. Ao longo da história, as pessoas sempre
procuraram incansavelmente pelo segredo da juventude e sempre tentaram
desacelerar o inexorável processo de envelhecimento.
Pais intrometidos
A infantilização da
sociedade contemporânea é movida por paixões que são específicas de nosso
tempo. O desejo compreensível de não ter aparência de velho(a) cedeu espaço à
busca consciente da imaturidade. No passado, as pessoas queriam parecer jovens
e atraentes, mas não necessariamente comportar-se como crianças. A obsessão
atual por coisas infantis pode parecer um detalhe trivial, mas a saudade
onipresente da infância entre os adultos jovens é sintomática de uma
insegurança profunda em relação ao futuro. A hesitação em aderir à condição
adulta reflete uma aspiração reduzida à independência, ao compromisso e à
experimentação.
Nos últimos cinco a dez
anos, pais e mães intrometidos viraram elemento constante na vida dos campi. Nos dias e eventos em que as
universidades ficam abertas ao público, os pais muitas vezes falam mais alto do
que os filhos. Não faz muito tempo, muitos estudantes britânicos teriam sentido
vergonha se fossem vistos na companhia dos pais. A universidade oferecia uma
oportunidade para o jovem libertar-se do controle dos pais. Era comum
estudantes saírem de casa para morar sozinhos ou com amigos, e alguns raramente
visitavam seus pais, mesmo durante a Semana Santa ou as férias de verão.
Hoje em dia essa aspiração
de independência tomou um rumo decididamente pragmático. Muitos estudantes se
mostram felizes em voltar à relação de dependência que caracterizava sua fase
escolar. Longe de ressentir-se do envolvimento dos pais em sua vida no campus, os universitários a aceitam como
algo natural.
Uma parcela crescente de
estudantes universitários também está optando por viver com seus pais. No Reino
Unido, em 1994, a parcela dos calouros universitários que estudavam em tempo
integral e que se sabia que viviam na casa dos pais ou responsáveis era de
14,5%. Em 1999, essa parcela subira para 20,1%. O serviço de admissão à
universidade britânico, Ucas, informa que o número de candidatos à universidade
e a faculdades que querem viver na casa dos pais enquanto estudam está
crescendo.
Essa tendência frequentemente
é explicada como sendo consequência das dificuldades econômicas vividas pelos
estudantes. No entanto, embora muitos estudantes de fato optem por viver em casa
por esse motivo, o fator econômico não explica tudo. Segundo o executivo-chefe
do Ucas, Tony Higgins, muitos estudantes "gostam da estar cercados pela
segurança de sua casa, sua família e seus amigos quando começam na
faculdade".
De volta ao ninho
A edição de 2002 da "Social Trends" [Tendências Sociais] constatou que quase
um terço dos homens entre 20 e 35 anos ainda vive com os pais, contra apenas um
em cada quatro em 1977-78. Outras pesquisas indicam que o número de homens de
30 a 34 anos que ainda vivem com os pais aumentou em 20% nos últimos cinco
anos.
Em seu livro "The Nesting Syndrome" [A Síndrome do Aninhamento], Valerie
Weiner descreve essas crianças adultas como "nesters" (pessoas que
permanecem no ninho). No Japão, são conhecidas como "solteiros parasitas", e nos EUA são descritas por diversos
nomes: "boomerang kids"
(filhos-bumerangue), adultos co-residentes ou "returnees" (retornados).
Em julho de
2001 um estudo encomendado pela Abbey
National confirmou a descoberta e indicou que a proporção de adultos jovens
que retornam para a casa dos pais depois de uma fase inicial longe dela quase
dobrou, de 25%, em 1950, para 46%, hoje. Uma pesquisa encomendada pela BTopenworld em 2002 concluiu que 27% dos
jovens que deixam a casa dos pais pela primeira vez voltam pelo menos uma vez e
que "um em cada dez jovens recém-independentes volta a viver na casa dos
pais até quatro vezes até saírem de casa de maneira definitiva".
O número
cada vez maior de adultos que continuam a viver com os pais faz parte de um
fenômeno internacional mais amplo. No Japão, 70% das solteiras de 30 a 35 anos
que trabalham vivem com seus pais. O número de filhos adultos que residem com
os pais nos EUA vem subindo constantemente desde a década de 1970. Hoje, 18
milhões de jovens na faixa dos 20 aos 34 anos vivem com os pais. O número
representa 38% dos adultos solteiros jovens. Hoje em dia, é muito menor a
chance dos pais de meia-idade de ver seus ninhos ficando vazios. E hoje até
existe toda uma literatura de autoajuda para os desorientados pais de filhos
retornados.
A
explicação mais comum aventada para justificar a ascensão da geração-bumerangue
é a econômica. Com frequência se sugere que muitos adultos jovens simplesmente
não têm condições econômicas de viver sozinhos ou que acham difícil tentar
viver uma vida de conforto.
Mas será
que a insegurança econômica é a responsável de fato pelo surgimento desse
fenômeno internacional notável? No Japão, onde a tendência é mais desenvolvida,
frequentemente se comenta a riqueza relativa dos jovens solteiros de 20 a 34
anos que ainda vivem na casa dos pais. É fato largamente reconhecido que o boom
recente na venda de produtos de luxo vem sendo movido pelo consumo conspícuo
dos solteiros parasitas, muitos dos quais vivem com os pais.
Nos Estados
Unidos, as empresas têm como alvo justamente o mercado dos filhos-bumerangue,
já que esses consumidores são vistos como possuindo uma renda disponível muito
alta. A insegurança econômica pode ajudar a explicar por que alguns filhos
crescidos ainda vivem com seus pais, mas não ajuda muito a lançar luz sobre o
processo como um todo.
Expectativa
do fracasso
Tradicionalmente,
os jovens, homens e mulheres, saíam de casa não porque existia a probabilidade
de a vida não custar tão caro, mas em razão da decisão de se assumir de forma
independente. Para muitos deles, o desconforto relativo da pobreza a curto
prazo era um preço que valia a pena pagar em troca da promessa de liberdade
oferecida pela vida independente. Não é tanto uma exigência financeira quanto a
dificuldade que os jovens têm de conduzir seus relacionamentos que ajuda a
explicar o porquê de alguns deles estarem optando por morar com mamãe e papai.
Nas últimas
décadas, os relacionamentos íntimos entre pessoas parecem estar se tornando
mais complicados. A expectativa do fracasso e da instabilidade cerca a
instituição do casamento e até mesmo da coabitação. Hoje é comum as pessoas
abordarem seus relacionamentos íntimos com um sentido ampliado de risco
emocional.
Uma
estratégia para lidar com os riscos emocionais é distanciar-se da fonte
potencial de decepção.
A
reinterpretação do envolvimento pessoal como risco representa um aviso para
qualquer pessoa que seja tola o suficiente para desejar um engajamento
apaixonado. A equação do amor com risco é alimentada por uma tendência a nos
acomodarmos com os problemas vividos pelos adultos em seus relacionamentos.
Em
contraste com a insegurança que cerca os relacionamentos adultos, a segurança
do lar dos pais pode parecer atraente. Nessas circunstâncias, o desejo de
autonomia dos jovens adultos pode se reduzir.
Os adultos
que continuam a morar com os pais não são o único setor da sociedade a se
sentir desorientado pelos problemas vinculados à conduta das relações adultas.
Muitos adultos jovens que conseguem mudar-se da casa dos pais acabam formando
um grupo rapidamente crescente de solteiros. Ser solteiro virou modo de vida
para milhões de homens e mulheres na casa dos 20 e 30 anos.
A ascensão
dos solteiros parece constituir um fenômeno global, exercendo impacto sobre as
sociedades industriais em todo o mundo. Em 1950, cerca de 3% da população da
Europa e da América do Norte vivia sozinha. Desde então, virtualmente todos os
países industrializados assistiram à ascensão maciça do número de pessoas que
vivem sós. Sete milhões de adultos vivem sozinhos no Reino Unido, número três
vezes maior do que o de 40 anos atrás. A edição de 2002 da "Social Trends" estima que, até
2020, os lares habitados por uma só pessoa vão constituir 40% do total.
Nos Estados
Unidos, os solteiros formam o grupo demográfico que cresce mais rapidamente. A
proporção de lares com uma só pessoa aumentou em 9% entre 1970 e 2000. Na
França, o número de pessoas que vivem sozinhas mais do que dobrou desde 1968.
Cerca de 40% dos suecos vivem sozinhos. A tendência a viver sozinho é
especialmente pronunciada nos grandes centros urbanos ocidentais. Mais de 50%
de todos os lares em Munique, Frankfurt e Paris contêm apenas uma pessoa. Em
Londres, quase quatro em cada dez pessoas vivem sozinhas.
Nova
estirpe
Cultivar a
nostalgia da melhor fase de nossa vida é uma estratégia implementada
implacavelmente pelo cinema e a televisão.
A
celebração da adolescência forma contraste marcante com a maneira como são
representados os adultos. Nos últimos anos a televisão introduziu uma nova
"estirpe" de adultos imaturos e desfuncionais, que precisam receber
ajuda e conselhos de adolescentes. No seriado norte-americano cult "Dawson's Creek", são os
adolescentes sérios e sábios que dão rumo à vida dos adultos imaturos. A
comédia britânica "Absolutely
Fabulous" oferece um contraste bem-humorado entre a mãe juvenil e
libertina e sua filha séria, amadurecida antes do tempo. As "Teachers", do Channel 4, se
alternam continuamente entre personas adultas e juvenis e mais do que se
equiparam a seus alunos em termos de imaturidade.
O seriado
americano "The Drew Carey Show"
mostra o cotidiano de quatro amigos adultos imaturos que não têm idéia de como
amadurecer. "Buffy, the Vampire
Slayer" traz os adultos como figuras repressoras, amalucadas ou
adolescentes crescidos. Muitos dos seriados cômicos de maior sucesso - "Frasier", "Friends", "Ellen" - trazem homens e mulheres
adultos que vivem uma vida de adolescência prolongada. No Reino Unido, a
comédia "Men Behaving Badly"
fez sucesso pelo retrato implacável que faz de homens adultos e imaturos.
A patologia
da condição adulta foi retratada de maneira marcante nas vidas de Jerry,
George, Elaine e Kramer em "Seinfeld".
Desorientação, falta de significado e estagnação são algumas das
características que definem a condição adulta nesse programa. Os personagens se
compraziam com seus comportamentos infantis e se esforçavam o tempo todo para
evitar qualquer uma das obrigações convencionalmente associadas à idade adulta.
Com "Seinfeld", a rejeição
da condição adulta é absoluta - ela simplesmente não possui características que
a redimam.
O senso de
desespero que cerca a identidade adulta ajuda a explicar por que a cultura contemporânea
tem dificuldade em traçar uma linha divisória entre a infância e a idade
adulta. A infantilidade é idealizada pela simples razão de que sentimos
desesperança ao pensarmos em viver a alternativa. A depreciação da condição
adulta é resultado da dificuldade que nossa cultura tem em afirmar os ideais
normalmente associados a essa etapa na vida das pessoas.
Maturidade,
responsabilidade e compromisso são afirmados debilmente pela cultura
contemporânea. Tais ideais contradizem o senso de impermanência que prevalece
no cotidiano. É o esvaziamento gradativo da identidade adulta que desencoraja
os jovens, homens e mulheres, a aderir com afinco à próxima etapa de suas
vidas.
Frank Furedi é
professor de sociologia na Universidade de Kent, em Canterbury (Reino Unido). Texto
publicado no caderno Mais!,
da Folha de São Paulo, 25/07/2004. Tradução de Clara Allain.












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