"A lição que os pais devem tirar do filme é olhar
os filhos nos olhos e conversar diretamente." - Larry Clark
O HIV, vírus causador da AIDS, chegou sorrateiramente e, em pouco tempo, já causava um baita estrago, matando amigos, parentes, conhecidos, amantes, ídolos e pessoas queridas.
Nas artes, as primeiras reações à doença vieram do teatro da América do Norte: do Canadá, veio Unidentified Human Remains and the True Nature of Love, de Brad Fraser, em 1989, e, dos EUA, Angels in America: A Gay Fantasia on National Themes, peça em duas partes de Tony Kushner, em 1991 e 1992.
Em 1993, a peça de Fraser foi parar no cinema em Amor e Restos Humanos (Love and Human Remains), filme de Denys Arcand. Angels in America viraria série de TV em 2003, produzida e exibida pela HBO, com direção de Mike Nichols e um elenco que tinha Meryl Streep, Emma Thompson e Al Pacino.
Fraser fez uma analogia entre o vírus e um serial killer, enquanto Kushner usou anjos e fantasmas, presentes nas alucinações dos portadores do vírus HIV, para falar do conservadorismo do governo de Ronald Reagan, presidente dos EUA entre 1981 e 1989. Apoiado por uma base eleitoral de cristãos fundamentalistas que considerava a epidemia de AIDS uma "peste gay", uma punição divina aos praticantes de sodomia, Reagan, por razões morais, ideológicas e políticas, teria se omitido e demorado para reagir à epidemia.
Se Fraser e Kushner usaram analogias e metáforas para falar da doença no universo adulto gay, dois filmes posteriores mostram a doença se manifestando entre adolescentes e jovens heterossexuais de maneira mais realista: Kids (1995), de Larry Clark, e Trainspotting: Sem Limites (Trainspotting, 1996), de Danny Boyle. Em ambos a ignorância e a indiferença da moçada em relação à transmissão do vírus são fatais.
Baseado em livro de Irvine Welsh (1993), Trainspotting se passa no fim da década de 1980, em Edimburgo, capital da Escócia. No filme de Boyle, um grupo de jovens, recém-saídos da adolescência, espantam o tédio injetando heroína coletivamente. As consequências são a morte de um bebê por negligência, furtos no comércio que acabam em prisão e programas de reabilitação, overdoses, terríveis períodos de abstinência e morte por toxoplasmose do único jovem do grupo infectado por HIV.
Em Kids, filme de Larry Clark, os jovens são adolescentes de Nova York cujo cotidiano se resume a andar de skate, consumir drogas e praticar sexo. Entre 1963 e 1971, Clark, que também é fotógrafo, havia registrado cenas explícitas da cultura teen e das drogas no Oklahoma. As fotos foram publicadas no livro Tulsa, que o crítico Vince Aletti considerou “o olhar mais brutal do período".
Segundo Clark, em entrevista para Amy Taubin, do Village Voice, a ideia de fazer Kids apareceu no verão de 1992, quando fotografava skatistas no Washington Square Park: “Aquele verão ficou para mim como o verão das camisinhas. Quando eu ia ao parque, havia gente distribuindo camisinhas, e a moçada vivia falando em sexo seguro e camisinhas, e eu acreditei, eles me convenceram. Mas, depois de uns seis meses, eles já tinham me aceito como um deles, se abriram completamente, e eu descobri que ninguém usava camisinha. Para eles, sexo seguro é transar com uma virgem. Então pensei, bem, eu sempre quis fazer o grande filme sobre adolescentes americanos. Por que não fazer sobre o que está rolando hoje?”
Os jovens de Kids nunca haviam atuado diante de uma câmera, o que deu ao filme um quê de documentário. "Eu quis que meu primeiro filme fosse como o meu primeiro livro - uma narrativa direta, filmada em estilo documental. Eu conhecia muito bem o elenco, e eles confiavam em mim, então conseguiram relaxar e seguiram o roteiro", diz Clark.
O roteiro foi escrito por Harmony Korine, que conheceu Larry Clark durante suas sessões fotográficas. Korine, um ex-skatista, contou a Clark que havia escrito um roteiro sobre um garoto de 13 anos que é levado pelo pai para transar com uma prostituta. Clark perguntou se ele escreveria um roteiro sobre adolescentes que tivesse algo a ver com o HIV. Adolescentes que fazem sexo sem usar camisinha, para quem sexo seguro é fazer sexo com virgens. Korine, que hoje também é diretor, escreveu o roteiro em vinte dias. Clark não modificou nada, o roteiro é o que foi para a tela.
O tratamento realista da rotina
da garotada e a atuação de um elenco que esbanja espontaneidade e desenvoltura fazem de Kids o retrato duro, franco e sem rodeios de uma época recente em que a inocência é perdida sem qualquer resquício de romantismo. Recém-saídos da infância, meninos e meninas se entregam ao consumo de drogas e ao sexo sem proteção, o que, em meio à pandemia de AIDS, uma doença que ainda não tem cura e que assolava os EUA, só poderia ter consequências desastrosas.
“Quando as pessoas me perguntam que lição devem tirar do filme, eu digo que elas devem tentar olhar seus filhos nos olhos e conversar com eles diretamente. Eu sou pai, mas sei que os pais não têm a menor ideia do que acontece com seus filhos. Eles se esquecem de como era a vida quando eles mesmos eram adolescentes", reflete Clark.
Na época do lançamento do filme, em sua edição de 1/10/1995, a Folha de S. Paulo dedicou duas páginas inteiras a ele. Aqui vão quatro resenhas selecionadas a partir do que foi publicado. O texto de Laymert Garcia dos Santos é um trecho do que foi publicado. Para ler na íntegra, é só acessar https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/10/01/mais!/4.html.
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Os novos inocentes
Laymert Garcia dos Santos - Especial para a Folha de S. Paulo
Kids torna-se um filme decisivo sobre a AIDS quando (o diretor Larry) Clark tenta fazer os os adolescentes sentirem que, à perda da pureza e da inocência sexual, pode mesclar-se a perda da própria vida. Clark quer tirar deles, com a inocência sexual, a inocência quanto à sociedade e ao mundo em que vivem. Mas, simultaneamente, o diretor nos permite entender porque fracassam todas as campanhas contra a AIDS, em todos os lugares: concebidas por adultos que habitam outra galáxia, sua linguagem nem é sintonizada pelos jovens.
A AIDS, porém, é apenas o ponto de desencontro mais dramático. Voltados para suas tribos, há muito os jovens perderam o contato com as gerações que os precederam, sem que, no entanto, possam ser responsabilizados por seu isolamento. Nesse sentido, o grande escândalo de Kids não é o comportamento da meninada, mas sim o descomparecimento dos adultos, a falência de laços familiares afetivos, a monstruosa irresponsabilidade da sociedade que os põe no mundo e lava as mãos - aliás, laconicamente assinalada nas imagens da garotinha que passa os dias com sua boneca negra, na porta de casa.
O objetivo primeiro de Clark não é, evidentemente, criticar a sociedade; seu filme, porém, comporta uma das mais perturbadoras análises societais que o cinema já realizou, e só a hipocrisia espalhafatosa e bem-orquestrada dos bem-pensantes poderá encobrir a grande ferida que ficou exposta.
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‘Carpe diem' estragado

Noelly Russo Editora do FolhaTeen
Transar, usar drogas, procurar, de vez em quando, um trabalho e ficar por aí. O que é a vida afinal? Para os adolescentes de Kids, nada além disso.
Essa geração, que representa parte da juventude dos anos 90, é uma versão “estragada" do lema “viva rápido e morra jovem".
Aproveitar a vida ao máximo, fazer tudo o que se tinha direito, enquanto ainda havia juventude era um objetivo para quem viveu os anos 50 de James Dean. O que contava não era o quanto se vivia, mas o quão intensamente. O quanto se podia tirar proveito e diversão na juventude. O quanto era possível transgredir.
Os “kids" não querem aproveitar nada. Nem se divertir. Como os rebeldes que viviam há 40 anos, eles também não seguem a ordem estudar- trabalhar - casar- ter filhos - se aposentar e morrer.
A diferença é que não a recusam. Não têm objetivo algum com sua negação. Não querem mudar nada. Não têm a menor intenção de romper com o establishment. Não transam por amor. Não usam drogas para fugir da realidade ou criar uma nova. Não têm trabalho e recusam a escola.
O fato é que não se importam com nada. E nem isso é uma ideologia para eles. Os meninos e meninas estão lá - então, por que não transar? As drogas também estão disponíveis. Por que não usar?
Poderia até ser possível pensar que eles adotam o mote carpe diem - querem viver intensamente cada momento. Isso seria verdade se esses adolescentes tivessem alguma preocupação em tirar proveito de sua própria existência. Transformar cada segundo em uma experiência intensa e enriquecedora. Mas também não querem nada disso. Apenas estão lá.
A exposição deste grande vazio, que não tem qualquer matiz existencialista, é um dos maiores méritos do filme. Kids chega perto de ser um documentário sobre o que parte da juventude hoje espera do mundo: quase nada.
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A estética da decadência hype
Erika Palomino Colunista da Folha
Kids é um filme sobre gente que não tem nada pra fazer. Gente que vive um dia depois do outro, sem expectativas ou perspectivas. Gente perdida.
Não se trata de ócio ou preguiça, mas um far-niente cotidiano, sem estresse, quase leve. Esses kids são bon vivants. “No problem" - parecem dizer o tempo todo.
A desocupação impera. Apenas a mãe de Telly menciona a possibilidade de um emprego. A quem ele sistematicamente enrola, claro.
As principais atividades são: andar de skate na praça, trepar, repercutir essas trepadas com os amigos e as amigas, tomar drogas de tipos variados, beber, arranjar o que comer quando bate a fome, arranjar o que beber quando bate a sede (o que, nos dois casos, pode significar pequenos furtos), arrumar drogas de tipos variados e, finalmente, combinar o que fazer à noite. O que, nesse caso, pode significar fazer tudo isso anteriormente citado.
Assim, como personagens de um Tio Vânia urbano e muuuito moderno, os kids de Larry Clark se mexem em meio ao nada. Como o sexo que fazem - sem envolvimento, com um tesão de falas decoradas. Telly chega a repetir o mesmo texto com duas das garotas virgens que convence a transar.
Da mesma forma como o dia a dia, transar é corriqueiro e mecânico. Não tem prazer, só os gestos básicos aprendidos pelos adolescentes nos filmes de sacanagem.
“Get high", entretanto, é um objetivo fundamental. “Ficar alto", alterado ou lesado; drogado, bêbado, louco.
Assim, vão à casa de um ou outro amigo ou conhecido apenas porque fulano pode ter “alguma coisa". Ou quem sabe alguma comida. “Ele tem um microondas", diz Casper, sobre um “brô" que mora com um casal de gays - estes sim, responsáveis por pagar as contas e o aluguel.
Tomemos essa sequência. Lá eles cheiram um tipo de gás, inalado a partir de um balão, levando ao riso e à idiotia. Passado um pouco o efeito, saem para a rua, furtam um suco e uma fruta, pegam dinheiro da mãe escondido e vão comprar maconha na praça Washington Square.
À noite, finalmente, num apartamento, todos enchem a cara de cerveja e fumam mais maconha, enquanto a protagonista Jenny toma inadvertidamente um ecstasy numa rave. E depois “derrete", coitada, sob os efeitos de pressão baixa e confusão mental que a pílula traz. Amanhã, provavelmente, o dia vai ser igual.
Uma das coisas desconcertantes de Kids é conferir justamente como toda essa história se repete. Não só nesse dia seguinte ou nas estatísticas de AIDS, de não usar camisinha, de consumir droga - tão semelhantes a São Paulo, como já se viu.
É a imagem obtida pela câmera de Larry Clark bem parecida com a imagem dos jovens perdidos daqui. Clark -como disse em entrevista à Folha- é um esteta que mesmo em meio à decadência e ao destrambelhamento desse universo não descuida da beleza. Bem fotografados, seus personagens são 100% fashion, modernos, hype. Boys e girls next-door, como se diz em inglês; garotos da porta ao lado. Que podem existir - e existem - em qualquer parte.
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A face feminina da tragédia
Bia Abramo Da Reportagem Local
Jenny, Ruby, Dorsey. As meninas de Kids são todas, à primeira vista, vítimas passivas. O que causa a sua vitimização, entretanto, é justamente o que as torna maiores, mais dignas, mais empáticas do que a vida mesquinha e violenta mostrada pelo filme.
As meninas ainda preservam traços de amor, amizade, credulidade, responsabilidade, solidariedade, confiança, ingenuidade, curiosidade, frescor. Enfim, traços de humanidade, destinados a ser esmagados, violentados e negados num mundo em que o outro se tornou objeto de consumo.
Em vez de simplesmente se prestarem ao papel de vítimas, as garotas opõem, na verdade, uma certa resistência à desumanização das relações, forçada pelo comportamento dos meninos. São as únicas ainda capazes de sentir, mesmo que isso cause dor e raiva.
Apesar do sexo ser fácil, no sentido da frequência e disponibilidade, está longe de constituir uma língua franca entre homens e mulheres. Em um certo sentido, a sexualidade, mesmo que revestida por uma aparência de liberação, está na raiz da oposição entre os meninos e as meninas.
Para os garotos, a sexualidade é puro exercício de narcisismo e negação do outro. Telly deseja as virgens pela ilusão de objeto novo, seguro, sem marcas, como se fosse uma mercadoria bem-embalada e dentro do prazo de validade da loja de conveniência. Casper, por sua vez, é capaz de transar com uma garota dopada e inerte, porque sexo não significa a possibilidade de uma relação e sim um ato que se pratica de forma mais isolada e individual possível.
A sequência mais notável do filme mostra uma conversa simultânea sobre sexo. Meninas de um lado, meninos de outro.
Elas trocam ideias sobre as suas experiências, preferências e desejos. Os olhos brilham, os sorrisos rememoram o prazer experimentado. A certa altura, uma menina diz: "Sexo é bom". Para as garotas, ainda há fruição de um prazer e não há vergonha nem diminuição em declarar que o prazer está relacionado ao outro.
Quando Jenny descobre estar contaminada pelo vírus HIV, ela sai em busca de Telly. Ela quer comunicar, compartilhar o fato. Jenny não quer vingança. O fato da sua contaminação também pertence a Telly. Assim como a fruição do prazer, o sentimento da morte também é uma construção só possível entre seres humanos.
Por isso, a face da tragédia só pode ser feminina em Kids. Destituídos de humanidade, por fastio ou por uma desvalorização cultural sistemática, os meninos se mantêm sem consciência - e, de certa forma, ao abrigo - da tragédia. Mesmo que venham a sofrer suas consequências - e vão, porque Telly é soropositivo -, a tragédia não vai atingi-los.
Jenny paga o preço alto do sofrimento não por transar sem camisinha, mas por ainda ser sensível à vida, ao amor e à morte.
P.S.: Talvez as feministas americanas fossem de maior serventia se, em vez de reivindicar uma artificial igualdade de representação de meninos e meninas em um filme como Kids (como se isso garantisse a igualdade de fato e, mais ainda, como se a igualdade significasse respeito), pudessem enxergar que a diferença, ainda bem, faz diferença.





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