A atriz Maria Antonietta Beluzzi no papel da dona da
tabacaria, em Amarcord, filme nostálgico de Federico Fellini
Quando o assunto é nostalgia, fica difícil
resistir à tentação de citar algumas de suas manifestações nas telas do cinema e da TV.
Na TV, uma série clássica que desperta forte
sentimento nostálgico é The Twilight Zone (Além da Imaginação, no Brasil). Criada
por Rod Serling, durou de 1959 até 1964, com 156 episódios que conquistaram crítica
e público. Serling atuava como apresentador, narrador e produtor executivo, além de ser o redator de mais da metade dos episódios.
A série tinha no elenco jovens atores e atrizes, em
início de carreira, que mais tarde se tornariam conhecidos. Trilhas sonoras
exclusivas e uma fotografia espetacular, em preto-e-branco, criavam o clima de mistério
e fantasia que emoldurava histórias habitadas pelos mais estranhos e singulares
personagens. A série fazia uma mistura dos gêneros fantasia, ficção científica
e terror, em episódios com um final surpresa acompanhado de comentários do tipo
“moral da história”. Três dos mais populares episódios da série, com duração de 25 minutos, exploraram
o tema da nostalgia:
O Santuário
(Sixteen Millimeter Shrine, 1959) – Atriz
idosa e aposentada pela indústria cinematográfica passa os dias,
melancolicamente, na sala de projeção de seu casarão, assistindo a filmes da
época em que era uma estrela, até que algo inesperado acontece.
Recordações Amargas (Walking Distance, 1959) - Em 1959, durante um bucólico passeio, publicitário de Nova York vai parar em sua cidade natal, no ano de
1934, onde encontra seus jovens pais e um garotinho que é ele próprio. O encontro com o passado terá consequências no presente do publicitário.
Parada em Willoughby (Stop at
Willoughby, 1960) - Outro publicitário de Nova York, com os nervos em
frangalhos por causa de problemas profissionais e pessoais, embarca num trem, no inverno de 1960, e vai parar numa
cidadezinha pacífica e ensolarada chamada Willoughby, em 1888 - e decide ficar por lá.
Duas outras séries de TV altamente
recomendáveis:
Anos Incríveis (The Wonder Years,
1988-1993) - Se passa entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970, e mostra a
passagem da infância para a adolescência de um garoto que mora com o pai, a
mãe, a irmã e o irmão num subúrbio de classe média norte-americano.
Todo Mundo Odeia o Chris (Everybody
Hates Chris, 2005-2009) - Baseada nas memórias do comediante Chris Rock, a
série narra o cotidiano de uma família (mãe, pai, filha e dois filhos) que, na
década de 1980, se muda de um conjunto habitacional para o Brooklyn, em Nova
Iorque
No cinema, a nostalgia gerou várias joias:
Houve Uma Vez Um Verão (Summer of ’42,
1971), de Robert Mulligan - Filme baseado nas memórias do roteirista Herman
Raucher. Em 1942, durante as férias de verão na ilha de Nantucket, em Cape Cod,
adolescente se apaixona por uma jovem cujo marido foi lutar na 2ª Guerra
Mundial. Assim como o filme, a trilha sonora de Michel Legrand fez muito sucesso.
Amarcord
(1973), de Federico Fellini - Recordações de um adolescente, alter ego do diretor, numa cidadezinha da Itália fascista da década de 1930. O título do
filme significa “Eu me recordo”. Um clássico.
Conta Comigo (Stand by Me, 1986), de Rob
Reiner, que se baseou no conto The Body
para recriar passagens da infância do escritor Stephen King. O filme é
considerado por King a melhor adaptação de um texto seu.
A Era do Rádio (Radio Days, 1987), de Woody
Allen, que usa transmissões radiofônicas como trilha sonora para episódios de sua
infância, na Nova York dos anos 1930 e 1940. O crítico Roger Ebert considerou
o filme de Allen uma resposta a Amarcord,
de Fellini. Foi uma resposta à altura - ambos são maravilhosos.
Metido em Encrencas (Biloxi Blues, 1988), de
Mike Nichols - Jovem com pretensões literárias é
convocado pelo exército, durante a 2ª Guerra Mundial, e parte para um campo de
treinamento no Mississipi, onde permanece sob o comando de um sargento veterano
linha-dura e meio louco. O filme faz parte de uma trilogia autobiográfica
escrita pelo dramaturgo Neil Simon.
Coração Iluminado (Corazón Iluminado, 1988), de Héctor Babenco - Filme
autobiográfico de Babenco sobre trajetória de um adolescente que mora
com os pais em Buenos Aires e acaba se tornando diretor de cinema em Hollywood.
Desafio no Bronx (A Bronx Tale, 1993), de
Robert De Niro - Baseado na infância e na juventude do dramaturgo (e autor do
roteiro) Chazz Palminteri. Motorista de ônibus descobre que seu filho foi "adotado" por um bando de mafiosos, o que torna bastante tensa a relação entre todos os envolvidos. O diretor De Niro colocou em prática o que
aprendeu trabalhando com Martin Scorsese. E não decepcionou.
Crooklyn: Uma Família de Pernas Pro Ar (Crooklyn, 1994), de Spike Lee - Filme sensível e divertido que Lee escreveu com os irmãos Joie e Cinqué, baseado em acontecimentos da sua infância no Brooklyn, em Nova York. Mostra a rotina da família Carmichael, durante o verão de 1973, quando a vida dos moradores do bairro já começava a ser afetada pelos efeitos da gentrificação. A atriz mirim Zelda Harris rouba a
cena.
Para encerrar, um texto de
Roger Cohen e dois minitextos de Millôr Fernandes abordando o tema da nostalgia.
***
Quando éramos felizes... e sabíamos?
Reflexões e conclusões sobre a mudança dos tempos e nossa relação com o passado
Roger Cohen / The New York Times
Nos bons tempos, antes que cappuccinos, sushi e rúcula se tornassem globais; antes que tudo parecesse a
mesma coisa, nos bons tempos, antes da aventura transformar-se em esporte,
quando o metrô de Paris cheirava a Gauloises
e a alho e os armazéns de Londres e Nova Iorque ainda não haviam se convertido
em lofts; antes dos cintos de
segurança que apitam quando não apertados, quando os clubes de futebol não eram
corporações e espiões realmente vinham do frio; nos bons tempos, antes das
câmeras digitais, do e-mail e das conversas por celulares. Naqueles bons tempos,
lá longe, eu jurei que nunca me transformaria em um rabugento, lírico
saudosista.
Nos bons e velhos tempos,
antes de os aeroportos se transformarem em shopping centers; no tempo do telex,
das máquinas de escrever e dos almoços com três Martínis; épocas das batalhas ideológicas e dos debates acirrados,
quando nem todo mundo virava herói de uma hora para outra, nem vítima, e nem
tudo era stress; nos bons tempos antes dos médicos robôs, do zapear de canais
na televisão e do mundo on-line; nos bons tempos das trilhas hippies, antes da
guerra contra o terror; aqueles tempos, lá longe, quando eu jamais imaginaria
que poderia haver tantos bilionários em Moscou.
Aqueles eram bons tempo,
antes que a compreensão substituísse a punição, que o vôlei de praia se
tornasse um esporte olímpico, antes dos chefs celebridades e da cozinha fusion, antes de a gente poder pedir um
expresso em Edina e uma manga em Milwaukee. Como eram bons os tempos em que uma
refeição tailandesa parecia exótica e o colesterol, uma curiosidade. Eu sei que
aqueles eram bons tempos: o homem descia na Lua, a neve caía por semanas em
Londres, muitos eram os mistérios e os jovens ainda sonhavam com uma humanidade
melhor.
Nos bons tempos, quando as
notícias eram em preto-e-branco, imbuídas na gravidade de um mundo em duas
cores, e Willy Brandt ajoelhou; quando Brando nos fez tremer e Fellini criava
fantasias de amor lírico, Tom Wolfe andava de ônibus e a sobrevivência não era
um programa de TV mas, sim, uma luta existencial; quando era fácil se afastar
de tudo e todos; naqueles tempos, parecia mesmo que as coisas sempre seriam
daquele jeito.
Ah, sim, os bons tempos,
quando as coisas não eram “loucas”, mas estranhas, antes de Jimi morrer, e
Janis e Jim e Jerry e Kurt, e John levar um tiro; antes dos álbuns “O Melhor
de...” e do marketing de tenores, antes dos air
bags; naqueles dias desconexos antes dos Blackberries e do inferno do correio de voz, do
‘por-favor-deixe-uma-mensagem-após-o-bip’, tempo em que o mundo livre lutava
contra o império do mal, antes da aids, do euro e do mundo de Sharon; em tempos
que eram certamente diferentes, não imaginava que a democracia e o mercado
livre seriam tão persuasivos.
Nos bons tempos, quando as
pessoas não tinham descoberto, ou simplesmente não se interessavam em saber,
que há apenas um jeito mais eficiente de resolver um problema; época em que o
Japão estava em ascensão, tempo do todo-poderoso marco alemão, quando a Nova
Zelândia ainda não era conhecida como o cenário de O Senhor dos Anéis, e os caudilhos faziam as vezes dos EUA na
América Latina, e o mundo estava dividido entre delegados da guerra fria;
naqueles bons tempos, em que não entrava na minha cabeça que um louco
“jihadista” poderia um dia explodir Cleveland.
Acredite, aqueles eram bons
tempos, tempos de tratados, de crianças não mimadas, de casamentos que duravam
mesmo sem amor, quando um francês caminhou por um cabo entre as Torres Gêmeas e
um adolescente alemão aterrissou na Praça Vermelha; antes dos personal trainers e Harry Potter, antes do sexo na cidade chegar à televisão, dos
adolescentes começarem a dizer “só” e “tipo” em qualquer frase; quando você
podia fumar em um bar de Nova Iorque, antes do Novo Trabalhismo, para não dizer
da Dinastia Bush e do crescimento da China; no tempo em que Schwarzenegger era
um exterminador, e não governador, antes da World
Wide Web e do crescimento do fundamentalismo religioso, quando eu jamais
pensei sobre os momentos do passado.
Agora, eu penso. E, na
verdade, revendo os bons tempos, passando por suas várias facetas, não tenho
certeza de que eram melhores ou mesmo bons. Afinal, vivemos mais agora; e eu
não mencionei o eBay, o Viagra, a facilidade em se ligar para a
China ou o fato de o comunismo ter sido reduzido a um fetiche ou - por que não?
– às saladas do McDonald’s. Mas, se os velhos tempos eram tão ilusórios, se
lembrar deles não é mais que uma fraqueza de meia-idade, como eles parecem tão
bons? Eu digo por quê. Com exceção de um interlúdio sórdido ou uma passagem
extasiante, as coisas são basicamente as mesmas. Porque esse pensamento é
insuportável, o passado começa a brilhar.
*
2 Nostalgias
Millôr Fernandes
NOSTALGIA 1
Houve um tempo em que havia
um andar de cima e um porão. Houve um tempo em que o som de um amolador
entorpecia a tarde. Havia uma moringa na janela, refrescando a água. Sempre, a
qualquer momento, alguém ainda dormia, nas desencontradas horas da família. Na
tarde estorricante do verão, uma cachorra chamada Teteca levantava a cabeça de
vez em quando, num piso de cimento embaixo da mangueira, na única sombra do
quintal ensolarado, e dava para o alto três lancinantes latidos de protesto.
Acho que para Deus. Acho que havia Deus.
NOSTALGIA 2
Houve
um tempo em que, ao anoitecer, as pessoas sentavam em cadeiras nas calçadas.
Depois botaram as cadeiras na frente da televisão e os automóveis nas calçadas.
O texto de
Roger Chen foi publicado no Caderno2/Cultura, de O Estado de S. Paulo, em 10/10/2004.
Os textos de Millôr foram publicados no mesmo caderno em 19/10/1999.

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