quarta-feira, 15 de maio de 2024

De volta para o passado


A atriz Maria Antonietta Beluzzi no papel da dona da 
tabacaria, em Amarcord, filme nostálgico de Federico Fellini


    Quando o assunto é nostalgia, fica difícil resistir à tentação de citar algumas de suas manifestações nas telas do cinema e da TV. 

Na TV, uma série clássica que desperta forte sentimento nostálgico é The Twilight Zone (Além da Imaginação, no Brasil). Criada por Rod Serling, durou de 1959 até 1964, com 156 episódios que conquistaram crítica e público. Serling atuava como apresentador, narrador e produtor executivo, além de ser o redator de mais da metade dos episódios.

A série tinha no elenco jovens atores e atrizes, em início de carreira, que mais tarde se tornariam conhecidos. Trilhas sonoras exclusivas e uma fotografia espetacular, em preto-e-branco, criavam o clima de mistério e fantasia que emoldurava histórias habitadas pelos mais estranhos e singulares personagens. A série fazia uma mistura dos gêneros fantasia, ficção científica e terror, em episódios com um final surpresa acompanhado de comentários do tipo “moral da história”. Três dos mais populares episódios da série, com duração de 25 minutos, exploraram o tema da nostalgia: 

O Santuário (Sixteen Millimeter Shrine, 1959) – Atriz idosa e aposentada pela indústria cinematográfica passa os dias, melancolicamente, na sala de projeção de seu casarão, assistindo a filmes da época em que era uma estrela, até que algo inesperado acontece.

Recordações Amargas (Walking Distance, 1959)Em 1959, durante um bucólico passeio, publicitário de Nova York vai parar em sua cidade natal, no ano de 1934, onde encontra seus jovens pais e um garotinho que é ele próprio. O encontro com o passado terá consequências no presente do publicitário.

Parada em Willoughby (Stop at Willoughby, 1960) - Outro publicitário de Nova York, com os nervos em frangalhos por causa de problemas profissionais e pessoais, embarca num trem, no inverno de 1960, e vai parar numa cidadezinha pacífica e ensolarada chamada Willoughby, em 1888 - e decide ficar por lá.

Duas outras séries de TV altamente recomendáveis:

Anos Incríveis (The Wonder Years, 1988-1993)Se passa entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970, e mostra a passagem da infância para a adolescência de um garoto que mora com o pai, a mãe, a irmã e o irmão num subúrbio de classe média norte-americano. 

Todo Mundo Odeia o Chris (Everybody Hates Chris, 2005-2009)Baseada nas memórias do comediante Chris Rock, a série narra o cotidiano de uma família (mãe, pai, filha e dois filhos) que, na década de 1980, se muda de um conjunto habitacional para o Brooklyn, em Nova Iorque

No cinema, a nostalgia gerou várias joias:  

Houve Uma Vez Um Verão (Summer of ’42, 1971), de Robert MulliganFilme baseado nas memórias do roteirista Herman Raucher. Em 1942, durante as férias de verão na ilha de Nantucket, em Cape Cod, adolescente se apaixona por uma jovem cujo marido foi lutar na 2ª Guerra Mundial. Assim como o filme, a trilha sonora de Michel Legrand fez muito sucesso.

Amarcord (1973), de Federico FelliniRecordações de um adolescente, alter ego do diretor, numa cidadezinha da Itália fascista da década de 1930. O título do filme significa “Eu me recordo”. Um clássico.

Conta Comigo (Stand by Me, 1986), de Rob Reiner, que se baseou no conto The Body para recriar passagens da infância do escritor Stephen King. O filme é considerado por King a melhor adaptação de um texto seu. 

A Era do Rádio (Radio Days, 1987), de Woody Allen, que usa transmissões radiofônicas como trilha sonora para episódios de sua infância, na Nova York dos anos 1930 e 1940. O crítico Roger Ebert considerou o filme de Allen uma resposta a Amarcord, de Fellini. Foi uma resposta à altura - ambos são maravilhosos.

Metido em Encrencas (Biloxi Blues, 1988), de Mike NicholsJovem com pretensões literárias é convocado pelo exército, durante a 2ª Guerra Mundial, e parte para um campo de treinamento no Mississipi, onde permanece sob o comando de um sargento veterano linha-dura e meio louco. O filme faz parte de uma trilogia autobiográfica escrita pelo dramaturgo Neil Simon. 

Coração Iluminado (Corazón Iluminado, 1988), de Héctor BabencoFilme autobiográfico de Babenco sobre trajetória de um adolescente que mora com os pais em Buenos Aires e acaba se tornando diretor de cinema em Hollywood.

Desafio no Bronx (A Bronx Tale, 1993), de Robert De NiroBaseado na infância e na juventude do dramaturgo (e autor do roteiro) Chazz Palminteri. Motorista de ônibus descobre que seu filho foi "adotado" por um bando de mafiosos, o que torna bastante tensa a relação entre todos os envolvidos. O diretor De Niro colocou em prática o que aprendeu trabalhando com Martin Scorsese. E não decepcionou.

Crooklyn: Uma Família de Pernas Pro Ar (Crooklyn, 1994), de Spike LeeFilme sensível e divertido que Lee escreveu com os irmãos Joie e Cinqué, baseado em acontecimentos da sua infância no Brooklyn, em Nova York. Mostra a rotina da família Carmichael, durante o verão de 1973, quando a vida dos moradores do bairro já começava a ser afetada pelos efeitos da gentrificação. A atriz mirim Zelda Harris rouba a cena.

Para encerrar, um texto de Roger Cohen e dois minitextos de Millôr Fernandes abordando o tema da nostalgia.

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Quando éramos felizes... e sabíamos?

Reflexões e conclusões sobre a mudança dos tempos e nossa relação com o passado

    Roger Cohen / The New York Times

    Nos bons tempos, antes que cappuccinos, sushi e rúcula se tornassem globais; antes que tudo parecesse a mesma coisa, nos bons tempos, antes da aventura transformar-se em esporte, quando o metrô de Paris cheirava a Gauloises e a alho e os armazéns de Londres e Nova Iorque ainda não haviam se convertido em lofts; antes dos cintos de segurança que apitam quando não apertados, quando os clubes de futebol não eram corporações e espiões realmente vinham do frio; nos bons tempos, antes das câmeras digitais, do e-mail e das conversas por celulares. Naqueles bons tempos, lá longe, eu jurei que nunca me transformaria em um rabugento, lírico saudosista.

Nos bons e velhos tempos, antes de os aeroportos se transformarem em shopping centers; no tempo do telex, das máquinas de escrever e dos almoços com três Martínis; épocas das batalhas ideológicas e dos debates acirrados, quando nem todo mundo virava herói de uma hora para outra, nem vítima, e nem tudo era stress; nos bons tempos antes dos médicos robôs, do zapear de canais na televisão e do mundo on-line; nos bons tempos das trilhas hippies, antes da guerra contra o terror; aqueles tempos, lá longe, quando eu jamais imaginaria que poderia haver tantos bilionários em Moscou.

Aqueles eram bons tempo, antes que a compreensão substituísse a punição, que o vôlei de praia se tornasse um esporte olímpico, antes dos chefs celebridades e da cozinha fusion, antes de a gente poder pedir um expresso em Edina e uma manga em Milwaukee. Como eram bons os tempos em que uma refeição tailandesa parecia exótica e o colesterol, uma curiosidade. Eu sei que aqueles eram bons tempos: o homem descia na Lua, a neve caía por semanas em Londres, muitos eram os mistérios e os jovens ainda sonhavam com uma humanidade melhor.

Nos bons tempos, quando as notícias eram em preto-e-branco, imbuídas na gravidade de um mundo em duas cores, e Willy Brandt ajoelhou; quando Brando nos fez tremer e Fellini criava fantasias de amor lírico, Tom Wolfe andava de ônibus e a sobrevivência não era um programa de TV mas, sim, uma luta existencial; quando era fácil se afastar de tudo e todos; naqueles tempos, parecia mesmo que as coisas sempre seriam daquele jeito.

Ah, sim, os bons tempos, quando as coisas não eram “loucas”, mas estranhas, antes de Jimi morrer, e Janis e Jim e Jerry e Kurt, e John levar um tiro; antes dos álbuns “O Melhor de...” e do marketing de tenores, antes dos air bags; naqueles dias desconexos antes dos Blackberries e do inferno do correio de voz, do ‘por-favor-deixe-uma-mensagem-após-o-bip’, tempo em que o mundo livre lutava contra o império do mal, antes da aids, do euro e do mundo de Sharon; em tempos que eram certamente diferentes, não imaginava que a democracia e o mercado livre seriam tão persuasivos.

Nos bons tempos, quando as pessoas não tinham descoberto, ou simplesmente não se interessavam em saber, que há apenas um jeito mais eficiente de resolver um problema; época em que o Japão estava em ascensão, tempo do todo-poderoso marco alemão, quando a Nova Zelândia ainda não era conhecida como o cenário de O Senhor dos Anéis, e os caudilhos faziam as vezes dos EUA na América Latina, e o mundo estava dividido entre delegados da guerra fria; naqueles bons tempos, em que não entrava na minha cabeça que um louco “jihadista” poderia um dia explodir Cleveland.

Acredite, aqueles eram bons tempos, tempos de tratados, de crianças não mimadas, de casamentos que duravam mesmo sem amor, quando um francês caminhou por um cabo entre as Torres Gêmeas e um adolescente alemão aterrissou na Praça Vermelha; antes dos personal trainers e Harry Potter, antes do sexo na cidade chegar à televisão, dos adolescentes começarem a dizer “só” e “tipo” em qualquer frase; quando você podia fumar em um bar de Nova Iorque, antes do Novo Trabalhismo, para não dizer da Dinastia Bush e do crescimento da China; no tempo em que Schwarzenegger era um exterminador, e não governador, antes da World Wide Web e do crescimento do fundamentalismo religioso, quando eu jamais pensei sobre os momentos do passado.

Agora, eu penso. E, na verdade, revendo os bons tempos, passando por suas várias facetas, não tenho certeza de que eram melhores ou mesmo bons. Afinal, vivemos mais agora; e eu não mencionei o eBay, o Viagra, a facilidade em se ligar para a China ou o fato de o comunismo ter sido reduzido a um fetiche ou - por que não? – às saladas do McDonald’s. Mas, se os velhos tempos eram tão ilusórios, se lembrar deles não é mais que uma fraqueza de meia-idade, como eles parecem tão bons? Eu digo por quê. Com exceção de um interlúdio sórdido ou uma passagem extasiante, as coisas são basicamente as mesmas. Porque esse pensamento é insuportável, o passado começa a brilhar.

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2 Nostalgias

Millôr Fernandes 

NOSTALGIA 1
Houve um tempo em que havia um andar de cima e um porão. Houve um tempo em que o som de um amolador entorpecia a tarde. Havia uma moringa na janela, refrescando a água. Sempre, a qualquer momento, alguém ainda dormia, nas desencontradas horas da família. Na tarde estorricante do verão, uma cachorra chamada Teteca levantava a cabeça de vez em quando, num piso de cimento embaixo da mangueira, na única sombra do quintal ensolarado, e dava para o alto três lancinantes latidos de protesto. Acho que para Deus. Acho que havia Deus.

NOSTALGIA 2
Houve um tempo em que, ao anoitecer, as pessoas sentavam em cadeiras nas calçadas. Depois botaram as cadeiras na frente da televisão e os automóveis nas calçadas.

O texto de Roger Chen foi publicado no Caderno2/Cultura, de O Estado de S. Paulo, em 10/10/2004. Os textos de Millôr foram publicados no mesmo caderno em 19/10/1999.

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