sexta-feira, 17 de maio de 2024

Brasil, mostra a tua cara


(Desenho de Angelo Agostini)


    As Scenas da Escravidão desenhadas pelo italiano Angelo Agostini, que morou em São Paulo e no Rio de Janeiro, são registros das atrocidades praticadas pelo brutal regime escravocrata, no Brasil do século 19.

O desenho que reproduz a foto de duas meninas negras, prostradas e desfiguradas, é a síntese da perversidade e da selvageria cometidas contra os africanos escravizados no país. Pensar que elas foram arrancadas à força de suas famílias para serem violentadas na casa dos colonizadores que saquearam sua terra natal provoca tristeza e revolta.

Graficamente impactantes e explícitas, as cenas do abolicionista Agostini remetem às gravuras do espanhol Francisco de Goya, que retratou, décadas antes, episódios da Guerra da Independência, desencadeada pela invasão da Espanha por tropas napoleônicas. É como se os desenhos de Agostini encontrassem o seu duplo na série de mais de 80 gravuras, intitulada Os Desastres da Guerra, que Goya produziu de 1810 a 1815. São obras que registram as crueldades que só um animal como o ser humano pode causar aos seus semelhantes.

Embora o ano de 1888 seja reconhecido oficialmente como a data de abolição da escravatura no Brasil, no século seguinte, ideias de movimentos totalitaristas do exterior circularam pelo país, reflexo da colonização escravocrata. Durante os anos 1920 e 1930, muitos brasileiros deram boas-vindas a teorias de eugenia e pureza racial que reforçavam conceitos de supremacia branca e de branqueamento da população, cuja consequência está presente até hoje na forma de racismo.

O historiador Sydney Aguilar Filho descobriu que, em 1933, sob o falso pretexto de que iriam brincar, estudar e aprender algum ofício, 50 meninos (48 negros ou pardos), de 9 a 12 anos, de um orfanato do Rio de Janeiro, foram levados a uma fazenda do interior de São Paulo, onde acabariam escravizados por nove anos, prestando trabalhos não remunerados à família de um poderoso fazendeiro, simpatizante do nazismo e ligado à Ação Integralista Brasileira, movimento ultraconservador inspirado no fascismo. Privados da liberdade e isolados da comunidade, os garotos permaneciam sob a constante vigilância de capangas e cães de guarda, sendo castigados e submetidos a uma disciplina militar.

“Foi muito dolorido descobrir o que aconteceu com os 50 meninos. Uma escravidão contemporânea respaldada legalmente e socialmente aceita. Encontrar legisladores brasileiros defendendo práticas racistas e segregacionistas foi bem pesado. Continuamos a ser, como há 40, há 200 anos, um país da negação. Não somos racistas, mas somos racistas. Somos um país cheio de gente pacífica, mas muito violento. Temos umas das melhores legislações para proteger as crianças, e como sociedade, violamos assustadoramente nossa juventude, principalmente a pobre, negra e periférica”, conclui Sidney, cuja pesquisa deu origem a Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil, documentário de Belisário Franca. O título do filme, que está disponível, no YouTube, se refere ao fato de que, na fazenda, os meninos não tinham nomes - eram chamados por números. 

Segue texto do arquiteto e cartunista Gilberto Maringoni sobre as Scenas da Escravidão e o seu autor, publicado no caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, em 26/07/1998.

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As cenas da escravidão de Agostini


    Gilberto Maringoni

    Você tem nesta página algumas imagens únicas. Elas retratam com uma crueza nunca vista o cotidiano de torturas, mutilações e assassinatos cometidos contra os escravos, pouco antes da assinatura da Lei Áurea, em 1888.

O autor dos desenhos e do texto é o italiano Angelo Agostini (1843-1910), que veio para o Brasil ainda adolescente, fundou uma série de jornais ilustrados, foi um dos pioneiros mundiais das histórias em quadrinhos e integrou-se de corpo e alma nas campanhas abolicionista e republicana.

Se as imagens que chegaram até nós do final do período colonial têm em Debret e Rugendas seus principais autores, o registro visual das duas décadas e meia que precederam a República encontram em Agostini sua mais perfeita tradução. Com uma diferença: quase ninguém conhece a obra do italiano. Fragmentos de seu trabalho são de vez em quando reproduzidos aqui e ali, em livros de história. Mas sua produção mais contundente, as "Scenas da Escravidão" - que surpreenderam a corte e as províncias, foram publicadas na época até nos Estados Unidos e são mencionadas com admiração por Monteiro Lobato e Nelson Werneck Sodré-, é quase desconhecida hoje em dia. Herman Lima refere-se rapidamente a estas páginas em seu clássico "História da Caricatura no Brasil", comparando-as às "torturas que somente seriam revividas 70 anos depois, nos campos de concentração do nazismo".

As imagens e os textos são auto-explicativos. Revelam casos documentados, com data, nome e sobrenome de quem participou das atrocidades. Foram produzidos numa época em que a campanha abolicionista exercia "sua sedução sobre a mocidade, a imprensa, a democracia (e) tinha afinidades profundas com o mundo operário e com o Exército", no dizer de Joaquim Nabuco. Não à toa, a "Revista Illustrada", editada por Agostini, na qual os desenhos foram publicados, atingia tiragens de 4 mil exemplares. Saía aos sábados, tinha 8 páginas (4 de textos e 4 de desenhos) em formato 26,5 cm x 36,5 cm e existiu entre 1876 e 1895. Para efeito de comparação, basta dizer que a tiragem média dos maiores jornais diários da época oscilava entre 4 e 10 mil exemplares, os quais eram editados por empresas muito mais sólidas que a de Agostini.

A "Revista" foi uma das mais importantes publicações abolicionistas e republicanas. Quando ela começou, já existiam mais de 20 jornais republicanos no país. Apesar do analfabetismo que marcava 80% da população brasileira, havia no Rio de Janeiro, no final dos anos 70 do século 19, mais de 50 publicações regulares, entre diárias, semanais, quinzenais e mensais.

O realismo dá o tom nos desenhos, numa época em que a fotografia ainda não era reproduzível nas páginas de imprensa.


Uma das sequências aqui reproduzida, a de duas adolescentes espancadas, publicada em 18 de fevereiro de 1886, faz referência a isso, dizendo que o "fotógrafo Heitor tirou o retrato das infelizes", copiado a lápis por Angelo Agostini. Nas páginas de texto da "Revista" era explicado que as duas escravas, Eduarda, 15, e Joana, 17, "habitam, com sua proprietária, a Exma. Sra. D. Francisca de Castro, o aristocrático bairro de Botafogo". A história prossegue, narrando os castigos sofridos pelas duas: "As pancadas brutais reduziram os olhos (de Joana) a duas postas de sangue, a testa apresenta o aspecto de um tumor, as cartilagens do nariz estão quebradas (...), enfim, este rosto juvenil está mutilado em todos os sentidos". Após descrever as torturas sofridas também por Eduarda e a consequente morte das duas, o texto indignado lamenta o fato de que "durante anos, este martírio inconcebível ficou fechado entre quatro paredes de um quarto".

Nove meses depois, em 6 de novembro, uma nova matéria na "Revista" informa o desfecho do caso: a Justiça, por unanimidade, resolveu absolver Francisca de Castro.

Outra sequência, na edição de 29 de outubro de 1887, narra a fuga de 150 escravos de diversas fazendas de Capivari (SP) em direção a São Paulo. Depois de derrotar dois contingentes da polícia, enviados para detê-los, os fugitivos chegam a Santos. No entanto, 15 deles são presos em Cubatão e Agostini prevê nos desenhos o futuro imediato dos cativos.

Um misto de revolta e desânimo emerge destas narrativas em quadrinhos: "Apesar de todos os horrores, não se vê um senhor nas prisões do Estado. Em compensação, elas estão cheias de infelizes que tiveram a ousadia de se revoltar contra seus algozes. Santa Justiça!", lamenta o italiano. Escravos eram animais. Pior. Agostini ironiza, em outros desenhos, a fundação da Sociedade Protetora dos Animais e a sem-cerimônia com que sua criação foi aceita numa sociedade onde o trabalho servil era inquestionável. Os animais, testemunha ele, eram mais bem tratados que os negros e, em mais de uma ilustração, resolvem interceder em favor destes.


O Brasil de Angelo Agostini era uma sociedade assentada em dois pilares, o latifúndio e a escravidão, "a base de um sistema secular de vida (...) caracterizado por uma grande estabilidade estrutural", nas palavras de Celso Furtado. No entanto, esta segurança era confrontada cotidianamente, nos domínios da vida privada, por uma tensão que opunha os principais protagonistas da sociedade, senhores e escravos.

Após a Guerra do Paraguai (1865-1870) e seu resultado em sangue e dívidas, esta tensão ganha corpo nos principais centros urbanos do país, palco de crescente agitação política. Aliado a isso, havia o descontentamento da ascendente elite dos cafeicultores, desejosa de novos espaços políticos junto ao poder, num universo ainda dominado pelos senhores de engenho. Estão dadas as condições objetivas para o surgimento da campanha abolicionista e pelo fim da ordem política que a legitimava, a monarquia. A insatisfação ganhou as instituições e as ruas, tirando paulatinamente a legitimidade do regime.

Na corte - onde a campanha era conduzida por ideólogos em grande parte vindos das camadas médias, como jornalistas, advogados e funcionários públicos - a imprensa conheceu um período extremamente rico. Começava a existir uma opinião pública favorável à Abolição, a partir dos anos 70. Uma opinião pública ávida, também, por produtos culturais impressos, como o jornal, a revista, o almanaque e o livro.

Ataques à elite

Autorretrato de Angelo Agostini

Angelo Agostini foi o mais importante artista gráfico do Segundo Reinado. Quando este italiano de Varcelli, no Piemonte, aqui chegou aos 16 anos com sua mãe, em maio de 1859, após estudar desenho e pintura em Paris, a imprensa ilustrada engatinhava. Desde 1840, dois fatores impulsionavam estas novas publicações: a difusão da litografia, que permitia a reprodução da caricatura, e o surgimento de uma pequena camada de setores médios nos principais centros urbanos, numa sociedade rigidamente estratificada entre uma minoria branca, rica e poderosa, e uma imensa maioria de negros e mulatos, composta por escravos e libertos.


A carreira do recém-chegado só começou em São Paulo anos depois, onde fundou dois jornais de curta duração, mas de razoável repercussão. Eram o "Diabo Coxo" (1864/65) e o "Cabrião" (1866/67), cuja sede chegou a ser depredada por conta dos constantes ataques de Agostini ao clero e à elite paulistana.


Com a falência do jornal, o artista muda-se para o Rio de Janeiro, produzindo várias publicações. Em 1º de janeiro de 1876, funda aquela que marcaria época, a "Revista Illustrada". Logo no primeiro editorial, avisa: "O meu programa é dos mais simples e pode ser resumido nestas poucas palavras: falar a verdade, sempre a verdade, ainda que por isso me caia algum dente".


Descontente com os rumos da vida nacional e, no dizer do pesquisador Antônio Cagnin, "fugindo das ameaças e fortes pressões que sofria" por parte dos escravocratas, Agostini parte, em outubro de 1888, para um exílio voluntário de seis anos em Paris. Ao voltar, o desencanto com a jovem República se faz sentir nas páginas de seu novo jornal, o "Don Quixote" (1895-1902). Nunca mais recuperou a vibração e o entusiasmo da campanha abolicionista. Trabalhou ainda em "O Malho", na "Gazeta de Notícias", no "Tico-Tico", dentre outros, antes de morrer, aos 66 anos, num quente 28 de janeiro de 1910.

Os desenhos de Agostini pertencem ao acervo da Biblioteca Municipal Mário de Andrade.

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