(Desenho de Angelo Agostini)
As Scenas da Escravidão
desenhadas pelo italiano Angelo Agostini, que morou em São Paulo e no
Rio de Janeiro, são registros das atrocidades praticadas pelo brutal regime
escravocrata, no Brasil do século 19.
O desenho que reproduz a foto de duas meninas negras,
prostradas e desfiguradas, é a síntese da perversidade e da selvageria cometidas
contra os africanos escravizados no país. Pensar que elas foram arrancadas à
força de suas famílias para serem violentadas na casa dos colonizadores que
saquearam sua terra natal provoca tristeza e revolta.
Graficamente impactantes e explícitas, as cenas do
abolicionista Agostini remetem às gravuras do espanhol Francisco de Goya, que retratou,
décadas antes, episódios da Guerra da Independência, desencadeada pela invasão da
Espanha por tropas napoleônicas. É como se os desenhos de Agostini encontrassem
o seu duplo na série de mais de 80 gravuras, intitulada Os Desastres da Guerra, que Goya produziu de 1810 a 1815. São obras que registram as crueldades que só um
animal como o ser humano pode causar aos seus semelhantes.
Embora o
ano de 1888 seja reconhecido oficialmente como a data de abolição da escravatura no Brasil, no
século seguinte, ideias de movimentos totalitaristas do exterior circularam
pelo país, reflexo da colonização escravocrata. Durante os anos 1920 e 1930, muitos
brasileiros deram boas-vindas a teorias de eugenia e pureza racial que reforçavam
conceitos de supremacia branca e de branqueamento da população, cuja consequência
está presente até hoje na forma de racismo.
O historiador Sydney Aguilar Filho descobriu que, em
1933, sob o falso pretexto de que iriam brincar, estudar e aprender algum
ofício, 50 meninos (48 negros ou pardos), de 9 a 12 anos, de um orfanato do Rio
de Janeiro, foram levados a uma fazenda do interior de São Paulo, onde
acabariam escravizados por nove anos, prestando trabalhos não remunerados à
família de um poderoso fazendeiro, simpatizante do nazismo e ligado à Ação
Integralista Brasileira, movimento ultraconservador inspirado no fascismo.
Privados da liberdade e isolados da comunidade, os garotos permaneciam sob a constante
vigilância de capangas e cães de guarda, sendo castigados e submetidos a uma
disciplina militar.
“Foi muito dolorido descobrir o que aconteceu com os 50
meninos. Uma escravidão contemporânea respaldada legalmente e socialmente
aceita. Encontrar legisladores brasileiros defendendo práticas racistas e
segregacionistas foi bem pesado. Continuamos a ser, como há 40, há 200 anos, um
país da negação. Não somos racistas, mas somos
racistas. Somos um país cheio de gente pacífica, mas muito
violento. Temos umas das melhores legislações
para proteger as crianças, e como sociedade, violamos
assustadoramente nossa juventude, principalmente a pobre, negra e periférica”,
conclui Sidney, cuja pesquisa deu origem a Menino
23: Infâncias Perdidas no Brasil, documentário de Belisário Franca. O título do filme, que está disponível, no YouTube, se refere ao fato de que, na fazenda, os meninos não tinham nomes - eram chamados por números.
Segue texto do arquiteto e cartunista Gilberto Maringoni
sobre as Scenas da Escravidão e o seu autor, publicado no caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, em 26/07/1998.
***
As cenas da escravidão de Agostini
Gilberto Maringoni
Você tem nesta página algumas imagens únicas. Elas retratam com uma crueza
nunca vista o cotidiano de torturas, mutilações e assassinatos cometidos contra
os escravos, pouco antes da assinatura da Lei Áurea, em 1888.
O
autor dos desenhos e do texto é o italiano Angelo Agostini (1843-1910), que
veio para o Brasil ainda adolescente, fundou uma série de jornais ilustrados,
foi um dos pioneiros mundiais das histórias em quadrinhos e integrou-se de
corpo e alma nas campanhas abolicionista e republicana.
Se as
imagens que chegaram até nós do final do período colonial têm em Debret e
Rugendas seus principais autores, o registro visual das duas décadas e meia que
precederam a República encontram em Agostini sua mais perfeita tradução. Com
uma diferença: quase ninguém conhece a obra do italiano. Fragmentos de seu
trabalho são de vez em quando reproduzidos aqui e ali, em livros de história.
Mas sua produção mais contundente, as "Scenas
da Escravidão" - que surpreenderam a corte e as províncias, foram
publicadas na época até nos Estados Unidos e são mencionadas com admiração por
Monteiro Lobato e Nelson Werneck Sodré-, é quase desconhecida hoje em dia.
Herman Lima refere-se rapidamente a estas páginas em seu clássico "História da Caricatura no Brasil",
comparando-as às "torturas que somente seriam revividas 70 anos depois,
nos campos de concentração do nazismo".
As
imagens e os textos são auto-explicativos. Revelam casos documentados, com
data, nome e sobrenome de quem participou das atrocidades. Foram produzidos
numa época em que a campanha abolicionista exercia "sua sedução sobre a
mocidade, a imprensa, a democracia (e) tinha afinidades profundas com o mundo
operário e com o Exército", no dizer de Joaquim Nabuco. Não à toa, a
"Revista Illustrada",
editada por Agostini, na qual os desenhos foram publicados, atingia tiragens de
4 mil exemplares. Saía aos sábados, tinha 8 páginas (4 de textos e 4 de
desenhos) em formato 26,5 cm x 36,5 cm e existiu entre 1876 e 1895. Para efeito
de comparação, basta dizer que a tiragem média dos maiores jornais diários da
época oscilava entre 4 e 10 mil exemplares, os quais eram editados por empresas
muito mais sólidas que a de Agostini.
A
"Revista" foi uma das mais
importantes publicações abolicionistas e republicanas. Quando ela começou, já
existiam mais de 20 jornais republicanos no país. Apesar do analfabetismo que
marcava 80% da população brasileira, havia no Rio de Janeiro, no final dos anos
70 do século 19, mais de 50 publicações regulares, entre diárias, semanais,
quinzenais e mensais.
O
realismo dá o tom nos desenhos, numa época em que a fotografia ainda não era
reproduzível nas páginas de imprensa.
Uma
das sequências aqui reproduzida, a de duas adolescentes espancadas, publicada
em 18 de fevereiro de 1886, faz referência a isso, dizendo que o
"fotógrafo Heitor tirou o retrato das infelizes", copiado a lápis por
Angelo Agostini. Nas páginas de texto da "Revista" era explicado que
as duas escravas, Eduarda, 15, e Joana, 17, "habitam, com sua
proprietária, a Exma. Sra. D. Francisca de Castro, o aristocrático bairro de
Botafogo". A história prossegue, narrando os castigos sofridos pelas duas:
"As pancadas brutais reduziram os olhos (de Joana) a duas postas de
sangue, a testa apresenta o aspecto de um tumor, as cartilagens do nariz estão
quebradas (...), enfim, este rosto juvenil está mutilado em todos os
sentidos". Após descrever as torturas sofridas também por Eduarda e a
consequente morte das duas, o texto indignado lamenta o fato de que
"durante anos, este martírio inconcebível ficou fechado entre quatro
paredes de um quarto".
Nove
meses depois, em 6 de novembro, uma nova matéria na "Revista" informa o desfecho do caso: a Justiça, por
unanimidade, resolveu absolver Francisca de Castro.
Outra
sequência, na edição de 29 de outubro de 1887, narra a fuga de 150 escravos de
diversas fazendas de Capivari (SP) em direção a São Paulo. Depois de derrotar
dois contingentes da polícia, enviados para detê-los, os fugitivos chegam a
Santos. No entanto, 15 deles são presos em Cubatão e Agostini prevê nos
desenhos o futuro imediato dos cativos.
Um
misto de revolta e desânimo emerge destas narrativas em quadrinhos: "Apesar
de todos os horrores, não se vê um senhor nas prisões do Estado. Em
compensação, elas estão cheias de infelizes que tiveram a ousadia de se
revoltar contra seus algozes. Santa Justiça!", lamenta o italiano.
Escravos eram animais. Pior. Agostini ironiza, em outros desenhos, a fundação
da Sociedade Protetora dos Animais e a sem-cerimônia com que sua criação foi
aceita numa sociedade onde o trabalho servil era inquestionável. Os animais,
testemunha ele, eram mais bem tratados que os negros e, em mais de uma
ilustração, resolvem interceder em favor destes.
O
Brasil de Angelo Agostini era uma sociedade assentada em dois pilares, o
latifúndio e a escravidão, "a base de um sistema secular de vida (...)
caracterizado por uma grande estabilidade estrutural", nas palavras de
Celso Furtado. No entanto, esta segurança era confrontada cotidianamente, nos
domínios da vida privada, por uma tensão que opunha os principais protagonistas
da sociedade, senhores e escravos.
Após a
Guerra do Paraguai (1865-1870) e seu resultado em sangue e dívidas, esta tensão
ganha corpo nos principais centros urbanos do país, palco de crescente agitação
política. Aliado a isso, havia o descontentamento da ascendente elite dos
cafeicultores, desejosa de novos espaços políticos junto ao poder, num universo
ainda dominado pelos senhores de engenho. Estão dadas as condições objetivas
para o surgimento da campanha abolicionista e pelo fim da ordem política que a
legitimava, a monarquia. A insatisfação ganhou as instituições e as ruas, tirando
paulatinamente a legitimidade do regime.
Na
corte - onde a campanha era conduzida por ideólogos em grande parte vindos das
camadas médias, como jornalistas, advogados e funcionários públicos - a imprensa
conheceu um período extremamente rico. Começava a existir uma opinião pública
favorável à Abolição, a partir dos anos 70. Uma opinião pública ávida, também,
por produtos culturais impressos, como o jornal, a revista, o almanaque e o
livro.
Ataques à elite
Angelo Agostini foi o mais importante artista gráfico do Segundo Reinado.
Quando este italiano de Varcelli, no Piemonte, aqui chegou aos 16 anos com sua
mãe, em maio de 1859, após estudar desenho e pintura em Paris, a imprensa
ilustrada engatinhava. Desde 1840, dois fatores impulsionavam estas novas
publicações: a difusão da litografia, que permitia a reprodução da caricatura,
e o surgimento de uma pequena camada de setores médios nos principais centros
urbanos, numa sociedade rigidamente estratificada entre uma minoria branca,
rica e poderosa, e uma imensa maioria de negros e mulatos, composta por
escravos e libertos.
A
carreira do recém-chegado só começou em São Paulo anos depois, onde fundou dois
jornais de curta duração, mas de razoável repercussão. Eram o "Diabo Coxo" (1864/65) e o "Cabrião" (1866/67), cuja sede
chegou a ser depredada por conta dos constantes ataques de Agostini ao clero e
à elite paulistana.
Com a
falência do jornal, o artista muda-se para o Rio de Janeiro, produzindo várias
publicações. Em 1º de janeiro de 1876, funda aquela que marcaria época, a
"Revista Illustrada". Logo
no primeiro editorial, avisa: "O meu programa é dos mais simples e pode
ser resumido nestas poucas palavras: falar a verdade, sempre a verdade, ainda
que por isso me caia algum dente".
Descontente
com os rumos da vida nacional e, no dizer do pesquisador Antônio Cagnin,
"fugindo das ameaças e fortes pressões que sofria" por parte dos
escravocratas, Agostini parte, em outubro de 1888, para um exílio voluntário de
seis anos em Paris. Ao voltar, o desencanto com a jovem República se faz sentir
nas páginas de seu novo jornal, o "Don
Quixote" (1895-1902). Nunca mais recuperou a vibração e o entusiasmo
da campanha abolicionista. Trabalhou ainda em "O Malho", na "Gazeta
de Notícias", no "Tico-Tico",
dentre outros, antes de morrer, aos 66 anos, num quente 28 de janeiro de 1910.
Os desenhos de Agostini pertencem
ao acervo da Biblioteca Municipal Mário de Andrade.








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