Três vezes Millôr Fernandes.
A banana justifica a casca que a envolve ou a casca é que explica a banana? Nua, a banana sem casca nos remete ao que fazer com a casca da banana. Como se sabe, por ficarem ao sol e ao relento, as bananeiras dão bananas. A carne do caule é macia e propiciatória nas tardes estivais, quando todas as bananas crescem, sobretudo a dos adolescentes. A casca da banana, feita de ouro, e ocasionalmente decorada com sardas de senectude frutífera, não é comestível, mas é tragável. Raspa-se cuidadosamente, expõe-se ao sol durante vago tempo e, uma vez curtida, ela oferece os prazeres de um estranho Pall Mall: “Kiss me. Kiss me. Kiss me, baby.”
A banana, antes de a deglutir, é apreciá-la. Odor tem pouco. Como convém. Só para apreciadores dos quase não-odores. Cheira a longe. Ao que poderia ter sido e que não foi. Mesmo podre não tem cheiro de podre. Limpa, clara, macia, tem gosto de banana. Cortada em fatias, posta em fogo brando, envolvida em azul de espírito (álcool), queimada até ficar morena, pulverizada com açúcar e canela, vira banana frita. Com calda, porém, é banana em calda. A casca bem que poderia ter um zíper e ser mais prática. Mas já é a mais prática das frutas, a banana tão prática. Uma cabe na palma da mão. E dá em cachos. Às vezes minhon, pequena e arredondada, fresca, ela é a banana-our. Grande, indecente, ela é banana d’água – a banana da terra quando não exige cuidados especiais para ser tratada. Dá em árvores baixas, a banana, e a árvore se chama, condizentemente, bananeira. Pois ninguém admitiria uma banana em outro pé que não a bananeira. E, por ser baixa, a bananeira põe seus frutos à disposição geral. Dá a facilmente a quem os quiser. Ninguém precisa trepar nela.
As folhas das bananas abanam as orelhas como os elefantes, embora os elefantes, no Brasil, estejam todos no jardim zoológico, onde só os macacos comem bananas. Sei lá. A casca serve ainda ao escorregão na casca de banana, risível fisicamente, melancólico como metáfora. Ao envelhecer, a banana vai ficando parda e, vendo isso, os passarinhos a bicam, ela vira borboleta amarela, mas ainda vive de três a quatro horas, naquela bananosa. Em Jacarepaguá existe um cemitério só de bananas. Foi fundado em 1833, pelo padre negro do Zaire, Regias Amintas, que trouxe pro Brasil a manga espada, a fruta-de-conde e o aipim-manteiga. A banana eu não sei quem trouxe.
Foi Fernando Sabino quem, há algum tempo, trouxe à luz da ribalta o sinal &, escrevendo que esse sinal não tem nome. Choveram-lhe informações de erúditos (proparoxítonos) inclusive do orador que vos fala. Por motivações enigmáticas (língua sempre é enigmática, só os gramáticos tentam enquadrá-la) o & realmente não tem nome. Em português.
Em inglês o & se chama ampersand. O nome teve origem numa espécie de cartilha, hornbooks, no qual esse símbolo vinha depois das 26 letras (...x,y,z,&) e substituía o and na final, na expressão “and per se and”, virando “and per se &”.
Como gosto de palavras e seus mistérios, símbolos e suas origens, procurei mais; em inglês o & também é chamado de sinal tironiano pois foi inventado por Tirônio, liberto e amanuense de Cícero. Nos dicionários brasileiros que consultei, tironiano se refere apenas a Tiro (cidade mágica da Fenícia – e de Jezebel! – cujo nome ressoa e meus ouvidos desde os tempos da Universidade do Meyer). Só o Aurélio fala do secretário de Cícero e diz que foi o inventor de um sistema de taquigrafia. Que Tirônio foi mesmo, em 63 a.C. E seu sistema tinha tal qualidade que invadiu toda a Europa e durou aproximadamente mil anos (não digam nada a ninguém; mais que o Império Romano). Ele escreveu uma vida de Cícero e inúmeros discursos do grande orador e há até, sobre isso, cartas de Cícero pra ele, Tiro! (*)
O sinal & é uma reformulação gráfica de Et (já abreviatura de etcetera). Quando o sinal vem em itálico, pode-se ver perfeitamente o ET. Olhem aí.
(*) Mário Peixoto, o do primário e chatérrimo Limite, imposto pela bela didática nacionalista como uma obra-prima do cinema, fazia coisa parecida, embora o contrário. Como foi revelado há uns dois anos pelo JB, a famosa carta de Eisenstein pra ele, Mário, dizendo que o filme dele, Mário, era genial, foi escrita por ele próprio, Mário.
Desde o dia em que li um estudo de Jefrey Camhi que, durante seis anos!, preparou, com seus alunos da Universidade de Cornell, um Aproach Neuroetológico sobre o Sistema de Fuga da Barata Periplaneta Americana, fiquei fã, não do professor, mas da Periplaneta.
Indignado que sou quanto à visão antropocêntrica do universo, tento destruí-la escrevendo sobre insetos, sobretudo a nossa amiga barata, admirável criatura que já vivia milhões de anos antes de nós e vai viver quando tudo acabar – pra nós. Provocado pelo que escrevi, o comandante Gravatá, meu ministro plenipotenciário para o ciberespaço, navegou pela Internet – genial reunião universal de sábios e malucos, e idiotas propriamente ditos, indistinguíveis a olho nu – e, depois de 18 horas e 300 homepages, me trouxe as últimas informações sobre o extraordinário lepidóptero (não, lepidóptero é borboleta, vê aí). Aqui vão as informações:
OLHO: nosso olho tem apenas uma lente. O olho da barata tem 2.000. ANTENAS ou SENSORES: dão à barata o sentido do olfato. Ela é especialmente sensível ao odor de comida. O macho – um barato! – tem sensores especiais para o odor produzido pela fêmea quando esta está querendo. Entre nós, bípedes implumes, acontece o mesmo, mas a maioria dos machos não tem sensores. Defeito de fabricação. CERCI: dois pequenos cabelos no extremo traseiro da barata. Agem como uma biruta, indicando o movimento do ar. Quando qualquer coisa procura atacar a barata e produz movimento no ar os CERCI indicam à barata, num milionésimo de segundo, o número de graus para fugir. Escapa 95% das vezes. BOCA: a boca da barata é de fazer inveja à Divine Brown, se lembram?, aquela especialista em felácio em atores ingleses. Não move ou mastiga de cima pra baixo, como a de vocês, mas de lado a lado. Além do gosto, a boca também sente o odor. GLÂNDULAS SALIVARES: a barata cospe e sabe cuspir, e direcionar o cuspe, como nós. Assim, se ela te cospe na cara, não pense que é ocasional. É intencional. ESQUELETO: o esqueleto da barata é por fora do corpo. Quando o corpo excede o esqueleto, este é abandonado e outro é construído. REPRODUÇÃO: quando uma barata quer um barato!, produz um feromônio (cheiro) que deixa o macho louco, louco. O macho coloca na fêmea uma quantidade de esperma que conserva a barata grávida pro resto da vida (quando você pisa uma barata e, de dentro dela, sai aquele caldinho branco, lembre-se de que está matando milhares e milhares de inocentinhos, seu antropocêntrico!). A barata gera filhos em pacotes de 16 a 64. Quando bem entende. DESPENSA: pré-mastigado, mastigado ou pós-mastigado, a barata come de tudo. Se não mastiga devidamente da primeira vez, tem uma segunda dentadura no trato digestivo que acaba o serviço malfeito pela pressa. CORAÇÃO: o coração da barata é como um tubo, uma serpentina. Bate pra trás e pra frente e pode até parar que a barata continua vivendo. CÉREBRO: a barata tem cérebros, pequenos pedaços, em várias partes do corpo. Um pouco na cabeça, um pouco a intervalos ao longo da parte ventral, um pouco pra cada par de pernas. Mesmo que você corte a cabeça da barata ela continua vivendo, até morrer de sede ou de fome – em mais ou menos uma semana.
Millôr Fernandes foi jornalista, escritor, tradutor, humorista e desenhista. Faleceu aos 88 anos, em 2012.

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