segunda-feira, 29 de abril de 2024

Um puxão de orelha nos maus governantes e educadores


(Charge de Angeli)


    No início deste século, o mundo perdeu duas grandes cabeças do pensamento humanístico: o geógrafo brasileiro Milton Santos, aos 75 anos, em 2001, e o educador norte-americano Neil Postman, aos 72, em 2003. Ambos tinham a educação no cerne de seus trabalhos e eram, respectivamente, críticos implacáveis dos aduladores da globalização e da tecnologia que não medem esforços para que crianças e jovens recebam nas escolas uma formação profissional e técnica para, no futuro, servirem de mão de obra para o mercado, desprezando a formação moral e intelectual necessária para o convívio social.

Milton Santos

Se, fisicamente, Santos e Postman não estão mais entre nós, as ideias de ambos continuam circulando, na batalha para manter vivo o espírito crítico numa época em que o crescente obscurantismo fundamentalista compartilha a ignorância e incita o preconceito nas redes sociais. No Brasil, além do desprezo que, mandato após mandato, os governantes dedicam à educação, avançam os projetos de criação e ampliação de escolas cívico-militares. É urgente que as ideias da dupla não permaneçam apenas impressas ou digitalizadas, mas sejam divulgadas e, principalmente, colocadas em prática.

Neil Postman

Seguem um ensaio assinado por Santos, publicado em 2000, na Folha de São Paulo, e uma resenha do jornalista Sérgio Augusto sobre as ideias de Neil Postman, publicada em 2002, em O Estado de São Paulo.

***

Os deficientes cívicos

    Milton Santos 

    Em tempos de globalização, a discussão sobre os objetivos da educação é fundamental para a definição do modelo de país em que viverão as próximas gerações.

Em cada sociedade, a educação deve ser concebida para atender, ao mesmo tempo, ao interesse social e ao interesse dos indivíduos. É da combinação desses interesses que emergem os seus princípios fundamentais e são estes que devem nortear a elaboração dos conteúdos do ensino, as práticas pedagógicas e a relação da escola com a comunidade e com o mundo.

O interesse social se inspira no papel que a educação deve jogar na manutenção da identidade nacional, na ideia de sucessão das gerações e de continuidade da nação, na vontade de progresso e na preservação da cultura. O interesse individual se revela pela parte que é devida à educação na construção da pessoa, em sua inserção afetiva e intelectual, na sua promoção pelo trabalho, levando o indivíduo a uma realização plena e a um enriquecimento permanente. Juntos, o interesse social e o interesse individual da educação devem também constituir a garantia de que a dinâmica social não será excludente.

Em todos os casos a sociedade será sempre tomada como um referente, e, como ela é sempre um processo e está sempre mudando, o contexto histórico acaba por ser determinante dos conteúdos da educação e da ênfase a atribuir aos seus diversos aspectos, mesmo se os princípios fundamentais permanecem intocados ao longo do tempo. Foi dessa forma que se deu a evolução da ideia e da prática da educação durante os últimos séculos, paralelamente à busca de formas de convivência civilizada, alicerçadas em uma solidariedade social cada vez mais sofisticada.

As modalidades sucessivas da democracia como regime político, social e econômico levaram, no após guerra, à social-democracia. A história da civilização se confundiria com a busca, sempre renovada, e o encontro das formas práticas de atingir aqueles mencionados princípios fundamentais da educação, sempre a partir de uma visão filosófica e abrangente do mundo.

Esse esforço, para o qual contribuíram filósofos, pedagogos e homens de Estado, acaba por erigir como pilares centrais do sistema educacional: o ensino universal (isto é, concebido para atingir a todas as pessoas), igualitário (como garantia de que a educação contribua a eliminar desigualdades), progressista (desencorajando preconceitos e assegurando uma visão de futuro).

Daí os postulados indispensáveis de um ensino público, gratuito e leigo (esta última palavra sendo usada como sinônimo de ausência de visões particularistas e segmentadas do mundo) e, dessa forma, uma escola apta a formar concomitantemente cidadãos integrais e indivíduos fortes. Aliás, foram essas as bases da educação republicana, na França e em outros países europeus, baseada na noção de solidariedade social exercida coletivamente como um anteparo, social e juridicamente estabelecido, às tentações da barbárie.

A globalização, como agora se manifesta em todas as partes do planeta, funda-se em novos sistemas de referência, em que noções clássicas, como a democracia, a república, a cidadania, a individualidade forte, constituem matéria predileta do marketing político, mas, graças a um jogo de espelhos, apenas comparecem como retórica, enquanto são outros os valores da nova ética, fundada num discurso enganoso, mas avassalador.

Em tais circunstâncias, a ideia de emulação é compulsoriamente substituída pela prática da competitividade, o individualismo como regra de ação erige o egoísmo como comportamento quase obrigatório, e a lei do interesse sem contrapartida moral supõe como corolário a fratura social e o esquecimento da solidariedade.

O mundo do pragmatismo triunfante é o mesmo mundo do “salve-se quem puder”, do “vale-tudo”, justificados pela busca apressada de resultados cada vez mais autocentrados, por meio de caminhos sempre mais estreitos, levando ao amesquinhamento dos objetivos, por meio da pobreza das metas e da ausência de finalidades. O projeto educacional atualmente em marcha é tributário dessas lógicas perversas. Para isso, sem dúvida, contribuem: a combinação atual entre a violência do dinheiro e a violência da informação, associadas na produção de uma visão embaralhada do mundo; a perplexidade diante do presente e do futuro; um impulso para ações imediatas que dispensam a reflexão, essa cegueira radical que reforça as tendências à aceitação de uma existência instrumentalizada.

É nesse campo de forças e a partir desse caldo de cultura que se originam as novas propostas para a educação, as quais poderíamos resumir dizendo que resultam da ruptura do equilíbrio, antes existente, entre uma formação para a vida plena, com a busca do saber filosófico, e uma formação para o trabalho, com a busca do saber prático.

Esse equilíbrio, agora rompido, constituía a garantia da renovação das possibilidades de existência de indivíduos fortes e de cidadãos íntegros, ao mesmo tempo em que se preparavam as pessoas para o mercado. Hoje, sob o pretexto de que é preciso formar os estudantes para obter um lugar num mercado de trabalho afunilado, o saber prático tende a ocupar todo o espaço da escola, enquanto o saber filosófico é considerado como residual ou mesmo desnecessário, uma prática que, a médio prazo, ameaça a democracia, a República, a cidadania e a individualidade. Corremos o risco de ver o ensino reduzido a um simples processo de treinamento, a uma instrumentalização das pessoas, a um aprendizado que se exaure precocemente ao sabor das mudanças rápidas e brutais das formas técnicas e organizacionais do trabalho exigidas por uma implacável competitividade.

Daí, a difusão acelerada de propostas que levam a uma profissionalização precoce, à fragmentação da formação e à educação oferecida segundo diferentes níveis de qualidade, situação em que a privatização do processo educativo pode constituir um modelo ideal para assegurar a anulação das conquistas sociais dos últimos séculos. A escola deixará de ser o lugar de formação de verdadeiros cidadãos e tornar-se-á um celeiro de deficientes cívicos.

É a própria realidade da globalização - tal como praticada atualmente - que está no centro desse debate, porque com ela se impuseram idéias sobre o que deve ser o destino dos povos, mediante definições ideológicas sobre o crescimento da economia, como a chamada competitividade entre os países. As propostas vigentes para a educação são uma consequência, justificando a decisão de adaptá-la para que se torne ainda mais instrumental à aceleração do processo globalitário. O debate deve ser retomado pela raiz, levando a educação a reassumir aqueles princípios fundamentais com que a civilização assegurou a sua evolução nos últimos séculos -os ideais de universalidade, igualdade e progresso-, de modo que ela possa contribuir para a construção de uma globalização mais humana, em vez de aceitarmos que a globalização perversa, tal como agora se verifica, comprometa o processo de formação das novas gerações.

*

O mestre que quer virar a escola pelo avesso

    Sérgio Augusto 

    Para que serve a escola?

Para preparar a criança para a vida, certo? Mas o que vem a ser preparar alguém para a vida? Muitos pedagogos acreditam que a principal finalidade do ensino é preparar as crianças para o ingresso competente na vida econômica de uma comunidade. Para eles, qualquer atividade escolar não destinada à promoção desse fim é um ornamento, um desperdício de tempo precioso. A escola nada mais seria que um campo de treinamento básico para o emprego futuro, uma fábrica de estudantes treinados para ser bons leitores de memorandos, relatórios trimestrais e cotações de papéis na Bolsa de Valores. Educação e produtividade seriam sócias ou cúmplices, no entender dessa pedagogia baseada no utilitarismo econômico, num pragmatismo com pouco respaldo na realidade.

Afinal de contas, há 20 anos que o mercado de trabalho, nos EUA e em boa parte do mundo, tem se mostrado mais generoso para os que possuem qualificações relativamente baixas (garçons, porteiros, balconistas, taxistas) do que para arquitetos, professores e outros ofícios aprendidos numa universidade.

Neil Postman não só despreza esses pedagogos (Christopher Whittle e Lewis Perelman, os mais notórios) como combate suas ideias, tenazmente, nos meios acadêmicos, na mídia, e nos livros que, aos poucos, vão transformando-o num pensador tão estimulante quanto Mashall McLuhan foi na década de 60 do século passado. Com algumas vantagens sobre o canadense: Postman, 71 anos, um dos mais atrevidos analistas das relações entre educação e mídia eletrônica, não é um deslumbrado pelas novas tecnologias (muito pelo contrário), tem senso de humor e escreve com uma graça que McLuhan nunca teve. Desde março de 1991, que foi quando tomei conhecimento de sua existência, por meio de um divertido debate dele com Camille Paglia sobre televisão, na revista Harper´s, que acompanho, entusiasmado, suas cruzadas por um mundo culturalmente mais rico e saudável. Postman (para usar a terminologia de Umberto Eco) tem uma visão apocalíptica da TV; Paglia é uma integrada assumida. O livro de Postman mais famoso, Amusing Ourselves to Death (Nos Divertindo até Morrer), publicado em 1985, é uma profética análise dos excessos da mídia e do discurso público na era do show business. Lavou a alma de muita gente, inclusive de leitores improváveis como o ex-cantor do Pink Floyd, Roger Waters, que em sua homenagem produziu o CD Amused to Death. Deverá ser em breve traduzido pela Graphia, que dele já nos deu, há dois anos, outra obra mais antiga, O Desaparecimento da Infância, atualíssima a despeito dos seus 20 anos de idade.

Quem faz desaparecer a infância? A televisão. Mas não só ela. A TV destruiu a linha divisória entre infância (categoria criada ou desabrochada com a invenção da tipografia) e idade adulta. Com a ajuda de outros meios eletrônicos e do generalizado laxismo vigente, ela (a TV) escancarou os bastidores da vida adulta, aproximando as crianças perigosamente do alcoolismo, das drogas, do erotismo precoce, da atividade sexual, da criminalidade, com as consequências de sobejo conhecidas.

Não, Postman não é um moralista, nem um ludita, um grafólatra fundamentalista ou coisa parecida. Ele só é contra a empulhação pedagógica, a fraude teórica, um iconoclasta em guerra permanente com certas deidades, em especial com o deus do utilitarismo, o deus do consumo (“entre os três e os dezoito anos, o jovem americano médio verá cerca de 500 mil comerciais na TV, o que significa que o comercial é isoladamente a fonte mais substancial de valores a que moças e rapazes estão expostos”), o deus da tecnologia (“toda mudança tecnológica é uma transação faustiana” que exige sacrifícios e beneficia uns e prejudica outros) e o deus do multiculturalismo (“a versão psicopata do pluralismo cultural”).

Seu mais recente ensaio, Building a Bridge to the 18th Century (Construindo uma Ponte para o Século XVIII), editado pela Vintage, é uma investida implacável nas frioleiras da pós-modernidade e do desconstrucionismo (“a metafísica da insignificatividade”) – e uma celebração das conquistas racionalistas do Iluminismo. Postman acredita que Goethe e Voltaire têm mais a nos ensinar do que 90% dos seus equivalentes pós-modernos, notabilizando-se como guias mais confiáveis no século em que acabamos de entrar do que Bill Gates, Alvin Toffler e Jean Baudrillard.

Também pela Graphia acaba de chegar às livrarias O Fim da Educação, escrito por Postman em 1995 com a intenção de redefinir o valor da escola e defendê-la do deslumbramento filistinismo de educadores como Diana Ravitch, ex-assessora do Ministério da Educação dos EUA, para quem a escola do presente e do futuro é a televisão, em que se clicando tudo se aprende. Esta senhora imaginou uma menina, chamada Eva, que acometida de insônia, levanta-se da cama e liga o televisor para assistir a uma aula de álgebra.

Criança assim, que em vez de um filme ou um videogame prefere varar a madrugada gramando uma aula de álgebra, só em outro planeta. A imaginação da Sra. Ravitch para desqualificar a escola como uma instituição obsoleta não tem limites. Até a hipótese de teleconferências entre estudantes e cientistas ela já concebeu. Talvez em Marte ou Vênus seja possível um chat para estudantes e cientistas, funcionando 24 horas por dia. Aqui ainda não.

Nada supera a velha e boa escola. Se pública, tanto melhor. Só na escola os indivíduos aprendem, entre outras coisas, que as necessidades individuais estão subordinadas a interesses do grupo. A escola civiliza e socializa. “A sala de aula destina-se a domar o ego, a ligar os indivíduos a outros, a demonstrar o valor e a necessidade da coesão do grupo”, argumenta Postman.

“O papel que a nova tecnologia deve desempenhar nas escolas ou em qualquer outro lugar é algo que precisa ser discutido sem as fantasias hiperativas de chefes de torcida”, acrescenta, deixando bem claro que considera o computador e suas tecnologias associadas acréscimos impressionantes a uma cultura. Mas é fundamental que saibamos não apenas como usá-los, mas também como somos usados por eles.

“Não estou argumentando contra o uso do computador na escola”, ressalva Postman. “Estou argumentando contra nossas atitudes sonambúlicas para com ele; contra deixá-lo desviar-nos de coisas mais importantes. Se em 1946 tivéssemos começado a formular quais seriam os efeitos sobre nossas instituições políticas, nossos hábitos psíquicos, nossos filhos, nossas concepções religiosas, nossa economia, não estaríamos mais bem posicionados hoje para controlar o assalto massivo da televisão à cultura americana?”.

Numa sala de aula o jovem deve aprender a pensar criticamente (nada de verdades empacotadas, incontestáveis e ideias duradouras), distanciado da sabedoria convencional do seu tempo e dotado de força e habilidade suficientes para mudar o que está errado.

“É preciso ter em mente que tudo no universo caminha inexoravelmente para a uniformidade, e quando a matéria alcança um estado em que não há diferenciação, não há energia aproveitável”, salienta Postman, que possui uma fórmula para melhorar a qualidade do ensino da noite para o dia. É preciso livrar-se de todos os manuais, recomenda. São quase todos, mal ou impessoalmente escritos, fazendo com que toda matéria soe enfadonha.

Instrumentos para promover o dogmatismo, a uniformização do intelecto e o aprendizado superficial, neles o conhecimento é apresentado como uma mercadoria a ser adquirida, nunca como uma luta humana para compreender, para superar a ignorância e a falsidade, “para buscar aos tropeções a verdade”. Na primeira vez em que tornou pública essa sugestão, um dedinho levantou-se no auditório e sua dona perguntou o que ele pretendia pôr no lugar dos manuais. Postman, rápido no gatilho, respondeu com outra pergunta: “Quando a vacina de Jonas Slak eliminou a pólio, por acaso alguém perguntou o que, afinal, iria substituí-la”?

Com os manuais no lixo, começaria então um troca-troca de professores. Outra sugestão audaciosa. Professores de matemática seriam incumbidos de ensinar arte, professores de arte dariam aulas de ciências, professores de ciência lecionariam inglês e literatura, e assim por diante. “A maioria dos professores” – explica Postman – “ensina matérias em que eram bons na escola, porque as achavam fáceis e prazerosas. Consequentemente, é provável que não entendam como a matéria aparece para aqueles que não são bons nela, ou não se interessam por ela, ou as duas coisas”.

Durante um semestre, cada professor se encarregaria de uma matéria que odiasse ou com ela tivesse pouca intimidade, obrigando-se a aprender mais sobre ela e a entender melhor a angústia e a má vontade dos alunos. “Talvez descobrisse como são maçantes os compêndios e como é exasperante o receio de cometer enganos”, diz Postman. “Poderia até se dar conta de que há estudantes que conhecem a matéria melhor do que ele podia imaginar. Quando todos retornassem às suas especialidades, talvez trouxessem consigo ideias novas sobre o modo de transmitir o conteúdo de suas respectivas matérias, e sentissem maior empatia por seus alunos”.

Ao contrário do grande educador John Dewey, para quem a gente só aprende fazendo, Postman acredita que a gente aprende melhor falhando, cometendo erros e corrigindo-os. Aprendeu isso nos primeiros livros de Platão (que são meditações sobre o erro), nas denúncias de falsas crenças a que Sócrates dedicou sua vida, e nas argumentações em torno do tema que, em campos diversos, Jacques Ellul, Stephen Jay Jawkins, I. Richards e Mina Shaughnessy fizeram. Segundo ele, a baixíssima tolerância com o erro na sala de aula é o principal motivo pelo qual os alunos colam, ficam nervosos e relutam em pôr para fora as suas dúvidas. “A história da aprendizagem é uma aventura de superação de nossos erros. Não há pecado em errar. O pecado consiste em nossa relutância em examinar nossas próprias crenças, e em acreditar que nossas autoridades não podem estar erradas”. Para ele, longe de criar cínicos, sua proposta pode promover um saudável e criativo ceticismo.

Por acreditar nisso, Postman criou um teste de avaliação, que adoraria ver adotado nacionalmente, em todas as matérias do currículo. Ei-lo: “Descreva cinco dos erros mais significativos que os estudiosos cometeram em (biologia, física, história etc.). Indique por que são erros, quem os cometeu e que pessoas são as principais responsáveis por corrigi-los. Você pode receber crédito extra se conseguir descrever um erro que tenha sido cometido pelo corretor do erro. Receberá crédito extra-extra se conseguir indicar um possível erro em nosso pensamento atual sobre (biologia, física, história etc.). E receberá crédito extra-extra-extra se conseguir mostrar um possível erro em alguma crença fortemente arraigada que esteja presente em nosso espírito”.

Quem não gostaria de ter um professor assim? É fácil. Basta matricular-se no curso de Comunicação da Universidade de Nova Iorque, que é onde Postman leciona e ocupa a cátedra de Ecologia da Mídia, de resto, insolitamente batizada com o nome de uma antiga estrela de Hollywood, Paulette Goddard.


Nenhum comentário:

Postar um comentário