(Homenagem de Angeli)
"Vendo você no hospital; seu humor inabalável
Fico envergonhado pela força que parece me faltar
Se estivesse na sua pele
- E é tão estranho que eu não esteja -
Desistiria em um minuto e meio
Não tive a chance de dizer adeus"
(Lou Reed)
Em 1992, Lou Reed lançou Magic and Loss, um álbum temático sobre doença
e morte. Em 14 músicas, ele discorria sobre a via crucis de dois amigos que morreram de câncer, o compositor Doc Pomus e Rita Rotten, alter ego de Kenneth Rapp, habitué do estúdio Factory, de Andy Warhol, o mecenas que, na segunda metade
dos anos 1960, adotou Reed e sua banda, o Velvet Underground.
Quando gravou o álbum, talvez não passasse pela cabeça de Reed que, cerca
de vinte anos depois,
ele se encontraria na mesma situação de Doc e Rita, e teria o mesmo destino, vítima de um câncer de fígado. Em um trecho da música "No Chance (Regret)", Reed diz estranhar que ele próprio não estivesse no lugar do amigo hospitalizado, ciente do quanto abusou da sorte nos anos 1970. Por causa dos excessos químicos a que se submeteu, e nunca se preocupou em esconder, seu nome esteve, ano após ano daquela década, entre os primeiros lugares de um ranking de rock stars que não sobreviveriam até as festividades da virada de ano.
Em novembro de 2010, quando
veio ao Brasil para apresentar o show Metal
Machine Music, no SESC Pinheiros, em São Paulo, seu semblante abatido mostrava
que algo estava errado - tocou sentado o tempo todo. O melhor momento da noite
foi o final emocionante, quando um Reed meio cambaleante voltou ao palco para apresentar I’ll Be Your Mirror (para quem quiser
conferir, é só assistir ao vídeo no link https://www.youtube.com/watch?v=b5gn8BVELeM).
O Reed de então estava muito diferente do Reed enérgico que veio pela primeira vez ao Brasil,
catorze anos antes, no show da turnê que promovia o álbum Set The Twilight Reeling.
Reed faleceu no dia 27 de
outubro de 2013, em casa, nos braços da esposa, Laurie Anderson, autora do
texto a seguir, exclusivo para a Rolling Stone. Às palavras de Anderson, juntam-se
as de Martin Scorsese e Patti Smith.
***
'Durante 21 anos, entrelaçamos nossas mentes e nossos corações'
Laurie Anderson - 6 de Novembro de 2013
Conheci Lou em Munique, não em Nova York. Era 1992, e nós dois íamos tocar no festival Kristallnacht de John Zorn, evocando a Noite dos Cristais de 1938,
que marcou o início do Holocausto. Lembro-me das expressões desnorteadas
nos rostos dos funcionários da alfândega enquanto a enxurrada de músicos passava, todos vestindo camisetas RHYTHM
AND JEWS!, em vermelho brilhante.
John queria que todos nós nos juntássemos e tocássemos uns com os
outros, em oposição ao habitual modo de “entra-e-sai” dos festivais. Foi este o
motivo de Lou pedir para que eu declamasse algo com sua banda. Eu declamei, e foi alto,
intenso e muito divertido. Após o show, Lou disse: “Você fez exatamente do
jeito que eu faria”. Por que ele precisava que eu fizesse o que ele poderia
facilmente fazer não estava claro, mas isso, sem dúvida, era um elogio.
Gostei dele imediatamente, mas fiquei surpresa por ele não ter sotaque britânico.
Por alguma razão, eu pensava que o Velvet Underground fosse uma banda inglesa e
tinha apenas uma vaga ideia do que eles fizeram. (Eu sei, eu sei.) Eu era de um
mundo diferente. E todos os mundos da Nova Iorque de então – o mundo da moda, o
mundo da arte, o mundo literário, o mundo do rock, o mundo financeiro – eram
bastante provincianos. Um tanto arrogantes. Ainda não conectados.
Aconteceu que Lou e eu não morávamos longe um do outro em Nova York, e, depois do festival, ele sugeriu que nos encontrássemos novamente. Acho que ele gostou quando eu disse: "Sim! Claro! Estou em turnê, mas quando eu voltar - vamos ver, daqui a quatro meses - vamos definitivamente nos encontrar." A coisa ficou por isso mesmo até que, finalmente, ele perguntou se eu queria ir à Convenção da Sociedade de Engenharia de Áudio. Eu disse que iria de qualquer maneira e que o veria no estande dos microfones. A Convenção SEA é o mais extraordinário e grandioso evento para quem está louco para conhecer novos equipamentos, e passamos uma tarde feliz olhando amplificadores e cabos, e conversando de maneira profissional sobre eletrônicos. Eu não tinha ideia de que era para ser uma paquera, mas quando fomos tomar um café, ele disse: "Você gostaria de ir ao cinema?" Claro. "E depois sair pra jantar?" OK. "E depois dar um passeio?" Hum... E, desde então, realmente, nunca mais nos separamos.
Lou e eu tocamos juntos, nos tornamos melhores amigos e almas
gêmeas, viajamos, ouvimos e criticamos o trabalho um do outro, estudamos coisas
juntos (caça de borboletas, meditação, caiaque). Inventamos piadas ridículas;
paramos de fumar 20 vezes; brigamos; aprendemos a prender a respiração debaixo
d’água; fomos para a África; cantamos ópera em elevadores; fizemos amizade com
pessoas improváveis; quando possível, acompanhávamos a turnê do outro; adotamos
um lindo cachorro que tocava de piano; compartilhamos uma casa separada das
nossas; nos protegemos e nos amamos. Íamos sempre a exposições, teatros e
shows, e eu via como ele amava e apreciava outros artistas e músicos. Ele
sempre foi muito generoso. Sabia como era difícil fazer arte. Amávamos nossa vida no West Village e nossos amigos;
e, ao todo, fizemos o melhor que podíamos fazer.
Como muitos casais, cada um de nós construiu maneiras de ser –
estratégias, e, às vezes, compromissos que nos permitiam ser parte de um par. Às
vezes, perdíamos um pouco mais do que entregávamos, ou nos separávamos, ou nos
sentíamos abandonados. Às vezes, ficávamos muito bravos. Mas, mesmo quando eu
estava zangada, nunca ficava chateada. Aprendemos a nos perdoar. E de alguma
forma, durante 21 anos, entrelaçamos nossas mentes e nossos corações.
Era primavera de 2008, quando eu estava andando por uma estrada na
Califórnia, sentindo pena de mim mesmo e conversando com Lou ao celular. “Há
tantas coisas que nunca fiz e que queria fazer”, eu disse.
"Como o quê?"
“Sabe, nunca aprendi alemão, nunca estudei física, nunca me casei.”
“Por que não nos casamos?”, ele perguntou. “Posso encontrá-la pelo
caminho. Irei para o Colorado. Que tal amanhã?"
“Hum – você não acha que amanhã é muito cedo?”
"Não, eu não."
E então, no dia seguinte, nos encontramos em Boulder, Colorado, e nos
casamos no quintal de um amigo, num sábado, vestindo nossas velhas roupas de
sábado, e quando tive que fazer um show logo após a cerimônia, para Lou estava tudo
bem. (Músicos casados são como advogados casados. Quando você diz: “Puxa, tenho
que trabalhar no estúdio até as três da madrugada” – ou cancela todos os seus
planos para encerrar a questão – você sabe muito bem o que isso significa e não
necessariamente precisa se aborrecer.)
Acho que existem muitas maneiras de se casar. Algumas pessoas se casam
com alguém que mal conhecem – o que também pode funcionar. Quando você se casa
com seu melhor amigo de muitos anos, deveria haver outro nome para isso. Mas o
que mais me surpreendeu no casamento foi a forma como isso alterou o tempo. E
também a forma como acrescentava uma ternura que, de algum jeito, era completamente
nova. Parafraseando o grande Willie Nelson: “Noventa por cento das pessoas no
mundo acabam com a pessoa errada. E é isso que faz a jukebox girar.” A jukebox
de Lou girava em torno do amor e de muitas outras coisas também – beleza, dor,
história, coragem, mistério.
Lou esteve doente nos últimos dois anos, primeiro devido aos tratamentos
com interferon, uma série de injeções nociva, mas às vezes eficaz, que trata a
hepatite C e traz muitos efeitos colaterais desagradáveis. Então ele
desenvolveu câncer de fígado, culminando numa diabetes avançada. Viramos especialistas em hospital. Ele aprendeu tudo sobre doenças e tratamentos. Continuou a praticar
tai chi todos os dias, durante duas horas, além de prosseguir com sua
fotografia, seus livros, suas gravações, seu programa de rádio com Hal Willner
e seus muitos outros projetos. Ele amava seus amigos e ligava, mandava
mensagens de texto e e-mails quando não podia estar com eles. Tentamos
compreender e aplicar os ensinamentos do nosso professor, Mingyur Rinpoche –
especialmente os difíceis, como: “Você precisa tentar dominar a capacidade de se
sentir triste sem realmente estar triste”.
Na primavera passada, no último minuto, ele recebeu um
transplante de fígado, que pareceu funcionar perfeitamente, e recuperou quase
instantaneamente a saúde e a energia. Então, isso também começou a não
funcionar, e não havia saída. Mas quando o médico disse: “É isso. Não temos
mais opções”, a única parte que Lou ouviu foram “opções” – ele não desistiu até
a última meia hora de sua vida, quando, de repente, aceitou – tudo de uma vez e
de uma vez por todas. Estávamos em casa – eu o havia tirado do hospital alguns
dias antes – e mesmo estando extremamente fraco, ele insistiu em sair pela
manhã ensolarada.
Como praticantes de meditação, estávamos preparados para isso – como
mover a energia da barriga para cima, para o coração e para a cabeça. Nunca vi
uma expressão tão cheia de encantamento como a de Lou quando ele morreu. Suas
mãos estavam fazendo a forma 21 da água corrente do tai chi. Seus olhos estavam
bem abertos. Eu segurava em meus braços a pessoa que mais amava no mundo e
conversava com ela, enquanto ela morria. Seu coração parou. Ele não estava com
medo. Pude caminhar com ele até o fim do mundo. A vida – tão bela, dolorosa e
deslumbrante – não pode ser melhor do que isso. E a morte? Acredito que o
propósito da morte é a liberação do amor.
No momento, sinto apenas a maior felicidade e estou muito orgulhosa da
maneira como ele viveu e morreu, de seu incrível poder e graça.
Tenho certeza de que ele virá até mim, em meus sonhos, e parecerá estar
vivo novamente. E, subitamente, estou aqui sozinha, atordoada e grata. Como é
estranho, emocionante e milagroso que possamos mudar e amar tanto os outros
através de nossas palavras, músicas e vidas.
Meu primeiro encontro com
Lou Reed aconteceu no restaurante do L’Ermitage Hotel, em Los Angeles. Eu era
grande admirador do trabalho solo dele, de Street Hassle em
particular (mais tarde, conheci o Velvet Underground), então me aproximei e me
apresentei. Eu estava em Los Angeles trabalhando na pós-produção de Touro
Indomável (Raging Bull) e convidei-o para se juntar a nós
durante a mixagem final, na única vez que exibimos o filme na costa oeste. Quando
as luzes se acenderam, ele parecia bastante impressionado. Me lembro que ficou
admirado com a maneira como a música, de Mascagni a Louis Prima, foi
utilizada.
Após a exibição, mencionei
que queria fazer um filme baseado num conto chamado In Dreams Begin
Responsibilities, de Delmore Schwartz, que eu havia lido no ano anterior,
quando Bob De Niro e eu estávamos trabalhando no roteiro. Fiquei surpreso
quando ele me contou que tinha sido aluno de Schwartz na Universidade de
Syracuse, e ele ficou igualmente surpreso por eu conhecer essa história
autobiográfica de seu mentor - o homem que foi fundamental para a sua poesia -
e que ela tinha causado um impacto tão profundo em mim. Mais tarde, pensei em
adaptar In Dreams para meu episódio de Contos de Nova Iorque (New York
Stories). Eu gostaria de fazer esse filme um dia.
As letras de Lou têm duas
vidas: a maneira como são cantadas e ouvidas, e a maneira como são lidas na página
impressa. Para mim, só poderiam ter vindo de alguém que cresceu na área de
Nova York e atingiu a maturidade em Manhattan, que se movia, escrevia e cantava na pulsação da vida desta cidade. Elas não só descrevem a cidade como ela era,
mas também a encarnam. Você sente isso nos ritmos (por exemplo, o ritmo
condutor de Street Hassle, definido pela seção de cordas, ou as
guitarras que impulsionam a versão ao vivo de Sweet Jane, para
citar duas favoritas), você sente isso na voz de Lou, e sente nas palavras – na
realidade, elas são uma coisa só. É a essência da linguagem nova iorquina, e
está bem próximo daquilo que eu sempre tentei fazer nos meus filmes, na forma
como os personagens se expressam e falam uns com os outros. Você lê, ou ouve as
palavras, e vê aquelas pessoas, passeando ou esperando ou ganhando a vida nas
esquinas ou conversando nos cortiços ou saindo pelas avenidas.
Pegue esse trecho de Street
Hassle, sobre a mulher que morre de overdose, e o garoto de programa que ela pegou não
sabe o que fazer, tentando se livrar do corpo:
Sabe, algumas pessoas não têm escolha
e jamais podem encontrar uma voz
com a qual conversar -
que ao menos possam chamar de sua
Então, vão atrás
da primeira coisa que
dê a elas o direito de existir
Como isso se chama?
Má sorte
Isso é um
filme.
Lou e eu nos conhecemos com
o passar dos anos. Fiquei muito emocionado quando ele escreveu uma música sobre
mim e Sam Shepard no álbum New Sensations, de 1984 – na
verdade, era sobre os nossos trabalhos, o quanto eles significavam para ele. Em
1987, ele fez o teste para o papel de Pôncio Pilatos do meu filme A Última
Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ), mas seu velho amigo
David Bowie ficou com o papel. Nos anos 90, tentamos fazer um filme baseado
em Dirty Boulevard, música do seu álbum New York, a
partir de um roteiro de Reinaldo Povod, que havia escrito uma peça
chamada Cuba and His Teddy Bear com Bob De Niro, e que mais
tarde faleceu muito jovem.
Nunca conseguimos produzir esse filme. Quando recebi a notícia da morte de Lou, fiquei absolutamente chocado. Havíamos perdido contato, e eu não tinha ideia de que ele estava tão doente. Ele era um grande cantor, um grande escritor, um grande artista nova-iorquino... um grande artista, ponto final. Na verdade, ele falava e cantava a voz dos que estão no fundo poço, da escória, dos “desfavorecidos” – das pessoas que vão atrás da primeira coisa que lhes dá um motivo para existir, para ter uma identidade. Ele falava a língua das pessoas que não têm nada além de sua própria humanidade, dava dignidade a elas. Suas palavras e sua música – algumas vezes tão intrínsecas à vida cotidiana quanto respirar – inspiraram muitas, muitas pessoas, durante anos. Eu sou uma delas.
*
'Quando Lou se despediu, seus olhos escuros pareciam conter uma tristeza infinita e benevolente'
Patti Smith - 3 de Novembro de 2013
Acordei cedo no domingo. Na noite anterior, eu tinha decidido que veria o mar, então coloquei um livro e
uma garrafa de água em uma sacola e peguei uma carona até Rockaway Beach. Eu
estava com a sensação de que a data tinha um significado, mas não conseguia me lembrar de
nada específico. A praia estava vazia e, com a aproximação do aniversário do
furacão Sandy, o mar calmo parecia encarnar a verdade contraditória da
natureza. Fiquei ali por um tempo, acompanhando a trajetória de um avião que voava
baixo, quando recebi uma mensagem de texto da minha filha, Jesse. Lou Reed morreu.
Me encolhi e respirei fundo. Eu o tinha visto com a esposa, Laurie, recentemente,
e senti que ele estava doente. Um cansaço obscurecia seu brilho habitual.
Quando Lou se despediu, seus olhos escuros pareciam conter uma tristeza
infinita e benevolente.
Conheci Lou
no Max’s Kansas City, em 1970. O Velvet Underground fazia duas apresentações por
noite, durante várias semanas daquele verão. O crítico e erudito Donald Lyons
ficou espantado por eu nunca ter visto a banda e me acompanhou escada acima para
a segunda apresentação da primeira noite. Eu adorava dançar, e você podia
dançar por horas ao som da música do Velvet Underground. Um repetitivo surf doo-wop dissonante que permite que
você se mova muito rápido ou muito devagar. Foi minha introdução tardia e
reveladora a “Sister Ray”.
Dentro de
alguns anos, naquela mesma sala, no andar de cima do Max’s, Lenny Kaye, Richard
Sohl e eu apresentamos nossa própria “land
of a thousand dances”. Lou costumava passar por lá para ver o que estava
rolando. Um homem complicado, encorajava nossos esforços, e então se virava e me
provocava como um colegial maquiavélico. Eu tentava ficar longe dele, mas, como
um gato, ele reaparecia de repente e me desarmava com alguma frase de Delmore
Schwartz sobre amor ou coragem. Não entendia seu comportamento errático ou a
intensidade de seu humor, que mudava da mesma maneira como falava, de rápido
para lacônico. Mas compreendi sua devoção à poesia e a qualidade arrebatadora
das suas performances. Ele tinha
olhos pretos, camiseta preta e pele clara. Era curioso, às vezes desconfiado,
um leitor voraz e um explorador sonoro. Um obscuro pedal de guitarra era, para
ele, outra forma de poesia. Ele era nossa conexão com o infame ambiente da Factory.
Ele fazia Edie Sedgwick dançar. Andy Warhol sussurrava em seu ouvido. Lou
trouxe as sensibilidades da arte e da literatura para sua música. Ele foi o
poeta nova-iorquino da nossa geração, defendendo os desajustados como Whitman
defendeu os trabalhadores e Lorca, os perseguidos.
Enquanto minha banda evoluía e fazia covers de
suas músicas, Lou nos abençoava. No final da década de 1970, eu estava me
preparando para deixar a cidade e ir para Detroit quando esbarrei com ele no
elevador do antigo Gramercy Park Hotel. Eu carregava um livro de poemas de Rupert
Brooke. Ele tirou o livro da minha mão e olhamos juntos a fotografia do poeta.
Tão lindo, ele disse, tão triste. Foi um momento de completa paz.
À medida que
a notícia da morte de Lou se espalhava, uma sensação se propagou como ondas e aumentou,
e então explodiu, espalhando-se pela atmosfera com energia hipercinética. Dezenas
de mensagens chegaram até mim. Uma ligação de Sam Shepard, dirigindo um
caminhão pelo Kentucky. Um modesto fotógrafo japonês enviando uma mensagem de
Tóquio: “Estou chorando”.
Enquanto eu pranteava à beira-mar, duas imagens me vieram à mente, deixando sua marca-d’água no céu
cor de papel. A primeira foi o rosto de sua esposa, Laurie. Ela era seu
espelho; nos olhos dela, você pode ver sua gentileza, sinceridade e empatia. O
segundo foi a “grandiosa caravela”, da letra de sua obra-prima, “Heroin”, na
qual ele ansiava embarcar. Imaginei-a esperando por ele sob a constelação
formada pelas almas dos poetas aos quais ele tanto desejava se juntar. Antes de
dormir, procurei pelo significado da data – 27 de outubro – e descobri que era
o aniversário de Dylan Thomas e Sylvia Plath. Lou escolhera o dia perfeito para
zarpar: o dia dos poetas, numa manhã de domingo, o mundo para trás.
Os textos de Laurie Anderson e Patti Smith foram publicados, respectivamente, nas revistas Rolling Stone e The New Yorker. O texto de Martin Scorsese foi publicado na edição atualizada do livro I’ll Be Your Mirror: The Collected Lyrics, de Lou Reed, e no jornal The Guardian.




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