segunda-feira, 15 de abril de 2024

O álbum perfeito que é uma carta de amor


Capa original do álbum Discipline, do King Crimson


    Se uma lista de álbuns de rock perfeitos pudesse ser dividida em categorias, o álbum Discipline, do King Crimson, teria lugar garantido em "originalidade"Em 1981, discretamente, a banda voltava à ativa, sete anos após encerrar um ciclo com cinco formações diferentes, no período de seis anos. O grupo dos anos 1980 incluía dois ingleses, vindos de formações anteriores (Robert Fripp, o fundador, e Bill Bruford), e dois norte-americanos recém-chegados (Adrian Belew e Tony Levin)Discipline, primeiro álbum de uma trilogia gravada pelo quarteto, é um disco raro, one of a kind. Seu som é surpreendente, diferente de tudo o que o King Crimson tinha feito anteriormente. Diferente também de tudo o que se ouvia na época, não ficou datado. E continua muito bom, como disse Cedric Hendrix, do blog CirdecSongs, autor da resenha que fecha este post. Antes dela, um artigo da revista Trouser Press, escrito por David Fricke, que bateu um papo com a banda durante a passagem da turnê de Discipline por Nova York.

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Velhos cult groups nunca morrem (eles apenas se tornam mais populares) - King Crimson vai pra estrada


    David Fricke / Trouser Press                      Março de 1982

    Cinco minutos depois do início do show da noite de estreia do King Crimson no Savoy, em Nova York, um destrambelhado roqueiro pós-hippie de olhos esbugalhados (traços distintivos: cachos pretos desgrenhados na altura dos ombros, camiseta preta desbotada do Genesis, calça jeans azul que poderia provavelmente andar sozinha) irrompe pela porta do clube, corre pelo saguão, ignora o bar, e para repentinamente no fundo do salão. Medindo pouco mais de um metro e oitenta de altura, ele estica o pescoço em todas as direções para ver o palco por cima das cabeças e ombros de centenas de outros Crimson freaks que chegaram antes.

“Cadê o Fripp?”, ele uiva, incapaz de localizar o convidado de honra. Ao lado, o amigo, uma cabeça e meia mais alto, explica calmamente que Robert Fripp está tocando guitarra sentado em um banquinho, à direita do palco, logo abaixo de sua linha de visão. “Puta merda! Ele está sentado”, o destrambelhado repete (obviamente sem saber que Fripp nunca atuou em outra posição); admiração e adoração ressoam em sua voz embargada, assim como acontece em assobios e gritos de “Crimson!”, “Bruford!” e “Fuckin’ A-a-y!” que ecoam pela casa lotada. Para os cultistas do rock progressivo/art-rock, fustigados pelos ventos desdenhosos do punk - aqueles que testemunharam as duras vitórias artísticas conquistadas por Crimson, Genesis e muitos outros, do início ao meio dos anos 70, e desde então cooptados por armações pop como REO Speedwagon e Styx - o King Crimson vive novamente. Vida longa ao rei.

Mas o retorno do King Crimson não é apenas uma celebração. Como tudo o que envolve Crimson e Fripp, há lições a serem aprendidas, preconceitos a serem reconsiderados. As probabilidades são de que a maioria dos fãs no Savoy são da variedade (pré-punk) da Trouser Press original: anglófilos apaixonados que usam acessórios do Crimson como medalhas de honra - buttons, camisetas antigas e até mesmo uma jaqueta jeans lindamente decorada com o sorridente sol vermelho da capa interna do álbum In the Court of the Crimson King. Mostram grande e legítimo respeito pela destreza e pela criatividade do baterista Bill Bruford, cujas façanhas anteriores com o Yes e o antigo Crimson já constituem um capítulo considerável da história do art-rock. Provavelmente, conhecem o baixista Tony Levin por seu trabalho com Peter Gabriel e Fripp, no seu álbum Exposure. Podem até estar razoavelmente familiarizados com as incursões do fundador Fripp na ambiente music, através dos Discotronics, e no art-punk do efêmero League of Gentlemen.

Todos, no entanto, compartilham a convicção de que esta não é uma reunião oportunista. Aqueles que pagaram pelos ingressos sempre admiraram o King Crimson não apenas pela música, mas pelo que ele representa. Assim, a destruição de cordas flexionadas do guitarrista Adrian Belew (cujas credenciais com Frank Zappa, David Bowie e Talking Heads provavelmente não tenham muito peso junto a este público) obtém a mesma recepção entusiástica que o psycho-solo eletrizante de Fripp. O público reconhece o mesmo comprometimento que há no material do recente álbum Discipline, e em peças novas ainda não gravadas, também nas reprises ao vivo de “Red” e “Larks’ Tongues Aspic, Part Two”.

Apesar das duras críticas que recebe de uma imprensa dissimulada, que o considera um rebanho de obstinadas ovelhas saudosistas, esse público foi construído com base na confiança. Ele está disposto a confiar até naquilo que talvez não entenda inteiramente, seja na música de Fripp como nas prolixas filosofias que a acompanham. Ele confia porque o King Crimson nunca o decepcionou.

Robert Fripp

No dia seguinte ao show do Savoy, Bill Bruford, 32 anos, tenta explicar essa confiança. “Notei que o público está muito feliz conosco e com a nossa música”, diz ele naquele estilo britânico espirituoso que contrasta tão intensamente com o humor acadêmico seco de Fripp. “É óbvio que usar o nome King Crimson trouxe de volta os antigos fãs. [A banda foi originalmente chamada de Discipline, daí o título do LP.] Acho que levará algum tempo para as ideias surtirem efeito. Mas acho que os antigos fãs que conheço não ficaram desapontados. Eles parecem gostar. Estão respondendo a um esforço nosso; sabem que não é uma reunião qualquer. São os dois pontos principais desta turnê - é um esforço real, não apenas uma reunião. E isso é um bom começo.”

Fripp, como sempre, tem poucas palavras sobre o assunto. “Há uma nova possibilidade de uma relação positiva entre performer e artista que não existia há cerca de 12 anos. Estamos encontrando muitas pessoas que não carregam as cicatrizes dos excessos dos anos 70, que são jovens o suficiente [ou apenas estariam dispostas o suficiente?] para recomeçar. Nossas melhores reações vêm daquelas pessoas que não têm ideia de quem foi ou é o King Crimson.”

Aqueles que têm uma ideia não estão apenas respondendo automaticamente. “Achei que quando tocássemos nos Estados Unidos”, continua Bruford, “haveria muitos gritos de ‘Schizoid Man’ e tudo mais. Não houve. Ouvi muitos gritos de ‘Bruford’ e ‘Frippertronics’, – você sabe que o público tem aquele instinto animal natural - mas nada como ‘Schizoid Man’. Acho que as pessoas estão subestimando nosso público. Eles não são ovelhas.”

Na verdade, ele possuem habilidades intuitivas notáveis. Na estação de metrô da Times Square, após o show do Savoy, um grupo de fãs radicais do Crimson disseca o set; quando o trem chega, eles concordam que foi um sucesso absoluto. “Sabe”, anuncia um deles ao entrar no metrô, “Fripp está de volta ao lugar a que pertence”.

Fripp não discordaria.

“Robert tem declarado repetidamente que esta é a banda dos seus sonhos”, diz Adrian Belew, o primeiro a tomar a dianteira de um dia inteiro de conversas do Crimson no escritório da Island Records, em Nova Iorque. “Ele sonha com isso há quatro ou cinco anos.”

Belew sonha com isso há muito mais tempo. Um americano afável com a linha do cabelo no estilo Eno e uma jovial cara de esquilo, Belew é um Crimson freak de longa data. “De repente, fazer parte disso”, fala entusiasmado, “foi como entrar para os Beatles ou algo assim”.

Seu recrutamento para a banda foi bastante repentino. Ele e Fripp se conheceram em um show de Steve Reich, em Nova Iorque, onde Belew estava finalizando a gravação do álbum Lodger, de David Bowie. Eles se entenderam, e a banda Ga-Ga, de Belew, abriu cinco shows na cidade para a League of Gentlemen. Quando Belew passou por Londres com o Talking Heads, no início do ano passado, Fripp fez o convite. Bruford diz que ele e Fripp estavam juntos como uma “banda” há dois dias quando Belew entrou em cena.

Fripp afirma que Belew tinha reservas em se juntar à banda. Belew descreve a situação simplesmente como uma crise de confiança. “Quando entrei na banda, fiquei inseguro pela primeira vez em 21 anos como músico. Eu achava que tudo que eu estava fazendo era uma porcaria. Eu não conseguia escrever músicas, e comecei a sentir que talvez não poderia cantar. Sinceramente, senti que não tinha alguma contribuição artística para dar, e sabia da grande responsabilidade de ser vocalista, letrista e compartilhar as responsabilidades de guitarra com Robert.”

O encorajamento de Fripp e Bruford apenas complicou as coisas, uma vez que Belew tinha por ambos uma admiração considerável. A virada ocorreu durante os ensaios, quando o grupo incluiu Tony Levin, que sacrificou um lucrativo trabalho de session musician para ingressar na banda. Belew estava ensaiando com uma guitarra Roland, como a de Fripp, tentando adaptar seu estilo de tocar - um som elástico, com feedback pesado, em comparação com a distorção límpida e os repiques em staccato de Fripp - em um instrumento desconhecido; além disso, ele também estava suando para escrever as letras. Na terceira semana, Belew estava com os nervos em frangalhos.

Adrian Belew

“Então eu percebi: ‘Ei, não estou tocando a minha guitarra. Estou basicamente soando como Robert. Onde está a minha voz nisso?’ Então peguei minha Stratocaster, encordoei-a, e tudo mudou.”

“O próximo passo foi o vocal. Quando comecei a fazer meus sons e minhas coisas, todo mundo disse: ‘Agora, sim, Adrian, você finalmente está na banda’. Só me recuperei depois de quatro semanas, pouco antes do início dos shows.”

Não é surpresa que Belew, um cara descontraído e amigável, tenha gostado da mudança do nome Discipline para King Crimson. Ele traça um paralelo entre Fripp e o patrão anterior, Frank Zappa, ambos disciplinadores de temperamento ligeiramente diferente.

“Frank explica tudo para você; Robert apenas dá uma forma e um contorno, e cada um é livre para fazer suas próprias peças. Mas o tipo de abordagem para executar o material é o mesmo." Compare, por exemplo, as faixas “Discipline” e “Indiscipline” do novo álbum. A primeira começa como uma guitarra muito Frippiana em 15/8, sobrepondo-se a um compasso cinético de Bruford em 17/8. Tudo o que Belew fez foi delinear sua parte e se entender com Robert.

“'Indiscipline' começou como veículo para um ritmo bastante errático. Originalmente um solo de bateria com um riff pendurado nele, quase foi descartado. Eventualmente, criei uma pequena melodia, Robert criou uma frase, e, ainda assim, pensamos que não era o suficiente."

“Eu sabia que precisava de um vocal, mas não conseguia pensar em nada para cantar. Então pensei em fazer um discurso ao longo da música. Fizemos isso no último dia de gravação. Peguei uma carta de minha esposa sobre uma pintura que ela havia feito. Tirei as linhas do contexto, sem especificar qual era o assunto, e adicionei algumas linhas de minha autoria. Ficou uma música bastante indisciplinada.” (o discurso vocal de Belew encantou os Crimson freaks, que já devem ter decorado aquelas linhas, adicionando e subtraindo-as durante os shows.)

Outro exemplo da espontaneidade de Belew é seu relato exaltado, em “Thela Hun Ginjeet” (um anagrama de “Heat in the Jungle”, título provisório da música), de dois encontros pouco amigáveis pelas ruas de Londres, onde a banda estava gravando; primeiro com uma multidão de negros enfurecidos, depois com dois policiais autoritários. Ele entrou imediatamente após o acontecido, “muito abalado e nervoso”, e contou a história para todos no estúdio. “Então, sem que ninguém percebesse, Robert ligou o gravador e me pediu para repetir a história para várias outras pessoas. É o que você ouve na música.”

Questionado se concorda com a filosofia e os ensinamentos de Gurdjieff, seguidos por Fripp, Belew (cujo álbum solo acaba de ser lançado pela Island) admite que declarações profundas não são seu estilo. “Gosto de coisas expansivas, de enxergar o lado divertido delas. Eu não sabia se isso seria aceito aqui. Brincadeiras não parecem ser a coisa mais adequada no King Crimson.”

A orientação da Warner Bros. é para que Robert Fripp não dê entrevistas formais nesta turnê. O guitarrista de 35 anos já havia passado por uma terapia de choque de entrevistas, algumas semanas antes do lançamento de Discipline. Além disso, seu recente diário na revista Musician Player and Listener deixa pouco para a imaginação, explicando tudo o que você queria saber sobre o novo Crimson, mas tinha tido medo de perguntar. Quanto às histórias antigas do Crimson, consulte a entrevista de Fripp, publicada três partes nas primeiras edições da Trouser Press.

Fripp consente, no entanto, com uma breve conversa para esclarecer alguns pontos anteriormente inexplicáveis - como a verdadeira natureza da “experiência” (como ele disse à revista Musician), pela qual ele reconheceu Discipline como King Crimson. “Pode ser que as pessoas cínicas digam que Fripp é um charlatão. Mas, quando começamos a ensaiar como um trio [antes de Levin entrar], eu sabia que essa qualidade de energia, que era o aspecto icônico do King Crimson, estava disponível para esta banda, se quiséssemos nos conectar a ela.

“É uma experiência sutil, mas totalmente real. Não sinto que preciso me desculpar ou explicar o que a banda é. Para mim, é totalmente real. Minha sensação é que essa banda é o King Crimson. Para mim, é dolorosamente óbvio, e qualquer um que a acompanha isso sabe. Você não pode formar o King Crimson; você não pode reformar o King Crimson; você não pode formar uma banda e chamá-la de King Crimson. Para essa banda, isso não é possível. Esta é uma banda especial porque ela é muito comum.”

“Comum” não é a palavra que a maioria das pessoas usaria para descrever as imagens deslumbrantes, em última análise, dramáticas do letrista original Peter Sinfield e o classicismo rico e de altos decibéis de In the Court of the Crimson King, In the Wake of Poseidon e Lizard; a melancólica levada barroca do assustadoramente belo Islands; o grito primal e as improvisações heavy-metal do grande quarteto Fripp/Bruford/David Cross/John Wetton, em Larks’ Tongues in Aspic, Starless and Bible Black e Live U.S.A.; ou o evocativo último suspiro de Red. Não, Crimson não é uma palavra comum. Mas, como um dos art-rockers originais, o King Crimson não poderia ser, em parte, responsabilizado pelos excessos subsequentes do rock em geral (e do art-rock em particular) criticados por Fripp nos últimos anos?

Tony Levin

Sem hesitar, sua resposta é não. “O movimento do qual Crimson foi um dos fundadores - alguns dirão o fundador – perdeu o rumo. O Crimson foi parcialmente culpado porque continuamos a fazer parte disso, mas quando chegou a hora de parar, fomos a única banda a parar. Isso prova um ponto sobre as credenciais da banda.”

E o que Fripp considera ser a diferença essencial entre o novo e o antigo Crimson, ou entre esta banda e os projetos efêmeros (League of Gentlemen, por exemplo) de seu recém-concluído Drive to 1981?

“Esta”, declara ele, “é a primeira banda que formei, na qual eu disse que gostaria de determinar os parâmetros de ação. Não para ser um ditador, mas um cara dizendo: ‘Este é o campo do jogo; agora vá jogar e eu vou jogar com você.’ É iniciar uma situação na qual você possa concentrar energia.”

“Houve reservas. As reservas de Adrian em se envolver com esta banda são uma observação totalmente precisa. Eu tinha reservas em me envolver com essa banda. Não é uma banda para se encarar levianamente. É um compromisso.”

Nesse ponto, Bill Bruford entra na sala, pronto para se juntar ao debate. Fripp e Bruford tiveram diferenças altamente divulgadas no passado, e o diário de Fripp menciona atritos no início de Discipline. Quais foram as reservas de Bruford?

Fripp, de repente, salta da cadeira. “É hora de partir”, ele anuncia. “Robert, não há necessidade de sair”, insiste Bruford, presumindo que a pergunta tenha causado algum desconforto. “Não”, diz Fripp, abrindo um de seus sorrisos enigmáticos, “não é que eu queira ir embora, mas preciso. Acho que vou sair para comer um bolo de chocolate”.

E assim foi.

“Eu fui o amante abandonado, o amante do King Crimson”, continua Bruford; seu rosto juvenil e animado revela o entusiasmo pelo assunto. Bruford juntou-se ao King Crimson no final de 1972, deixando uma associação lucrativa com o Yes para seguir pelo caminho errático de Fripp.

“Há um número pequeno de grupos”, disse ele, naquela época, “que, de certa forma, caminham até a beira do precipício, além do qual só existe escuridão, uma espécie de vazio, e eles ficam diante dele na esperança de que esse é o caminho a seguir, mesmo que, de alguma forma, saibam que não devam ir em frente, que esse caminho está completamente errado. Sinto que o King Crimson é um desses grupos.”

Crimson passou os dois anos seguintes diante desse vazio; quando Fripp ordenou a retirada, em 1974, Bruford ficou arrasado. “Eu estava envolvido emocionalmente – embora, intelectualmente, eu soubesse que não deveria estar - e quando Robert terminou a banda, eu fui o amante abandonado. Eu queria continuar junto. Quando Robert me pediu para voltarmos, minha única preocupação era não ser abandonado novamente.”

Bill Bruford

Tendo liderado sua própria banda nos últimos três anos, Bruford realmente aprecia a oportunidade para bater de frente com Fripp. (“Eu provavelmente dou o melhor que posso”, ele admite.) Durante os primeiros dias de Discipline, porém, Bruford diz que ele e os outros membros da banda lidaram cautelosamente com Fripp, temendo que a palavra ou nota errada pudesse levá-lo a abandonar o projeto. "Ele estava voltando ao campo de batalha, e não acho que alguém quisesse assustá-lo. Algumas pessoas ainda perguntam por que o grupo anterior parou, e eu ainda não sei. Tenho minhas suspeitas, mas não sou um grande psicanalista." Apesar de todas as pequenas discórdias, Bruford e Fripp andam juntos como yin e yang. Para usar uma metáfora esportiva, Fripp projeta o campo de críquete, mas quem joga é Bruford. Ou, como Bruford explica: “Tudo começa como um fluxo negativo, que eliminaria os mais fracos. ‘Não faça isso, não faça aquilo, eu sugiro que você não faça isso. Aliás, também recomendo que você não faça isso.’ Você está em uma prisão e precisa encontrar uma saída. Eu gosto bastante disso. Devo ser masoquista ou algo assim, mas não me sinto bem até ser preso e me digam para encontrar uma maneira de contornar isso. Esse é o desafio.” Em outras palavras, a disciplina (de acordo com a inscrição na contracapa do álbum) “nunca é um fim em si, apenas um meio para um fim”.

O que preocupa Bruford em meio a toda essa tagarelice sobre bandas da primeira divisão, crises de confiança, a qualidade da energia Crimson, etc., etc. é que o King Crimson faz primeiro a música e fala depois. Para alguém com o dom da retórica, Fripp pode ser um homem de poucas palavras. Originalmente, Bruford se juntou ao Crimson quando Fripp foi jantar em sua casa carregando guitarra e amplificador. Depois do jantar, Fripp sugeriu que tocassem um pouco juntos. Era uma audição.

O mesmo vale para a nova banda. Fripp passou pela casa de Bruford “e fez o de sempre: me perguntou: ‘O que você faria se eu fizesse isso?’ Eu diria que faria algo e ele diria “‘Errado, tente outra coisa.’

“Não conversamos muito sobre isso, embora fosse impossível saber se não conversássemos. Quando os músicos se reúnem, eles tocam mais do que falam.”ér

"Veja, eu gosto de tocar", continua Bruford. "É DIVERTIDO. Só espero que olhemos para o lado alegre, otimista, disso, e não nos levemos muito a sério, que apenas toquemos um pouco de música e não nos deixemos levar por discussões. Não quero que as pessoas sintam que precisam de um doutorado em ciências comportamentais para entender o King Crimson. Não é assim."

Bruford sorri, meio timidamente. “É apenas um grupo pop com algumas boas ideias. Quanto mais nos lembrarmos disso, mais todos irão curtir. 

***

King Crimson, Discipline (1981)


    Cedric Hendrix / Blog CirdecSongs          15 de Outubro de 2019

    Fique bastante tempo ao meu lado, e esse álbum certamente vai aparecer pelo caminho.

Esta é a principal resposta à pergunta: “Como você chegou a essa música tão extraordinária?”. Outros álbuns apareceram pelo caminho, com certeza. Mas Discipline, do King Crimson, foi o que definitivamente abriu a porta. Em mais de uma ocasião, referi-me a ele como meu ponto de partida musical. Quem eu sou musicalmente tem, direta ou indiretamente, tem suas raízes aí.

Esta é a banda que mudou tudo para mim. Não é o King Crimson original, formado em 1969, cujo único membro remanescente é Robert Fripp. Refiro-me ao quarteto de 1981-84, que foi a minha introdução e, portanto, tem maior importância para mim.

Ironicamente, só fui apresentado a essa banda um ano depois de eles se separarem. Igual ironia foi a música “Three of a Perfect Pair”, faixa-título do terceiro álbum da banda, que ouvi pela primeira vez no verão de 1985. Felizmente, ela fazia parte de uma fita contendo a maior parte das músicas que o grupo produzira anos 80, junto com algumas outras de Exposure, álbum-solo de Robert Fripp. Quando consegui os discos do Crimson dos anos 80, comecei por Discipline. Nada foi o mesmo desde então.

Discipline foi descrito pela banda como o álbum de "lua de mel", o que faz sentido. Fripp dissolveu o King Crimson em 1974, supostamente para sempre. Quando decidiu formar uma nova banda em 1980, apenas o baterista da formação anterior, Bill Bruford, permaneceu. Esta versão da banda viu dois ingleses se se juntarem a dois americanos, Adrian Belew e Tony Levin. Cada membro, além do imenso talento musical, trouxe para o grupo o que havia de mais moderno em tecnologia. Fripp e Belew adotaram os sintetizadores de guitarra Roland, Levin tinha o Chapman stick e Bruford aumentou sua bateria com os pads eletrônicos Simmons. Ao contrário de outras bandas daquela época, o King Crimson teve o bom gosto de não usar excessivamente esses novos brinquedos. Isso evitou que Discipline envelhecesse como as outras músicas da mesma época.

Desde a primeira nota, não havia dúvida de que esta banda desbravava um novo território musical, usando os estilos musicais de então como ponto de partida. “Elephant Talk”, que abre o álbum, tinha um sabor new wave distinto, ao mesmo tempo que soava como nada do que era produzido na música daquela época.

Embora minha fita tivesse me familiarizado com a música, foi preciso ouvi-la na sequência correta para melhorar minha apreciação. Discipline é um álbum notavelmente bem equilibrado. “Frame by Frame” intensifica um pouco mais o nível de energia, com as coisas parecendo ficar à beira do descontrole, apenas para serem trazidas de volta à terra pelas linhas entrelaçadas das guitarras 7/8 de Fripp e Belew. Não que “voltar à terra” tornasse as coisas mais banais. “Matte Kudasai”, sem dúvida a melhor balada do Crimson da era Belew, dá ao ouvinte um ou dois momentos para respirar e processar o que está acontecendo. Mas, à sua maneira, esta música também é brilhante.

As coisas se aceleraram novamente com “Indiscipline”, uma maravilhosa obra de arte abstrata envolta num ataque frenético próximo do avant-garde rock. O vocal de Belew (com a letra baseada em uma carta de sua esposa sobre uma pintura feita por ela) e os uivos da guitarra são apenas parte de uma mistura letal, com a bateria agressiva de Bruford e os acordes incomuns de Fripp. Em meio a tudo isso, está Levin, mantendo a estabilidade rítmica e dando ao resto da banda um centro para onde voltar.

Thela Hun Ginjeet” transforma brilhantemente uma experiência assustadora que Belew teve nas ruas do leste de Londres em arte hipercinética. Em “The Sheltering Sky”, as coisas, relativamente, se acalmam novamente, graças ao ritmo do tambor de fenda africano de Bruford, ao Chapman stick de Levin, à nuvem sonora de Belew e ao timbre abstrato da zurna (instrumento de sopro turco) de Fripp. O som, não menos do que etéreo, deixa o ouvinte praticamente flutuando, sustentado pela combinação dos elementos. É difícil descrever o profundo impacto que essa música teve sobre mim emocionalmente.

As coisas chegam a um final bem sincronizado na faixa-título, com a deliciosa sobreposição das guitarras em 5/4, a personalíssima assinatura 17/4 de Bruford e a constância do stick de Levin. Embora o álbum possa deixar o ouvinte querendo mais, é muito mais proveitoso apenas tocá-lo novamente, e continuar a absorver os sons notáveis que ele oferece.

Este é um daqueles momentos em que a minha ignorância realmente foi uma bênção. Eu desconhecia a música original do King Crimson, o que significa que não fiquei preso ao som que a banda havia gravado entre 1969 e 1974. Após seu lançamento, Discipline atraiu uma reação negativa considerável por parte dos fãs “originais”, que esperavam que Fripp continuasse de onde parou com Red, o álbum de 1974. Em vez disso, Fripp fez uma curva rápida à esquerda, deixando a maior parte daquele som para trás, enquanto inovava com o novo grupo. Sua intenção inicial era batizar a banda de Discipline. Mas quanto mais o trabalha do grupo evoluía, mais seu líder acreditava ter, de fato, encontrado a nova encarnação do King Crimson. Quem sou eu para discutir? 

Discipline é perfeito. Para ser claro, sua música é única. Francamente, ainda é! Novos ouvintes terão um choque sonoro, pois muito do que eles sabem de música será demolido. Antes ou depois dele, nada do que foi feito tem som semelhante. O que mais se aproxima é a banda suíça Sonar, que elevou o som interligado de guitarras a um nível diferente. Mesmo assim, é uma abordagem que não se parece em nada com este álbum.

Eu ainda não tinha abraçado totalmente o jazz quando ouvi este álbum pela primeira vez. E embora eu tivesse ouvido alguns trabalhos brilhantes do gênero, como Genesis e Supertramp, o King Crimson foi o elo que faltava. Eles me mostraram o que é realmente possível com quatro pessoas, seus instrumentos, letras inteligentes e a disposição para levar tudo ao limite, que se danem as consequências. Tenho escutado Discipline por mais de 30 anos, e ele nunca, jamais envelheceu.

Fripp gosta de dizer que um álbum do King Crimson é uma carta de amor, enquanto um show é um encontro ardente. Discipline, aos meus ouvidos, é a mais amorosa das cartas. Para mim, foi o melhor começo de um relacionamento musical de mais de três décadas. Sempre que ouço este álbum, aprendo alguma coisa.

Ele é perfeito.


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