quarta-feira, 19 de junho de 2024

Super-heróis, dos comics ao cômico


Charge de Ziraldo sobre a derrota dos EUA no Vietnã 


    Não foi só o cartunista Sergio Aragonés - nascido na Espanha, criado no México e radicado nos EUA - que, em 57 anos na revista MAD e em duas revistas de 1996, massacrou e destruiu os super-heróis da Marvel e da DC Comics. Um cartunista, nascido em Caratinga, interior de Minas Gerais, fez o mesmo a partir da década de 1960. Tudo começou nos anos 1940, quando um garoto chamado Ziraldo, fã de histórias em quadrinhos, desenhava seus próprios gibis, em que a grande estrela era o Capitão Tex.

Vinte anos depois, Ziraldo faria cartuns e charges que parodiavam os super-heróis norte-americanos - tudo temperado com um humor bem brasileiro. Criou a série Zeróis, publicada no Caderno B, suplemento do Jornal do Brasil, e deitou e rolou sobre eles também no Pasquim, jornal que ajudou a fundar durante a ditadura militar. Isso sem falar da personagem The Supermãe, criada em 1968, cujas aventuras foram publicadas no JB e na revista Cláudia até os anos 1980.


Durante a 2ª Guerra Mundial e o período da Guerra Fria, os super-heróis encarnavam o patriotismo e divulgavam o poderio bélico-científico dos EUA. Capitão América, cujo uniforme perece ter sido costurado com retalhos da bandeira norte-americana, enfrentava os nazistas. Para combater os comunistas, Tony Stark vestiu pela primeira vez a armadura do Homem de Ferro na Guerra do Vietnã - entre seus principais inimigos, estavam o chinês Mandarim o soviético Dínamo Escarlate (ou Dínamo Vermelho). O monstro verde Hulk surgiu de uma experiência do exército que saiu do controle.

Ziraldo desconstruiu e ridicularizou os super-homens made in USA colocando-os em situações banais do cotidiano, como um ser humano qualquer, ou utilizando-os como pretexto para criticar a política imperialista do seu país de origem. 


Entre suas charges e cartuns que parodiavam os super-heróis, três ficaram bastante conhecidas: o Capitão América, após passar o dia lutando contra os inimigos, vai para a cama com uma loura voluptuosa, mas dorme de cansaço; Superman, flagrado em um momento de vulnerabilidade no vaso sanitário; os cinco principais super-heróis da Marvel fugindo apavorados de um vietnamita. Esta charge, sobre a derrota dos EUA na Guerra do Vietnã, parodiava um anúncio publicitário, patrocinado pela multinacional Shell, que promovia o lançamento dos super-heróis da Marvel no Brasil (em HQs e na TV), publicado em gibis por volta de 1967.


Outro brasileiro, gaúcho de Porto Alegre, que também incursionou pelo universo dos homens superpoderosos, foi Luís Fernando Veríssimo, pai dos super-heróis práticos. Quando você estiver em apuros, não hesite em chamá-los.


***

Os super-heróis práticos

    Luís Fernando Veríssimo 

    Não precisamos de homens providenciais, com super-poderes, para resolver as questões da vida e da morte. Precisamos de pequenos heróis com respostas para os problemas de todos os dias, mesmo porque a vida é feita de todos os dias. Por isso, pensei em lançar uma série de aventuras contando as histórias dos super-heróis práticos e assim inspirar nossos políticos. Pra começar, uma aventura de Plect, o Homem Grampeador.

Estamos num escritório. Um homem e uma mulher, cada um na sua mesa. A mulher olha em volta, à procura de alguma coisa.

- Maldição...-diz a mulher.

- O que foi, Lana?

- Preciso de alguma coisa para prender estas folhas...você pode me ajudar?

- Infelizmente, não. Tenho apenas um clip, mas está torto.

- Não adianta. Oh, Kevin. Você não serve para nada, mesmo.

- Desculpe, Lana. Com licença, preciso ir ao banheiro.

O homem retira-se. É sempre assim, pensa Lana. Quando eu preciso dele, Kevin sempre dá um jeito de desaparecer. E agora, como vou juntar estes papéis?

O homem reaparece, Só que agora sem óculos e bestindo a roupa de Plect, o Homem Grampeador.

- Posso ajudá-la?

- Homem Grampeador!Ele pega os papéis da mão de Lana.

- Acho que posso resolver isto...Com um golpe do seu punho, grampeia os papéis e devolve-os a Lana.

- Pronto.

- Oh, Homem Grampeador. Você é maravilhoso.

- Obrigado!

Ele sai. Daí a pouco reaparece Kevin ajeitando os óculos.

- Hmm - diz Kevin - Vejo que você encontrou um grampeador...

- O Homem Grampeador esteve aqui!

- Homem Grampeador?

- Aquilo sim é que é homem. Não é como alguns que eu conheço, com seu clip torto...

- Puxa, Lana, sempre que acontece alguma coisa excitante eu estou longe! 

*

E agora...o Homem Saboneteira!

Cheryl odiava quando acontecia aquilo. A espuma a impedia de abrir os olhos e ela não conseguia recolocar o sabonete no seu lugar.

- Eu sou uma tola mesmo - pensou Cheryl tateando a parede do box cegamente à procura da saboneteira. Geralmente à encontrava, mas era irritante perder aqueles preciosos segundos, quando poderia estar esfregando seu corpo magnífico sob o chuveiro. Desta vez, no entanto, por mais que tentasse, Cheryl não encontrou a saboneteira. Pensou simplesmente em soltar o sabonete no chão, mas era perigoso. Poderia escorregar nele e cair, machucando-se. Começou a entrar em pânico. O que fazer?

Foi quando sentiu que não estava sozinha sob o chuveiro.

- Oh! - fez Cheryl.

- Não se assuste - disse uma voz de homem, respeitosa, mas firme - Solte o sabonete.

- Mas...

- Confie em mim.

Chery abriu a mão, deixando cair o sabonete. Em seguida, usou as duas mãos para afastar a espuma dos olhos. Abriu os olhos e deu com um homem forte e bonito ao seu lado, usando apenas uma sunga prateada em forma de concha. Ele estava sorrindo.

- Que-quem é você? - gaguejou Cheryl.

- Alguns me chamam de Homem Saboneteira. Você está bem?

- Oh, sim. Obrigada!

O homem colocou o sabonete no seu lugar e começou a sair do box. Cheryl o deteve com um gesto.

- Homem Saboneteira!

- Sim?

- Você não quer...ajudar a me enxugar?

Ele sorriu.

- Não posso, mocinha. Neste momento, há muitas outras pessoas na mesma situação em que você estava, nesta cidade. Elas precisam de mim.

- Oh, sim, compreendo - disse Cheryl. E suspirou, resignada, enquanto o Homem Saboneteira saía rapidamente do banheiro, deixando um rasto de pegadas molhadas no chão. Ele voltará, pensou Cheryl, destampando o xampu. 

*

Para finalizar, uma aventura do Homem Crase!

Eduardo mordia a ponta da caneta nervosamente. Era o dia da prova de Português e ele tinha que passar naquela prova. Se não passasse, sua vida estaria arruinada. Adeus férias, adeus planos, adeus tudo. E ali na sua frente estava a mesma dúvida que o perseguira o ano inteiro. Aquele "a" levava ou não crase? Eduardo lembrou-se do que lhe contara a irmã mais velha, que era secretária com redação própria, mas nunca aprendera a regra da crase. Quando tinha dúvidas, chamava o Homem Crase. O Homem Crase defendia os oprimidos onde quer que se falasse e, principalmente, se escrevesse o Português. Mais pessoas não recorriam a ele simplesmente porque não sabiam da sua existência. Bastava dizer "Alguém, me ajude" que o Homem Crase se materializaria e diria se a crase cabia ou não. Eduardo não acreditara naquela história da irmã, mas por que não tentar? Disse, baixinho: "Alguém...me ajude!"

"Estou aqui", disse uma voz ao seu lado.

O Homem Crase aparecera discretamente, sem relâmpago ou estouro.

Seu uniforme também era simples. A única ornamentação era uma crase dourada no peito.Depois de orientar Eduardo sobre a crase (não havia), ele desapareceu tão rapidamente quanto aparecera. E - o que mais encantou Eduardo - sem dizer nada parecido com " Desta vez eu o ajudei, mas trate de aprender a regra, rapaz". Eduardo só teve tempo para dizer "Obrigado, Homem Crase!", antes de ele sair voando pela janela.


Ziraldo foi desenhista, escritor, jornalista e humorista. Faleceu aos 91 anos, em abril de 2024.

Luis Fernando Veríssimo é escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo e saxofonista nas horas vagas. O texto de sua autoria foi publicado no jornal O Estado de São Paulo. Ziraldo 

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