Charge de Ziraldo sobre a derrota dos EUA no Vietnã
Não
foi só o cartunista Sergio Aragonés - nascido na Espanha, criado no México e radicado nos EUA - que, em 57 anos na revista MAD e em duas revistas de 1996, massacrou e
destruiu os super-heróis da Marvel e da DC Comics. Um cartunista, nascido em
Caratinga, interior de Minas Gerais, fez o mesmo a partir da década de 1960. Tudo começou nos anos 1940, quando um garoto chamado Ziraldo, fã de histórias em quadrinhos, desenhava seus próprios gibis, em que a grande estrela era o Capitão Tex.
Vinte anos depois, Ziraldo faria cartuns e charges que parodiavam os super-heróis norte-americanos - tudo temperado com um humor bem brasileiro. Criou a série Zeróis, publicada no Caderno B, suplemento do Jornal do Brasil, e deitou e rolou sobre eles também no Pasquim, jornal que ajudou a fundar durante a ditadura militar. Isso sem falar da personagem The Supermãe, criada em 1968, cujas aventuras foram publicadas no JB e na revista Cláudia até os anos 1980.
Durante a 2ª Guerra Mundial e o período da Guerra Fria, os super-heróis encarnavam o patriotismo e divulgavam o poderio bélico-científico dos EUA. Capitão América, cujo uniforme perece ter sido costurado com retalhos da bandeira norte-americana, enfrentava os nazistas. Para combater os comunistas, Tony Stark vestiu pela primeira vez a armadura do Homem de Ferro na Guerra do Vietnã - entre seus principais inimigos, estavam o chinês Mandarim e o soviético Dínamo Escarlate (ou Dínamo Vermelho). O monstro verde Hulk surgiu de uma experiência do exército que saiu do controle.
Ziraldo desconstruiu e ridicularizou os
super-homens made in USA colocando-os em situações banais do cotidiano, como
um ser humano qualquer, ou utilizando-os como pretexto para criticar a política imperialista do seu país de origem.
Entre
suas charges e cartuns que parodiavam os super-heróis, três ficaram bastante conhecidas: o Capitão América, após passar o dia lutando contra os inimigos, vai
para a cama com uma loura voluptuosa, mas dorme de cansaço; Superman, flagrado em um momento de vulnerabilidade no vaso
sanitário; os cinco principais super-heróis
da Marvel fugindo apavorados de um vietnamita. Esta charge, sobre a
derrota dos EUA na Guerra do Vietnã, parodiava um anúncio publicitário, patrocinado pela multinacional Shell, que
promovia o lançamento dos super-heróis da Marvel no Brasil (em HQs e na TV),
publicado em gibis por volta de 1967.
Outro brasileiro, gaúcho de Porto Alegre, que também incursionou pelo universo dos homens superpoderosos, foi Luís Fernando Veríssimo, pai dos super-heróis práticos. Quando você estiver em apuros, não hesite em chamá-los.
***
Os
super-heróis práticos
Luís
Fernando Veríssimo
Não precisamos de
homens providenciais, com super-poderes, para resolver as questões da vida e da
morte. Precisamos de pequenos heróis com respostas para os problemas de todos
os dias, mesmo porque a vida é feita de todos os dias. Por isso, pensei em lançar
uma série de aventuras contando as histórias dos super-heróis práticos e assim
inspirar nossos políticos. Pra começar, uma aventura de Plect, o Homem
Grampeador.
Estamos num
escritório. Um homem e uma mulher, cada um na sua mesa. A mulher olha em volta,
à procura de alguma coisa.
- Maldição...-diz
a mulher.
- O que foi, Lana?
- Preciso de
alguma coisa para prender estas folhas...você pode me ajudar?
- Infelizmente,
não. Tenho apenas um clip, mas está torto.
- Não adianta. Oh,
Kevin. Você não serve para nada, mesmo.
- Desculpe, Lana.
Com licença, preciso ir ao banheiro.
O homem retira-se.
É sempre assim, pensa Lana. Quando eu preciso dele, Kevin sempre dá um jeito de
desaparecer. E agora, como vou juntar estes papéis?
O homem reaparece,
Só que agora sem óculos e bestindo a roupa de Plect, o Homem Grampeador.
- Posso ajudá-la?
- Homem
Grampeador!Ele pega os papéis da mão de Lana.
- Acho que posso
resolver isto...Com um golpe do seu punho, grampeia os papéis e
devolve-os a Lana.
- Pronto.
- Oh, Homem Grampeador.
Você é maravilhoso.
- Obrigado!
Ele sai. Daí a
pouco reaparece Kevin ajeitando os óculos.
- Hmm - diz Kevin
- Vejo que você encontrou um grampeador...
- O Homem
Grampeador esteve aqui!
- Homem
Grampeador?
- Aquilo sim é que
é homem. Não é como alguns que eu conheço, com seu clip torto...
- Puxa, Lana,
sempre que acontece alguma coisa excitante eu estou longe!
*
E agora...o Homem
Saboneteira!
Cheryl odiava
quando acontecia aquilo. A espuma a impedia de abrir os olhos e ela não
conseguia recolocar o sabonete no seu lugar.
- Eu sou uma tola
mesmo - pensou Cheryl tateando a parede do box cegamente à procura da
saboneteira. Geralmente à encontrava, mas era irritante perder aqueles
preciosos segundos, quando poderia estar esfregando seu corpo magnífico sob o
chuveiro. Desta vez, no entanto, por mais que tentasse, Cheryl não encontrou a
saboneteira. Pensou simplesmente em soltar o sabonete no chão, mas era perigoso.
Poderia escorregar nele e cair, machucando-se. Começou a entrar em pânico. O
que fazer?
Foi quando sentiu
que não estava sozinha sob o chuveiro.
- Oh! - fez
Cheryl.
- Não se assuste -
disse uma voz de homem, respeitosa, mas firme - Solte o sabonete.
- Mas...
- Confie em mim.
Chery abriu a mão,
deixando cair o sabonete. Em seguida, usou as duas mãos para afastar a espuma
dos olhos. Abriu os olhos e deu com um homem forte e bonito ao seu lado, usando
apenas uma sunga prateada em forma de concha. Ele estava sorrindo.
- Que-quem é você?
- gaguejou Cheryl.
- Alguns me chamam
de Homem Saboneteira. Você está bem?
- Oh, sim.
Obrigada!
O homem colocou o
sabonete no seu lugar e começou a sair do box. Cheryl o deteve com um gesto.
- Homem
Saboneteira!
- Sim?
- Você não
quer...ajudar a me enxugar?
Ele sorriu.
- Não posso,
mocinha. Neste momento, há muitas outras pessoas na mesma situação em que você
estava, nesta cidade. Elas precisam de mim.
- Oh, sim,
compreendo - disse Cheryl. E suspirou, resignada, enquanto o Homem Saboneteira saía
rapidamente do banheiro, deixando um rasto de pegadas molhadas no chão. Ele
voltará, pensou Cheryl, destampando o xampu.
*
Para finalizar,
uma aventura do Homem Crase!
Eduardo mordia a
ponta da caneta nervosamente. Era o dia da prova de Português e ele tinha que
passar naquela prova. Se não passasse, sua vida estaria arruinada. Adeus
férias, adeus planos, adeus tudo. E ali na sua frente estava a mesma dúvida que
o perseguira o ano inteiro. Aquele "a" levava ou não crase? Eduardo
lembrou-se do que lhe contara a irmã mais velha, que era secretária com redação
própria, mas nunca aprendera a regra da crase. Quando tinha dúvidas, chamava o
Homem Crase. O Homem Crase defendia os oprimidos onde quer que se falasse e,
principalmente, se escrevesse o Português. Mais pessoas não recorriam a
ele simplesmente porque não sabiam da sua existência. Bastava dizer
"Alguém, me ajude" que o Homem Crase se materializaria e diria se a
crase cabia ou não. Eduardo não acreditara naquela história da irmã, mas por
que não tentar? Disse, baixinho: "Alguém...me ajude!"
"Estou
aqui", disse uma voz ao seu lado.
O Homem Crase
aparecera discretamente, sem relâmpago ou estouro.
Seu uniforme
também era simples. A única ornamentação era uma crase dourada no peito.Depois
de orientar Eduardo sobre a crase (não havia), ele desapareceu tão rapidamente
quanto aparecera. E - o que mais encantou Eduardo - sem dizer nada parecido com
" Desta vez eu o ajudei, mas trate de aprender a regra, rapaz".
Eduardo só teve tempo para dizer "Obrigado, Homem Crase!", antes de
ele sair voando pela janela.
Ziraldo foi desenhista, escritor, jornalista e humorista. Faleceu aos 91 anos, em abril de 2024.
Luis Fernando Veríssimo é escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo e saxofonista nas horas vagas. O texto de sua autoria foi publicado no jornal O Estado de São Paulo. Ziraldo




Nenhum comentário:
Postar um comentário