segunda-feira, 24 de junho de 2024

A roupa dos fantasmas


Sempre dizem que a aparição se apresenta adequadamente
trajada, ‘como em vida’, ou com a roupa que levou para o túmulo.” 
(Foto de Diego Meleiro Novaretti)


    Ambrose Bierce 

    A crença em fantasmas e assombrações é geral, quase universal; possivelmente, é compartilhada até pelos próprios fantasmas. Dizem que a ampla propagação dessa crença, e sua persistência através dos tempos, são poderosas evidências de sua veracidade. Quanto a isso, não me lembro de ter ouvido em que se baseia tal argumento, declarado com tanta naturalidade; pode ser qualquer coisa genérica e longamente considerada verdadeira, pois, não há nada nesta singular crença que a faça particularmente demonstrável apenas pelo número de pessoas na plateia. O mundo tem mais budistas do que cristãos. No entanto, é o budismo uma religião mais verdadeira? Antes de Galileu, havia a convicção geral, senão universal, de que o planeta terra era um corpo imóvel com o sol a rodeá-lo diariamente. É um assunto no qual “o testemunho coletivo da humanidade” foi mais relevante do que em relação aos fantasmas, pois todos podem observar a terra e o sol, mas, nem todos declaram ter visto fantasmas, e ninguém pode assegurar que as circunstâncias em que foram vistos eram favoráveis a uma observação crítica e equilibrada. Notoriamente, fantasmas são adeptos do hábito da evasão: Heine diz que é porque eles têm medo de nós. “O testemunho coletivo da humanidade” é notável em estabelecer só uma coisa – a não credibilidade das testemunhas.

Se os fantasmas se preocupam em provar sua existência como um fenômeno objetivo, são desafortunados sempre que se revelam a observadores displicentes, sem mencionar o azar de assustá-los provocando gargalhadas. Que os observadores de fantasmas sejam desatentos e, portanto, testemunhas sem credibilidade, isso fica claro em suas próprias histórias. Quem já ouviu falar de um fantasma nu? Sempre dizem que a aparição se apresenta (como certamente deveria) adequadamente trajada, “como em vida”, ou com a roupa que levou para o túmulo. Aqui, a testemunha só pode estar equivocada: qualquer que seja o poder da aparição de preservar seu corpo mortal após a decomposição, fica difícil acreditar que algodão, seda, lã e linho também tenham essa misteriosa capacidade. E se produtos têxteis têm essa propriedade, poderia se pensar que eles a manifestariam independentemente – se “materializariam” sem vestir o fantasma, uma aparição muito mais simples do que “o sorriso sem o gato".

Pergunte a qualquer defensor dos fantasmas se ele pensa que, depois de devidamente deteriorados, os produtos do tear podem “voltar para um vislumbre do luar” ou se, enquanto ainda conosco, podem aparecer em lugares onde não estão. Se ele não desconfia da armadilha que está preparada para ele, pobre homem, irá declarar a coisa impossível e absurda, condenando-se pela própria voz: visto que, certamente, tal poder daqueles materiais seria necessário às roupas das assombrações.

Agora, pela lei falsus in uno falsus in omnibus*, somos levados a rejeitar todas as histórias de fantasmas que já foram relatadas com seriedade. Se o observador (com a melhor das intenções) observou tão precariamente, a ponto de pensar que viu o que não viu, e o que não poderia ser visto, a qual crença, em particular, ele estaria inclinado em relação à outra? Seu erro na questão da “longa camisola branca” ou outra peça de vestuário, onde nenhuma camisola branca ou outra peça de vestuário poderia estar, torna-o completamente indigno de consideração. Ressurreição de lã, linho, seda, pele, renda, plumas, ganchos, presilhas, botões, alfinetes de chapéu e acessórios semelhantes – bem, realmente, isso já foi longe demais. Não, vamos estabelecer um limite para as roupas. Uma assombração materializada apelando aos nossos sentidos para que reconheçamos sua figura fantasmagórica deveria se legitimar de outra maneira que não fosse usando vestimentas familiares e reminiscentes. Deveria se legitimar pela nudez – independente da temperatura ou de quem estará presente. Não só as roupas, mas também os cabelos devem ser eliminados; para ser temido, o fantasma deve se revelar completamente pelado; segundo o que cientistas nos contam com habitual formalidade, pelos são vegetais em crescimento, dispensáveis para nós. Se o fantasma considerar que estas condições são árduas demais, estará livre para permanecer discreto e tentar nos aterrorizar utilizando outros meios. 

Em resumo, as condições para ao fantasma aparecer, e merecer credibilidade num mundo racional, são tão complicadas que ele prefere ficar longe – para o indizível empobrecimento das letras e da arte. 

*Princípio jurídico que significa “falso num ponto, falso no todo”. 

Ensaio do jornalista e escritor norte-americano Ambrose Bierce, publicado em 1902. Bierce escreveu várias histórias de fantasmas e desapareceu misteriosamente, sem deixar vestígios.

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