Criadora e criatura
O galês Ralph Steadman veio ao mundo, em 1936,
com uma tarefa nada fácil: transferir para o papel, em desenhos, o que ocorria
na mente de Hunter S. Thompson, um dos mais insanos jornalistas da imprensa
norte-americana.
Durante
três décadas, Steadman e Thompson formaram a dupla de ouro do jornalismo gonzo – termo inventado por Bill
Cardoso, jornalista do Boston Globe, imediatamente adotado por Thompson, que,
munido de um bloco de anotações e uma caneta, descrevia tudo o que acontecia ao
redor e publicava no original, sem revisões. Segundo Steadman, “ele queria
transmitir a sensação de que a sua mente e olhos operavam simultaneamente...
Hunter almejava conseguir retratar o que ocorria na sua mente.” E o que ocorria
na mente hiperativa de Thompson quase sempre ocorria graças a algum aditivo
químico.
No
início dos anos 1970, ao receber a tarefa de ilustrar Medo e Delírio em Las Vegas (Fear
and Loathing in Las Vegas), um dos trabalhos mais conhecidos de Thompson,
Steadman escreveu em suas memórias: “Encharquei a minha pena de aço – agora
convertida numa arma letal – num caldeirão de bile e, acompanhado por cerveja e
uns golinhos de conhaque, comecei o exercício terapêutico de expurgar da minha
mente todos aqueles demônios aprisionados que aguardavam convocação para vir à
tona. Eu estava ali para dar vida a eles, no papel que eles quisessem
desempenhar, como um figurinista de teatro que tem, de prontidão, perucas,
máscaras, roupas colantes rudimentares, para que cada um possa representar o
seu personagem de forma adequada.” Além dos
textos de Thompson, que se suicidou em 2005, Steadman ilustrou obras de Ambrose
Bierce, Ray Bradbury, George Orwell, Lewis Carroll e Sigmund Freud.
No Brasil, apenas uma pessoa expurgou os demônios da mente pelos desenhos, à maneira de Steadman e com igual talento: Mariza Dias Costa, cartunista e ilustradora guatemalteca que escolheu o Brasil como lar. Na imprensa brasileira, seu estilo é ímpar. Seus desenhos tinham um efeito não menos do que explosivo, pareciam saltar do papel sobre o leitor como criaturas com vida própria.
Para dar vida às suas criaturas, Mariza utilizava uma técnica em que os traços frenéticos e caóticos de sua pena e de seu pincel compartilhavam o espaço do papel com colagens de materiais diversos. Gente do quilate de Laerte não escondia a profunda admiração por seus desenhos - o que não é pouco. Mariza morreu aos 66 anos, em 2019.
Um ano e meio após a sua morte, o jornalista Ivan
Finotti escreveu o texto abaixo, publicado na Folha de São Paulo, em 29 de
outubro de 2020.
***
Ilustrações
de Mariza levaram o horror do cotidiano para as páginas do jornal
Com
estilo delirante e intenso, ilustradora misturava técnicas para desenhar os
monstros do dia a dia
Ivan Finotti
As ilustrações que acompanham as colunas da contracapa do caderno Ilustrada ocupam um
espaço nobilíssimo deste jornal. Mas, em geral, são vistas como o descrito na
frase anterior: são acompanhantes de um texto.
Não com Mariza Dias Costa (1952-2019), que
conseguia constantemente romper essa barreira: suas ilustrações eram tão
impactantes, delirantes e originais que se tornavam uma obra independente dos
escritos para os quais foram produzidas.
E olha que a concorrência era bravíssima: Mariza
foi ilustradora de algumas das colunas mais importantes da Folha.
De 1978 a 1990, ela ilustrou “O Diário da Corte”, do jornalista Paulo Francis (1930-1997). E, após um hiato de quase uma
década, voltou ao jornal direto para o espaço do psicanalista Contardo Calligaris, com quem trabalhou de 1999 a 2019.
No livro “E Depois a Maluca Sou Eu!” (ed.
Peixe Grande, 2013), que reuniu centenas de suas obras e alguns textos
biográficos, Contardo psicanalisou o trabalho de sua colega: “A ilustração
ideal interpretaria o texto, ou seja, diria algo que estava no texto, mas que
talvez eu mesmo ignorasse”.
Ou ainda: “Escrevo, salvo raras exceções, de
maneira bem comportada, no tom de um diálogo amistoso. Mesmo quando me indigno,
tento não falar alto. A ilustração de Mariza, comparada com o tom médio do
texto, parece gritar. Não há nisso contradição alguma, pois a ilustração não
repete minha opinião em um volume mais alto: ela grita, em geral, um
desconforto esquecido atrás da coluna”.
Esse grito ou desconforto presente no
trabalho de Mariza é muitas vezes traduzido em imagens de olhos arregalados e
dentes arreganhados. Suas figuras parecem monstros saídos das sombras de filmes
de terror, mas, ao mesmo tempo, são executivos, donas de casa e gente comum. É
o horror do cotidiano que Mariza estampava nas páginas do jornal.
No perfil que a repórter Laura Capriglione escreveu sobre a ilustradora, no mesmo livro
citado, há um trecho que dá dicas de onde veio isso tudo: “Ocupava o tempo que
as meninas de sua idade usavam para namorar estudando história da arte, a Idade
Média, a Roma Antiga. Mas, nesse universo, sua atenção ia para as criaturas
antípodas que, imaginou-se um dia, habitavam as beiras, as proximidades dos
precipícios em que o mundo plano supostamente acabava. E elas materializavam-se
nos relevos das igrejas pré-góticas, na arquitetura gótica”.
“Mariza viu as criaturas em suas idas e
vindas atrás do pai globe-trotter,
representadas nos lintéis, nos relevos da frente das catedrais românicas. Ela
enumera: ‘Tinham os cinocéfalos, que eram as criaturas com cabeça de cachorros,
os panótios, com orelhas enormes, que iam até os pés e serviam para voar. Havia
as criaturas com olhos na altura dos ombros e a boca na altura do umbigo. Eu
era fascinada por essas criaturas, saídas de uma pastelaria do inconsciente’,
afirma.”
Outro aspecto marcante de seu trabalho eram
as texturas e objetos que introduzia nas ilustrações. Para isso, pedia
emprestadas gravatas e saias do pessoal da Redação, as quais xerocava. Certa
vez, uma de suas figuras tinha pedaços enrolados de uma fita cassete colados no
lugar do cabelo.
E, falando em pai globe-trotter, Mariza era filha de um diplomata e, como tal, viveu
em diversos países. Nasceu numa dessas viagens dos pais, na Guatemala — sim,
Mariza era guatemalteca. Entre os 18 e os 21 anos, viveu na Cité Internationale
des Arts, uma instituição-residência para artistas estrangeiros em Paris. Aos
22, mudou-se para Bagdá e participou de uma expedição arqueológica no deserto
desenhando os artefatos encontrados. Falava, com diferentes níveis de
sapiência, oito idiomas: francês, inglês, italiano, português, espanhol,
guarani, grego e árabe. Por outro lado, nunca terminou o secundário, largando a
escola aos 17 anos.
Curtiu drogas, rock e cigarro, mas não
suportava maconha. Experimentou LSD, Mandrix e Artane, mas não encontrou sua
praia. Transitou livremente pela cocaína, crack e heroína, até que, finalmente,
viciou-se nos opiáceos. O vício lhe rendeu meia dúzia de internações
voluntárias, a primeira delas em 2001, quando acabou num verdadeiro hospício.
Ela relatou essa experiência sem reservas num texto em primeira pessoa, com
altíssimo nível literário e humorístico, chamado “E Depois a Maluca Sou Eu”,
reproduzido no livro homônimo.
De vez em quando, já nos anos 2000, Mariza
passava na Folha para pegar a coluna da semana. Carregava debaixo do
braço uma pasta com seus originais e os vendia aos amigos, designers,
fotógrafos e jornalistas para conseguir pagar as contas. Os novos repórteres
arregalavam os olhos, entre surpresos e assustados, ao verem aquela figura
magérrima, de cabelos pintados vermelho fogo e um tênis de cada cor.
Jamais soube lidar bem com dinheiro e,
segundo seu amigo Orlando Pedroso, organizador do livro citado e que a ajudou
de diversas formas nos últimos anos, “na manhã do dia 10, ela estava no banco
para descontar seu salário. Na tarde do mesmo dia, já estava pedindo
emprestado.”
Mariza morreu aos 66 anos, na noite da última quinta-feira de março do ano passado. Saiu para comprar jornal, às 23h, e passou mal no caminho. Uma ambulância a socorreu ao Hospital das Clínicas, mas ela não resistiu. Não era casada. Teve um filho, Diogo, que nasceu em 1977 com má formação cardíaca e morreu dois anos e meio depois.
Os comentários de Ralph Steadman são trechos
de The Joke's Over, seu livro de memórias. Foram publicados na revista piauí, em 2008, com tradução de
Rubens Figueiredo.









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