quinta-feira, 13 de junho de 2024

O iconógrafo iconoclasta na ofensiva contra o racismo


Mark Doox: "Ver os negros como seres 
humanos é devastador para a mentalidade americana"
(Foto de Lauren DeCicca)


No texto principal deste post sobre o iconógrafo Mark Doox, a Igreja de John Coltrane é citada. Portanto, uma breve explicação é necessária. Aqui vão algumas informações, baseadas em artigo do escritor Hua Hsu para a revista The New Yorker, edição de 24 de Dezembro de 2019.

    Em 1965, Franzo e Marina King tinham acabado de se mudar para San Francisco e decidiram comemorar o aniversário de casamento indo a uma apresentação do saxofonista John Coltrane, durante a qual tiveram uma experiência espiritual intensa que se tornaria a gênese da Igreja de John Coltrane. Obcecado pela música e pelas ideias do músico, o casal fundou um pequeno jazz club, espécie de comunidade onde os frequentadores poderiam ouvir a música de Coltrane e discutir sua visão de mundo. “Acredito em todas as religiões”, disse o saxofonista que se considerava um veículo de elevação espiritual e morreria aos quarenta anos, em 1967. Para os Kings, ele não morreu, ele ascendeu. E ainda mais: para Franzo, Coltrane era Deus.

E o jazz club virou o templo da Igreja de John Coltrane, que, em 1981, aderiu à Igreja Ortodoxa Africana com a condição de que o saxofonista deixasse de ser Deus e se tornasse santo padroeiro - pouco antes de sua morte, o músico comentou que gostaria de “ser um santo”. Hoje, Franzo é o Arcebispo King, e Marina, a Reverenda King. Os filhos do casal também têm cargos e funções na igreja. 


Aos 55 anos, a Igreja Ortodoxa Africana de Saint John Will-I-Am Coltrane já teve outros nomes e funcionou em diversos endereços. Parece uma igreja como qualquer outra, exceto pelas velas que cercam o álbum Blue Train sobre um oratório e paredes com pinturas que retratam Coltrane como ícone religioso - obras de Mark Doox. A igreja oferece cultos semanais em que as escrituras são lidas entre jam sessions com Franzo ao saxofone. Hinos tradicionais misturam-se à música A Love Supreme, de Coltrane - em sessões de meditação guiada, fiéis comungam com a sua obra. A igreja atrai visitantes de todas as partes, que podem levar seus próprios instrumentos musicais. Como os Kings sonhavam, ao fundarem o jazz club, ela se tornou uma comunidade aberta a todos. 

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Confrontando o que significa ser negro na América por meio da fé e da arte

Durante três décadas, o iconógrafo Mark Doox examinou a antinegritude na América e na igreja – trabalho que culminou em seu livro The N-Word* of God (A Palavra-N de Deus)


    Por Robert Ito

    Quando Mark Doox entrou para um mosteiro ortodoxo oriental no Texas, em 1987, pensava ter vocação para monge. Um ano depois, percebeu que não tinha. Mas encontrou algo mais na capela do mosteiro: imagens de Jesus Cristo e da Virgem Maria pintadas em estilo bizantino, seus rostos serenos contrapostos a grandes auréolas douradas. “Era quase uma visão física”, disse.

Doox decidiu que seria um iconógrafo. Mas como um homem negro que cresceu na década de 1960, Doox lutou contra o racismo que vivenciava na sociedade e na igreja – e a perspectiva de criar ícones de um Jesus branco. 

“Pensei: não seria maravilhoso poder expressar essa espiritualidade, lidando com os dilemas existenciais do que significa ser negro na América?”.

Depois de deixar o mosteiro, Doox fez exatamente isso, criando ícones para duas igrejas singulares de São Francisco: a Igreja de St. John Coltrane, cujo padroeiro é a lenda do jazz, e a vizinha Igreja Episcopal de São Gregório de Nyssa, cuja panóplia de santos inclui noventa pessoas e quatro feras dançando juntos. As comissões de Doox para a igreja tendem para a reverência, muitas vezes retratando negros como figuras sagradas, ou figuras sagradas como negros. Ao criar essas obras sagradas para outros, Doox estava elaborando seu conto absurdista que resultou em um livro de arte, The N-Word of God.

A obra de 366 páginas, que a Fantagraphics publicará em 27 de fevereiro, é centrada no personagem chamado Saint Sambo, uma figura negra de cartola e correntes, com o rosto estampando um sorriso exagerado, delineado em branco, que remonta aos dias dos menestréis. Nele, Saint Sambo passa de objeto de zombaria a verdadeiro salvador de seu povo.


Este conto – que inclui pinturas do traseiro de Deus (referido como “a Divina Bunda Branca de Deus”), a Virgem Maria como Tia Jemima e a Madona e o Menino Jesus com os rostos pintados de preto – é como um forte soco nas costelas.

“Mark está caricaturando a ideia do menestrel que foi imposta aos negros, e até adotada por eles, juntamente com a ideia do Cristo branco”, disse W. Gabriel Selassie, professor de Estudos Africanos na California State University, Northridge.

The n-Word of God é o primeiro livro do iconógrafo e representa uma jornada espiritual de mais de três décadas, disse Doox, 65 anos, numa entrevista. É “a realização da visão original que tive na capela ortodoxa do mosteiro”, disse ele.

Doox, o caçula de três filhos, nasceu e foi criado em Columbus, Ohio. “Éramos extremamente pobres”, disse ele. Seu pai tinha um emprego estável em uma companhia elétrica; sua mãe trabalhava como empregada doméstica.

Quando um professor do ensino fundamental elogiou a leitura de Doox no boletim escolar, sua mãe ficou exultante, já que ela própria era analfabeta. Ele se tornou um leitor fervoroso de histórias em quadrinhos (Marvel, não DC) e ficção (Kurt Vonnegut era um dos favoritos) e se juntou aos times de xadrez e tênis de sua escola. “Eu era um nerd”, disse ele. “Mas eu era um nerd que poderia acabar com você.”  

Após o colegial, Doox matriculou-se no Columbus College of Art & Design. Enquanto estava lá, uma mulher convidou Doox para frequentar sua igreja. Ela era muito bonita, então ele foi. Logo, Doox encontrou Jesus, “este ser místico de amor”, e deixou em definitivo a escola de artes.


“Saí numa busca”, disse ele, descrevendo uma busca espiritual contínua, com paradas no hinduísmo e no movimento Hare Krishna, para capturar aquele sentimento de amor incondicional que experimentou pela primeira vez na escola de artes.

Com 12 dólares no bolso, Doox foi para a Califórnia, desembarcando em São Francisco, onde passou a viver nas ruas e a trabalhar voluntariamente em um refeitório. O pastor que administrava o lugar achava que Doox tinha um talento maior do que servir sopa, e foi assim que ele acabou no mosteiro do Texas, aprendendo a esculpir imagens de santos na casca de ovos de ganso.

Quando voltou a São Francisco, Doox, trazendo um desses ovos, fez uma visita à Igreja St. John Coltrane. Quis o destino que o pastor estivesse à procura de alguém para pintar ícones do saxofonista.

“Num domingo, um jovem apareceu trazendo um ovo de ganso com um ícone pintado nele”, disse o arcebispo Franzo King, cofundador da igreja. “Eu disse: Meu irmão. Estávamos esperando por você.”

Doox hesitou, sem saber se Coltrane era “digno de veneração”, disse King. “Mark não era um jazzista”, acrescentou, “não sabia nada sobre Coltrane”.


Doox finalmente se estabeleceu, conectando sua busca por um Deus de amor com o ideal de Coltrane de A Love Supreme, título do aclamado álbum de 1965. Em seus ícones, Doox retrata Coltrane em vestes brancas esvoaçantes, sua cabeça cercada por um halo dourado, chamas divinas queimando dentro do sax tenor do jazzista. Essas imagens estão entre os trabalhos mais populares de Doox, aparecendo na The New Yorker e na T: The New York Times Style Magazine.

Ele pintava num galpão abandonado que mais tarde se tornaria a Igreja de São Gregório de Nyssa. Donald Schell, cofundador da igreja, permitiu que Doox trabalhasse lá enquanto não estivesse prestando serviços voluntários no refeitório.

Doox guardava suas tintas e outros suprimentos no almoxarifado – e, Schell percebeu, também um fogão elétrico e uma cama. “Houve um momento em que ficou claro que Mark estava morando no galpão”, disse ele.

Em 1998, assim que a Basílica de São Gregório de Nyssa foi concluída, Schell abordou Doox sobre seu plano de preenchê-la com ícones de santos dançantes. “Repito o que Mark disse: ‘Acredito que fui ungido para esse trabalho’”, disse Schell.

Até 2008, Doox pintou retratos grandiosos de “santos” amados, que incluíam César Chávez, Sojourner Truth e Anne Frank; suas figuras dançantes formam um círculo ao redor da rotunda da igreja.


Às vezes, quando a igreja interrompia os trabalhos para arrecadar fundos, Doox fazia entrega de peças de automóveis para várias empresas e trabalhava no que viria a se tornar The N-Word of God.

Em 2009, Doox conheceu Kerry James Marshall, aclamado pintor e escultor, numa palestra no Museu de Arte Moderna de São Francisco. O encontro resultou numa mentoria de quatro meses, que ajudou Doox a desenvolver a abordagem visual que ele chama de “Byz-Dada”, uma mistura da imagética bizantina com elementos satíricos do dadaísmo.

Desde então, o trabalho de Doox foi apresentado em um documentário de 2021 (Saint Coltrane: The Church Built on 'A Love Supreme', da NPR) e analisado em textos acadêmicos (“São os estudos bizantinos uma disciplina colonialista?”, da Pennsylvania State University Press, 2023).

A arte de Doox também ilustrou cartazes e tabuletas em protestos contra a brutalidade policial. (Nossa Senhora de Ferguson – que retrata uma Virgem Maria Negra sob a mira de uma arma, com as mãos levantadas não em súplica, mas em rendição – está na Catedral de São João O Divino, em Nova York.)


Quanto a The N-Word of God, o livro é ao mesmo tempo um trabalho de amor e uma coleção de grandes sucessos da obra de Doox. Mesmo assim, seus temas e imagens provocativos têm desafiado amigos e aliados.

"O que acontece? É apenas para ofender?”, Schell se perguntou. “Qual é a energia de dor, de luta, de raiva e de revelação que faz um pintor de ícones pintar a bunda de Deus?”

Doox reconhece que seu trabalho pode ser de difícil aceitação. Ver os negros como “seres humanos é devastador para a mentalidade americana”, disse ele. “Porque então você tem que dizer: ‘O que fizemos? Como temos tratado vocês?’ – e não tenho visto muitas pessoas que queiram falar sobre isso.”

*The N-Word é a palavra 'nigga', termo depreciativo e ofensivo que representa o ódio racista.

Artigo de Robert Ito, publicado no New York Times, 25 de Fevereiro de 2024.


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