Mark Doox: "Ver os negros como seres
humanos é devastador para a mentalidade americana"
(Foto de Lauren DeCicca)
No
texto principal deste post sobre o iconógrafo Mark Doox, a Igreja de John
Coltrane é citada. Portanto, uma breve explicação é necessária. Aqui vão
algumas informações, baseadas em artigo do escritor Hua
Hsu para a revista The New Yorker, edição de 24 de Dezembro de 2019.
Em
1965, Franzo e Marina King tinham acabado de se mudar para San Francisco e
decidiram comemorar o aniversário de casamento indo a uma apresentação do
saxofonista John Coltrane, durante a qual tiveram uma experiência espiritual intensa que se tornaria a gênese da Igreja de John Coltrane. Obcecado pela música e pelas
ideias do músico, o casal fundou um pequeno jazz
club, espécie de comunidade onde os frequentadores poderiam ouvir a música de
Coltrane e discutir sua visão de mundo. “Acredito em todas as religiões”, disse o saxofonista que se considerava um veículo de elevação espiritual e morreria
aos quarenta anos, em 1967. Para os Kings, ele não morreu, ele ascendeu. E ainda mais: para Franzo, Coltrane era Deus.
E o jazz club virou o templo da Igreja de John Coltrane, que, em 1981, aderiu à Igreja Ortodoxa Africana com a condição de que o saxofonista deixasse de ser Deus e se tornasse santo padroeiro - pouco antes de sua morte, o músico comentou que gostaria de “ser um
santo”. Hoje, Franzo é o Arcebispo King, e
Marina, a Reverenda King. Os filhos do casal também têm cargos e funções na
igreja.
Aos 55 anos, a Igreja Ortodoxa Africana de Saint John Will-I-Am Coltrane já teve outros nomes e funcionou em diversos endereços. Parece uma igreja como qualquer outra, exceto pelas velas que cercam o álbum Blue Train sobre um oratório e paredes com pinturas que retratam Coltrane como ícone religioso - obras de Mark Doox. A igreja oferece cultos semanais em que as escrituras são lidas entre jam sessions com Franzo ao saxofone. Hinos tradicionais misturam-se à música A Love Supreme, de Coltrane - em sessões de meditação guiada, fiéis comungam com a sua obra. A igreja atrai visitantes de todas as partes, que podem levar seus próprios instrumentos musicais. Como os Kings sonhavam, ao fundarem o jazz club, ela se tornou uma comunidade aberta a todos.
***
Confrontando o que significa
ser negro na América por meio da fé e da arte
Durante três décadas, o iconógrafo Mark Doox examinou a antinegritude na
América e na igreja – trabalho que culminou em seu livro The N-Word* of God (A
Palavra-N de Deus)
Por Robert Ito
Quando Mark Doox entrou para um mosteiro ortodoxo oriental no Texas, em
1987, pensava ter vocação para monge. Um ano depois, percebeu que não tinha.
Mas encontrou algo mais na capela do mosteiro: imagens de Jesus Cristo e da
Virgem Maria pintadas em estilo bizantino, seus rostos serenos contrapostos a
grandes auréolas douradas. “Era quase uma visão física”, disse.
Doox decidiu que seria um iconógrafo. Mas como um homem negro que
cresceu na década de 1960, Doox lutou contra o racismo que vivenciava na
sociedade e na igreja – e a perspectiva de criar ícones de um Jesus branco.
“Pensei: não seria maravilhoso poder expressar essa espiritualidade, lidando
com os dilemas existenciais do que significa ser negro na América?”.
Depois de deixar o mosteiro, Doox fez exatamente isso, criando ícones
para duas igrejas singulares de São Francisco: a Igreja de St. John Coltrane,
cujo padroeiro é a lenda do jazz, e a
vizinha Igreja Episcopal de São Gregório de Nyssa, cuja panóplia de santos
inclui noventa pessoas e quatro feras dançando juntos. As comissões de Doox para
a igreja tendem para a reverência, muitas vezes retratando negros como figuras
sagradas, ou figuras sagradas como negros. Ao criar essas obras sagradas para
outros, Doox estava elaborando seu conto absurdista que resultou em um livro de
arte, The N-Word of God.
A obra de 366 páginas, que a Fantagraphics publicará em 27 de fevereiro,
é centrada no personagem chamado Saint Sambo, uma figura negra de cartola e
correntes, com o rosto estampando um sorriso exagerado, delineado em branco,
que remonta aos dias dos menestréis. Nele, Saint Sambo passa de objeto de zombaria
a verdadeiro salvador de seu povo.
Este conto – que inclui pinturas do traseiro de Deus (referido como “a
Divina Bunda Branca de Deus”), a Virgem Maria como Tia Jemima e a Madona e o
Menino Jesus com os rostos pintados de preto – é como um forte soco nas
costelas.
“Mark está caricaturando a ideia do menestrel que foi imposta aos
negros, e até adotada por eles, juntamente com a ideia do Cristo branco”, disse
W. Gabriel Selassie, professor de Estudos Africanos na California State
University, Northridge.
The n-Word of God é o primeiro livro do iconógrafo e representa uma jornada espiritual de mais de três décadas, disse Doox, 65 anos, numa entrevista. É “a realização da visão
original que tive na capela ortodoxa do mosteiro”, disse ele.
Doox, o caçula de três filhos, nasceu e foi criado em Columbus, Ohio.
“Éramos extremamente pobres”, disse ele. Seu pai tinha um emprego estável em
uma companhia elétrica; sua mãe trabalhava como empregada doméstica.
Quando um professor do ensino fundamental elogiou a leitura de Doox no
boletim escolar, sua mãe ficou exultante, já que ela própria era analfabeta.
Ele se tornou um leitor fervoroso de histórias em quadrinhos (Marvel, não DC) e
ficção (Kurt Vonnegut era um dos favoritos) e se juntou aos times de xadrez e
tênis de sua escola. “Eu era um nerd”,
disse ele. “Mas eu era um nerd que
poderia acabar com você.”
Após o colegial, Doox matriculou-se no Columbus College of Art &
Design. Enquanto estava lá, uma mulher convidou Doox para frequentar sua
igreja. Ela era muito bonita, então ele foi. Logo, Doox encontrou Jesus, “este
ser místico de amor”, e deixou em definitivo a escola de artes.
“Saí numa busca”, disse ele, descrevendo uma busca espiritual contínua,
com paradas no hinduísmo e no movimento Hare Krishna, para capturar aquele
sentimento de amor incondicional que experimentou pela primeira vez na escola
de artes.
Com 12 dólares no bolso, Doox foi para a Califórnia, desembarcando em São
Francisco, onde passou a viver nas ruas e a trabalhar voluntariamente em um
refeitório. O pastor que administrava o lugar achava que Doox tinha um talento maior
do que servir sopa, e foi assim que ele acabou no mosteiro do Texas, aprendendo
a esculpir imagens de santos na casca de ovos de ganso.
Quando voltou a São Francisco, Doox, trazendo um desses ovos, fez uma visita à
Igreja St. John Coltrane. Quis o destino que o pastor estivesse à procura de alguém
para pintar ícones do saxofonista.
“Num domingo, um jovem apareceu trazendo um ovo de ganso com um ícone pintado
nele”, disse o arcebispo Franzo King, cofundador da igreja. “Eu disse: Meu
irmão. Estávamos esperando por você.”
Doox hesitou, sem saber se Coltrane era “digno de veneração”, disse
King. “Mark não era um jazzista”, acrescentou, “não sabia nada sobre Coltrane”.
Doox finalmente se estabeleceu, conectando sua busca por um Deus de amor
com o ideal de Coltrane de A Love Supreme, título do aclamado
álbum de 1965. Em seus ícones, Doox retrata Coltrane em vestes brancas
esvoaçantes, sua cabeça cercada por um halo dourado, chamas divinas queimando
dentro do sax tenor do jazzista. Essas imagens estão entre os trabalhos mais
populares de Doox, aparecendo na The New Yorker e na T: The New York Times
Style Magazine.
Ele pintava num galpão abandonado que mais tarde se tornaria a Igreja de
São Gregório de Nyssa. Donald Schell, cofundador da igreja, permitiu que Doox
trabalhasse lá enquanto não estivesse prestando serviços voluntários no
refeitório.
Doox guardava suas tintas e outros suprimentos no almoxarifado – e, Schell
percebeu, também um fogão elétrico e uma cama. “Houve um momento em que ficou
claro que Mark estava morando no galpão”, disse ele.
Em 1998, assim que a Basílica de São Gregório de Nyssa foi concluída,
Schell abordou Doox sobre seu plano de preenchê-la com ícones de santos
dançantes. “Repito o que Mark disse: ‘Acredito que fui ungido para esse
trabalho’”, disse Schell.
Até 2008, Doox pintou retratos grandiosos de “santos” amados, que
incluíam César Chávez, Sojourner Truth e Anne Frank; suas figuras dançantes
formam um círculo ao redor da rotunda da igreja.
Às vezes, quando a igreja interrompia os trabalhos para arrecadar fundos,
Doox fazia entrega de peças de automóveis para várias empresas e trabalhava no
que viria a se tornar The N-Word of God.
Em 2009, Doox conheceu Kerry James Marshall, aclamado pintor e escultor,
numa palestra no Museu de Arte Moderna de São Francisco. O encontro resultou numa
mentoria de quatro meses, que ajudou Doox a desenvolver a abordagem visual que
ele chama de “Byz-Dada”, uma mistura da
imagética bizantina com elementos satíricos do dadaísmo.
Desde então, o trabalho de Doox foi apresentado em um documentário de
2021 (Saint Coltrane: The Church Built on
'A Love Supreme', da NPR) e analisado em textos acadêmicos (“São os estudos bizantinos uma disciplina
colonialista?”, da Pennsylvania State University Press, 2023).
A arte de Doox também ilustrou cartazes e tabuletas em protestos contra
a brutalidade policial. (Nossa Senhora de Ferguson – que retrata uma Virgem
Maria Negra sob a mira de uma arma, com as mãos levantadas não em súplica, mas
em rendição – está na Catedral de São João O Divino, em Nova York.)
Quanto a The N-Word of God, o
livro é ao mesmo tempo um trabalho de amor e uma coleção de grandes sucessos da
obra de Doox. Mesmo assim, seus temas e imagens provocativos têm desafiado
amigos e aliados.
"O que acontece? É apenas para ofender?”, Schell se perguntou.
“Qual é a energia de dor, de luta, de raiva e de revelação que faz um pintor de
ícones pintar a bunda de Deus?”
Doox reconhece que seu trabalho pode ser de difícil aceitação. Ver os
negros como “seres humanos é devastador para a mentalidade americana”, disse
ele. “Porque então você tem que dizer: ‘O que fizemos? Como temos tratado vocês?’
– e não tenho visto muitas pessoas que queiram falar sobre isso.”
*The N-Word é a palavra 'nigga', termo depreciativo e ofensivo que representa o ódio racista.
Artigo de Robert Ito, publicado no New York Times, 25 de Fevereiro de 2024.








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