Um piano em ruínas, uma viagem cansativa, dores nas costas
e noites de insônia não foram páreo para o talento de Keith Jarrett
No filme Caro Diário (Caro Diario, 1993), de Nanni Moretti, há uma sequência em que o protagonista (o próprio diretor) faz uma romaria ao local do assassinato de Pier Paolo Pasolini, ocorrido há 49 anos, em Ostia, no litoral da Itália. O crime, até hoje não esclarecido, teria conotações políticas. Supostamente cometido por um garoto de programa, o assassinato seria uma maneira de mascarar os verdadeiros motivos, além de macular a imagem do diretor de Teorema e Salò perante a opinião pública. Pasolini, ferrenho ativista de esquerda, incomodava a
elite da política italiana. Havia sido expulso do Partido Comunista Italiano sob
o pretexto de que pertencia a uma ala intelectual que “posava de progressista” e representava
“a degeneração burguesa”. A causa da expulsão, no entanto, seria o fato de ser
homossexual.
Na sequência do filme, Moretti, após folhear uma
coleção de notícias sobre o crime, segue para uma região de praias cuja feiura espantaria
visitantes e turistas mais exigentes. Num terreno baldio com muito mato, é
possível ver, do outro lado de uma grade e cercas malconservadas, a trave de um
campo de futebol de terra fazendo companhia à escultura que homenageia Pasolini,
abandonada, suja e deteriorada.
O trajeto de Moretti em sua vespa parece ter saído de um filme amador, não tem nada de especial, nenhum malabarismo ou virtuosismo técnico. Mas ficou marcante. Além da homenagem prestada à memória de Pasolini, a escolha da trilha sonora que a acompanha foi fundamental: um trecho da primeira parte de The Köln Concert, do pianista norte-americano Keith Jarrett, gravado e lançado em álbum-duplo no mesmo ano do crime, 1975. Com aproximadamente cinco minutos, a sequência, que poderia passar despercebida sem a
música de Jarrett, se transformou num momento inesquecível - bela, agridoce, tocante e melancólica.
***
The Köln Concert: como Keith Jarrett desafiou as probabilidades para
gravar sua obra-prima
Diante de um piano em ruínas e sofrendo de dores nas costas e insônia,
Keith Jarrett gravou um álbum de jazz lendário, ‘The Köln Concert’.
(Foto de Tom Copi, 1975)
Por Charles Waring
A noite de 24 de janeiro de 1975 revelou-se
memorável e mágica para as 1.300 pessoas que assistiram ao concerto solo do pianista
de jazz norte-americano Keith Jarrett na majestosa Ópera de
Colônia. Felizmente, a apresentação ficou registrada para a posteridade pela
ECM Records, que lançou a gravação, no final daquele ano, em um álbum-duplo acondicionado
numa elegante capa preta e branca, adornada pela imagem de Jarrett com corte de
cabelo afro, inclinado sobre o piano. Embora The Köln Concert tenha sido imediatamente saudado como um clássico
e vendido quatro milhões de cópias (até o momento, é o álbum de piano mais
vendido de todos os tempos), surpreendentemente, o concerto quase não
aconteceu.
Uma jovem estudante e promotora alemã, chamada Vera
Brandes –ávida fã de jazz com apenas
17 anos na época – foi responsável pela organização da apresentação e, a pedido
de Jarrett, providenciou para que um piano de cauda para concerto Bösendorfer 290 Imperial fosse colocado
à sua disposição. Infelizmente, o estafe da ópera trouxe o piano errado – um
piano de cauda Bösendorfer muito
menor. Para piorar a situação, o piano, usado para ensaios de ópera, estava em
péssimas condições e muito desafinado.
Para um perfeccionista renomado como Jarrett,
exigente com seus pianos e conhecedor da afinação
perfeita, o instrumento era uma abominação. Quando recebeu a notícia de que não
havia tempo para conseguir um piano substituto, Jarrett ameaçou cancelar a
apresentação. Para piorar as coisas, Jarrett não estava em boa forma. Há vários
dias, sofria de dores insuportáveis nas costas que resultaram em noites de
insônia. Como se isso já não fosse o bastante, sua condição foi agravada pela exaustiva viagem de cinco
horas, e 560 quilômetros, até Colônia, depois de um concerto em Zurique. Neste
contexto, não seria surpresa se o pianista desse o dia por encerrado.
Felizmente, Vera Brandes não desistiu, e conseguiu
persuadir e acalmar o pianista, enquanto os técnicos passavam várias horas
tentando fazer o piano tocar com um som mais decente - pelo menos para ouvidos
destreinados. Eles conseguiram afiná-lo, embora não pudessem fazer muito para
melhorar tom e timbre, que eram definidos por notas altas estridentes e um
registro de baixo nada ressonante. E se Jarrett achou que isso já era ruim, ainda teve que lidar com pedais de sustentação que estavam
danificados.
Mesmo assim, o pianista – usando um colete para dar apoio extra à sua coluna – acabou por subir
ao palco às 23h30 (após a apresentação de uma ópera) e lutou contra a dor e o
cansaço para executar um dos seus mais memoráveis concertos. The Köln Concert abre com “Part I”, uma
peça improvisada de 26 minutos – que preenche o lado 1 do LP original – em
clima meditativo, caracterizado pela beleza cristalina de linhas lúcidas e
cantantes da mão direita (em certos pontos, é possível ouvir Jarrett cantando
as melodias enquanto toca). Além do jazz,
a peça se serve do folk, dos clássicos, dos ritmos latinos, dos hinários gospel e até do country, todos perfeitamente interligados no que poderia ser
descrito como o equivalente musical de um intenso fluxo de consciência.
A segunda peça da noite (“Part II”) é ainda mais
longa: uma improvisação de 48 minutos que se espalha pelos lados 2, 3 e 4 do LP
original. Impulsionada por acordes propulsivos da mão esquerda, exigiu mais
concentração do que a “Part I”. Na verdade, uma das características distintivas
da performance de Jarrett, nesta
parte do disco, é a sua competência nos ritmos de ostinato tocados pela sua mão esquerda, que proporcionam um
acompanhamento pulsante, por vezes percussivo e contrapontístico durante a
maior parte da peça. De acordo com Manfred Eicher, produtor do disco e chefe da ECM, a razão de Jarrett para adotar essa
técnica foi compensar as deficiências que percebeu no piano: “Provavelmente
[Jarrett], tocou do jeito que fez porque não era um bom piano. Como não
conseguia se apaixonar pelo som, ele encontrou outra maneira de tirar o máximo
proveito disso.”
Embora o piano não tenha sido – para dizer o mínimo
– satisfatório para Jarrett, para aqueles que não são profundos conhecedores de
uma afinação perfeita ou de um piano, o estado do instrumento não impediu a
apreciação do virtuosismo de Jarrett. Ele é um prestidigitador que nos encanta
com extraordinária habilidade e transições musicais primorosas, e nos
transporta para outros mundos com suas paisagens sonoras improvisadas. The Köln Concert não foi o primeiro - ou, na verdade, o último - álbum-solo de improvisações de piano de Jarrett, mas ainda é o mais significativo e influente. Não é um erro admitir que o pianista norte-americano
Brad Mehldau – também conhecido pelos seus recitais solos improvisados – teria
gravado seus discos sem estar sob os encantos de Jarrett.
Quarenta e três anos depois, The Köln Concert continua sendo a obra-prima solo de Keith Jarrett,
e permanece como a gravação de maior destaque de sua carreira e da ECM. A magia
criada naquela noite fria de inverno de 1975 nunca mais se repetiria, embora, ao
longo dos anos, Jarrett tenha chegado perto com alguns outros recitais solo ao
vivo (como A Multitude Of Angels, de
2016).
No final, o piano imperfeito, que inicialmente Jarrett considerou ser o seu pior pesadelo, acabou sendo uma bênção e uma dádiva,
e não uma catástrofe. Assim são as pequenas ironias da vida.
Texto originalmente publicado no site UDiscoverMusic, 24 de Janeiro de 2024.


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