sábado, 15 de junho de 2024

O álbum perfeito que teve (quase) tudo para dar errado


Um piano em ruínas, uma viagem cansativa, dores nas costas 
e noites de insônia não foram páreo para o talento de Keith Jarrett


    No filme Caro Diário (Caro Diario, 1993), de Nanni Moretti, há uma sequência em que o protagonista (o próprio diretor) faz uma romaria ao local do assassinato de Pier Paolo Pasolini, ocorrido há 49 anos, em Ostia, no litoral da Itália. O crime, até hoje não esclarecido, teria conotações políticas. Supostamente cometido por um garoto de programa, o assassinato seria uma maneira de mascarar os verdadeiros motivos, além de macular a imagem do diretor de Teorema e Salò perante a opinião pública. Pasolini, ferrenho ativista de esquerda, incomodava a elite da política italiana. Havia sido expulso do Partido Comunista Italiano sob o pretexto de que pertencia a uma ala intelectual que “posava de progressista” e representava “a degeneração burguesa”. A causa da expulsão, no entanto, seria o fato de ser homossexual.

Na sequência do filme, Moretti, após folhear uma coleção de notícias sobre o crime, segue para uma região de praias cuja feiura espantaria visitantes e turistas mais exigentes. Num terreno baldio com muito mato, é possível ver, do outro lado de uma grade e cercas malconservadas, a trave de um campo de futebol de terra fazendo companhia à escultura que homenageia Pasolini, abandonada, suja e deteriorada.

O trajeto de Moretti em sua vespa parece ter saído de um filme amador, não tem nada de especial, nenhum malabarismo ou virtuosismo técnico. Mas ficou marcante. Além da homenagem prestada à memória de Pasolini, a escolha da trilha sonora que a acompanha foi fundamental: um trecho da primeira parte de The Köln Concert, do pianista norte-americano Keith Jarrett, gravado e lançado em álbum-duplo no mesmo ano do crime, 1975. Com aproximadamente cinco minutos, a sequência, que poderia passar despercebida sem a música de Jarrett, se transformou num momento inesquecível - bela, agridoce, tocante e melancólica. 

***

The Köln Concert: como Keith Jarrett desafiou as probabilidades para gravar sua obra-prima

Diante de um piano em ruínas e sofrendo de dores nas costas e insônia, Keith Jarrett gravou um álbum de jazz lendário, ‘The Köln Concert’.


(Foto de Tom Copi, 1975)

    Por Charles Waring

    A noite de 24 de janeiro de 1975 revelou-se memorável e mágica para as 1.300 pessoas que assistiram ao concerto solo do pianista de jazz norte-americano Keith Jarrett na majestosa Ópera de Colônia. Felizmente, a apresentação ficou registrada para a posteridade pela ECM Records, que lançou a gravação, no final daquele ano, em um álbum-duplo acondicionado numa elegante capa preta e branca, adornada pela imagem de Jarrett com corte de cabelo afro, inclinado sobre o piano. Embora The Köln Concert tenha sido imediatamente saudado como um clássico e vendido quatro milhões de cópias (até o momento, é o álbum de piano mais vendido de todos os tempos), surpreendentemente, o concerto quase não aconteceu.

Uma jovem estudante e promotora alemã, chamada Vera Brandes –ávida fã de jazz com apenas 17 anos na época – foi responsável pela organização da apresentação e, a pedido de Jarrett, providenciou para que um piano de cauda para concerto Bösendorfer 290 Imperial fosse colocado à sua disposição. Infelizmente, o estafe da ópera trouxe o piano errado – um piano de cauda Bösendorfer muito menor. Para piorar a situação, o piano, usado para ensaios de ópera, estava em péssimas condições e muito desafinado.

Para um perfeccionista renomado como Jarrett, exigente com seus pianos e conhecedor da afinação perfeita, o instrumento era uma abominação. Quando recebeu a notícia de que não havia tempo para conseguir um piano substituto, Jarrett ameaçou cancelar a apresentação. Para piorar as coisas, Jarrett não estava em boa forma. Há vários dias, sofria de dores insuportáveis nas costas que resultaram em noites de insônia. Como se isso já não fosse o bastante, sua condição foi agravada pela exaustiva viagem de cinco horas, e 560 quilômetros, até Colônia, depois de um concerto em Zurique. Neste contexto, não seria surpresa se o pianista desse o dia por encerrado.

Felizmente, Vera Brandes não desistiu, e conseguiu persuadir e acalmar o pianista, enquanto os técnicos passavam várias horas tentando fazer o piano tocar com um som mais decente - pelo menos para ouvidos destreinados. Eles conseguiram afiná-lo, embora não pudessem fazer muito para melhorar tom e timbre, que eram definidos por notas altas estridentes e um registro de baixo nada ressonante. E se Jarrett achou que isso já era ruim, ainda teve que lidar com pedais de sustentação que estavam danificados.

Mesmo assim, o pianista – usando um colete para dar apoio extra à sua coluna – acabou por subir ao palco às 23h30 (após a apresentação de uma ópera) e lutou contra a dor e o cansaço para executar um dos seus mais memoráveis concertos. The Köln Concert abre com “Part I”, uma peça improvisada de 26 minutos – que preenche o lado 1 do LP original – em clima meditativo, caracterizado pela beleza cristalina de linhas lúcidas e cantantes da mão direita (em certos pontos, é possível ouvir Jarrett cantando as melodias enquanto toca). Além do jazz, a peça se serve do folk, dos clássicos, dos ritmos latinos, dos hinários gospel e até do country, todos perfeitamente interligados no que poderia ser descrito como o equivalente musical de um intenso fluxo de consciência.

A segunda peça da noite (“Part II”) é ainda mais longa: uma improvisação de 48 minutos que se espalha pelos lados 2, 3 e 4 do LP original. Impulsionada por acordes propulsivos da mão esquerda, exigiu mais concentração do que a “Part I”. Na verdade, uma das características distintivas da performance de Jarrett, nesta parte do disco, é a sua competência nos ritmos de ostinato tocados pela sua mão esquerda, que proporcionam um acompanhamento pulsante, por vezes percussivo e contrapontístico durante a maior parte da peça. De acordo com Manfred Eicher, produtor do disco e chefe da ECM, a razão de Jarrett para adotar essa técnica foi compensar as deficiências que percebeu no piano: “Provavelmente [Jarrett], tocou do jeito que fez porque não era um bom piano. Como não conseguia se apaixonar pelo som, ele encontrou outra maneira de tirar o máximo proveito disso.”

Embora o piano não tenha sido – para dizer o mínimo – satisfatório para Jarrett, para aqueles que não são profundos conhecedores de uma afinação perfeita ou de um piano, o estado do instrumento não impediu a apreciação do virtuosismo de Jarrett. Ele é um prestidigitador que nos encanta com extraordinária habilidade e transições musicais primorosas, e nos transporta para outros mundos com suas paisagens sonoras improvisadas. The Köln Concert não foi o primeiro - ou, na verdade, o último - álbum-solo de improvisações de piano de Jarrett, mas ainda é o mais significativo e influente. Não é um erro admitir que o pianista norte-americano Brad Mehldau – também conhecido pelos seus recitais solos improvisados – teria gravado seus discos sem estar sob os encantos de Jarrett.

Quarenta e três anos depois, The Köln Concert continua sendo a obra-prima solo de Keith Jarrett, e permanece como a gravação de maior destaque de sua carreira e da ECM. A magia criada naquela noite fria de inverno de 1975 nunca mais se repetiria, embora, ao longo dos anos, Jarrett tenha chegado perto com alguns outros recitais solo ao vivo (como A Multitude Of Angels, de 2016).

No final, o piano imperfeito, que inicialmente Jarrett considerou ser o seu pior pesadelo, acabou sendo uma bênção e uma dádiva, e não uma catástrofe. Assim são as pequenas ironias da vida.

Texto originalmente publicado no site UDiscoverMusic, 24 de Janeiro de 2024.

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