segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Peter Gabriel


"Primeiro procuro fazer o álbum, depois me preocupo em vendê-lo."


        Após quase uma década à frente do Genesis, o cantor e compositor Peter Gabriel decidiu deixar a banda no momento em que ela, finalmente, começava a saborear o sucesso, após conquistar os EUA com a turnê do álbum-duplo The Lamb Lies Down on Broadway (1974).

Seu primeiro trabalho individual foi uma participação na trilha sonora do musical All This World War (1976) com uma versão de Strawberry Fields Forever, dos Beatles. Em 1977, lançou seu primeiro álbum solo, Peter Gabriel, produzido por Bob Ezrin, que tinha, entre seus muitos trabalhos, os quatro melhores álbuns que Alice Cooper lançou de 1971 a 1973; o polêmico Berlin, de Lou Reed; e o campeão de vendas Destroyer, do Kiss. A não ser pela voz de Gabriel, o eclético repertório do álbum apagava qualquer lembrança dos tempos do Genesis. A mistura de folkrhythm and blueshard rockart rockbarbershop music e a participação da London Symphony Orchestra levou Steve Grant, da Trouser Press, a definir o álbum como “uma das coisas mais atordoantes da música pop”.


Peter Gabriel, o segundo álbum, é lançado em 1978. Gabriel queria que cada álbum levasse apenas o seu nome no título, como fosse o novo número de uma revista. A produção, desta vez, ficou sob a responsabilidade do guitarrista Robert Fripp, o fundador do King Crimson. Sem os barroquismos do álbum anterior, o álbum é musicalmente mais simples, conciso. Gabriel sintetiza sua nova fase na letra de D.I.Y., um artista que nada contra a corrente e prefere manter o controle diante do sucesso, da fama e do poder - o que também explicaria sua saída do Genesis:  “Quando as coisas começam a ficar grandes / Não acredito nelas absolutamente / Você quer algum controle / Você tem que ficar pequeno”.


Ao apresentar aos executivos da Atlantic o material que pretendia colocar em seu terceiro álbum, Gabriel foi convidado a deixar a gravadora. “Primeiro procuro fazer o álbum, depois me preocupo em vendê-lo”, justificava o cantor. Quem o acolheu foi a Mercury, por indicação da Charisma, sua representante britânica. Peter Gabriel (1980), o terceiro álbum, vendeu mais do que os anteriores. Produzido por Steve Lillywhite, conhecido por seu trabalho com Rolling Stones, U2 e Big Country, o álbum trazia a participação de nomes ilustres como Kate Bush, Paul Weller e Phil Collins, antigo companheiro dos tempos do Genesis. 

Gabriel assume uma variedade de personas: o dissidente involuntário (Not One of us); o misterioso visitante que vive feliz na escuridão (Intruder); o indivíduo vítima da própria impulsividade e falta de autocontrole (No Self Control); o homem que perdeu a identidade (I Don’t Remember). A faixa Family Snapshot é o melhor exemplo do que Gabriel disse ser seu modo de compor: "falo por imagens, e não por palavras". É possível ver o que se ouve, como o roteiro de um filme. Gabriel encarna o atirador que tem John Kennedy na mira e narra os momentos que antecederam o disparo que entraria para a história dos EUA. O crescendo dramático dos versos e da música leva a um resultado cinematográfico. 

O artista engajado, defensor dos direitos humanos, aparece em Biko, faixa que fecha o álbum é uma homenagem ao líder sul-africano Steve Biko, fundador do Movimento da Consciência Negra. A música inspirou o guitarrista Steve Van Zandt e o produtor Arthur Baker a criarem o projeto Artists United Against Apartheid, que, em 1985, lançou o álbum Sun City. Apesar de vender mais que os dois álbuns anteriores, o terceiro Peter Gabriel era um estranho no ninho da pop music. “Eu sabia que era um bom disco, mas suspeitava que ele não seria bem recebido nos EUA, que estavam mergulhados na new wave – e eu não sentia este tipo de música nele”, comentou Gabriel.


Com o relativo sucesso do álbum, Gabriel teve crédito para bancar o WOMAD (World of Music, Arts & Dance), um festival para divulgar o trabalho de artistas do Terceiro Mundo. “Existe nas artes uma tradição de procurar coisas em outras culturas, roubando-as e assimilando-as. Acho isso bastante saudável. O roubo criativo deveria ser mais incentivado. Picasso filtrou o que viu nas máscaras africanas, e assim nasceu o cubismo. Esse papo de colonialismo cultural parte de pessoas que acham impossível incorporar sons estrangeiros. O rock, por exemplo, na sua base, é uma música negra. Músicos brancos, tentando imitar músicos negros, chegaram a um resultado híbrido. Muitos grupos africanos assimilam James Brown, Michael Jackson e Stevie Wonder. É como genética. As raças que se reproduzem num circuito fechado se enfraquecem, enquanto as comunidades cosmopolitas são mais saudáveis. Pode-se purificar a inspiração ou desenvolver uma mesma ideia, mas a música é mais densa quando está na confluência de diversas correntes. Sou um turista e minha música é uma mistura de experiências adquiridas em minhas viagens”, reflete o cantor. As boas intenções, porém, não salvaram o festival do desastre financeiro. Para cobrir o prejuízo, Gabriel teve de recorrer à ajuda dos antigos colegas do Genesis, que se juntaram a ele num único show para levantar fundos.

O quarto álbum é lançado em 1982, com Gabriel em nova gravadora, a Geffen Records. “Não foi a melhor proposta financeira, mas foi a que deu maior oportunidade para que eu pudesse desenvolver livremente o meu trabalho, mesmo que isso implicasse alguns riscos. Eles não procuravam por hit makers que caíssem ao menor tropeço”, explica. 


O único atrito com a Geffen foi a respeito do nome do álbum, novamente Peter Gabriel. A gravadora aceitou, mas com uma condição: no mercado norte-americano, o álbum traria o título Security impresso no selo do disco e num adesivo colado sobre o plástico que envolve a capa. Gabriel usa e abusa da mais moderna tecnologia de estúdio em sua exploração por sons e ritmos ancestrais. “Minha metodologia se baseia no ritmo. Para mim, o ritmo é a espinha dorsal da música. Cada vez mais, tenho procurado por novos ritmos, mais interessantes dos que encontrei no rock. Além disso, minha música se amplia quando tenho o ritmo em primeiro lugar”, esclarece. E é ao ritmo que Gabriel se entrega de corpo e alma logo na primeira faixa do álbum, Rhythm of the Heat, cujo título inicial era Jung in Africa. A música é baseada em relato de Jung sobre sua viagem à África. O psicoterapeuta suíço, ao presenciar um ritual africano, totalmente envolvido pela percussão e pela dança, teve uma experiência espiritual tão arrebatadora que pensou que enlouqueceria. Na letra da música, Gabriel descreve o que teria acontecido neste episódio em que o homem civilizado se defrontou com forças atávicas fora de sua compreensão: “O ritmo está ao meu redor / O ritmo tem o controle / O ritmo está dentro de mim / O ritmo tem a minha alma”.  Até então, o quarto álbum permanece como o mais singular da carreira de Gabriel. 


Plays Live, o álbum (duplo) de 1983, traz gravações de concertos de sua turnê pelos EUA. É um balanço da fase mais fértil e ousada de sua carreira, reunindo alguns dos melhores momentos de seus quatro álbuns anteriores. Na mesma época, tem canções incluídas em trilhas sonoras de alguns filmes, além de ser um dos convidados de Mister Heartbreak (1984), álbum de Laurie Anderson. Em 1985, com Daniel Lanois, recicla material dos discos anteriores para produzir a trilha sonora de Birdy, filme de Alan Parker.


Depois de buscar inspiração se inebriar nas raízes rítmicas e sonoras da música do Terceiro Mundo, chegando a resultados inusitados e surpreedentes, Gabriel acaba de lançar So - a cara limpa, na capa do álbum, sinaliza para uma nova fase da carreira. Puxado pelo hit SledgehammerSo carece da ousadia dos álbuns anteriores, vai por uma trilha mais pop. Tem baladas, black music e até um forró, como Gabriel definiu Mercy Street, música que tem o brasileiro Djalma Correia na percussão. Kate Bush, Laurie Anderson, Stewart Copeland, Larry Klein e Chris Hughes estão na lista de convidados. O álbum está entre os mais vendidos na Inglaterra, fato inédito numa carreira individual de uma década. É música pop de alto nível, privilégio reservado a poucos artistas talentosos. No caso de Gabriel, é a música de um artista que nunca trilhou os caminhos mais fáceis para chegar ao sucesso. Sucesso que, ironicamente, sempre evitou. 

Texto de 1986. Foi revisto.



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