"Primeiro procuro fazer o álbum, depois me preocupo em vendê-lo."
Após quase uma década à frente do Genesis, o cantor e compositor Peter
Gabriel decidiu deixar a banda no momento em que ela, finalmente, começava a saborear o
sucesso, após conquistar os EUA com a turnê do álbum-duplo The Lamb Lies Down on
Broadway (1974).
Seu primeiro trabalho individual foi uma participação na trilha sonora do musical All
This World War (1976) com uma versão de Strawberry
Fields Forever,
dos Beatles. Em 1977, lançou seu primeiro álbum solo, Peter Gabriel, produzido
por Bob Ezrin, que tinha, entre seus muitos trabalhos, os quatro melhores álbuns que Alice Cooper lançou de 1971 a 1973; o polêmico Berlin, de Lou Reed; e o campeão de vendas Destroyer, do Kiss. A não ser pela voz de Gabriel, o eclético repertório do álbum apagava qualquer lembrança dos tempos do Genesis. A mistura de folk, rhythm and blues, hard rock, art rock, barbershop music e a
participação da London Symphony Orchestra levou Steve Grant, da Trouser
Press, a definir o álbum como “uma das coisas mais atordoantes da música pop”.
Peter Gabriel, o segundo
álbum, é lançado em 1978. Gabriel queria que cada álbum levasse apenas o seu
nome no título, como fosse o novo número de uma revista. A produção, desta vez, ficou sob a responsabilidade do guitarrista Robert Fripp, o fundador do King Crimson. Sem os barroquismos do álbum anterior, o álbum é musicalmente mais simples, conciso. Gabriel sintetiza sua nova fase na letra de D.I.Y., um artista que nada contra a corrente e prefere manter o controle diante do sucesso, da fama e do poder - o que também explicaria sua saída do Genesis: “Quando as coisas começam a ficar grandes / Não
acredito nelas absolutamente / Você quer algum controle / Você tem que ficar
pequeno”.
Ao apresentar aos executivos da Atlantic o material que
pretendia colocar em seu terceiro álbum, Gabriel foi convidado a deixar a
gravadora. “Primeiro procuro fazer o álbum, depois me preocupo em vendê-lo”,
justificava o cantor. Quem o acolheu foi a Mercury, por indicação da Charisma,
sua representante britânica. Peter Gabriel (1980), o
terceiro álbum, vendeu mais do que os anteriores. Produzido por Steve
Lillywhite, conhecido por seu trabalho com Rolling Stones, U2 e Big Country, o
álbum trazia a participação de nomes
ilustres como Kate Bush, Paul Weller e Phil Collins, antigo companheiro dos
tempos do Genesis.
Gabriel assume uma variedade de personas: o dissidente involuntário (Not One of us); o misterioso visitante que vive feliz na escuridão (Intruder); o indivíduo vítima da própria impulsividade e falta de autocontrole (No Self Control); o homem que perdeu a identidade (I Don’t Remember). A faixa Family Snapshot é o melhor exemplo do que Gabriel disse ser seu modo de compor: "falo por imagens, e não por palavras". É possível ver o que se ouve, como o roteiro de um filme. Gabriel
encarna o atirador que tem John Kennedy na mira e narra os momentos que
antecederam o disparo que entraria para a história dos EUA. O crescendo dramático dos versos e da música leva a um resultado cinematográfico.
O artista engajado, defensor dos direitos humanos, aparece em Biko, faixa que
fecha o álbum é uma homenagem ao líder sul-africano Steve Biko, fundador do
Movimento da Consciência Negra. A música inspirou o guitarrista Steve Van Zandt e o produtor Arthur Baker a criarem o projeto Artists United Against Apartheid, que, em 1985, lançou o álbum Sun City. Apesar de vender mais que os dois álbuns anteriores, o terceiro Peter Gabriel era um
estranho no ninho da pop
music.
“Eu sabia que era um bom disco, mas suspeitava que ele não seria bem recebido
nos EUA, que estavam mergulhados na new wave – e eu não sentia este tipo
de música nele”, comentou Gabriel.
Com o relativo sucesso do álbum, Gabriel teve crédito para bancar o WOMAD (World of Music, Arts & Dance), um festival para divulgar o trabalho de
artistas do Terceiro Mundo. “Existe nas artes uma tradição de procurar coisas
em outras culturas, roubando-as e assimilando-as. Acho isso bastante saudável.
O roubo criativo deveria ser mais incentivado. Picasso filtrou o que viu nas
máscaras africanas, e assim nasceu o cubismo. Esse papo de colonialismo
cultural parte de pessoas que acham impossível incorporar sons estrangeiros.
O rock, por
exemplo, na sua base, é uma música negra. Músicos brancos, tentando imitar
músicos negros, chegaram a um resultado híbrido. Muitos grupos africanos
assimilam James Brown, Michael Jackson e Stevie Wonder. É como genética. As
raças que se reproduzem num circuito fechado se enfraquecem, enquanto as comunidades
cosmopolitas são mais saudáveis. Pode-se purificar a inspiração ou desenvolver
uma mesma ideia, mas a música é mais densa quando está na confluência de
diversas correntes. Sou um turista e minha música é uma mistura de experiências
adquiridas em minhas viagens”, reflete o cantor. As boas intenções, porém, não
salvaram o festival do desastre financeiro. Para cobrir o prejuízo, Gabriel
teve de recorrer à ajuda dos antigos colegas do Genesis, que se juntaram a ele
num único show para levantar fundos.
O quarto álbum é lançado em 1982, com Gabriel em nova gravadora, a
Geffen Records. “Não foi a melhor proposta financeira, mas foi a que deu maior
oportunidade para que eu pudesse desenvolver livremente o meu trabalho, mesmo
que isso implicasse alguns riscos. Eles não procuravam por hit makers que
caíssem ao menor tropeço”, explica.
O único atrito com a Geffen foi a respeito do nome do álbum,
novamente Peter Gabriel. A gravadora
aceitou, mas com uma condição: no mercado norte-americano, o álbum traria o
título Security impresso
no selo do disco e num adesivo colado sobre o plástico que envolve a capa. Gabriel usa e abusa da mais moderna tecnologia de estúdio em sua exploração por sons e ritmos ancestrais. “Minha metodologia se baseia no ritmo. Para mim, o ritmo é a espinha dorsal da música. Cada vez mais, tenho procurado por novos ritmos, mais interessantes dos que encontrei no rock. Além disso, minha música se amplia quando tenho o ritmo em primeiro lugar”, esclarece. E é ao ritmo que Gabriel se entrega de corpo e alma logo na primeira faixa do álbum, Rhythm of the Heat, cujo título inicial era Jung in Africa. A música é baseada em relato de Jung sobre sua viagem à África. O psicoterapeuta suíço, ao presenciar um ritual africano, totalmente envolvido pela percussão e pela dança, teve uma experiência espiritual tão arrebatadora que pensou que enlouqueceria. Na letra da música, Gabriel descreve o que teria acontecido neste episódio em que o homem civilizado se defrontou com forças atávicas fora de sua compreensão: “O ritmo está ao meu redor / O ritmo tem o controle / O ritmo está dentro de mim / O ritmo tem a minha alma”. Até então, o quarto álbum permanece como o mais singular da carreira de Gabriel.
Plays Live, o álbum
(duplo) de 1983, traz gravações de concertos de sua turnê pelos EUA. É um balanço da fase mais fértil e ousada de sua carreira, reunindo alguns dos melhores momentos de seus quatro álbuns anteriores. Na mesma época, tem
canções incluídas em trilhas sonoras de alguns filmes, além de ser um dos
convidados de Mister Heartbreak (1984), álbum de Laurie
Anderson. Em 1985, com Daniel Lanois, recicla material dos discos anteriores
para produzir a trilha sonora de Birdy, filme de Alan Parker.
Depois de buscar inspiração e se inebriar nas raízes rítmicas e sonoras da música do Terceiro Mundo, chegando a resultados inusitados e surpreedentes, Gabriel acaba de lançar So - a cara limpa, na capa do álbum, sinaliza para uma nova fase da carreira. Puxado pelo hit Sledgehammer, So carece
da ousadia dos álbuns anteriores, vai por uma trilha mais pop. Tem baladas, black music e até
um forró, como Gabriel definiu Mercy Street, música que tem o brasileiro
Djalma Correia na percussão. Kate Bush, Laurie Anderson, Stewart Copeland,
Larry Klein e Chris Hughes estão na lista de convidados. O álbum está entre os
mais vendidos na Inglaterra, fato inédito numa carreira individual de uma década. É música pop de alto nível, privilégio reservado a poucos artistas talentosos. No caso de Gabriel, é a música de um artista que nunca trilhou os
caminhos mais fáceis para chegar ao sucesso. Sucesso que, ironicamente, sempre evitou.
Texto de 1986. Foi revisto.







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