terça-feira, 20 de novembro de 2018

Amor à primeira vista


Cafe Bizarre: no ponto de encontro da beat generation, começou
o namoro que influenciaria a cultura pop por mais de meio século


        Andy Warhol e o Velvet Underground são as estrelas que estão brilhando em Nova York. Desde o dia 12 de novembro, a megaexposição Andy Warhol – From A to B and Back Again está no Whitney Museum. Em seguida, irá para o San Francisco Museum of Modern Art e o Art Institute of Chicago, onde ficará até 2020. Warhol também tem o seu quinhão na exposição The Velvet Underground Experience, que, desde outubro, está no Greenwich Village.

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Andy Warhol e o Velvet Underground       

    Cafe Bizarre. O nome não poderia ser mais adequado para o local onde ocorreu, em meados da década de 1960, o primeiro encontro entre o mais famoso representante da Pop Art, Andy Warhol, e os integrantes do grupo de rock nova-iorquino The Velvet Underground, formado por Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Maureen Tucker. Ao assistir a uma apresentação da banda, Warhol não teve dúvidas de que ali estava a trilha sonora para seus projetos multimídia Andy Warhol Up-Tight e The Exploding Plastic Inevitable. Uma união que causaria profundo impacto no cenário pop dos EUA.

“A ideia pop é a ideia de que alguém pode fazer alguma coisa. Então, era natural tentarmos fazer de tudo. Ninguém queria permanecer em apenas uma categoria. Queríamos expandir nossa criatividade ao máximo. Quando encontrei o Velvet, eu estava para entrar no cenário musical”, explica Warhol, que, em 1965, tinha interesse em formar sua própria banda de rock. Péssimo cantor, encontrou no Velvet a parceria ideal para suas ambições musicais.


“Andy disse que a música que fazíamos era semelhante ao trabalho que ele fazia nas artes visuais. Andy era sincero, como a música que tocávamos”, declarou Reed, vocalista, letrista e guitarrista do Velvet.

O espetáculo itinerante de Warhol incluía cinema, light shows, música, dança e fotografia. Entre os integrantes, estavam Paul Morrisey, cineasta que dirigiu recentemente Mixed Blood (filme com Marília Pêra), e Nico, bela modelo alemã e aspirante a atriz que já havia atraído a atenção de Bob Dylan e Federico Fellini. Nico se tornaria vocalista do Velvet, a pedido de Warhol, que se tornou empresário da banda, levando-a para o Factory, seu célebre ateliê. A primeira colaboração entre a banda e o papa do pop foi um filme de 70 minutos de duração, intitulado The Velvet Underground and Nico: A Symphony Sound. A polícia interromperia as filmagens, atendendo às queixas dos vizinhos, que reclamaram do volume de som insuportável.

Chamada pelos vizinhos, polícia desliga equipamento do Velvet Underground

“Durante o trabalho, eu e Warhol estamos muito próximos. Andy trabalha demais. Uma das coisas que você tem que enfiar na cabeça, ao entrar no Factory, é que, se você quer realmente conseguir algo, você terá de trabalhar bastante. Se não fizer isso, nada irá acontecer. E Andy trabalha intensamente. Todo dia, pergunta quantas canções eu escrevi. Não importa a quantidade que eu responda, ele sempre replica, dizendo que eu deveria ter escrito mais. O Velvet ama Andy, e trabalhar com ele é fantástico. As pessoas que só sabem dizer que ele é esquisito não sabem o que estão dizendo. Ele é uma pessoa excelente, honesta e talentosa. Quem o conhece, o ama.” - palavras de Reed, que não poupava elogios ao tutor.


Em março de 1967, o Velvet lança seu álbum de estreia, The Velvet Underground & Nico. Embora Warhol assinasse a produção, o fato foi mais tarde contestado pelo guitarrista John Cale, que afirmou que o nome dele era apenas um aval artístico. A capa do álbum com o desenho de uma banana, porém, era de autoria de Warhol – e se tornou antológica. Até hoje, o álbum é conhecido como “o disco da banana”. O Velvet abordava, de maneira crua e realista, temas considerados tabus para a época, como drogas e sadomasoquismo. O grande destaque era a canção Heroin, descrita no press release como “a derradeira saga de um homem a caminho de sua morte espiritual. A mais perturbadora e emocionante canção sobre drogas já escrita”. Um dos momentos mais inspirados de Reed, Heroin permanece até hoje no repertório de seus shows. A faixa que fecha o álbum, European Son, é uma avalanche de ruídos que Reed dedica ao professor, guru, amigo e escritor Delmore Schwartz. Alcoólatra e paranoico, Schwartz passou os últimos anos de vida solitário e recluso no famoso Chelsea Hotel, onde morreu de infarto, em 1966. A música favorita de Warhol era All Tomorrow’s Parties, com vocal de Nico. Foi escrita para Edie Sedgwick, socialite, modelo e atriz, assídua frequentadora do Factory que morreu após ingerir um coquetel de álcool com barbitúricos
, em 1971.


Com o fim dos projetos, cada um seguiu o próprio caminho. Warhol ainda criaria a capa de White Light/White Heat, segundo álbum da banda, de 1968. O Velvet sobreviveria até 1973, quando o quinto álbum, 
Squeeze, foi lançado. Sem a participação de membros da formação original, foi o guitarrista e vocalista Doug Yule, substituto de Cale a partir do terceiro álbum da banda, que tocou o barco. Reed e Cale partiram para carreiras solo bem sucedidas. Nico lançou meia dúzia de álbuns e teve a carreira interrompida várias vezes por causa do vício em heroína. Os outros integrantes têm se dedicado aos mais diversos afazeres: o baixista Morrison dá aulas na Universidade do Texas, em Austin; Tucker, a baterista, vive no Arizona com cinco filhos, e lançou o álbum Playin’ Possum, em 1982; Yule está no ramo mobiliário e toca com amigos, apenas como hobby; seu irmão, Billy, que substituiu Tucker quando ela estava grávida, está desempregado.

Warhol continuou inquieto e produtivo, mas, após o atentado em que foi baleado pela radical feminista Valerie Solanas, em 1968, reduziu suas aparições em público. Morreu no dia 22 do mês passado, quando se recuperava de uma cirurgia da vesícula. Dois de seus últimos trabalhos estão ligados à música: o cartaz do 20º Festival de Jazz de Montreux, em parceria com o grafiteiro Keith Haring, e a capa do álbum Aretha, de Aretha Franklin. Ars Longa, Vita Brevis.

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Songs for Drella – Lou Reed/John Cale (1990)


    Se nos contos de fadas existe um personagem com o qual as crianças se identificam, Songs for Drella, tributo de Lou Reed e John Cale para Andy Warhol, com certeza, é um conto de fadas. Para adultos. “Tudo o que se refere a Andy, se refere a qualquer pessoa. É algo totalmente universal”, esclarece Reed.

A ideia da homenagem nasceu quando Reed e Cale se encontraram durante o funeral do mais badalado expoente da pop art, em fevereiro de 1987. Seria uma maneira de mostrar gratidão ao mecenas que, nos anos 60, apresentou ao mundo a banda nova-iorquina Velvet Underground, da qual a dupla fazia parte.

John Cale, Lou Reed e Andy Warhol, 1976
(Foto de Bob Gruen)

Antes de virar álbum, Songs for Drella teve duas apresentações públicas em Nova York, em 1989 – na Saint Ann Church, em janeiro, e na Brooklin Academy of Music, em agosto. Só depois a dupla resolveu levar o projeto para o estúdio, onde permaneceu por três semanas, com Reed, na guitarra, e Cale, nos teclados e na viola - ambos se revezando nos vocais.    

O resultado é um álbum que vai agradar, principalmente, aos fãs da dupla e àqueles que conhecem a vida e a obra de Andy Warhol, ou simplesmente Drella (Dracula + Cinderella). São 15 músicas carregadas de emoção, compondo um mosaico da trajetória de Drella pelo planeta. É como se estivéssemos diante de dois amigos que compartilham reminiscências.

John Cale e Lou Reed
(Foto de Chris Buck)

Durante 55 minutos, é feita uma retrospectiva dos momentos mais marcantes da vida de Warhol: o garoto inquieto, ansioso para deixar a rotina monótona de sua cidadezinha natal; a chegada 
em Nova York e o primeiro emprego como designer de calçados; a forte ligação afetiva com a mãe, a predileção por gatos e o hábito de presentear os amigos; a fortuna e a fama que vieram com muito trabalho; o cronista do jet set transformado em bode expiatório das mortes por overdose de frequentadores de seu estúdio Factory, ameaçado de interdição; o atentado que quase o levou à morte e a mágoa, no fim da vida, por se sentir abandonado pelos amigos – uma cutucada que Warhol, em seus Diários, endereçou a Reed

Songs for Drella é uma obra indispensável, uma salada musical com variados temperos que não dá motivos para Warhol se revirar na sepultura. A não ser que ele, onde quer que esteja, receba uma cópia da edição brasileira do LP, cujo péssimo trabalho de impressão praticamente apagou seu rosto da capa - na edição americana, ele aparece entre os rostos de Reed e Cale. Se você, leitor, conseguir enxergá-lo na capa do álbum nacional, troque imediatamente seu oculista por um psicanalista.

O texto Andy Warhol e o Velvet Underground é de 1987. A resenha de Songs for Drella é de 1990. Foram revistos.


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