domingo, 2 de setembro de 2018

O papa do comix não tem papas na língua


Robert Crumb: prova viva da resistência underground


        Durante grande parte dos seus 75 anos, comemorados no último dia 30 de agosto, Robert Crumb carregou o peso de acusações de atentado ao pudor, misoginia, sexismo e racismo. Em uma época de correção política exacerbada, o polêmico cartunista corre o risco de ser queimado vivo. Até Art Spielgleman, autor de Maus e grande admirador de seu trabalho, não poupou duras críticas a uma história de sua autoria, intitulada When the Goddam Jews Take Over America! (Quando os Malditos Judeus Dominarem a América!). 

Com milhares de admiradores no Brasil, Crumb tem seus desenhos publicados por aqui desde os anos 1970. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, afirmou que, antes da Conrad, nenhuma editora brasileira pagou um tostão pelos direitos da publicação de seus trabalhos. 

Uma das maiores vítimas da pirataria que ocorre não só aqui, mas no resto do mundo, Crumb mostrou sua revolta quando veio participar da FLIP - Feira Literária Internacional de Paratyem 2010. Durante uma sessão de autógrafos da Livraria da Vila, em São Paulo, ele ameaçou rasgar exemplares das revistas Abutre e Porrada, que, nas décadas de 1980 e 1990, reproduziram algumas de suas histórias. Diante do apelo do admirador que levou as revistas e alegou que elas tinham grande valor sentimental, pois, assim, pôde conhecer e admirar o seu trabalho, Crumb voltou atrás e acabou por autografá-las. Uma prova de que o velhinho não é tão rabugento.

Seguem as resenhas de O Melhor de Crumb, primeiro livro do cartunista lançado no Brasil, e de um episódio da série Os Independentes sobre o documentário Crumb, de Terry Zwigoff.

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Um pouco do melhor de Robert Crumb, herói da resistência underground


        Após lançar álbuns de Hunt Emerson e Gilbert Shelton, a L&PM, aproveitando a recente Bienal do Livro, colocou no mercado O Melhor de Crumb, coletânea de trabalhos de Robert Crumb, o mais festejado autor do submundo dos quadrinhos.

Nascido há 47 anos na Filadélfia, desde criança Crumb foi louco por HQs, que desenhava obsessiva e compulsivamente. Seu ritmo criativo se acelerou ainda mais após experimentar LSD nos anos 1960. Embora já fosse considerado um dos maiores símbolos da contracultura e residisse na Califórnia, berço do flower power, Crumb não poupava nem mesmo o movimento hippie, alvo de vigorosas estocadas.

Lançou muita coisa em publicações independentes, sendo Zap Comix, a mais celebrada de todas. Reciclou energias e aprimorou o traço nos anos 1970. Entrou nos anos 1980, década da ascensão yuppie, em excelente forma, com a revista Weirdo, na companhia de uma horda de marginais formada por Roy Tompkins, Zingarelli, Michael Dougan, Spain, Drew Friedman, Clay Wilson, Kim Dietch e Phoebe Gloeckmer.


Prova viva de resistência, Crumb é um dos artistas que mais batalhou para manter vivo, intacto e respeitado o espírito do underground, preservando sempre sua autonomia em relação à liberdade de expressão e criação. Melhor para seu fiel público, que pode se deliciar com a demolição, quadrinho a quadrinho, do american way of life. Crumb revela o pesadelo que está por trás do sonho americano. É como se colocasse um espelho diante da América, obrigando-a a encarar quem ela realmente é. A hipocrisia Made in USA jamais tinha sido exposta de maneira tão mordaz e ferina num gibi.

Nada escapa deste incansável franco-atirador - nem ele próprio. A família, a política, a religião, o show business, a mídia, a tecnocracia, o feminismo, a política, o militarismo e o mundo corporativo são alguns de seus alvos preferidos. Radical, já foi taxado de sexista e racista. Na música, pode-se dizer que seu equivalente seria Frank Zappa. No Brasil, seu rebento mais ilustre se chama Angeli.

O Melhor de Crumb contém oito histórias - cinco delas já publicadas por aqui. O menu é variado. Entre delírios edipianos e paranoia anticomunista, Crumb enfrenta as feministas e o autoritarismo de instituições que oprimem o cidadão comum. Nem os cursos de orientação artística escapam do sarcasmo de sua metralhadora giratória. A maior atração, porém, é a saga do conservador pai de família que se apaixona por uma fêmea de pé-grande. Sobra espaço para Crumb prestar uma homenagem aos pioneiros do blues, gênero musical que tanto venera. As histórias, concebidas nos anos 1970, não perderam a força numa época em que a tecnologia é motivo de adoração e o trabalho do artista só é valorizado enquanto fonte de lucro.

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Cinema de mutirão


    Nova atração do Multishow, Os Independentes (Split Screen) é uma série dedicada aos realizadores do cinema alternativo. Apresentada por John Pierson, traça um instigante panorama do primo mais pobre de Hollywood, cujas principais características são a ousadia e o prazer de filmar com pouco dinheiro e muitas idéias. Para seus intrépidos realizadores, a experiência é mais do que gratificante.

    Crumb - Terry Zwigoff, 1995

    A proeza de Terry Zwigoff não foi fazer de Crumb um grande documentário. Sua maior proeza foi convencer Robert Crumb a ser sua principal estrela. Festejado como pioneiro e maior representante do underground comix, Crumb também é conhecido por sua aversão à mídia. E Zwigoff foi ainda mais longe, mostrando não só o seu trabalho, mas a sua vida pessoal.

O segredo do sucesso da empreitada foi uma amizade de quase trinta anos e a admiração mútua por discos de 78 rpm. Discos que Zwigoff teve de vender para sobreviver durante as filmagens, que duraram mais de cinco anos. Conseguir investidores foi uma verdadeira batalha. Quando mostrava um preview, tinha de ouvir coisas como “isso é deprimente”, “o irmão dele deveria pentear os cabelos e trocar de roupa” ou “faça algo atraente”. Zwigoff sabia que seu filme não permitia maquiagens. Acabou conseguindo apoio de gente grande, como o cineasta David Lynch e Matt Groening, criador de Os Simpsons.

Durante a edição, Zwigoff manteve Crumb longe, para que ele não interferisse. O cartunista entendeu e não impôs qualquer obstáculo para a realização do filme, mas fez uma ressalva: "só não queria ter aparecido nele”. Crumb admite que foi a experiência mais martirizante pela qual já passou. “Os Crumbs foram francos e honestos sobre si próprios. Isso choca, pois muita gente não é assim”, diz Zwigoff. “Todo mundo é louco de alguma forma”, conclui.

Crumb é fruto de uma gravidez problemática e de um parto mais do que doloroso, e, talvez por isso, se tornou o retrato magnífico e único de um dos maiores artistas do século XX. Sua crueza e sinceridade revelam toda a sua grandeza. O filme é dedicado a Charles, irmão de Robert que participou do documentário e cometeu suicídio um ano após as filmagens.


A resenha de O Melhor de Crumb é de 1990; Cinema de Mutirão é de 1998. Foram revistas.

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