quinta-feira, 21 de junho de 2018

A partir desta noite, nada será como antes


Tonight, álbum de David Bowie, 1984


        David Bowie foi um dos raros artistas da música pop a manter o ritmo criativo acelerado e em alto nível durante mais de uma década. Do fim dos anos 1960 até início dos 1980, reinou absoluto como renovador (e influenciador) do gênero.

A coisa começou a esfriar depois de Let’s Dance, um dos melhores álbuns de 1983. O álbum do ano seguinte, Tonight, lançado às pressas para capitalizar o sucesso de seu predecessor, foi uma decepção, com regravações requentadas e uma participação insípida de Tina Turner, em alta na época. A derrapada de Tonight era o prenúncio do desastre que viria em 1987, Never Let Me Down, considerado o pior momento de sua discografia. The Glass Spider Tour, a grandiosa turnê montada para promovê-lo, segundo o próprio Bowie, foi a sua pior turnê.

Seu último grande álbum foi Scary Monsters and Super Creeps, de 1980, com o que não concorda Thomas Jerome Seabrook, autor do livro Bowie in Berlin. Para Seabrook, tal afirmação, além de já ter virado um jargão, é uma injustiça.

O Bowie que vem a partir de Tonight dá a impressão de estar mais preocupado em requentar o passado, em resgatar seu período mais inventivo e prolífico: na reunião com os antigos parceiros Nile Rodgers (Black Tie/White Noise, 1993), Brian Eno (1.Outside, 1995) e Tony Visconti (Heathen, 2002); na reutilização do método de cut-ups, já presente em Diamond Dogs (1974), para compor as letras de Earthling (1997); no revival do hard rock dos anos 1970 com a banda Tin Machine, e até na referência à capa antológica de "Heroes" (1977), em The Next Day (2013).

As resenhas a seguir são do filme Ziggy Stardust and the Spiders from Marsde Donn Alan Pennebaker, e do documentário Changes: Bowie at Fifty, de Alan Yentob, sobre o cinquentenário do cantor.

***

Contatos imediatos com David Bowie

David "Ziggy Stardust" Bowie e Mick "Spider From Mars" Ronson

        Em 1969, um cantor inglês, esperto e em início de carreira, chamado David Bowie, lançou o single Space Oddity. Inspirada no filme 2001: A Space Odissey, de Stanley Kubrick, a canção falava de um certo Major Tom, astronauta que voluntariamente se torna um eremita espacial. A BBC utilizou a música para acompanhar as imagens da chegada do homem à Lua. O sucesso estava garantido.

Em retribuição ao astronauta de Space Oddity, o alienígena Ziggy Stardust desembarcou na Terra, encarnado no autor da canção, em 1972. Começava aí um fenômeno que, durante um ano, abalaria os alicerces mais conservadores da música pop. The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars é o nome do álbum que causou tremendo impacto. Considerado por muitos como a obra definitiva de Bowie, o disco deu origem a uma turnê que revolucionaria a concepção dos shows de rock, misturando música e teatro. Na verdade, a concepção de um espetáculo multimídia já havia sido apresentada ao público norte-americano na década anterior por Andy Warhol e sua trupe, que incluía o grupo Velvet Underground. O projeto de Warhol causou alvoroço, mas não alcançou o sucesso experimentado por Bowie.

Ziggy Stardust é um extraterrestre que chega ao nosso planeta, se torna um pop star bem sucedido e entra em declínio. Para criá-lo, Bowie se inspirou na história de Vince Taylor, cantor que, em determinado momento da carreira, informou aos fãs que era Jesus Cristo.

Encarnado por Bowie, Ziggy tinha os cabelos tingidos de vermelho, o rosto coberto por uma espessa camada de maquiagem e vestia seu corpo anoréxico com roupas justas e coloridas. Seu comportamento andrógino escandalizou papais e mamães de adolescentes que ficavam histéricas diante daquele ser extravagante. A banda que o acompanhava tinha como principal destaque Mick Ronson, guitarrista que segurava a barra quando o alienígena ia aos bastidores trocar de roupa. O sucesso da turnê foi alucinante, e o jovem Bowie, assim como Vince Taylor, teve sua personalidade fragmentada e quase foi bancar o Messias em algum sanatório.

Bowie ainda criaria os personagens Alladin Sane - cujo nome é o trocadilho a lad insane (um cara doido) - e o solitário Thin White Duke. Graças a ao seu talento para encarnar as mais diversas personas, Bowie estrearia no cinema em O Homem que Caiu na Terra (The Man Who Felt to Earth, 1976), como um extraterrestre que vem à Terra em busca de água para seu planeta desértico e se torna alcoólatra. Ao ser indagado pelos produtores sobre a viabilidade de usar Bowie como ator, o diretor Nicolas Roeg respondeu: “O que vocês acham que ele faz no palco? Aquele não é ele”. 

Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, filme que será exibido no Multishow, mostra Bowie em grande forma, esbanjando energia e criatividade, em um show de 1973, no Hammersmith Odeon, em Londres.

*

Changes: perfil do artista de muitas caras

Bowie como o Thin White Duke na turnê do álbum Station to Station, 1976

        “Não sou original”, diz David Bowie para Alan Yentob, autor do documentário Changes: Bowie at Fifty, que será exibido no Multishow. O comentário só não causa espanto porque já saiu da boca de gente de igual calibre como Lou Reed, Peter Gabriel e Jaco Pastorius. “Minha especialidade é sintetizar coisas já existentes na sociedade e na cultura, refletir essas coisas, e produzir um retrato do nosso tempo”, conclui o cantor e compositor inglês. 

Amigo do cantor, Yentob tem acompanhado sua carreira, e nessa relação de intimidade, quem sai ganhando é o telespectador. Changes tem início com Space Oddity, canção de Bowie inspirada em 2001: Uma Odisseia no Espaço, filme de Stanley Kubrick. Nela, Bowie vai ao espaço na pele do Major Tom, astronauta que decide abandonar a Terra. Tom foi o primeiro dos personagens criados por Bowie.

Depois dele, viria Ziggy Stardust, extraterrestre que se torna a grande sensação do show business dos anos 1970. Para criar Ziggy, Bowie se baseou no cantor americano Vince Taylor, que dizia ser Jesus Cristo. A atração por Taylor e personagens que vivem à margem da sociedade vem, segundo Bowie, da juventude em meio à loucura de uma família dilacerada espiritual e emocionalmente, fato que o afetou de várias maneiras. Além de Ziggy, Bowie ainda encarnaria Alladin Sane e The Thin White Duke - e conquistava a América.

Em 1975, já um superstar, se entregou aos excessos. Um deles, a cocaína, o levaria a um período de reabilitação em Berlim. “Não me lembro do ano de 1975”, declarou mais tarde. Para ele, o exílio era uma forma de lidar com o sucesso e as pressões de uma indústria preocupada com padrões hollywoodianos. Era também a oportunidade de explorar a fundo a liberdade de criação e buscar soluções menos óbvias para sua música.

Em Berlim, sua música se distanciou do rock e se aproximou da música eletrônica e experimental. Seu companheiro de trabalho neste período foi o músico e produtor Brian Eno, que, anos antes, o havia impressionado por ser extremamente efeminado, com cabelos longos coloridos, roupas de pele de leopardo e sapatos de salto alto. A dupla gravou, de 1977 a 1979, os álbuns Low“Heroes” e Lodger.

Elogiado por sua versatilidade vocal, Bowie diz que não se achava um bom cantor. Influenciado por cantores de diversos gêneros, viu nisso uma vantagem, pois teria mais opções e poderia usar várias tonalidades de voz para músicas diferentes. Destaca, porém, a belíssima interpretação de Wild Is the Wind como sua “voz real”. Essa versatilidade acabou no que gosta de chamar de “ecletismo mutante”. “Não sou fiel a estilos. Escolho o que vai funcionar melhor no trabalho que quero fazer”, explica.

Os anos 1980 trouxeram o álbum Let’s Dance. O artista cult se tornava o ícone pop da geração yuppie. “Os anos 1980 estavam mais para Phil Collins e menos para o Velvet Underground”, justifica. “Nesse período, realizei um bom trabalho de nível comercial. Estética e artisticamente, foi o ponto mais baixo de minha carreira”, conclui com modéstia e sinceridade incomuns para um superstar. Sua participação no grupo Tin Machine, anos depois, foi uma tentativa frustrada de resgatar o rock and roll mais básico e pesado.

Sobre seu método de criação, Bowie diz que nos últimos álbuns, 1.Outside e Earthling, voltou a usar o método de cut ups, já usado em Diamond Dogs, de 1974. Criado pelos dadaístas e recuperado pelo escritor William Burroughs, o método consiste em recortar e misturar frases aleatoriamente, estabelecendo relações bizarras entre elas. As fontes criativas dos cut ups de Bowie são livros, jornais e poemas de sua autoria. O documentário termina ao som de Telling Lies e deixa o telespectador desconfiado da veracidade de tudo o que acabou de ouvir da boca do astro pop de maior fortuna do Reino Unido. 

Changes mostra que a carreira de Bowie é um mosaico multicolorido e contraditório. Sua constante recusa de se acomodar num determinado estilo e sua admirável habilidade para se adaptar e sobreviver, nadando contra a corrente, levaram-no a construir uma obra rica e eclética. Porém, depois de Let’s Dance, Bowie não mais surpreendeu. Situação inimaginável nos anos 1970, quando reinou absoluto e tinha seus álbuns ansiosamente aguardados. Resta o consolo de saber que, independente da qualidade de seus últimos trabalhos, a música de Bowie ainda é superior a muita coisa que é despejada nas lojas, nas rádios e na TV.

Resenhas de 1997 e 1998. Foram revistas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário