Stranger Things é uma
esperta colagem de clichês feita sob medida para atrair o público infantojuvenil e saudosistas dos anos 80. Em episódios de 50 minutos, repletos de ação, mistério e reviravoltas, criaturas monstruosas de um mundo paralelo e cientistas inescrupulosos - que utilizam seres humanos em experiências secretas - atormentam os moradores da uma cidadezinha.
Eis uma brevíssima sinopse da série de sucesso dos irmãos Matt e Ross Duffer, que situaram a ação nos anos 1980 e reciclaram ideias de gente que produziu algumas das obras mais significativas da época. É possível pinçar, aqui e ali, elementos de histórias de Stephen King e de filmes de Steven Spielberg, John Carpenter, David Lynch e David Cronenberg. Até Winona Ryder e Matthew Modine, atores icônicos daquela década, foram recrutados.
Exeter (This Island Earth, 1955), Don Roritor (Brain Candy, 1996)
e Martin Brenner (Stranger Things, 2016)
Outra curiosidade é notar que Martin Brenner, o personagem de Modine, lembra Don Roritor, o personagem de Mark McKinney no filme Em Alto Astral (Brain Candy, 1996), do grupo de comediantes canadense The Kids in the Hall. E a semelhança não é apenas física - ambos interpretam vilões que comandam laboratórios numa conspiração contra a humanidade. Já o personagem de McKinney se parece com o alienígena Exeter (Jeff Morrow), que vem à Terra recrutar cientistas para salvar o planeta Metaluna, envolvido numa guerra interplanetária, em This Island Earth (1955), filme B de ficção científica.
Stranger Things é para ser saboreada como um despretensioso passatempo. Embora não traga novidades significativas para quem já passou dos quarenta, não despreza a percela saudosista deste público, que poderá relembrar bons momentos de sua juventude ao som de uma trilha sonora que inclui Clash, Duran Duran, Echo & The Bunnymen, Joy Division, New Order e Talking Heads.
Há vinte anos, velhas e novas séries compartilhavam espaço na programação da TV a cabo, nos canais FOX, USA e Multishow.
Imagine roteiros escritos por Rod Serling, criador da série
televisiva The Twilight Zone, sendo
dirigidos por David Lynch ou David Cronenberg. O resultado poderia ser Arquivo
X (The X-Files), série cult criada por Chris Carter e transmitida
pela FOX desde maio de 1994.
Com um tema de abertura marcante, a série é protagonizada por Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully
(Gillian Anderson), agentes especiais do FBI, Arquivo X coloca o telespectador
diante de casos que envolvem fenômenos paranormais e desafiam a lógica e
qualquer explicação racional. O confronto de
personalidades e perspectivas da dupla é um dos bons achados da série. Enquanto
Mulder é fascinado pelo inexplicável e acredita em extraterrestres, Scully,
doutora em Medicina, é cética e desconfia de tudo. A dupla é chefiada por
Skinner (Mitch Pillegi), diretor assistente que comanda as investigações e tem
de prestar esclarecimentos ao governo.
Se
você ainda não assistiu a nenhum episódio de Arquivo X, não perca a
oportunidade. Há quem idolatre e há quem deteste. E essa relação de
amor e ódio é o que faz da série um passatempo atraente e provocante.
Já Millenium, série
também criada por Carter, mostra as aventuras de Frank Black (Lance Henriksen),
ex-agente do FBI que integra um grupo clandestino de justiceiros na luta contra
as forças do mal.
Frank tem o dom de ver pelos olhos do criminoso e com isso
ajuda na solução de inúmeros crimes. Para proteger sua bela esposa e
sua filhinha, Frank vive escondido em algum lugar de Seattle, onde trabalha com
o tenente-detetive Bob Bletcher (Bill Smitrovich), que sempre se surpreende
com a forma como o parceiro resolve os casos.
Os poderes de Black não são assim tão originais e já tiveram
utilidade para personagens de filmes como Os
Olhos de Laura Mars (The Eyes of
Laura Mars, 1978), de Irvin Kershner, e A
Hora da Zona Morta (Dead Zone,
1983), de David Cronenberg, baseado em livro de Stephen King. Vale a pena
conferir Millenium.
"Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo homem.
É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o
infinito. É um espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a
superstição, e se encontra entre os abismos dos temores do homem e o cume dos
seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia, uma região além da imaginação."
Foi com a narração acima que a série The Twilight Zone se apresentou aos
brasileiros como Além da Imaginação, na década de 1960. Criada, escrita e
apresentada por Rod Serling, ela estreou na TV norte-americana em outubro de
1959 e durou até junho de 1964, transformando-se em sucesso imediato e
permanecendo até hoje como objeto de culto e série pioneira do gênero fantástico. Seus episódios com 30 minutos de duração, contavam histórias inteligentes e refinadas onde tudo era possível. Serling era mestre em colocar
personagens ordinários em situações extraordinárias que fugiam do controle e da
compreensão. O espectador podia se deliciar, instigado a usar sua imaginação
para entrar num mundo desconhecido e, ao mesmo tempo, verossímil. Ao final de cada episódio, como nas fábulas,
havia sempre uma mensagem ou um alerta de caráter moralizador.
A série duraria até meados 1964, quando seus
episódios, prolongados para uma hora de duração, já não tinham mais a aura
mágica da fase inicial. No Brasil, os assinantes da NET terão o privilégio de
acompanhar The Twilight Zone pelo canal USA.
O Multishow coloca no ar Histórias Fantásticas (Ghost Stories), série produzida
recentemente que pode ser considerada uma herdeira de The Twilight Zone. Embora
não seja tão criativa quanto à antecessora, a série preserva sua virtude
de privilegiar uma trama bem construída, sem apelar à violência gratuita e desenfreada.
Apresentada pelo ator Rip Torn, Histórias Fantásticas já
conta com 36 episódios de meia hora, prontinhos para serem saboreados pelos
assinantes da NET. Entre seus produtores-executivos está Fred Rappaport, cujo nome está ligado à realização de blockbusters
como Star Trek e Poltergeist.
Um fantasma obsessivo, um psiquiatra assombrado pelo passado, um jornalista que ressuscita o serial
killer, uma criança morta que assusta uma criança viva, um marido ciumento que
se transforma num monstro verde, astronautas que viajam para um destino
desconhecido, um enfermeiro apaixonado pela paciente em coma, um negro perseguido por um juiz racista que já bateu as botas e uma freira apaixonada pelo filho de uma mãe dominadora são parte da fauna que povoa a nova série do Multishow.
Você não vai deixar de dormir por causa de Além da Imaginação
ou Histórias Fantásticas. Embora as duas séries estejam repletas de situações
aterrorizantes, elas não chegam a ser tão assustadoras quanto às imagens de
políticos sorrindo enigmaticamente, na TV Senado.
Mais uma vez, o Multishow merece elogios. Após lançar South Park e Os Independentes (Split Screen), o canal reservou para
este mês O Ataque dos Filmes Trash (The Attack of the Killer B’s), série
dedicada aos filmes B. São filmes de terror e ficção científica, de produção
barata, reeditados e colorizados, com 25 minutos de duração. Fica claro que,
para seus realizadores, o maior prazer era contar uma história, por mais bizarra
e absurda que fosse. A intenção era assustar, mas fica impossível não rir de um
gênero rico em criatividade e pobre em recursos. Confira seis motivos para você
não perder a série.
O Monstro Robô – O trabalho de uma dupla de arqueólogos e o
piquenique de uma família são interrompidos pela chegada de um alienígena
hostil, enviado à terra para eliminar a raça humana. Sua missão é deixar o
planeta bem limpinho para a chegada de seus semelhantes. Durante a missão, o
invasor-faxineiro, que possui corpo de gorila de parque de diversões e cabeça de lata, acaba se apaixonando pela mocinha e decide raptá-la em plena
lua de mel, quando a mesma está com o noivo, literalmente, atrás da moita.
Os Busaranhos Assassinos – Busaranhos são inofensivos
roedores que, devido a uma mutação genética, se transformam em monstros
ferozes, vorazes e fedorentos do tamanho de dobermanns. No filme em questão, “os
piores animais da face da Terra”, cuja mordida pode levar a morte, atacam um
grupo de pessoas numa ilha. A direção é de Ray Kellog, que trabalhou com os
diretores John Ford e Howard Hawks.
A Marinha e os Monstros Assassinos – Plantas onívoras,
originárias da Antártida, atacam os membros de uma base naval norte-americana.
As plantas transformaram suas raízes em perninhas e conseguem se locomover, espalhando o terror. Se atacadas, essas ervas-daninhas do mal liberam um ácido
que queima a pele como bronzeador caseiro da pior qualidade. Para destruí-las,
a solução é ter boa pontaria no lançamento de coquetéis molotov.
As Mulheres do Planeta Pré-histórico – Uma missão espacial é
obrigada a pousar num planeta desconhecido para resgatar uma nave acidentada. Desgostoso com a presença de estranhos, o planeta manifesta seu descontentamento com répteis gigantes, nativos selvagens, vulcões
e terremotos. Quanto às mulheres do título, elas simplesmente não dão o ar da
graça.
A Zumbi Branca – Uma doce e pura donzela é enfeitiçada e
morre durante o jantar de núpcias. Acaba voltando à vida como uma morta-viva,
graças aos poderes mágicos do vilão, interpretado pelo magnético Bela Lugosi. O
problema é que a moçoila volta do além totalmente borocoxô, e para tirá-la
desse estado de torpor é preciso matar o vilão, que conta com um grupo de seguranças do outro mundo para defendê-lo. Um clássico B dirigido por
Victor Halperin.
A Mulher Vespa – Executiva de uma indústria de cosméticos não
se conforma com o fato de estar envelhecendo e se oferece como cobaia para
experiências com um produto à base de geleia real. Criado por um cientista
cheio de boas intenções, o produto se mostra eficaz ao ser aplicado num gato. Porém, algum tempo depois, o bichano fica esquisitão e a
executiva acaba se transformando numa mulher-vespa sedenta de sangue humano. A
direção é do cultuado Roger Corman, cineasta responsável por inúmeros clássicos
do filme B e pelo início de carreira de gente como Francis Ford Coppola, Martin
Scorsese, Joe Dante, Jack Nicholson e Dennis Hopper.
Resenhas de 1997 e 1998. Foram revistas.







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