domingo, 8 de abril de 2018

A vida como ela é, na tela do cinema


Lenny Bruce, Preston Tucker, Larry Winters, Sid Vicious e Nancy Spungen

        Nas últimas semanas, Rede Record tem se esforçado para promover Nada a Perder, filme que seria uma rigorosa reconstituição cinematográfica da vida do bispo Edir Macedo, dono da emissora e da Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por ele em 1977. A promoção acontece nos programas jornalísticos, que reservam um bloco para distribuir elogios superlativos ao filme. A escolha da área de jornalismo é óbvia - dá maior credibilidade e seriedade ao fato.

Um dos pontos mais destacados pelos âncoras é o fato de que Nada a Perder seria o filme brasileiro com maior número de ingressos vendidos, antes mesmo de estrear nos cinemas. Outras fontes, no entanto, dizem que os ingressos teriam sido comprados pela IURD para posteriormente distribuí-los aos fiéis.

Além de making of e entrevistas com elenco e equipe de produção, a campanha para promover o filme também incluiu uma pré-estreia, em moldes hollywoodianos, para formadores de opinião. Jornalistas, celebridades e artistas, contratados da Record, não pouparam elogios. Já os devotos da IURD saíam da sala de exibição emocionados, alguns com lágrimas nos olhos.

Há ainda um ônibus itinerante que leva o filme aos grotões mais distantes, às periferias e até aos presídios. O filme é como um prolongamento dos comerciais veiculados na emissora, em que fiéis bem-sucedidos contam sua história de prosperidade pessoal e profissional, encerrando a narrativa com o bordão “Eu sou a Universal”.

Depois de tudo isso, pode-se deduzir que o filme está mais para uma peça de marketing pessoal do que para uma obra cinematográfica. O enredo, ao que parece, trata do martírio e da superação do poderoso bispo Macedo, que saiu ileso das acusações de estelionato, curandeirismo, charlatanismo e sonegação fiscal que lhe foram imputadas e o levaram para trás das grades em 1992.

Para aqueles que não têm interesse em assistir ao filme do bispo, aqui vai a recomendação de quatro excelentes cinebiografias, assinadas por 
Bob Fosse, Francis Ford Coppola, Alex Cox e David Hayman.

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Lenny (Lenny, 1974)

Dustin Hoffman é Lenny Bruce

    O diretor Bob Fosse mostra a conturbada trajetória mundana de Leonard Alfred Schneider, ou Lenny Bruce, anárquico e carismático comediante stand-up que 
incendiava os night clubs com suas perfomances, nos anos 1950 e 1960.

Lenny bombardeava a hipocrisia do american way of life com comentários lúcidos e corrosivos em forma de piadas. Nada escapava de seu repertório iconoclasta, que dissecava a América e revelava seu lado podre. Política, religião, casamento, racismo, militarismo, sexualidade, sistema judiciário e violência policial faziam parte do cardápio que deleitava sua fiel plateia.

Perseguido por representantes de setores mais conservadores da sociedade, foi taxado de pornógrafo por usar em público a expressão cocksucking. Em sua guerrilha particular pela liberdade de expressão, enfrentou a justiça, quebrou financeiramente e foi pressionado até os limites do estresse, o que o levou à morte por overdose de morfina em 1966.

Apesar do sucesso e da fama, Lenny não teve uma vida das mais paradisíacas. O casamento com a stripper Honey Harlowe, com quem teve uma filha, chegou ao fim devido ao uso frenético de drogas a que ela se entregava, tornando-se presença constante em delegacias e clínicas de desintoxicação.

Com roteiro de Julian Barry, Lenny tem narrativa bastante ágil. Bob Fosse, ao fotografar o filme em preto e branco, acentuou seu realismo, transformando-o num semidocumentário. A cena final, que reproduz a frieza de uma foto da polícia científica, é chocante e comovente - ao som de It Never Entered My Mind, de Miles Davis, o cadáver de Lenny aparece estendido no chão do banheiro, completamente nu.

A atuação do casal de protagonistas é o ponto alto do filme. Pelo papel de Honey, Valerie Perrine ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes. Nos depoimentos em que relembra os momentos vividos ao lado de Lenny, Honey parece à beira de um colapso nervoso, tentando se equilibrar entre a emoção patética de uma mulher devastada e a apatia de uma pessoa lobotomizada. Mas o show fica por conta de Dustin Hoffman, que dá vida a um Lenny Bruce irredutível e enérgico. 

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Tucker: Um Homem e seu Sonho (Tucker: The Man and his dream, 1988)

Jeff Bridges é Preston Tucker

    O filme de Francis Ford Coppola mostra a luta de Preston Tucker para concretizar um ideal. Espécie de Fitzcarraldo da indústria automobilística norte-americana, Tucker, durante a Segunda Guerra Mundial, inventou a torre de tiro para aviões e um carro de combate que, por ser muito veloz para os padrões vigentes, foi recusado pelas forças armadas. Em 1945, projetou um automóvel com inovações que fizeram tremer os grandes fabricantes da época. Muitas dessas inovações estão presentes nos veículos de hoje.

Após investir numa campanha para atrair acionistas, e assim conseguir fundos para que o projeto saísse do papel, Tucker recrutou designers, engenheiros, mecânicos e montadores para iniciar a produção do “carro do futuro”. A partir daí, passou a sofrer uma perseguição feroz e desigual por parte das grandes marcas, que se utilizaram de manobras desonestas como o boicote no fornecimento de matéria-prima e a ação de lobbies políticos. A mídia também foi usada para manchar sua imagem, mostrando-o como um vigarista que lesou a economia popular. Conseguiu fabricar cinquenta unidades, mas foi levado a julgamento, acusado de desviar dinheiro dos acionistas, e teve sua fábrica desapropriada sob o pretexto demagógico de que ela teria maior utilidade se produzisse casas populares.

Jeff Bridges esbanja jovialidade, interpretando com garra o obstinado Tucker, um homem que encontrava nos obstáculos a razão de continuar sua batalha para concretizar um sonho. Como ele mesmo dizia, “não importa se são cinquenta ou cinquenta milhões, o que importa é o ideal”. Tucker: Um Homem e seu Sonho, cuja ótima trilha sonora tem a assinatura de Joe Jackson, é um dos melhores momentos de Coppola, que alia a nostalgia dos antigos documentários à dinâmica dos desenhos animados. 

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Sid & Nancy – O Amor Mata (Sid & Nancy, 1986)

Gary Oldman é Sid Vicious, Chloe Webb é Nancy Spungen

    Sid Vicious passou pelo planeta como um cometa com a banda inglesa Sex Pistols. Entrou no lugar do baixista Glenn Matlock, função para a qual era considerado medíocre. Sua performance no palco transformava os shows da banda num espetáculo de agressividade e automutilação. Após o fim do Pistols, em 1978, fez algumas tentativas, mal-sucedidas, de voltar à cena. Foi parar na prisão, acusado de matar a namorada, Nancy Spungen – o que sempre negou. Tentou se matar, e foi internado. No hospital, tentou se matar novamente. Morreu em 1979, aos 21 anos, por overdose de heroína, com a ajuda da mãe, que alegou ter injetado a dose letal para terminar de vez com a via crucis do filho. Se existe alguém que merece o epitáfio “Live fast, die young”, esse alguém é Sid Vicious

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vida caótica e conturbada de Sid Vicious chegou às telas de cinema pelo cineasta inglês Alex Cox, que cita Sergio Leone, Stanley Kubrick e Nicolas Roeg como suas principais influências. Seus filmes misturam humor e nonsense, e ele nunca se rende às soluções mais óbvias. Sid & Nancy é um exemplo. Sua visão do tempestuoso romance entre Vicious (Gary Oldman), baixista do Sex Pistols, e Nancy Spungen (Chloe Webb) chega a ser um exercício de liberdade poética. Tudo é estilizado como num comercial de TV. O melhor exemplo são as apresentações dos Pistols – tudo muito clean

Mas, se lembrarmos que o Pistols estourou pelas mãos de Malcolm McLaren, essa estilização tem sentido. McLaren era um empresário ligado ao mundo da moda – tinha uma boutique com a estilista Vivienne Westwood. Toda aquela estética de sujeira e despojamento da banda não tinha nada de espontânea - foi muito bem elaborada, desde a capa dos discos e o guarda-roupa dos integrantes até a entrada de Vicious, um lance que priorizava a pose e o apelo visual. 

Sid & Nancy é um ótimo filme. A melhor sacada está na sequência final, quando Nancy vem de táxi, depois de morta, buscar Sid no momento em que ele, nos arredores de Nova York, dançava com três garotos negros, ao som de um ghetto blaster que tocava Get Down Toninght, da KC & The Sunshine Band. Vale lembrar que, após sua morte, Vicious se tornou mártir e ícone para os punks mais radicais. No desfecho do filme de Cox, é como se Nancy tivesse vindo ao seu socorro para salvar o que seria sua integridade punk. Impedir que Vicious "vendesse sua alma", "perdesse sua pureza", como fez, por exemplo, o Clash, que misturou o punk ao hip hop, ao funk e ao reggae - aliás, com muito talento e resultados admiráveis.

A música-tema, Love Kills, ficou por conta de Joe Strummer, ex-integrante do Clash e grande amigo do diretor. A trilha inclui ainda I Wanna Be Your Dog, clássico dos Stooges, numa versão do guitarrista Steve Jones, companheiro de Vicious no Sex Pistols.

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Uma Sombra no Escuro (Silent Scream, 1990)

Iain Glenn é Larry Winters

    Pouco festejado pela mídia, Uma Sombra no Escuro ficou apenas duas semanas em cartaz no Cine SESC, em São Paulo. Uma injustiça. Com simplicidade e sensibilidade, o diretor David Hayman fez um filme chocante sobre o poeta escocês Larry Winters. O título foi tirado de uma de suas poesias: “Assim como uma vela se apagou / Deixando o vazio onde havia a chama / Sou uma sombra no escuro / Como uma vela apagada”. Em 1964, por causa de míseros trocados, Winters assassinou um barman. Foi condenado à prisão perpétua. Para suportar a vida atrás das grades da fria e escura cela de um presídio inglês, onde era submetido a sessões de tortura, o escritor se entupiu de drogas que o levaram a ser constantemente assombrado por alucinações. Morreu por overdose de psicotrópicos, esquecido e abandonado, após uma crise de vômito, em 1977.

Com um inteligente roteiro não-linear, o diretor Hayman conduz a narrativa com agilidade e criatividade, intercalando, sem rigidez cronológica, as várias fases da vida de Winters: a infância bucólica, a passagem pelo exército, o momento do crime e a estadia no inferno carcerário. Hayman ainda utiliza recursos de animação gráfica ao apontar sua câmera para os manuscritos e desenhos de Winters.

Violento e direto, Uma Sombra no Escuro também tem momentos emocionantes e de humor, cruel e carregado de ironia. Iain Glen, que interpreta Winters, recebeu o prêmio de Melhor Ator no 40º Festival de Berlim. Merece destaque a trilha de Bob Last, que reforça a aspereza do filme.


Resenhas de 1990 e 1991. Foram revistas.

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