Antes de dormir, minha filha gosta que eu leia alguma história para ela. Cansado de Monteiro Lobato, selecionei e ofereci outras opções. Pelo título do livro e pelas ilustrações de Roberto Negreiros, ela escolheu Dois Amigos e Um Chato, coletânea de crônicas de Stanislaw Ponte Preta, alter ego do jornalista carioca Sérgio Porto, que morreu aos 44 anos após o terceiro infarto, em 1968.
Depois de ler algumas crônicas (duas ou três por noite), tentei mudar para Histórias de Cronópios e de Famas, de Julio Cortázar. Ela não gostou. Eu insisti. Resultado: no meio da leitura de Tia em dificuldades, o pau quebrou. A paz só foi restabelecida com a volta das crônicas do Stanislaw. Aqui estão duas delas: Um quadro, escolhida por mim, e À beira-mar, a preferida da minha filha.
***
À beira-mar
Por que será que tem gente que vive se metendo com o que os outros estão fazendo? Pode haver coisa mais ingênua do que um menininho brincando com areia, na beira da praia? Não pode, né? Pois estávamos nós deitados a doirar a pele para endoidar mulher, sob o sol de Copacabana, em decúbito ventral (não o sol, mas nós) a ler Maravilhas da Biologia, do coleguinha cientista Benedict Knox Ston, quando um camarada se meteu com uma criança que brincava com a areia.
Interrompemos a leitura para ouvir a conversa. O menininho já estava com um balde desses de matéria plástica cheio de areia, quando o sujeito intrometido chegou e perguntou o que é que o menininho ia fazer com aquela areia.
O menininho fungou, o que é muito natural, pois todo menininho que vai na praia funga, e explicou pro cara que ia jogar num casal que estava numa barraca lá adiante. E apontou para a barraca.
Nós olhamos, assim como olhou o cara que perguntava ao menininho. Lá, na barraca distante, a gente só conseguia ver dois pares de pernas ao sol. O resto estava escondido pela sombra, por trás da barraca. Eram dois pares, dizíamos, um de pernas femininas, o que se notava pela graça da linha, e outro masculino, o que se notava pela abundante vegetação capilar, se nos permitem o termo.
- Eu vou jogar a areia naquele casal por causa de que eles estão se abraçando e se beijando muito - explicou o menininho, dando outra fungada.
O intrometido sorriu complacente e veio com lição de moral.
- Não faça isso, meu filho. - disse ele (e depois viemos a saber que o menino era seu vizinho de apartamento). Passou a mão pela cabeça do garotinho e prosseguiu: - Deixe o casal em paz. Você ainda é pequeno e não entende dessas coisas, mas é muito feio ir jogar areia em cima dos outros.
O menininho olhou pro cara muito espantado e ainda insistiu: - Deixa eu jogar neles.
O cara fez menção de lhe tirar o balde da mão e foi mais incisivo: - Não, senhor. Deixe o casal namorar em paz. Não vai jogar areia não,
O menininho então deixou que ele esvaziasse o balde e disse: - Tá certo. Eu só ia jogar areia neles por causa do senhor.
- Por minha causa? - estranhou o chato. - Mas que casal é aquele?
- O homem eu não sei - respondeu o menininho. - Mas a mulher é a sua.
*
Um quadro
Até bem pouco caminhava de um lado para o outro. Depois sentou-se algum tempo e deixou-se ficar, respirando fundo a cada instante, em pleno estado de expectativa. Mas já agora levanta-se, vai ao bar e começa a preparar uma bebida. Mede a dose (forte) e atravessa a sala em direção à cozinha, em busca de gelo e água.
Faz tudo isso automaticamente, sem pensar. E volta a sentar-se no sofá da sala; desta vez de pernas cruzadas e copo na mão. Sorve um gole grande e desce-lhe pelo corpo uma dormência boa, uma quase carícia.
Nervoso? Não, não está nervoso. Apenas - é claro - este não é um momento qualquer.
Ao segundo copo está, por assim dizer, ouvindo o silêncio. Há barulhos que aumentam a quietude da noite: piano bem longe, assovio de alguém que passa, latido de cachorro no morro, pio de ave, o mar.
As luzes estão apagadas e a claridade que vem de fora projeta-se contra a parede e ilumina o quadro.
É um velho quadro a óleo, representando um homem de meia idade, com barbas grisalhas e basto bigode. Está há tanto tempo pendurado na parede que raramente repara nele. Um dia - faz muitos anos - perguntou quem era. Disseram-lhe que era o fundador da família, um antepassado perdido no tempo, que um pintor da época retratara sabe lá Deus por quantos patacos.
"Ele é o pai do pai do pai do pai do pai do meu pai" - pensou
Por que, na partilha dos bens, sobrara-lhe o quadro é coisa que não sabe explicar. Quando os irmãos se separaram e deixaram a casa que seria demolida, talvez tivesse apanhado o "velho dos bigodes" (que é como o chamavam os meninos) e metido em um dos caixotes.
Agora estava ali a fazer-lhe a companhia, espiando-o com seus olhos mansos em nada diferentes dos de seus semelhantes, outros avós, de outras famílias, em outras molduras.
Seu olhar calmo, de uma meiguice que os homens de hoje esqueceram de conservar, quanta coisa já contemplou? Quantos dramas, comédias. gestos, atitudes, festas, velórios? Quantas famílias de sua família?
Por certo viu moças que feneceram, homens que já não são mais. Assistiu impávido a batizados e casamentos, beijos furtivos, formaturas. Na sua longa experiência de emoldurado provavelmente pouco se comoveu com as comemorações e os lamentos, fracassos ou júbilos dos que transitaram, através dos tempos, frente às muitas paredes em que o colocaram.
Em 1850 morava numa fazenda, casa do bisavô. Depois, ao findar do século, noutra fazenda, de terras menos pródigas, foi testemunha muda e permanente de um lento caso de morte.
"Meu avô" - pensou o que esperava, dando mais um gole na bebida.
Será que pressentira a chegada da morte? A saúde do velho esvaindo-se, apagando-se lentamente, como um círio. As intermináveis noites de apreensão, a tosse quebrando o silêncio, angustiando os que esperavam. Depois não foi preciso esperar mais. Depois mais nada.
Mais nada ou tudo outra vez, que um dos filhos levou consigo o "velho dos bigodes" para novas contemplações; de outras paredes para outros descendentes.
O telefone toca violentamente. O que aguarda a notícia salta para ele, e com voz rouca atende:
- Seu filho já nasceu - informa a voz do outro lado. E acrescenta: - Tudo vai bem.
O homem volta sereno para o bar. Enche novamente o copo, agora a título de comemoração. Levanta-o à altura do peito, mas na hora de beber lembra-se do velho no quadro e saúda-o sem dizer qualquer palavra.
Não fosse o nervosismo de há pouco e também os uísques que tomara, seria capaz de jurar que o "velho dos bigodes" sorria.
- Seu filho já nasceu - informa a voz do outro lado. E acrescenta: - Tudo vai bem.
O homem volta sereno para o bar. Enche novamente o copo, agora a título de comemoração. Levanta-o à altura do peito, mas na hora de beber lembra-se do velho no quadro e saúda-o sem dizer qualquer palavra.
Não fosse o nervosismo de há pouco e também os uísques que tomara, seria capaz de jurar que o "velho dos bigodes" sorria.
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