Mudança de Vida é o título do texto que Folha de São Paulo publicou em 22 de agosto de 1999. Seu autor é o médico mineiro Eduardo Gonçalves de Andrade, mais conhecido pelo apelido de Tostão, um dos jogadores que encantou o mundo com a seleção brasileira de futebol de 1970.
Ídolo do Cruzeiro, Tostão sofreu descolamento de retina ao levar uma bolada no olho esquerdo, em 1969. Passou por uma cirurgia nos EUA e foi um dos tricampeões na Copa do México. Após quatro anos, o problema se agravou, e o risco de ficar cego o obrigou a encarar uma mudança dramática: em 1973, aos 26 anos, teve de abandonar o futebol, prematuramente, no time do Vasco da Gama. Fora dos gramados, virou médico, cronista, comentarista e colunista esportivo.
Tostão faz parte do reduzido e seleto grupo de jogadores de futebol que não se limitam a usar a cabeça apenas para mudar a cor e o corte de cabelo toda semana. Com personalidade, senso crítico e inteligência, seu talento passou das pernas para as mãos. Aqui vai um tostão de Tostão.
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Mudança de vida
Tostão
Nada é mais difícil do que mudar de residência e de vida. Estou saindo de um apartamento seguro, cercado de todas as necessidades imediatas, para morar em uma casa distante, sem esses recursos.
É evidente que existem vantagens nessa troca. Não sou masoquista, e ainda não apagou em mim a busca de novos prazeres, mesmo que sejam uma ilusão e eu me arrependa mais tarde. Vou morar fora da cidade, junto de uma imensa e bela mata, de um riacho, com seu leve som musical, e de pequenos animais. Tudo que sonhei um dia: casa, natureza, silêncio, livros e companhia de poucas pessoas queridas. Espero que elas não achem o local tão longe e que apareçam com bastante frequência.
Pretendo me ausentar do trabalho na televisão por uns tempos. Há cinco anos, viajo quase todas as semanas e estou cansado. Talvez, esteja ficando velho. Ao mesmo tempo que o trabalho na TV me alegra, envaidece e me remunera muito bem, sinto-me ansioso e tímido diante das câmeras.
Vou tirar férias dos aeroportos. Estou enjoado da comida de avião. Nunca consigo abrir aquelas "marmitinhas" sem derrubar na roupa. Andei sonhando com as belas aeromoças e com suas instruções de segurança. Se houver qualquer problema no avião, quem vai abrir a porta de emergência, já que ninguém presta atenção nas instruções?
Não aguento mais dormir em hotéis, mesmo confortáveis e sendo bem recebido. Sinto falta de meu quarto, meus fantasmas e meu travesseiro. Por que os hotéis não têm travesseiros mais anatômicos? Já pensei em viajar com o meu, mas, como ele é grande, suspeitarão que tive um trauma de infância.
Quando viajo, não consigo dispensar bons restaurantes. São uma tentação, mas preciso cuidar de minha saúde, tomar regularmente meu remédio, emagrecer e andar diariamente pelos verdes caminhos perto de minha nova casa.
Quero também escrever mais, refletir, estudar novamente filosofia e psicanálise e namorar com mais frequência. Tenho muitos planos para pouco tempo e uma preguiça intermitente, que não me deixa correr mais rápido atrás de meus desejos.
Pretendo ainda reler meus autores preferidos, Rubem Braga, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Adélia Prado e outros, aproveitando o silêncio e a natureza. Meus filhos me deram um livro de crônicas do João Ubaldo Ribeiro, que há muito tempo não lia, e estou adorando. Eles disseram que é para eu esquecer minha obsessão pela Clarice Lispector.
Como é difícil decidir quais objetos vou levar na mudança! Quero ser prático, carregar somente aquilo que vou usar, mas não consigo abandonar velhos objetos. Todos têm uma história afetiva.
Tenho medo de gostar da nova vida e não sair de casa. Sou pouco sociável. Ao contrário do que falam os jogadores, não estou preparado para essa mudança, mas vou tentar. "Quem não arrisca, não petisca".
Texto publicado no jornal Folha de São Paulo.




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