A recente descoberta de um corpo celeste em forma de baseado, chamado Oumuamua, tem feito a cabeça de astrônomos, ufólogos, maconheiros e fãs da série Arquivo X, todos ansiosos para dar um tapa ou ter algum tipo de contato com extraterrestres.
A imagem do objeto oblongo traz à memória a absurda e hilariante descrição de um óvni, publicada na Folha de São Paulo, há aproximadamente trinta anos: “um gigantesco charuto voador em forma de cachimbo”. O autor do texto é Perry White, personagem das HQs da DC Comics, chefe de redação de Clark Kent, o Superman, no jornal O Planeta Diário. White e o jornal tiveram os nomes surrupiados por Reinaldo Figueiredo, Hubert e Cláudio Paiva, que, em 1984, fundaram o tabloide humorístico O Planeta Diário, no Rio de Janeiro. Em 1987, o trio foi proibido, judicialmente, de usar o nome Perry White, considerado propriedade da DC - mas puderam continuar usando o nome do jornal. Influenciados pelo do humor malandro, ácido e nonsense do jornalista Ivan Lessa, os textos de White são uma colagem alucinada de referências cujo resultado é surrealista e hilariante.
O cartunista Henfil não via motivos para se divertir, e criticava o estilo de humor do Planeta. Segundo ele, além de não enriquecer o debate político, o tabloide era preconceituoso em relação a certas minorias. Não custa lembrar que esse mesmo Henfil já tinha feito piada com leprosos - ou hansenianos. No livro Humor é coisa séria, do psicanalista Abrão Slavutzky, há uma passagem sobre a polêmica: “O poeta Ferreira Gullar critica duramente Henfil, que também tem conflito com o grupo do semanário Planeta Diário. Essa era uma publicação nova, de humoristas menos políticos, ou melhor, que gozavam de tudo e de todos, incluindo a esquerda. Cláudio Paiva, um dos humoristas criticados por Henfil, disse: ‘Toda renovação é complicada. Difícil para ele, que tanto sucesso fizera com o humor político, perceber que aquela fórmula já não era a única possível... Naquele momento, ele achava que a nossa atitude não era política. Discordávamos. O humor é inevitavelmente político, pois está sempre na contramão. A piada é oposição, seja lá ao que for’”.
O Planeta Diário parou de circular em 1992. Seus integrantes se juntaram ao pessoal da Casseta Popular e fundaram o grupo Casseta & Planeta. Atualmente, quem mantém vivo o espírito do finado Perry White é outro jornalista fictício, Agamenon Mendes Pedreira, criado por Hubert e Marcelo Madureira. Agamenon tem uma coluna no site Casseta & Planeta e ganhou vida no cinema com Marcelo Adnet, em As Aventuras de Agamenon, o Repórter. O texto abaixo faz parte do livro Apelo à Razão, uma coletânea das colunas de Perry White publicadas na Folha de São Paulo.
***
Meninos, eu OVNI!
Perry White
"UFO neguinho na estrada
UFO pra lá e pra cá
Virge que coisa mais linda
UFO neguinho começando a voar (bis)
E já começa a piscar"
(Terremoto Elis in "Alô, Alô, Marciano)
Era uma noite fria e calculista. Havia algo estranho no ar. Olhei para minhas mãos amarelas e gritei horrorizado:
- Alguém peidaram, não sei quem fui, pagarei quando puder!
De repente, uma mão boba tocou o meu ombro. Era meu amigo, Jânio Carlos, que apontava o dedo trêmulo para o céu e gritava estupefactadíssimo:
- Veja-lo! Ufo-lo porque Ovni-no!
Foi difícil acreditar... se quiser no que minhas retinas cansadas viam: uma bizarra luminosidade que se assemelhava a um Fogo Paulista oriundo de outra Galáxia, muito menos nicotina com muito mais prazer, a opção de vida inteligente em outros planetas.
Sabia muito bem que por questões políticas a imprensa, sempre tendenciosa, não acreditaria no testemunho ocular de fundo de garrafa do meu amigo Jânio Carlos, que a esta altura do campeonato mundial de futebol já havia visto mais de cinquenta e uma naves-mães-solteiras e uma manada de ratos voadores verdes com apliques de miçangas e lantejoulas girando à sua volta.
Felizmente, para confirmar minha versão mix extended play, pude contar com o testemunho de outros companheiros que ali se encontravam: Stevie Wonder, José Feliciano e Jorge Luís Borges, o artilheiro do time dos casados.
Diante de nós, a enorme nave-mãe, com o trem de aterrissagem todo sujo de ovo, pousou suavemente sobre a cabeça privilegiada de meu amigo Jânio Carlos, sob o olhar atento da nave-pai-de-santo, um gigantesco charuto voador em forma de cachimbo.
Há muito esperávamos por esse momento, e para não deixar passar em branco total radiante o Dia das Naves-Mães, trazíamos conosco uma Kombi cheia de oferendas, a destacar as belíssimas vassouras confeccionadas por Wonder, Feliciano e Borges, todas com a famosa griffe Jânius Klein, a vassoura de Ipanema. Mas, sem dúvida alguma, o que deixou a nave-mãe com lágrimas nas células fotoelétricas foi o belíssimo porta-caixa-de-fósforos que confeccionei na escola com o auxílio da tia Gladys e suas bichinhas.
Como era fim de semana, a nave-mãe levou-nos para passear e ver os famosos Golfinhos de Saturno.
No interior da astronave, nos deparamos com centenas de marcianos, todos de coloração esverdeada, de óculos, rechonchudos, com um riso sarcástico no canto da boca, um crachá de correspondente da Folha e reclamando do serviço dos garçons porto-riquenhos nos restaurantes de Nova York. Não há dúvidas: estávamos diante de uma inteligência superior!
Durante a viagem, depois de longas conversas telepáticas, conseguimos convencer os seres do espaço a dar uma passada no nosso apê para tomar um drink, ouvir alguns discos voadores e vestir um traje espacial mais confortável. Mas, infelizmente, não pudemos concretizar nosso desejo de um contato imediato mais íntimo, já que Cumbica estava fechado para almoço.
PERRY WHITE é o levem-me ao seu líder de O Planeta Diário.


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