Verão do Amor: Jimi Hendrix aterrorizou os fãs dos Monkees, e vice-versa
Muita gente reclama da falta de critério da programação do Rock in Rio. Em 1985, Erasmo Carlos, precursor do rock nacional foi uma das inúmeras vítimas dessa falta de critério. Para que apressasse sua apresentação e deixasse o palco para o Whitesnake, o Iron Maiden e o Queen, o Tremendão, que, na época, havia escrito uma canção para Roberta Close, saiu de cena aos gritos de “Fora, comedor de travesti!”. Até a programação do conceituado Festival de Jazz de Montreux teve seus momentos de nonsense quando o grupo É o Tchan! subiu ao palco, em 1997.
Trinta anos antes, época em que o mundo não estava globalizado, conectado num ritmo tão intenso e imediatista, nada parecia tão bizarro quanto colocar, no mesmo dia e no mesmo palco, a caretice açucarada do bubblegum pop do quarteto The Monkees e a loucura psicodélica do heavy rock & blues do trio Jimi Hendrix Experience.
Se para a (muito) jovem plateia o choque era apenas sonoro e visual, para os papais conservadores a coisa ia muito além, e havia entre eles um constrangimento velado que atingia o patamar de um pesadelo: suas crianças estavam expostas a um trio inter-racial formado por um negro e dois brancos - sendo que o líder era o negro. Um líder selvagem que simulava o ato sexual com uma guitarra. Era como levar os filhos à Disneylândia e, de repente, vê-los virar oferenda num ritual de sacrifício. Após sete shows, o Jimi Hendrix Experience abandonou a turnê. Em entrevista à New Musical Express, Hendrix disse que alguns pais consideraram indecente a apresentação do trio. "Não era o nosso público. Acho que vão colocar o Mickey Mouse no meu lugar", comentou.
Lembrado e idolatrado, ano após ano, por incontáveis gerações de guitarristas, Hendrix dispensa comentários. The Monkees foi um grupo musical inventado, em meados dos anos 1960, para entreter crianças e adolescentes. A ideia (de que fosse uma versão norte-americana dos Beatles) saiu das cabeças do diretor Bob Rafelson e do produtor Bert Schneider. Se os Beatles eram o Fab Four (o quarteto fabuloso), os Monkees seriam o Prefab Four (o quarteto pré-fabricado). A armação em torno da banda foi planejada para movimentar muita grana entre todos os envolvidos – o que, de fato, aconteceu. Era tudo muito bem amarrado. Para impulsionar a venda dos discos, o quarteto estrelava um seriado de TV. Como Batman & Robin, tinham um carro personalizado, o Monkeemobile. Até Stephen Stills se candidatou a uma vaga no grupo - dizem que foi recusado por causa de uma dentição pouco fotogênica.
Apesar das diferenças musicais entre os Monkees e o trio de Hendrix, dois integrantes do quarteto compartilhavam com o guitarrista um estilo de vida bem parecido. Peter Tork e Micky Dolenz moravam nos arredores de Laurel Canyon, região de Los Angeles habitada por estrelas da música e do cinema. Era uma mistura de paraíso sexual, laboratório psicodélico e usina de talentos.
Dolenz, por exemplo, mantinha as portas de sua casa sempre abertas para Jack Nicholson, Dennis Hopper, Harry Dean Stanton e Rafelson. Eram o oposto do quarteto bem comportado do qual Dolenz fazia parte na TV. Para se ter uma ideia, Rafelson foi definido por um amigo como “um modelo de promiscuidade e uso de drogas”. A sogra de Dolenz, por exemplo, implorava aos visitantes que, pelo menos, vestissem sungas. Em 1969, o Laurel Canyon começou a ser abandonado por seus ilustres moradores, aterrorizados pela brutal chacina cometida nas proximidades por um bando de malucos conhecido como Família Manson.
Jimi Hendrix no Festival de Monterey, 1967
Sobre Hendrix, Dolenz disse que ele era um cara quieto e gentil, e que seu relacionamento com os Monkees foi bastante descontraído. Saíram para um passeio de barco em Miami, e ficavam juntos, no quarto do hotel, vendo-o tocar.
Jimi Hendrix, indiscutivelmente um dos músicos mais visionários da história ocidental, morreu em 18 de setembro de 1970, vinte anos atrás, de complicações causadas (presumivelmente) por uma dose excessiva de soporíferos. Em relação a projetos musicais, uns dizem que ele estava atormentado por dúvidas, outros, que estava otimista.
A carreira de Hendrix sempre se fundamentou em contradições. Ele era um mestre da sutileza e do excesso. Era um guitarrista negro de blues tocando rock psicodélico para uma audiência de maioria branca. Seu uso dos mais avançados recursos eletrônicos – amplificadores de grande alcance, pedais wah-wah, caixas de distorção – ampliou bastante o vocabulário sonoro da guitarra, sendo que seu gênio para criar e arranjar sons é inimitável.
Existe mais uma contradição na biografia de Hendrix, que começou na Flórida: em julho de 1967 – auge do “Verão do Amor” e dos terríveis distúrbios raciais pelos EUA – o trio Jimi Hendrix Experience dava início à sua primeira turnê norte-americana.
Abrindo para os Monkees.
Em retrospecto, uma união que parecia coisa de ficção científica. Posteriormente, Hendrix descreveria a situação como “casar Branca de Neve com Drácula”. Mas, até então, a ideia até que fazia sentido. Graças a um seriado televisivo e alguns bons singles, os Monkees eram a segunda banda mais popular do mundo, atrás dos Beatles.
Dois membros do “prefab four”, Micky Dolenz e Peter Tork, se tornaram fãs de Hendrix, após testemunharem a demolidora estreia do Experience em solo americano, no dia 18 de junho, no Monterey Pop Festival. O raciocínio era simples: se os Monkees admiravam Hendrix, seus fãs também o admirariam. Menos de quatro horas após Hendrix, o baixista Noel Redding e o baterista Mitch Mitchell descerem do palco em Monterey, o contrato para a turnê já estava assinado.
Hendrix se apresentou em apenas sete datas com os Monkees, antes de cancelar sua participação num mútuo acordo (a presença de Hendrix tinha uma carga muito sexual, e o Experience não estava contente por ser retirado do material de divulgação do show). As primeiras sete apresentações aconteceram no Jacksonville Coliseum, num sábado, dia 8 de julho de 1967.
Além dos Monkees e do Experience, participavam da turnê o cantor australiano Lynne Randell e o grupo nova-iorquino The Sundowners, que, depois de se apresentar, tocava escondido atrás das cortinas, durante a apresentação dos Monkees. The Sundowners não era a banda de mesmo nome da qual fez parte Tom Petty em início de carreira.
Durante 20 minutos, Hendrix tocava material de seu primeiro álbum (Foxy Lady, Purple Haze, Fire) com alguns covers que se revezavam de uma noite para outra –Wild Thing, Killing Floor, e, quem sabe, a canção-título do álbum Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band.
Não existem gravações em áudio do Experience nessa turnê, apesar da disponibilidade de gravações de várias excursões de Hendrix pelos EUA, como músico de apoio para Little Richard, Curtis Knight, The Isley Brothers e muitos outros.
“A maior parte do público não sabia nada sobre Jimi Hendrix”, disse Anne Carey, que hoje trabalha como gerente na Novel Ideas, uma livraria de Gainsville. “Não era a música nem a pessoa nem o artista que eles esperavam. Todos estavam sentados em suas poltronas se perguntando ‘o que é isso?’”
Anne cresceu em Jacksonville e, em julho de 1967, estava em visita à casa dos pais, antes de iniciar seu segundo ano na universidade em Chicago. Ela gostava dos Monkees como atores e já estava familiarizada com Jimi Hendrix. Seu irmão era fã e tinha comprado uma cópia importada de seu primeiro álbum, Are You Experienced?, que tinha sido lançado em maio na Inglaterra, mas só seria lançado nos EUA em setembro.
Hendrix, Nesmith e Tork
Como era de se esperar, parte do público achou a escultura de ruídos e as acrobacias de Hendrix muito mais excitantes do que o charme inocente dos Monkees. Uma dessas pessoas era Phillip Haveard, que “com muita má vontade” dirigiu de Gainsville, acompanhado do melhor amigo e de suas respectivas namoradas.
Haveard tinha 18 anos, era fã de Bob Dylan e achava que tudo seria perda de tempo. “Chegamos muito cedo. O apresentador apareceu e disse algo sobre um grupo inglês fora do comum que ia tocar algo realmente diferente”. No show de Jacksonville, sem estar previsto, o Experience tocou imediatamente antes dos Monkees, apesar de, nas próximas apresentações, ser colocado para tocar primeiro, quando a plateia estivesse menos agitada.
“O Experience foi uma surpresa para mim, mas meus amigos não entenderam”. Hendrix tocou com os dentes e arremessou a guitarra contra os amplificadores, mas não a incendiou como fez em Monterey. Quando a apresentação terminou, Haveard e outras pessoas se levantaram e aplaudiram. Mas a maior parte permaneceu sentada em suas poltronas. “Parecia que as pessoas o amavam e o odiavam”, disse Haveard, corretor imobiliário na região de Gainsville.
Naturalmente, a grande maioria da audiência que lotava o local só queria ver os Monkees. Janis Smith tinha 12 anos na época, e sua irmã Kathy, 10 - eram fãs “fervorosas” do quarteto. Foram no carro dirigido por Ann, a irmã de 20 anos que gostava de Elvis e, provavelmente, tolerou os Monkees por amar as irmãs menores.
Janis se lembra pouco da performance de Hendrix – “definitivamente, não estávamos preparadas para a música de Jimi" – Kathy ficou assustadíssima quando Hendrix atacou os amplificadores, e Janis disse que, ao fim da apresentação, a vaia foi geral.
“Acho que vaiamos também, tenho vergonha de admitir isso agora”, ela disse. “Jimi, por favor, nos perdoe, pois não sabíamos o que estávamos fazendo. Estávamos ali apenas para ver nossos heróis, os Monkees”. Jane trabalha em Gainsville, numa firma de pesquisa jurídica.
“Foi como uma explosão de Star Wars” é maneira que Jimmy Patrick encontrou para descrever o Experience. Nascido em Jacksonville, Jimmy estava no fim da adolescência, e foi ao show com seus pais e primos mais jovens. Jimmy revelou que a banda tocava com volume bastante alto e lembra de Hendrix estar vestido como no filme do festival de Monterey – bandana, calça boca de sino e camisa aberta.
Tork, Hendrix e Noel Redding
É claro que nem todos puderam apreciar muito bem Hendrix durante os shows. Os 10 mil assentos do Jacksonville Coliseum estavam ocupados, com ingressos numerados por poltrona (vendidos por 4, 5 e 6 dólares, dependendo da localização), e algumas pessoas, como Becky Raymond, não tiveram escolha senão ficar nas cadeiras da parte superior. Seu irmão mais velho a levou ao show como forma de presenteá-la pelo aniversário de 16 anos. Ela disse que Hendrix agradou até fazer um longo solo, quando ela percebeu que o queria mesmo era ver os Monkees. Distante do palco, Hendrix não parecia tocar com volume alto, mas o impacto visual da banda foi tanto que Becky voltaram a Gainsville comentando a ginástica de Hendrix com a guitarra.
Becky, gerente de departamento da Dillard’s, em Gainsville, comparou Hendrix aos Monkees como fizeram outros entrevistados – “era como noite e dia”.
Bob Wood foi ao show no dia de seu 14º aniversário, acompanhado de seu irmão menor e de sua mãe, que dirigiu desde Gainsville. Bob, então um guitarrista iniciante, teve a mesma reação de outros músicos. Ele queria saber “onde estava o outro guitarrista?” (É bom saber que Hendrix podia tocar duas, e até três, partes de uma vez só).
“O impacto visual era devastador. Naqueles dias, quando a garotada queria ver um grupo pop, vestir botas dos Beatles e balançar a cabeça era considerado vanguarda. Então, chegou Hendrix com sua parede de amplificadores”.
No fim do show, Hendrix jogou a guitarra por cima da cabeça e deixou-a caída em frente aos amplificadores gritando feedbacks para a plateia. Bob e mais ou menos 100 pessoas retribuíram, pulando e gritando num gesto de aprovação, enquanto, ao redor, crianças permaneciam sentadas, mudas e com os olhos bem arregalados.
“Uma senhora perto de mim, disse para a filha, ‘Estou feliz que tenha terminado’”, concluiu Bob, gerente de engenharia da WUFT-TV de Gainsville.
A assistente social Susan Hannburry tinha 13 anos e lembra que o show “mudou seus pontos de vista”. A coreografia de Hendix no palco estava absolutamente conectada à sua técnica musical, mas incluía, com frequência, violentos golpes pélvicos e movimentos sugestivos com o braço da guitarra. “Ele era muito sensual no palco, com um estilo muito próprio”, disse Susan.
E o qual foi o resultado disso tudo?
O produtor Allan Douglas, que trabalhou com Hendrix em 1969 e 1970, e é curador do material gravado pelo guitarrista, diz que a turnê dos Monkees “não significou muita coisa. Era apenas a turnê de um grupo jovem. Um caça-níqueis”.
Mas, para Michael Fairchild, autor e divulgador do legado de Hendrix que trabalha com Douglas, a desistência da turnê dos Monkees deu grande publicidade ao Experience. Chas Chandler, baixista do Animals e empresário de Hendrix, chegou a inventar uma história sobre protestos do grupo conservador Daughters of the American Revolution contra Hendrix que se espalhou como um incêndio e se tornou parte da sua mitologia. Indagado se a turnê dos Monkees foi um bom negócio para Hendix, Fairchild respondeu “sim”.
A garotada que foi aos sete shows dos Monkees pôde vislumbrar uma história em construção e forças muito maiores do que aquelas da rede de TV.












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