sábado, 28 de outubro de 2017

O que se aprende nas ruas, nenhuma universidade pode ensinar


Lou Reed e Rachel


    Em 1976, o cantor e guitarrista Lou Reed compôs "Coney Island Baby", uma das mais belas canções de amor do rock. Dedicou-a à namorada, Rachel, uma mulher transexual. Quatro décadas depois, o mesmo Reed, morto em 2013, ainda é capaz de causar polêmica: por mais incrível que pareça, foi acusado de transfobia por universitários canadenses, que se manifestaram contra "Walk on the Wild Side", outra canção de sua autoria - talvez, a mais conhecida. 

Lançada em 1972, no álbum Transformer, clássico do glam rock produzido por David Bowie e Mick Ronson, a canção foi escrita originalmente a pedido de Andy Warhol, que pretendia produzir um musical off-Broadway baseado no livro A Walk on the Wild Side (1956), no qual o escritor Nelson Algren descrevia a rotina do submundo da New Orleans dos anos 1930. Definida pela jornalista Ana Maria Bahiana como uma canção de rua magistral, "Walk on the Wild Side", na época de seu lançamento, não escapou da censura (que só permitiu que ela fosse tocada nas rádios em versão editada e reduzida) nem dos conservadores (que ouviam nela uma apologia à prostituição).

No contexto politicamente correto, pode-se dizer que a letra de "Walk on the Wild Side" contém uma expressão considerada racista: "colored girls” ("garotas de cor"). No Brasil (dos anos 1970), em uma tradução da música, a expressão virou “garotas negras” - a mesma tradução omitiria a estrofe que menciona a prática de sexo oral. 

O mais surpreendente na atitude nonsense e retrógrada dos estudantes canadenses é o fato de ela ter vindo de um país que deu ao mundo gente talentosa e revolucionária como Oscar Peterson, Joni Mitchell, Neil Young, Glenn Gould, David Cronenberg, Catherine O’Hara, Denys Arcand, Naomi Klein e o grupo de comediantes The Kids in the Hall. Cronenberg, por exemplo, foi alvo de críticas raivosas e apaixonadas ao ter seu filme Crash exibido no Festival de Cannes de 1996. Polêmico, por contar a história de uma confraria de fetichistas que se excitavam sexualmente com acidentes automobilísticos, o filme foi baseado em livro do inglês J.G. Ballard. Indicado para a Palma de Ouro, Crash levou o Prêmio Especial do Júri, por sua "originalidade, audácia e ousadia".  

***

Não, "Walk on the Wild Side", de Lou Reed, não é transfóbica - contem uma história melhor


    Roisin O'Connor 

    “Holly came from Miami F-L-A
    Hitchhiked her way across the U.S.A
    Plucked her eyebrows along the way
    Shaved her legs and then he was a she
    She says, hey babe, take a walk on the wild side 
    Said, hey honey, take a walk on the wild side”

    (Holly veio de Miami, Flórida
    Atravessou os EUA de carona
    Tirou as sobrancelhas no caminho
    Depilou as pernas e virou mulher
    Ela dizia, ei, benzinho, vem dar um rolê pelo submundo
    Dizia, ei, querido, vem dar um rolê pelo submundo)

    Holly Woodlawn, a atriz transexual por trás destes versos, se emocionou com Walk on the Wild Side. “Lou Reed me imortalizou”, disse, deslumbrada. Reed foi um dos primeiros artistas a cantar sobre mulheres transexuais com amor, admiração e respeito. Quando Walk on the Wild Side desfilou na parada de sucessos em 1972, a homossexualidade ainda era classificada como doença mental pela American Psychiatric Association. O próprio Reed declarou que foi forçado a se submeter à eletroconvulsoterapia na adolescência para “curar” sua atração sexual por homens, fato que mais tarde ele detalhou na música Kill Your Sons. “Eles enfiam uma coisa na sua garganta, para você não engolir a língua, e colocam elétrodos na sua cabeça”, disse. “Esta era o tratamento, em Rockland County, para desencorajar sentimentos homossexuais”.

Sua amizade com Andy Warhol o levou a conhecer muitas mulheres transexuais famosas nos anos 1960 e 1970, incluindo Candy Darling, para quem Reed compôs, com empatia, Candy Says. Reed teve um duradouro relacionamento com uma mulher transexual, Rachel, sobre quem pouco se sabe, mas que Reed descreveu com grande afeto, referindo-se a ela nos dois gêneros numa mesma frase: “Nada a impressiona. Ele raramente ouve minha música e, quando ouviu, não gostou muito”. Existem ainda vários rumores sobre seus relacionamentos com homens, levando alguns fãs a citá-lo como o primeiro astro de rock a “sair do armário”. Mas por que se preocupar em relembrar tudo isso quando você pode inventar alguma indignação, em troca da legitimação insignificante de que suas opiniões valem alguma coisa?

É o que os estudantes da Universidade de Guelph, no Canadá, fizeram na semana passada, se “desculpando” por tocar Walk on the Wild Side, sob a alegação de que seus versos “ofendiam nossos amigos da comunidade transexual”. Levados a explicar exatamente o que seria tão ofensivo na letra da canção, disseram que ela “aparentava ser questionável”, por sugerir que as pessoas transexuais seriam “selvagens” (wild). Além disso, o grupo de estudantes, ao mesmo tempo em que reconhecia que a canção tinha sido escrita com “determinado propósito e intenção”, enfatizava que “o que é comunicado nem sempre é absorvido da maneira desejada”. Porque Deus proibiu a arte de estar aberta à interpretação, certo?


Hal Wilner, produtor de Reed, resumiu melhor, dizendo que não sabe se Reed estaria “dando gargalhadas ou chorando, porque isso é muito estúpido”. E como é estúpido. Hilariante, revoltante, desprezível também.


As pessoas que se dizem ofendidas pela canção reivindicam a preservação dos valores liberais, quando, na verdade, estão caricaturando a indignação moral de Mary Whitehouse, que, em 1978, reclamou que a coreografia de Arlene Philips e sua trupe Hot Gossip ao som de – adivinhem – Walk on the Wild Side era muito provocante para o horário em que as famílias se reuniam diante da TV. Como Whitehouse, os estudantes são “reacionários”, reagem a tudo que julgam ser “insensível” ou “questionável” porque isso desafia suas noções do que é aceitável numa sociedade civilizada e moralista, e porque o tipo de arte criado por Reed é ousado, experimental e, sim, selvagem. E isso os amedronta.

Esses jovens, estudantes liberais, que já fizeram forte oposição a Whitehouse, hoje são seus aliados – escolhem coisas que sejam ofensivas a eles só porque é isso que está na sua linha de mira.

Vivemos na era da indignação “escolhida a dedo”, na qual as pessoas escolhem os temas que as incomodam quando isso é conveniente a elas, ao acaso, e sempre sem o esforço de verificar o contexto. Chegamos a um ponto em que as pessoas tentam censurar a arte sem conhecer os motivos de se sentirem ofendidas.

Isso não só é estúpido como é perigoso. Enquanto fãs são atacados em lugares onde deveriam ser livres para celebrar e ter segurança para ser o que quiserem, terroristas tentam nos amedrontar agindo de determinada maneira, falando de determinada maneira e pensando de determinada maneira. Concentrem sua raiva neles.

Não tentem censurar a arte de ontem por não concordarem com ela. Não digam aos novos artistas que eles devem pintar o mundo do jeito como vocês o enxergam. Encoraje-os a explorar diferentes perspectivas, opiniões, idéias, e aí - quem sabe? - eles poderão simplesmente ensinar algo novo a vocês.


Texto de Roisin O'Connor para o site do jornal inglês The Independent, maio de 2017.
O título do post faz referência a um trecho da música "Mistrial", de Lou Reed, que está no álbum homônimo, lançado em 1987: "But there's some smarts you learn down in the street / That a college education can't buy". 

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