terça-feira, 3 de outubro de 2017

'E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada, é idiota'


The Wowser's Retinue, de Norman Lindsay


    Noite. Interior de um coffee shop. À mesa, um rapaz lê Trópico de Câncer, de Henry Miller. De outra mesa, uma garota o observa e comenta: “Amo este livro". Ele responde: "Miller é realmente magnífico". A garota continua, repetindo palavras do próprio Miller sobre a obra: "Não é um livro. É um longo insulto, uma cusparada na cara da arte. Um chute no traseiro da Verdade, da Beleza, de Deus... alguma coisa assim”. O casal engata um bate-papo e a situação evolui até o rapaz anotar o número do telefone da garota.


A cena descrita está no início de Depois de Horas (After Hours, 1985), pequena joia da filmografia de Martin Scorsese. O livro de Miller se tornaria o passaporte para a noitada infernal do solitário leitor. Para os cinéfilos, a diversão estava mais do que garantida nos próximos 90 minutos. Mas teve gente que, em vez de se divertir, preferiu acusar o filme de Scorsese de misoginia. 


Seis anos após Depois de Horas, o diretor voltaria a citar Henry Miller na refilmagem de Cabo do Medo (Cape of Fear, 1991). No filme, um perigoso ex-presidiário envia um exemplar de Sexus para a filha adolescente do advogado contra o qual planeja uma vingança. 


Ver o nome de Henry Miller associado a uma noite infernal ou à sede de vingança de um psicopata não chega a ser surpreendente. Seu nome sempre esteve ligado a polêmicas, devido, principalmente, à naturalidade com que tratava do sexo em seus livros.

Sexus, de Henry Miller, no filme Cabo do Medo

Na década de 1960, colocando a obra de Miller no centro da discussão, Otto Maria Carpeaux escreveu um ensaio sobre a liberdade de expressão na literatura - ensaio que continua atual e, em sua essência, vale para toda e qualquer manifestação artística.

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Literatura ou pornografia?

Henry Miller

    Otto Maria Carpeaux 

    Henry Miller é hoje mais que um escritor mundialmente famoso. É mais que um grande cartaz. É uma bandeira. Só quanto à cor dessa bandeira subsistem dúvidas teimosas. Para uns, Henry Miller é um apóstolo da liberdade. Para outros, um sedutor diabólico. O problema é este: seus livros seriam grandes obras de arte ou seriam um acúmulo monótono de descrições sordidamente sexuais? Literatura ou pornografia?

Essa questão – literatura ou pornografia? – ocupa há muito os críticos literários. Também foi levantada em relação a certos capítulos de Les Mandarins, de Simone de Beauvoir, e de The Group, de Mary McCarthy, embora a experiência demonstre que pornografia nunca foi escrita por mulheres; é, por definição, uma ocupação masculina. Já basta isso para revelar que a questão “literatura ou pornografia?” não é um problema propriamente literário. Mas que vem a ser? É um problema jurídico. Essa questão não costuma ser discutida nas Academias de Letras, mas perante os tribunais. É um caso de supressão de liberdade e, portanto, um caso de polícia.


O negócio começou há 100 anos e poucos meses. No dia 7 de fevereiro de 1857, o primeiro processo: em Paris, perante o Tribunal Correctionel de La Seine, estavam acusados Gustave Flaubert e seu editor, porque em um dos capítulos de Madame Bovary, a infeliz heroína de romance se despe perante os olhos de seu amante. O promotor público disse aquilo que desde então inúmeros promotores públicos em muitos países têm dito: que uma cena dessas se repete diariamente em milhares e milhões de casas, mas que aquilo que todos sabem e fazem não deve ser comunicado ao público em letras de fôrma porque “excita leitores juvenis e corrompe os costumes”. O advogado, maître Sénard, nem se dignou a responder a essa acusação. Limitou-se a dizer que Gustave Flaubert é um grande escritor e que não são os grandes escritores que corrompem os costumes já corrompidos. E a pobre Madame foi postumamente absolvida.


Esse critério de valor literário parece muito bom. Mas não adiantou. Pois os processos se repetiram sempre, desde então, e nem sempre acabaram bem. A polícia e a justiça de todos os países agiram como se quisessem proibir metade da literatura universal e só deixar em circulação a literatura infantil. Nos Estados Unidos, o Departamento dos Correios encarregou-se da censura, impedindo a remessa de livros “lascivos”, e a poderosa “Sociedade de Supressão do Vício”, liderada por um homem que mais tarde foi condenado por “atentado ao pudor”, aterrorizou os livreiros. Foram necessárias duas grandes guerras para demonstrar que há coisas piores para combater que livros “imorais”. E foi justamente nos Estados Unidos que o muro começou a desabar. O pedreiro foi o juiz John M. Woolsey, do United States Southern District Court of New York: declarou, em 6 de dezembro de 1933, que as recordações de saias levantadas, etc., no monólogo final de Molly, em Ulysses, de Joyce, não o tinham “excitado” nem lhe fizeram esquecer o alto valor literário da obra; e liberou o livro.

Esse heroísmo do juiz americano não chegou a desanimar os censores ingleses. Pois em Ulysses só se trata de palavras, mas Lady Constance Chatterley, no romance de D. H. Lawrence, é culpada de atos descritos com certas minúcias. O livro foi, durante 30 anos, vendido “debaixo do balcão”. Quando a editora Penguin resolveu publicá-lo, houve processo. O juiz foi hostil, dando explicações menos imparciais aos jurados. Mas nada podia fazer contra a falange impressionante de peritos chamados pela defesa – os críticos literários Helen Gardner, Joan Bennett, Rebeca West, Richard Hoggart, o grande romancista E. M. Forster, o próprio bispo de Woolwich. Todos eles atestaram o valor literário do livro e, em 2 de novembro de 1960, foi a adúltera Lady Chatterley absolvida.


Desde então, não houve maiores obstáculos. A grande categoria literária de autores como Flaubert, Joyce e Lawrence vencera as resistências. Mas, enfim, chegou a vez de um livro que levava, há 200 anos, a existência escondida de uma obra propriamente pornográfica.

Tratava-se da famosa Fanny Hill, Memoirs of a Woman of Pleasure, clandestinamente publicada em 1749 e, desde então, nunca abandonada pelos editores, livreiros e todos os admiradores da prostituição.

Em 1963, a respeitabilíssima editora norte-americana Putnam resolveu publicar o romance. Logo, os cinco District Attorneys ou promotores públicos de Nova Iorque se movimentaram. Presidiu ao tribunal o Supreme Court Justice Arthur G. Klein. A defesa citou as inúmeras edições feitas durante 214 anos, para demonstrar total ineficiência da proibição. Exibiu o exemplar da New York Public Library que tinha pertencido ao puritaníssimo governador Samuel J. Tilden e fora por ele copiosamente anotado. Tudo em vão.


A “pornografia” é uma questão de polícia e de textos legais. Durante dias, discutiram-se as cinco definições de “obscenidade” no artigo 22 do Código Criminal do Estado de Nova Iorque: o “social value test”, mas o valor social da senhorita Fanny Hill não foi aquele em que o legislador pensava; o “prurient interest test”, mas Fanny é mesmo “prurient”, isto é, excitante; o “patently offensive test”, mas é verdade que Fanny é uma ofensa para todos os puritanos.

A defesa chamou os peritos e o promotor acreditava ter vencido, pois as histórias da literatura nem sequer mencionavam o livro; mas os críticos Louis Untermeyer, Donald Adams, Eric Bentley e o reverendo cônego Van Meter afirmaram tratar-se de umclássico da literatura inglesa.

A editora Putnam foi absolvida. Fanny Hil saiu da prisão, “a free woman”. Foi uma vitória decisiva. Pouco depois se publicaram os livros, há 30 anos proibidos, de Henry Miller: Sexus, Nexus, Plexus, os Trópicos de Câncer e de Capricórnio e O Mundo do Sexo. E críticos de todos os países têm atestado, a esses livros ex-proibidos, alto valor literário.


Vamos tirar a conclusão: um livro de que constam descrições de atos da vida sexual já não é considerado pornográfico quando tem valor literário. Mas, quando um livro tem valor literário. Edmund Wilson, André Malraux e outros tantos conhecedores do métier literário têm altamente elogiado os livros de Henry Miller.

Mas ninguém está obrigado a confiar neles, nos julgamentos de valor, na posição histórica de Miller. E não me limitarei, como fez Wilson, a defini-lo como um dos típicos “americanos expatriados em Paris, vivendo na Rive Gauche, preocupados só com beber e fornicar, ocasionalmente lendo um livro ou visitando uma exposição de quadros, numa vida que sustentam por meio de expedientes e tomando emprestado dinheiro dos seus patrícios”. Pois esse grupo de americanos da Rive Gauche está há muito extinto, mas a importância histórica de Henry Miller continua e só agora se revela com clareza.


Miller é um escritor original: a sequência dos seus livros constitui uma grande autobiografia tão franca como ninguém jamais escreveu uma; na sua adoração, profundamente romântica, do sexo sempre há nuances de um humorismo picaresco e pitoresco. Mas Miller também é um tipo. É o representante típico da revolta norte-americana contra o puritanismo norte-americano, que considerava todo e qualquer prazer como pecado e só admitia o prazer do masoquista, cultivando seus complexos frutos do instinto reprimido. É ele o último de uma grande série, o último e o vencedor definitivo.

Poderia citar o grande crítico Huneker, que em seu romance Painted Veils descreveu orgias geralmente conhecidas e nunca admitidas pelos ricaços de Nova Iorque; ou Cabell, cujo romance erótico-fantástico Jurgen inspirou indignação aos puritanos. Também poderia citar Henry Adams, Bem Hecht e outros. Mas trata-se de intelectuais europeizados. A origem espiritual de Miller é outra: é a revolta de americanos típicos contra a hipocrisia e os tabus das pequenas cidades do Middle West e mesmo da bem pensante pequena-burguesia de cidades como Nova Iorque e Filadélfia.


A primeira manifestação dessa revolta foi, em 1882, o romance The Story of Country Town, de Edgar W. Howe. Depois veio o grande Theodore Dreiser, cujo primeiro livro foi banido. Depois Sherwood Anderson, o autor de Winesburg, Ohio. E Floyd Dell. E Evelyn Scott que, em seu romance Escapade, descreveu sua fuga para o Brasil, com o amante, porque nos Estados Unidos não se toleravam relações tão “imorais”.


Mas os tempos mudaram. A primeira guerra mundial levou muitos americanos para a França, onde conheceram outra vida. E na Europa também chegaram a conhecer a psicanálise de Freud, o grande libertador que nos conquistou a liberdade de dizer tudo e com franqueza.

Foi este o caminho de Henry Miller, fugindo da hipocrisia puritana para Paris. Ali conquistou a liberdade sexual, mas a um preço caro: durante anos e anos o perseguiu a censura de todos os países, banindo-lhe as obras e o deixando vegetar na maior miséria. Hoje, Miller é um velho. Mas já conhece, enfim, a glória.

Miller percorreu o caminho dos outros até o fim, radicalmente: os volumes sucessivos de sua autossexobiografia, com licença do neologismo, são sua vida vivida exatamente descrita. Será que ele disse demais?


No romance science-fiction Last and First Men (1931), descrveu o inglês William Olaf Stapledon uma sociedade imaginária na qual o tabu não atinge o sexo, mas o ato de comer: homens e mulheres, naquela sociedade fantástica, estão proibidos de comer publicamente, devem esconder-se para alimentar-se, e a lei proíbe severamente falar sobre sopas, bifes, legumes e sobremesas, por tratar-se de necessidades biológicas, intrinsecamente “indecentes”.

A paródia é boa. Mas não explica a raiz das coisas. Durante séculos e séculos, desde o fim da antiguidade greco-romana, o sexo estava “proibido” e o tabu garantido por um verdadeiro mito: o mito do amor. E este, o “mito do Ocidente”, desde os trovadores, desde Petrarca, desde Tristão e Isolda.

O amor era considerada coisa tão elevada, tão sublime, que seria blasfêmia misturá-la com sexo – ou dizer que o amor é mesmo o sexo sublimado. Hoje, esse mito está minado: reconhecem-se os direitos do sexo, ao lado do amor e dentro do amor. Mas Henry Miller foi mais radical: seu tema é o sexo, mesmo sem amor. Esse radicalismo de Miller é uma ameaça contra o que resta dos tabus antissexuais. Mas também é uma ameaça contra outros tabus e contra toda uma falsa ordem do mundo.


O sociólogo americano Steven Marcus acaba de publicar um livro, The Other Victorians (1966), em que estudou com paciência angelical a abundante literatura pornográfica inglesa do tempo da rainha Vitória. Do tempo da rainha Vitória? Daquele tempo em que romancistas conheciam e descreveram só uma forma do amor, o casamento? Do tempo em que, em boa sociedade e na presença de ladies, não se mencionavam as pernas de uma mesa, porque a própria palavra “perna” passava por indecente? Foi o tempo em que circulavam, na Inglaterra, inúmeros livros realmente pornográficos: e por bons motivos – porque diziam a verdade.

Dickens, o casto Dickens que descreveu em seus romance toda a miséria da época da industrialização, sem mencionar jamais a prostituição, esse Dickens foi, na realidade, um amante de prostitutas.

A Inglaterra industrial e capitalista do século XIX comprou tudo e vendeu tudo, mas a hipocrisia não permite aludir à venda e compra de corpos nas ruas de Londres. No entanto, como Steven Marcus observa com razão, a literatura pornográfica dos vitorianos revela a verdade escondida. A luta contra os tabus antissexuais só será necessária enquanto subsistir a falsa ordem (ou desordem) do mundo capitalista. Enquanto essa falsa ordem existir, não se tolerará a verdade; e haverá processos contra obras literárias, caluniadas como sendo pornográficas.


Nesses processos, a defesa sempre citará, como contra-argumento, o valor literário das obras denunciadas e proibidas. O valor literário, sim. O argumento é bom, mas insuficiente. Às vezes, esse argumento literário não passa mesmo de um pretexto para defender-se contra o terrorismo da polícia, da Justiça e da chamada opinião pública. A resposta mais certa deu o Supremo Tribunal da Noruega, em maio de 1958, julgando o processo contra o romance A Canção do Rubi Vermelho, de Agnar Mylke, denunciado por descrever “manipulações de órgãos sexuais e cópulas em várias posições”. Decidiram os juízes noruegueses que nem o valor literário de um livro nem a decência ou indecência de um escritor são argumentos no processo contra a liberdade de falar, garantida pela Constituição daquele país democrático. A liberdade, diziam os juízes de Oslo, é mais importante que a defesa da moralidade de solteironas e de hipócritas.

Neste sentido, Henry Miller não é um sedutor diabólico, mas um apóstolo da liberdade.

Texto do ensaísta, jornalista, crítico e historiador Otto Maria Carpeuax publicado livro O Mundo de Henry Miller, Gráfica Record Editora, 1969.

 1. O título do post é trecho do poema A Indecência Pode Ser Saudável, de D. H. Lawrence, em tradução de José Paulo Paes.

 2. A palavra "Wowsers", presente no título do desenho de Norman Lindsay que ilustra o post, é um termo australiano e neozelandês que se refere a uma pessoa que procura privar os outros de um comportamento considerado imoral ou pecaminoso. O termo era frequentemente usado por Lindsay, que travou muitas batalhas com os "wowsers" sobre o conteúdo sexual de suas obras. A princípio, o termo tinha um significado semelhante a "louco" (uma pessoa mal-comportada ou provocadora, ou mesmo uma prostituta). Por volta de 1900, mudou para seu significado atual: aquele cujo senso de moralidade os leva a privar os outros de prazeres pecaminosos, especialmente a bebida. Foi particularmente aplicado a membros de grupos de temperança, como o Woman's Christian Temperance Union. (Fonte: Wikipedia).

 

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