Jack Nicholson faz 80 anos. Boa oportunidade para postar um ensaio do escritor norte-americano Henry Miller sobre sua atuação no filme Cada Um Vive Como Quer (Five Easy
Pieces, 1970), de Bob Rafelson. O texto está no livro Descendo Para Os
Everglades, lançado em 1986 pela Editora Ágora.
A tradução de Aydano Arruda traz palavras que podem soar
estranhas, como "raspança" (repreensão), "charneca"
(pântano), "nenhures" (em lugar nenhum) e "lavatório"
(pia). Há um trecho, por
exemplo, em que Miller imagina Nicholson interpretando Johan Nagel, personagem
do romance Mistérios, de Knut Hamsun. Na passagem escolhida por
Miller, Nagel encontra a mulher amada na floresta e diz: "Bom dia,
senhorita, hoje é permitido tocar o seu pompom?". À primeira
vista, ler, num texto de Henry Miller, a expressão "tocar o seu pompom",
dita por Jack Nicholson, a sós com uma mulher no meio do mato, traz à mente as
mais lúbricas interpretações.
Miller e Nicholson
dispensam apresentações quando os assuntos são literatura, cinema e devassidão.
A palavra rebeldia talvez seja a mais adequada para definir a vida e a obra de
ambos. Com vocês, Jack Nicholson por Henry Miller.
***
Vendo Jack
Nicholson pela primeira vez
por Henry Miller
Foi por bondade de Bert Schneider, que projetou o filme Five
Easy Pieces para mim em seu estúdio, que eu cheguei a ver o incrível
Jack Nicholson. Eu ouvira os membros desta casa falarem dele ad nauseam durante
semanas e estava começando a odiar a menção de seu nome. Depois veio o
inesperado convite para uma exibição privada do filme.
Eu estava preparado para qualquer coisa e para tudo, mas não para a
coisa real. Lamento aborrecer os apreciadores de cinema com uma crítica do
filme, mas tentarei apenas falar de minhas reações a certas cenas, personagens
e, naturalmente, Jack Nicholson.
Ele chega tão de mansinho que agarra a gente pelo saco antes que se
perceba o que está acontecendo. Para ser honesto, eu teria sido capaz de sair
sem assistir ao filme depois dos dez ou quinze minutos. Felizmente, aguentei
tempo suficiente para ver uma porta abrir-se numa casinha em Vancouver Island,
no Canadá. Então, as coisas começaram a acontecer. Em primeiro lugar, a casa
que ele, Nicholson, estava revisitando era Lar em todo sentido do mundo. (Eu
deveria acrescentar aqui que a casa fora remodelada de alto a baixo pela esposa
de Bob Rafelson, Toby Carr Rafelson. Não fora coisa fácil encontrar aquela
locação e, após o filme ter sido rodado, a casa foi vendida novamente três
vezes, segundo eu soube.)
Não é de admirar. Mas que belo rasgo de gênio ouvir a música saindo de
cada aposento, enquanto Jack vagueia por todo lugar. O piano tocando e a
decoração indicam Lar como raramente o conhecemos. Isso erradicou imediatamente
as lembranças ácidas e amargas de um lar onde eu vivi na maior parte de minha
mocidade – na “Rua das Primeiras Tristezas”, como o chamei em meus livros.
De repente, vejo-me em um mundo de som e luz e de amor filial. E, quando
a pedido de Susan Anspach, esposa de seu irmão, Jack senta-se inesperadamente
ao piano e toca Prelúdio em Mi Menor de Chopin, é demais. As
lágrimas saltaram de meus olhos. Entre tanta gente para tocar Chopin – logo
aquele Jack Nicholson, aquele canalha, aquele patife. Não, não é possível.
Naturalmente, quem tocava o Prelúdio não era Jack, mas Pearl
Kaufman, uma música distinta e suficientemente esperta para não tocar bem
demais. De fato, eu estava cônscio da perspicácia dela e, quando Susan Anspach
finge ficar profundamente comovida pela interpretação de Jack, pensei a
princípio que ela estava exagerando muito. Refletindo mais tarde, porém,
percebi que ela poderia muito bem ter se comovido com sua interpretação
simplesmente por causa da grosseria anterior dele.
Foi mais ou menos a essa altura que comecei a realmente apreciar sua
natureza dupla ou esquizoide. Contudo, em lugar de ficar impressionado por um
macaco esperto, como eu suspeitava que ele fosse, comecei a sentir algo mais
profundo na interpretação de seu papel. Pode parecer forçado, mas comecei a
pensar nele em termos dostoievskianos. Aquele rude e despreocupado filho da
puta do início começava então a assumir tonalidades russas.
Por um breve momento, associei-o a Herr Nagel dos Mistérios de
Hamsun. Que ator senão Nicholson seria capaz de dizer à mulher que adorava e
reverenciava, ao encontrá-la na mata: “Bom dia, senhorita, hoje é permitido
tocar o seu pompom?” Menciono isso porque nunca imaginei algum ator americano
capaz de desempenhar o papel de Herr Nagel. (Espero que todos
os redatores de scripts que lerem isso aceitem a sugestão e ponham mãos à
obra.)
Adorável como ele é, e o é mesmo em seus piores momentos, ainda assim
vibrei intensamente quando Susan Anspach lhe passa uma raspança. Que raspança!
E em quem ele se desforra, senão naquela sua tola amante, Karen Black. Mais uma
vez a gente lhe perdoa todas as suas maldades – e, no entanto, esta é, em certo
sentido, sua maldade máxima. Ainda posso vê-la caminhando sozinha para o
restaurante de beira de estrada a fim de comer alguma coisa e vê-lo abrindo de
repente a porta do carro e indo para o lavatório. Eu devia estar alerta naquele
momento, porque não era um mero toque de realismo o fato de ele ir dar uma
mijada. Bastardo como ele é, poder-se-ia saber que tinha alguma coisa em mente.
E, de fato, quando sai do lavatório abotoando a calça, a gente o vê andando
despreocupadamente em direção a um grande caminhão que acaba de estacionar.
Quando faz silenciosamente o negócio com o motorista e salta para o banco
dianteiro, tem-se um sentimento maravilhoso. Sabe-se que ele está dizendo adeus
a tudo aquilo, adeus a ela, a imbecil, adeus ao Buick ou fosse o que fosse,
fodam-se todos vocês, inclusive o lanche rápido. Ou, como disse Céline certa
vez: “Eu mijo sobre tudo isso de uma altura considerável.” Ele vem de nenhures
e volta para nenhures. E a gente o inveja. Ainda que bastardo, é um homem
livre, o que é uma grande coisa.
Só há um cara mais livre do que Jack Nicholson. É Bruce Dern, que
contracena com ele em The King of Marvin Gardens. Bruce Dern faz
Jack sumir. Contudo, ali ele não é apenas um cafajeste, mas também um pouco
estúpido.
Sinto-me contente por ter assistido a esse segundo filme porque agora
sei que criatura verdadeiramente profética é Jack Nicholson. É um filme muito
confuso, mas ainda assim estimulante por causa de Bruce Dern. A fotografia não
é deste mundo! Atlantic City no inverno. Que maravilhoso o cenário não ter sido
feito no estúdio, mas ser a realidade nua, mais super-real de que real.
Há em Five Easy Pieces uma cena e uma personagem que eu
deixei de mencionar. Acredito que, para a maioria das pessoas, este vai ser o
grande momento de Jack. A cena em questão é a de quando ele dá uma volta perto
da casa de seu pai para tomar ar e casualmente tirar um peso do peito. Suponho
que com isso se pretendia mostrar que Jack não era completamente desprovido de
sentimentos. Todavia, eu sempre o considerei um filho da puta insensível, mas
um filho da puta adorável. É uma grande diferença. A verdade é que ele é tão
adorável porque se comporta da maneira como todos nós gostaríamos de nos
comportar, representa nossas fantasias. A nós faltam a coragem e o encanto para
imitá-lo.
Eu deveria acrescentar, porém, que, apesar de todo o seu carisma, ele
não é exatamente o cara com quem você desejaria que sua filha ou sua irmã se
casasse. Sua vida está completamente fora da ordem social e particularmente da
vida familiar.
Embora possa cometer o delito de cobiçar a esposa de seu irmão(1),
ele não é do tipo capaz de estuprar uma criança, furtar a bolsa de uma velha ou
matar um chinês a sangue frio. Que ele tem coração está evidente em numerosas
nuanças durante todo o filme.
Colocá-lo em foco – na estrada aberta e sem que passe um único carro,
enquanto ele abre o coração para seu pobre e velho pai, é quase shakespeariano.
E Jack, apesar de todos os seus numerosos talentos, não é um ator
shakespeariano. Ele poderia, sob a direção adequada, interpretar o Príncipe
Myshkin, Alyosha ou o Idiota, mas não Hamlet, Macbeth ou Ricardo III. Quando
digo que não seria capaz de interpretar papéis shakespearianos, quero dizer que
ele é natural demais. Para ele, interpretar Hamlet seria mudar sua natureza.
Seria forçado. Haverá sempre muitos atores shakespearianos neste mundo, mas não
muitos Jack Nicholsons.
Antes que me esqueça, o pai, em minha humilde opinião, é o maior
personagem do elenco. É monumental e salta direto da Bíblia. Seu semblante
impassível registra mais sentimento do que a maioria dos atores é capaz de
reproduzir com toda a sua dramatização. Nessa cena, em que ele é incapaz de
proferir uma palavra ou de ouvir uma palavra, ele exige o máximo de Jack.
Receio que nem Jack, nem o diretor, competente como é, tenha estado à altura
daquilo. Em lugar de um homem descarregando alguma coisa de seu peito, Jack
deveria ter sido reduzido a um idiota balbuciante, a uma criança, se quiserem.
Seu monólogo deveria ser mais apaixonado, mais revelador de sua relação antiga.
“Não se lembra, pai, de quando você me levava a caçar ou pescar? Não se lembra
de quando me disse um dia que eu seria um concertista de piano?”(2) E
assim por diante, até desmoronar e começar a soluçar, pronto para dilacerar o
coração da gente. E, no meio disso tudo, deveria ter havido alguma espécie de
interrupção injustificada, por um vagabundo bêbado, alguém absolutamente
quadrado ou um semi-idiota, que atenuaria a explosão sentimental e permitiria a
Jack ser ele mesmo por um momento e chamar o intruso de nojento bastardo
chupador de pau ou alguma outra coisa no mesmo sentido. Nesse monólogo, ele
poderia ter dito alguma coisa no sentido de que nunca pretendera abandonar a
família, que aquilo era bom demais, cômodo demais, belo demais, e que precisara
se arrancar dali para ir embora – que ele queria mais vida. Espero que Bob
Rafelson me perdoe por redirigir essa cena. Talvez eu esteja exagerando.
Mas eu me senti um pouco frio observando esse grande momento, como se
Jack fosse deixado sozinho em uma larga charneca para lutar com sua alma, ao
passo que já vinha lutando com sua alma durante todo o filme.
(1) Para ser honesto, mais do que pura lascívia inspira sua paixão pela
esposa de seu irmão. Ele realmente a ama – à sua moda. Sente-se neste ponto do
filme que ele talvez possa sofrer uma mudança radical de caráter. Ou, em outras
palavras, que ele possa vir a amar. A verdade é que ele demonstra verdadeiro amor no que se refere a sua
irmã. (Eu achei que ela desempenha bem o seu papel).
(2) Lembrando cenas ternas de sua juventude, a gente percebe mais facilmente
qual era a verdadeira relação com seu pai.










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