sábado, 31 de dezembro de 2016

Pé de pato, mangalô, trêis vêis


"Existem muitas superstições sobre a melhor maneira de entrar o Ano-Novo"



    Texto de Luis Fernando Veríssimo publicado na Raposa Magazine, em 1981.

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Ano-Novo

    Luís Fernando Veríssimo 

    Existem muitas superstições sobre a melhor maneira de entrar o Ano-Novo. Na nossa casa, por exemplo, nunca faltou um prato de sopa de lentilha quente para ser consumido nos primeiros minutos do ano que começa. Dá sorte. Ouvi dizer que na Espanha, ao soar a meia-noite, deve-se comer uma uva para cada badalada do relógio. Este costume chegou à Bulgária, mas, por uma falha na tradução, lá se come um melão para cada batida no relógio e os hospitais ficam cheios no dia primeiro. Na Suiça, comem o relógio.

Algumas crenças persistem através do tempo, desafiando toda a lógica. Se o champanha aberto á meia-noite não estourar e se tiver alguém da família chamado Edgar é sinal de que a casa será arrasada por uma manada de elefantes e o champanha está choco. Na Rússia, depois de brindarem o Ano-Novo com vodka, os convidados devem atirar seus copos contra a parede e depois ficarem muito brabos porque não há mais copos na casa e atirarem o anfitrião contra a parede. De qualquer maneira, a festa termina cedo.

Na Índia, se a primeira criança que nascer no Ano-Novo tiver bigode, fumar piteira e pedir para falar urgente com Indira Ghandi, é um mau sinal. Na Polinésia, em certas tribos primitivas, o guerreiro mais audaz deve levar a virgem mais bonita até a boca do vulcão e atirá-la para a morte, como um sacrifício aos deuses. Mas a encosta do vulcão é comprida, os dois param para descansar um pouco e quando chegam à boca do vulcão, estabelece-se um paradoxo: se o guerreiro era audaz, a moça não é mais virgem, se a moça ainda é virgem, o guerreiro não era audaz, e o sacrifício sempre fica para o ano que vem. Na Austrália, todos se atiram contra a parede.

Entrar o Ano-Novo de gravata borboleta pode comprometer seriamente as relações entre o Oriente e o Ocidente. O primeiro animal que você encontrar na rua no Ano-Novo pode significar muita coisa. Cachorro é sorte. Gato é dinheiro. Rato é saúde. Um bando de hienas é azar, corra. Um cavalo roxo dançando xaxado significa que você está bêbado. Vá dormir.

Em certos lugares, é costume derramar champanha no decote da mulher ao seu lado, o que lhe trará, a longo prazo, bons negócios, e, a curto prazo, um tapa-olho. Se você estiver num réveillon junto com o seu patrão, não esqueça de se colocar estrategicamente para ser o primeiro a abraçá-lo à meia-noite. Dance com a mulher dele. Insista para que ele dance com a sua. Proponha vários brindes. Pule em cima da mesa. Proponha mais brindes. Diga que agora é você quem vai dançar com o patrão e não quer nem saber. Acabe lhe dizendo algumas verdades. Proteste que ninguém precisa segurar você, você está sóbrio, entende? Sóbrio! Só não sabe como uma manada de elefantes roxos invadiu o salão, ou será que a mulher do patrão trouxe a família toda? No dia primeiro você não se lembrará de nada. No dia dois você vai procurar outro emprego. Chato.

Outro costume é fazer previsões na véspera do Ano-Novo. Pode chover. Alguém, em algum lugar do Brasil, estará dizendo: “ Boas-entradas nada, eu quero saber onde fica a saída...” E a previsão mais fácil de todas, qual é? 

- Amanhã eu vou estar numa ressaca!

Enfim, o Ano-Novo já está aí e, apesar de muita gente em São Paulo ter telefonado para parentes no Japão, onde o 82 chegou mais cedo, querendo saber que tal era o ano, como quem pergunta como é que está a água, ninguém sabe como ele será. Fiz o possível para entrar nele com o pé direito, mas, quando vi, ele é que tinha entrado em mim, não deu pra recuar.

Só sei uma coisa. Assim que o relógio terminou de bater a meia-noite, comi meu prato de lentilha para dar sorte. Pedi outro. E derramei a lentilha quente no colo, destruindo para sempre A) um bom par de calças e B) minha fé em qualquer tipo de superstição.


Luis Fernando Veríssimo é escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo e saxofonista nas horas vagas.

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