Texto de Luis Fernando Veríssimo publicado na Raposa Magazine, em 1981.
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Ano-Novo
Luís Fernando Veríssimo
Algumas crenças persistem através do tempo, desafiando toda a lógica. Se o champanha aberto á meia-noite não estourar e se tiver alguém da família chamado Edgar é sinal de que a casa será arrasada por uma manada de elefantes e o champanha está choco. Na Rússia, depois de brindarem o Ano-Novo com vodka, os convidados devem atirar seus copos contra a parede e depois ficarem muito brabos porque não há mais copos na casa e atirarem o anfitrião contra a parede. De qualquer maneira, a festa termina cedo.
Na Índia, se a primeira criança que nascer no Ano-Novo tiver bigode, fumar piteira e pedir para falar urgente com Indira Ghandi, é um mau sinal. Na Polinésia, em certas tribos primitivas, o guerreiro mais audaz deve levar a virgem mais bonita até a boca do vulcão e atirá-la para a morte, como um sacrifício aos deuses. Mas a encosta do vulcão é comprida, os dois param para descansar um pouco e quando chegam à boca do vulcão, estabelece-se um paradoxo: se o guerreiro era audaz, a moça não é mais virgem, se a moça ainda é virgem, o guerreiro não era audaz, e o sacrifício sempre fica para o ano que vem. Na Austrália, todos se atiram contra a parede.
Entrar o Ano-Novo de gravata borboleta pode comprometer seriamente as relações entre o Oriente e o Ocidente. O primeiro animal que você encontrar na rua no Ano-Novo pode significar muita coisa. Cachorro é sorte. Gato é dinheiro. Rato é saúde. Um bando de hienas é azar, corra. Um cavalo roxo dançando xaxado significa que você está bêbado. Vá dormir.
Em certos lugares, é costume derramar champanha no decote da mulher ao seu lado, o que lhe trará, a longo prazo, bons negócios, e, a curto prazo, um tapa-olho. Se você estiver num réveillon junto com o seu patrão, não esqueça de se colocar estrategicamente para ser o primeiro a abraçá-lo à meia-noite. Dance com a mulher dele. Insista para que ele dance com a sua. Proponha vários brindes. Pule em cima da mesa. Proponha mais brindes. Diga que agora é você quem vai dançar com o patrão e não quer nem saber. Acabe lhe dizendo algumas verdades. Proteste que ninguém precisa segurar você, você está sóbrio, entende? Sóbrio! Só não sabe como uma manada de elefantes roxos invadiu o salão, ou será que a mulher do patrão trouxe a família toda? No dia primeiro você não se lembrará de nada. No dia dois você vai procurar outro emprego. Chato.
Outro costume é fazer previsões na véspera do Ano-Novo. Pode chover. Alguém, em algum lugar do Brasil, estará dizendo: “ Boas-entradas nada, eu quero saber onde fica a saída...” E a previsão mais fácil de todas, qual é?
- Amanhã eu vou estar numa ressaca!
Enfim, o Ano-Novo já está aí e, apesar de muita gente em São Paulo ter telefonado para parentes no Japão, onde o 82 chegou mais cedo, querendo saber que tal era o ano, como quem pergunta como é que está a água, ninguém sabe como ele será. Fiz o possível para entrar nele com o pé direito, mas, quando vi, ele é que tinha entrado em mim, não deu pra recuar.
Só sei uma coisa. Assim que o relógio terminou de bater a meia-noite, comi meu prato de lentilha para dar sorte. Pedi outro. E derramei a lentilha quente no colo, destruindo para sempre A) um bom par de calças e B) minha fé em qualquer tipo de superstição.
Luis Fernando Veríssimo é escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo e saxofonista nas horas vagas.

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