Bukowski at Home, desenho de Robert Crumb
Se o seu estoque de bebida alcoólica secou misteriosamente, e você tem um gato que adora ouvir música clássica, fique de olho no bichano. No livro O Capitão Saiu Para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio, o escritor Charles Bukowski, notório bebedor e amante da música clássica, revela, bem ao seu estilo, o desejo de reencarnar na pele e nos pelos de um gato: “Na próxima vida, quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar ser alimentado. Sentar por aí lambendo meu cu”.
Lançado no Brasil pela L&PM, em 1999, o livro, que tem ilustrações de Robert Crumb e tradução de Bettina Gertum Becker, reúne trechos do diário de Bukowski, de agosto de 1991 até fevereiro de 1993, quando o escritor acabava de entrar na casa dos 70 anos. Pessimista, entediado, desiludido, cansado, amargo, um velho resmungão que passava os dias apostando em cavalos e atravessava as noites em frente ao computador, escrevendo e ouvindo a música clássica que tanto amava. Morava com Linda, sua segunda esposa, e nove gatos. Não tinha deixado de beber, mas tinha diminuído o ritmo das bebedeiras (“Demolido. Umas duas noites bebendo esta semana. Tenho que admitir que não me recupero tão rápido como antes”).
Bukowski sabia que estava perto da morte (que aconteceria por leucemia em março de 1994), e ruminava sobre ela: “A morte vem para aqueles que esperam e para aqueles que não esperam”. Fazia comentários sobre as invenções que facilitam nossa vida, mas nos transformam em seres preguiçosos: “Pessoas subindo e descendo em escadas rolantes, elevadores, dirigindo carros, tendo portas de garagem que se abrem ao tocar de um botão. Depois elas vão para a academia queimar gorduras. Daqui a 4.000 anos, não teremos mais pernas, nos arrastaremos sobre nossas bundas, ou talvez rolemos como tumbleweeds”.
Mas não poupava elogios à invenção do computador: “...é mais fácil de escrever, a palavra é transferida mais rápida do cérebro (ou de onde quer que venha) aos dedos e dos dedos ao monitor...não é uma questão de velocidade, é uma questão de fluxo, um rio de palavras e, se as palavras forem boas, deixem que elas fluam com facilidade”. Nem deixava de mostrar estima por uma velha companheira, sua máquina de escrever, ainda útil quando o computador ia para o conserto: “Mas ainda bem que a máquina estava lá. Ficamos juntos por mais de cinco décadas e tivemos ótimos momentos. Quando peguei o computador de volta, foi com certa tristeza que recoloquei a velha máquina no seu canto”. Tinha uma visão muito particular sobre o que é ser um perdedor: “Cada vez que você paga alguém para dizer o que você deve fazer, você é um perdedor. E isto inclui seu psiquiatra, seu psicólogo, seu operador da bolsa de valores, seu professor e seu etc.”
Mas não poupava elogios à invenção do computador: “...é mais fácil de escrever, a palavra é transferida mais rápida do cérebro (ou de onde quer que venha) aos dedos e dos dedos ao monitor...não é uma questão de velocidade, é uma questão de fluxo, um rio de palavras e, se as palavras forem boas, deixem que elas fluam com facilidade”. Nem deixava de mostrar estima por uma velha companheira, sua máquina de escrever, ainda útil quando o computador ia para o conserto: “Mas ainda bem que a máquina estava lá. Ficamos juntos por mais de cinco décadas e tivemos ótimos momentos. Quando peguei o computador de volta, foi com certa tristeza que recoloquei a velha máquina no seu canto”. Tinha uma visão muito particular sobre o que é ser um perdedor: “Cada vez que você paga alguém para dizer o que você deve fazer, você é um perdedor. E isto inclui seu psiquiatra, seu psicólogo, seu operador da bolsa de valores, seu professor e seu etc.”
Bukowski era um misantropo. Tinha enorme dificuldade para lidar com pessoas. Detestava que a fama limitasse sua liberdade para aproveitar a vida sem ser incomodado. Ficava mal humorado com isso. Para ele, a fama não o obrigava a sair por aí distribuindo sorrisos. É preciso ter muita paciência para suportar o corpo a corpo com os fãs, o assédio da mídia e a bajulação vazia das celebridades do show business. E nem sempre essa paciência está disponível. Por mais que tentasse escapar, Bukowski se sentia aprisionado à fama. Ao mesmo tempo, sabia que, além de seus escritos, era ela que o ajudava a pagar as contas. Preferia que as coisas fossem como Adoniran Barbosa dizia, “Chega de homenagens. Eu quero o dinheiro”.
Desde que estivesse na companhia adequada (com os amigos Sean Penn e Harry Dean Stanton, por exemplo), estava disposto a enfrentar situações que detestava. Seguia em frente e suportava o que viesse, pois sabia que poderia tirar o melhor do pior: transformava o incômodo em histórias. Sabia que a fama o perseguia - só queria evitar a todo custo ser picado por ela. Deixo que a fama me persiga, mas não deixo que ela me contamine. Muito dessa atitude de indiferença à fama e aversão à humanidade também está em Robert Crumb, que ilustrou alguns trabalhos do escritor. Em 1991, o cartunista trocou os EUA pelo sossego de um vilarejo de pouco mais de mil habitantes no sul da França.
A fama sorria para Bukowski, mesmo que ele não sorrisse para ela. No máximo, poderia franzir os lábios com escárnio em troca. E a maior parte das pessoas não perdoa quem não sorri para a fama. Não é bonito. Bukowski não se importava com isso - queria ficar na dele, sem ninguém para encher o seu saco. Livre como um gato.
A seguir, o último capítulo de O Capitão Saiu Para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio.
***
27/02/93 00:56
O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio.
Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa? Parece que seu único ato é a Violência. São bons nisso. Realmente florescem. Flores de merda, emporcalhando nossas chances. O problema é tenho que continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar esse computador, se eu quiser dar a descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles me causem horror. E horror é uma gentileza.
Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas? Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa? Parece que seu único ato é a Violência. São bons nisso. Realmente florescem. Flores de merda, emporcalhando nossas chances. O problema é tenho que continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar esse computador, se eu quiser dar a descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir minha barriga, tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades, mesmo que eles me causem horror. E horror é uma gentileza.
Mas eles pisoteiam a minha consciência com seu fracasso em áreas vitais. Por exemplo, todos os dias, volto apertando o rádio em diferentes estações, procurando música, música decente. Tudo é ruim, insípido, sem vida, sem melodia, indiferente. Mesmo assim, algumas dessas composições são vendidas aos milhões e seus criadores se consideram verdadeiros Artistas. É horrível, uma idiotice terrível entrando em jovens cabeças. Eles gostam disso. Cristo, dê merda a eles, e eles comem. Não conseguem discernir? Não conseguem ouvir? Não sentem a diluição, o mofo?
Não posso acreditar que não haja nada. Continuo tentando novas rádios. Meu carro tem menos de um ano, mas a tinta preta do botão que aperto já está totalmente gasta. Agora o botão está branco, marfim, olhando para mim.
Bem, é, existe a música clássica. Tenho que me acostumar com isso. Mas sei que ela vai sempre estar lá para mim. Escuto isso de quatro a três horas por noite. Mas ainda continuo procurando outro tipo de música. Só que não existe. Deveria existir. Isso me perturba. Escamotearam toda uma outra área. Pense em todas as pessoas vivas que nunca ouviram música decente. Não se admira que seus rostos estejam caindo, não se admira que matem sem pensar, não se admira que esteja faltando o coração.
Bem, o que é que eu posso fazer? Nada.
Os filmes são tão ruins quanto a música. Você ouve ou lê a crítica. Um grande filme, dizem. E daí saio pra ver o tal filme. E sento lá me sentindo um grande idiota, me sentindo roubado, enganado. Posso adivinhar a próxima cena antes de acontecer. E os motivos óbvios do personagem, o que os move, o que desejam, o que é importante para eles é tão infantil e patético, tão enfadonho e grosseiro. As partes românticas são irritantes, velhas, bobagens preciosistas.
Acho que a maioria das pessoas vê filmes demais. E, com certeza, os críticos. Quando dizem que um filme é ótimo, querem dizer que é ótimo em relação a outros filmes que viram. Perderam a visão geral. São martelados com cada vez mais filmes novos. Simplesmente não sabem, estão perdidos no meio daquilo. Esqueceram o que é realmente ruim, que é a maior parte do que assistem.
E não vamos nem falar em televisão.
E como escritor... será que sou um? Bem. Como escritor, é difícil ler o que os outros escrevem. Não me bate. Pra começar, não sabem colocar uma linha, um parágrafo. Só de olhar o texto impresso à distância já parece chato. E quando você realmente lê, é pior que chato. Não tem ritmo. Não tem nada de emocionante ou novo. Não tem jogo, fogo, gás. O que estão fazendo? Parece ser trabalho pesado. Não se admira que a maior parte dos escritores diga que escrever é doloroso. Eu entendo isso.
Algumas vezes com meu texto, quando não foi extraordinário, tentei outras coisas. Derramei vinho nas páginas, acendi um fósforo e queimei buracos nelas. “O que você está FAZENDO aí? Sinto cheiro de fumaça!”
“Tudo bem, querida, está tudo bem...”
Uma vez, meu cesto de lixo pegou fogo e o levei correndo para a varanda e derramei cerveja nele.
Para eu escrever, gosto de assistir a lutas de boxe, ver como o jab é usado, o direto de direita, o gancho de esquerda, o uppercut, o counter punch. Gosto de vê-los lutar, sair da tela. Existe algo a ser aprendido, algo a ser aplicado à arte de escrever, à maneira de escrever. Você só tem uma chance, que logo desaparece. Só sobram páginas, e você pode queimá-las se quiser.
Música clássica, charutos, o computador faz o texto dançar, gritar, rir. O pesadelo da vida também ajuda.
Todos os dias, quando entro no hipódromo, sei que estou mandando minhas horas à merda. Mas ainda tenho a noite. O que os outros escritores fazem? Ficam na frente do espelho e examinam os lóbulos das orelhas? E então escrevem sobre eles. Ou sobre suas mães. Ou como Salvar o Mundo. Bem, podiam me poupar não escrevendo esse troço chato. Essa bobagem sem energia e murcha. Pare! Pare! Pare! Preciso ler alguma coisa. Será que não há nada para ler? Acho que não. Se você achar, me conte. Não, não faça isso. Eu sei: você escreveu. Esquece. Vai dar uma cagada.
Lembro de uma carta longa e furiosa que recebi um dia de um cara que me disse que eu não tinha o direito de dizer que não gostava de Shakespeare. Muitos jovens iam acreditar em mim e não se dariam ao trabalho de ler Shakespeare. Eu não tinha direito de tomar essa posição. E assim por diante. Não respondi na época. Mas vou responder agora.
Vá se foder, colega. E eu também não gosto de Tolstoi!



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