sexta-feira, 8 de junho de 2018

O cinema declara amor à música


Robert Altman entre os músicos que tocaram no filme Kansas City


     Robert Altman amava a música. Em alguns de seus filmes, ela tem papel relevante. E não é pouca coisa. As canções de Leonard Cohen, em McCabe & Mrs. Miller (1971); a country music, em Nashville (1975) – I’m Easy, de Keith Carradine, levou o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Canção; o pop da banda Keepin’em off the Streets, em A Perfect Couple (1979); a trilha sonora de Harry Nilsson, no musical Popeye (1980); a ópera Les Boréades, de Jean-Phillipe Rameau, em Aria (1987); o jazz, o blues e a música clássica, em Short Cuts (1993); o jazz dos anos 1930, em Kansas City (1996); o blues, em Cookie’s Fortune (1999); o balé, em The Company (2003), e os radio shows, em A Prairie Home Companion (2006). Em 1982, a convite da University of Michigan School of Music, Altman dirigiu a montagem da ópera The Rake’s Progress, de Stravinsky.

No caso de Kansas City, o material musical resultante da reunião de vinte um jazzistas foi tão admirável que gerou dois CDs e o documentário Robert Altman's Jazz '34: Remembrances of Kansas City Swing, premiado na 21ª Mostra de Cinema de São Paulo, em 1997.

O dream team de músicos, que ganhou o nome de Kansas City Band, reuniu Kevin Mahogany (vocal), Olu Odara, Nicholas Payton, James Zollar (trompetes), Curtis Fowlkes, Clark Gayton (trombone), Don Byron (clarineta e sax barítono), Jesse Davis, David ‘Fathead’ Newman (sax alto), James Carter, Craig Handy, David Murray, Joshua Redman (sax tenor), Russell Malone, Mark Whitfield (guitarra), Geri Allen, Cyrus Chestnut (piano), Ron Carter, Tyrone Clark, Christian McBride (baixo) e Victor Lewis (bateria).

Jazz '34 foi exibido pela TV a cabo em 1998, cuja a resenha vem a seguir, acompanhada de um comentário de Robert Altman sobre Kansas City, o filme.

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Robert Altman’s Jazz ’34: Remembrances of Kansas City Swing (1996)

Hey Hey Club, ponto de encontro e jam sessions de jazzistas dos 1930

    Por volta de 1934, em Kansas City, uma governanta chamada Glendora ligou o rádio e disse ao filho de sua patroa: “Ouça, Bobby. É a melhor música que existe”. Bobby, oito anos de idade, sentou-se numa poltrona, e lá ficou, imóvel e fascinado, ouvindo Solitude, de Duke Ellington. Bobby cresceu e virou Robert Altman, um dos mais obstinados diretores do cinema norte-americano. Kansas City, seu filme de 1996, é uma volta aos anos 1930, e está repleto de jazz.

    Suas sequências musicais arrebataram de tal maneira o diretor que ele decidiu lançar Robert Altman’s Jazz ’34: Remembrances of Kansas City Swing, documentário que registra uma plêiade de músicos tocando clássicos da década de 1930. A narração é de Harry Belafonte, que também atua no filme, no papel de Seldom Seen, chefão da máfia local e proprietário do Hey Hey Club, casa noturna onde acontecem as apresentações. Em Jazz '34, a música prevalece - a narração e os comentários são breves e concisos, não quebram a dinâmica das performances dos músicos.

A plateia ia ao delírio até o sol raiar

    O ano de 1934 foi escolhido por ser a data de um lendário duelo musical entre os saxofonistas Lester Young (Joshua Redman) e Coleman Hawkins (Craig Handy). Na época, Kansas City era um próspero oásis em meio à Depressão e recebia músicos de todas as partes do país, que, além de serem bem pagos, podiam trocar experiências com os músicos locais, fazendo da cidade um dos pontos mais ricos e prolíficos do cenário jazzístico. A cidade se destacava pelo entusiasmo, pela energia e pelo espírito de competitividade de suas jam sessions. A plateia ia ao delírio até o sol raiar. Um garoto de 14 anos, que mais tarde ficaria conhecido como Charlie Parker, acompanhava tudo. No filme, Parker é interpretado pelo ator-mirim Albert J. Burns.

Ao centro, o jovem Charlie Parker, presença constante no Hey Hey Club

    Para realizar a proeza de reunir duas dezenas de grandes jazzistas, Altman – que exigia performances ao vivo – chamou o produtor Hal Willner. Willner deixou os músicos à vontade para que captassem a essência da música e não apenas a imitassem. Era também uma maneira de preservar a personalidade musical de cada um. As cenas não foram dubladas nem editadas – o que se vê na tela é o que realmente aconteceu.

James Zollar, Joshua Redman e Jesse Davies

    Jazz '34 é uma rara ocasião para assistir à apresentação de alguns dos maiores jazzistas em atividade, coisa difícil de se ver até nos melhores festivais do gênero. "Conseguimos reunir band leaders numa autêntica jam session e registramos tudo. Provavelmente, nunca mais ouviremos a música que foi tocada naquele momento”, declarou Altman. Um programa indispensável para os fãs de jazz, de cinema e do diretor.

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Robert Altman fala sobre Kansas City (e jazz

dream team musical do filme Kansas City, de Robert Altman

    Kansas City tornou-se o centro do mundo da música naquela época porque era um porto no meio do continente, a encruzilhada do comércio de 1/6 da América. Todas as companhias aéreas passavam por lá, todas as ferrovias. Se você fosse de leste a oeste, passava por Kansas City. Era a base para todos os músicos que viajavam pelos chamados 'The Territories', os territórios do oeste. As bandas se estabeleciam em Kansas City, viajavam por Oklahoma, Texas, Arizona, Califórnia e voltavam para Kansas City por Nevada, Colorado. Elas tocavam por uma noite. Normalmente, partiam de ônibus. Às vezes, quando as bandas terminavam, os caras voltavam para Kansas City, e novas bandas eram formadas.

Entre 1926 e 1936, Kansas City era controlada por Tom Pendergast, que tinha no bolso tanto a máquina política quanto os gângsteres, liderados por Johnny Lazia. Pendergast nunca ouvia música e estava na cama sempre às nove da noite. No entanto, garantia que a cidade nunca descansasse. Era uma cidade permissiva e sem lei, com salões de dança, boates, honky-tonks, clubes e bordéis – K.C. tinha a maior zona do meretrício do país. Os bares estavam sempre abertos, por isso os músicos sempre tinham emprego.


Na noite de folga, às segundas-feiras, todos chegavam de diferentes clubes, e acontecia uma jam session que durava dias! O dia que mostramos no filme foi uma segunda-feira antes das eleições. É claro, no dia da eleição eles não tocavam. O "duelo de improviso"* entre Coleman Hawkins e Lester Young, que descrevemos no filme, realmente aconteceu. Charlie Parker também esteve lá. Mas ele tocou tão mal que Joe Jones, o baterista, jogou um prato nele. E Parker saiu do palco rindo.

Os "duelos de improviso" aconteciam por toda parte, mas Kansas City era particularmente conhecida pela energia de suas jam sessions. O princípio é simples, teve origem no sapateado. Um cara se levantava e dava alguns passos, o outro tinha que fazer algo diferente, e eles continuavam até que um cara ficasse sem ideias. Eles faziam o mesmo na música.

Craig Handy

Houve um tempo em que, possivelmente, um expert poderia diferenciar o jazz de K.C. jazz do jazz de Chicago. Eu não saberia como descrever o som de Kansas City. Eles não faziam os solos daquela maneira em qualquer outro lugar. À medida que as big bands começaram a crescer, Bennie e Buster Moten, Bill Basie, que ainda não tinha o apelido "Count", elas criaram um certo tipo de batida - assim nasceu o swing. Um swing com uma assinatura específica.

As cenas de jazz não existiam daquela maneira no roteiro. Juntamos as bandas, fizemos um filme de 50 minutos só com a música. Não é um documentário, é uma performance. Como um álbum. Só que é um álbum visual. E nós integramos isso em nossa narrativa. Nada além de jazz ao vivo. Às vezes, você vê os músicos, às vezes, não. Mas essa sempre foi a intenção, nenhuma nota "incidental" foi acrescentada.

James Carter, Joshua Redman e Don Byron 

Do roteiro à edição, o filme, para mim, é construído como jazz. Aqui você tem Miranda Richardson e Jennifer Jason Leigh fazendo um riff, então Harry Belafonte interrompe com seu próprio riff. Eles estão improvisando sobre o mesmo tema. Se você se limitar à história - que seria a música "Solitude" - isso poderia ser feito em três minutos: "Garota sequestra mulher, esperando por um resgate com o qual pagaria a dívida que seu namorado tem com o gângster local, dono do jazz club onde Coleman Hawkins e Lester Young estão em um ‘duelo de improviso' na segunda-feira anterior ao dia da eleição." Mas é só colocar um toque de jazz em "Solitude", e ela pode durar vinte minutos. Ou duas horas, dependendo dos artistas.

Eu diria que Belafonte é um instrumento do naipe de metais. Talvez um trompete. E as duas garotas, Miranda e Jennifer, são como dois sax tenores. Nas filmagens, portanto, atuei menos como 'diretor' do que como orquestrador, o arranjador da banda. Eu escreveria as partituras e diria: "Ok, você vai tocar tantos compassos disso, e então o trompete vai tocar tantos compassos disso, e você vai voltar, e nós vamos para terminar com apenas um dueto suave de violoncelo/violino." Que é outra versão de "Solitude".

Ao piano, Cyrus Chestnut

Eu cresci em Kansas City. A governanta que me criou era uma mulher negra chamada Glendora Majors. Ela mantinha o rádio ligado o tempo todo. Um dia, no meio da tarde, estávamos sozinhos em casa, eu tinha cerca de oito anos, e ela disse: "Bobby, venha aqui e ouça isto." Colocou-me, sentado, na frente do rádio. "Essa é 'Solitude' de Duke Ellington. É a melhor música que existe. Sente-se e ouça." E lembro que fiquei grudado na minha cadeira. "Solitude" é primeira música de que me lembro. E é a última música do filme.


*"Cutting constests"
A resenha do documentário Robert Altman's Jazz '34 é de 1998Foi revista.
Os comentários de Robert Altman sobre Kansas City e jazz estão no site Industry Central, e foram tirados de uma entrevista a Henri Béhar, em Cannes, no dia 14 de maio de 1996. 

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