"Minha semana bate o seu ano."
“Lou Reed vem de Nova York e escreve canções de rock’n’roll”. As palavras são do próprio Reed, cantor, guitarrista e compositor que encarou o rock como uma maneira de escrever o Grande Romance Americano. Cada álbum seria um capítulo.
Aos 16 anos, em 1958, Lewis Allan Reed grava o seu primeiro single com a banda The Jades. Em 1961, ingressa na Universidade de Syracuse para estudar Literatura Inglesa e Filosofia. Um dos professores, o escritor Delmore Schwartz, se torna seu amigo íntimo e mentor literário. Segundo Reed, Schwartz era uma das pessoas mais tristes que já conheceu. Alcoólatra, sofria de paranoia. Em suas alucinações, sentia-se espionado a mando de Nelson Rockefeller, o governador de Nova York. E Reed seria um dos espiões.
A geração flower power ficou chocada com a violência dos espetáculos - a música do Velvet chegou a ser descrita como “o vírus da maldade”. “Afinal, o que é que eles querem? Ouvir só notícias boas, todos os dias?”, cutucou Reed, que comparava a obra do Velvet aos Desastres da Guerra, de Goya. Em contrapartida, a banda dizia que o movimento Peace & Love era conseqüência do uso de drogas psicodélicas, totalmente fora de sintonia com a realidade.
O Velvet passou a ensaiar no Factory, ateliê de Warhol, que impôs à banda uma nova integrante, a bela modelo alemã Nico, musa de Bob Dylan e Jimmy Page que havia feito uma ponta em La Dolce Vita, de Fellini. Com Nico nos vocais, o Velvet iniciou sua parceria com Warhol no filme The Velvet Underground and Nico: A Symphony Sound. As filmagens foram interrompidas pela polícia, que atendeu aos apelos de uma vizinhança incomodada com o barulho.
Em julho de 1966, Reed perde seu mentor: um infarto fulmina Delmore Schwartz. Em março de 1967, o Velvet lança o seu primeiro álbum, The Velvet Underground and Nico. Apesar de Warhol aparecer como produtor, o fato seria mais tarde desmentido pelo guitarrista John Cale. O nome de Warhol foi uma esperta jogada de marketing para promover o álbum, espécie de aval para divulgar a banda no mercado fonográfico. Warhol, no entanto, é autor da antológica capa do álbum, que foi apelidado de “o disco da banana” graças à ilustração da fruta, que se destaca sobre o fundo branco. A canção Heroin, monólogo de um junkie, tornou-se a grande sensação do LP. Delmore Schwartz foi homenageado em European Son, música que fecha o álbum com poucas palavras e muito barulho.
Terminada a colaboração com Warhol, em 1968, Reed ficaria no Velvet até 1970, quando voltaria a morar com os pais por um breve período. Em 1972, daria ao mundo seu primeiro álbum, Lou Reed, que não despertou maiores atenções. Uma pessoa, porém, estava bem atenta: David Bowie, cantor inglês com o caminho pavimentado para se tornar uma das maiores estrelas do rock, era fã ardoroso do Velvet Underground e decidiu apadrinhar Reed, produzindo Transformer, um de seus álbuns mais populares. A balada Walk on the Wild Side, narrativa cool da jornada de cinco outsiders da trupe de Warhol pelo submundo nova-iorquino, é a joia do álbum.
(Foto de Mick Rock)
Em 1973, Reed conheceu o requisitado produtor Bob Ezrin, responsável pelos melhores álbuns de Alice Cooper. Ezrin achava o estilo de Reed totalmente cinematográfico e sugeriu que ele escrevesse o argumento de um filme que também pudesse servir como material para um álbum conceitual. Tendo como ponto de partida a canção Berlin, de seu primeiro álbum, Reed escreveu uma história recheada de violência doméstica, sexo, drogas, prostituição e suicídio. Com a participação de três atores, foi produzido um storyboard cujas fotos seriam mais tarde usadas como base para a capa e o magnífico encarte do primeiro álbum de rock proibido para menores. Ao fim das gravações, Ezrin, que chegou a trabalhar quatorze hora por dia, foi internado devido a um colapso nervoso. Reed viu seu casamento desmoronar. Betty, sua esposa, alegou ser impossível viver com um homem obcecado por autodestruição.
Berlin atraiu a atenção de Warhol, que demonstrou interesse em transformá-lo num filme musical. Reed, no entanto, imaginava-o nas telas sob a direção de Roman Polanski. Nada disso aconteceu. Para promover o álbum, Reed partiu para uma turnê enlouquecedora com uma banda de rock pesado, em que o destaque era o duelo das guitarras de Steve Hunter e Dick Wagner. Os shows renderam dois álbuns: Rock’n’Roll Animal e Live. O primeiro foi um sucesso arrasador. O segundo, lançado para capitalizar o êxito do anterior, além de não ter a aprovação de Reed, teria sido o pivô de um imbróglio com a gravadora RCA.
Reed deu o troco com o lançamento de Metal Machine Music, um caos sonoro, literalmente sem a voz de seu autor. Segundo Reed, o conteúdo do álbum (duplo!), apenas ruídos de feedback, reproduzia os efeitos colaterais do uso de anfetaminas: depressão, alucinação e esquizofrenia - um sulco no final do lado 4 impedia que o disco terminasse, a não ser que fosse tirado do toca-discos. De aproveitável, o álbum trazia um texto de Reed que terminava com uma de suas frases lapidares: “Minha semana bate o seu ano”.
Nunca a indústria fonográfica tinha sofrido tamanha zombaria. Em poucas semanas, o disco - colocado no mercado como música clássica - foi devolvido pelas lojas. Uma resenha, publicada no jornal inglês New Musical Express, dizia que "Metal Machine Music é o maior e mais ofensivo FODA-SE de um artista para a sua plateia". Até Reed disse ser incapaz de ouvi-lo inteiro - "Aqueles que disseram ter ouvido são mentirosos ou insensatos", diria. Mas o pior estava por vir: teve gente que gostou, e MMM virou cult.
Para resumir, MMM foi uma piada que muita gente levou a sério, ou não entendeu.
O álbum não tem importância musical. Sua barulheira diz muito mais sobre a autonomia de um artista que decidiu peitar a poderosa indústria fonográfica, pouco se importando com o que os fãs e a crítica fossem pensar. O recado, como disse o NME, foi claro: "Fuck you all!". Alguém menos talentoso que tivesse feito o mesmo estaria morto artisticamente.
Contratado pela Arista, de 1976 a 1980, Reed mergulharia no período mais experimental e instigante de sua carreira, lançando cinco álbuns que misturam o rock ao jazz e à música eletrônica: Rock and Roll Heart, Street Hassle, Live: Take No Prisoners, The Bells e Growing Up In Public. A canção Street Hassle, do álbum homônimo, de 1978, é de tirar o fôlego - comparada a ela, a letra de Walk on the Wild Side é uma cantiga de ninar. Durante onze minutos, Reed narra um programa sexual que termina na morte de uma mulher por overdose - o cadáver é jogado pelo parceiro no meio de uma rua escura para simular atropelamento. No meio da canção, há um monólogo na voz de Bruce Springsteen, não creditada na ficha técnica do álbum, a pedido do próprio, por razões contratuais com a gravadora.
Durante a época da Arista, Reed ficou obcecado por um sistema experimental de gravação chamado binaural. Criado por Manfred Schunke, consistia em microfones instalados em cabeças de manequins que ficavam posicionadas em diversos pontos do estúdio. No caso de Street Hassle, foi adotado o mesmo procedimento nos locais dos shows, pois o que se ouve no álbum (exceção feita à música-título) é um produto híbrido do instrumental, gravado ao vivo, com os vocais, gravados em estúdio. Porém, o sistema binaural tinha um problema: para poder apreciar o resultado em toda a sua magnitude, o ouvinte teria de usar fones de ouvido. Os álbuns Live: Take no Prisoners e The Bells usaram a mesma tecnologia.
O período na Arista não foi menos conturbado. Um Reed com os nervos à flor da pele reclamava que a gravadora não promovia seus álbuns. O relacionamento com Rachel chegou ao fim. Em alguns shows, o cantor chegou a brigar com a platéia. Bombas de gás lacrimogêneo e garrafas de cerveja foram arremessadas ao palco e atingiram os músicos. O comportamento de Reed se tornava cada vez mais tenso. Sobrou porrada para os músicos da banda e, dizem, até para David Bowie durante um jantar.
Depois de um retiro de dois anos, um Reed reabilitado inicia a década de 1980. Calmo, de cara limpa, longe das drogas e casado com a designer gráfica Sylvia Morales. De volta à RCA, Reed é, aparentemente, um homem maduro e equilibrado.
Blue Mask (1982), o primeiro álbum da nova fase traz Reed acompanhado por uma banda de formação básica - guitarra, baixo e bateria – em que se destacam o guitarrista Robert Quine e Fernando Saunders, baixista que se tornaria o fiel escudeiro de Reed. Apesar de abrir o coração em algumas canções e celebrar a vida de casado, em Blue Mask, a double fantasy de Lou e Sylvia era bem diferente da double fantasy dos vizinhos John Lennon e Yoko Ono, que, dois anos antes, compartilharam um álbum para comentar as maravilhas da vida doméstica (Double Fantasy). Enquanto o casal John e Yoko restringia seu mundo ao apartamento do edifício Dakota, Reed mantinha suas janelas bem abertas para o que se passava nas ruas de Nova York. Lennon seria vítima do mundo que ignorou em Double Fantasy, assassinado na porta de casa. Em Blue Mask, a violência está sempre à espreita. O “lar doce lar” só aparece na canção inicial, My House, e em Heavenly Arms, declaração de amor à esposa que fecha o álbum. Para Reed, a receita da felicidade entre quatro paredes consistia numa casa no campo, à beira de um lago, com seus escritos, sua moto e sua esposa. My House é dedicada ao guru Delmore Schwartz, com quem o casal dizia manter contato através de uma tábua Ouija.
Pouco se falou de New Sensations, o álbum de 1984. Talvez seja o álbum mais subestimado da discografia de Reed. Uma injustiça, pois é muito bom, uma pequena joia. As letras, temperadas com pitadas de humor e sarcasmo, falam, entre outras coisas, de paixão, ciúme, reconciliação, solidão e estrelato. Uma grata surpresa são os deliciosos backing vocals de algumas músicas - na reflexiva What Becomes a Legend Most, na balada mística Fly Into the Sun e na levada caribenha de High in the City. Na faixa-título, Reed assume o papel de um easy rider que percorre as estradas da América em sua moto. Em Doin’ the Things that We Want to, presta sua homenagem ao teatro e ao cinema citando os amigos Martin Scorsese e Sam Shepard.
Colagem de textos de 1982, 1985, 1986 e 1988. Foram revistos.














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