sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Tragédia americana


Susan Sontag e Edward Albee



    O livreto da peça de teatro A Cabra - dirigida por Jô Soares, com elenco encabeçado por José Wilker - traz o trecho de uma entrevista de seu autor, o dramaturgo norte-americano Edward Albee, para o jornalista e também dramaturgo Steven Drunkman, publicada no New York TimesNo trecho selecionado, Albee cita um artigo da escritora Susan Sontag. 


Drunkman: O senhor me disse que “A Cabra ou Quem é Sylvia?” é a sua peça mais política.

Albee: Sim, ela trata dos limites da nossa tolerância. Trata daquilo que nos permitimos pensar. Percebi o quanto nós podemos nos comportar mal quando Susan Sontag escreveu um artigo na The New Yorker, depois dos ataques de 11 de setembro, no qual ela analisava o acontecimento num contexto histórico e foi duramente criticada. Minha peça se relaciona a isto, é a respeito do que nós nos permitimos pensar ou não. Eu considero isso um ato político.

O exemplar da The New Yorker citado por Albee tornou-se histórico, e virou item de colecionador, não só pela proporção do acontecimento, mas também por causa de sua capa, de autoria do cartunista Art Spiegelman com sua esposa, Françoise Mouly, editora de arte da revista. O impacto gráfico é extraordinário - a capa é toda preta, com as silhuetas fantasmagóricas das Torres Gêmeas, impressas numa fina camada de verniz, aparecendo muito sutilmente. Compartilho aqui o artigo de Susan Sontag que incomodou muita gente.


***


    A falta de conexão entre a monstruosa dose de realidade da última terça-feira e as bobagens arrogantes e declarações enganosas sendo impingidas por figuras públicas e comentaristas de TV, é surpreendente, deprimente. As vozes autorizadas a acompanhar o evento parecem ter se unido em uma campanha para infantilizar o público. Onde está o reconhecimento de que este não é um ataque "covarde" à "civilização" ou à "liberdade" ou à "humanidade" ou ao "mundo livre", mas um ataque à autoproclamada superpotência mundial, empreendido como consequência de alianças e ações americanas específicas? Quantos cidadãos estão cientes do bombardeio americano em andamento no Iraque? E se a palavra "covarde" deve ser usada, ela pode ser mais apropriadamente aplicada àqueles que matam fora do alcance da retaliação, nas alturas, do que àqueles dispostos a morrer para matar outros. No que diz respeito à coragem (uma virtude moralmente neutra): o que quer que se diga dos perpetradores do massacre de terça-feira, eles não foram covardes.

Nossos líderes estão empenhados em nos convencer de que está tudo bem. A América não tem medo. Nosso espírito está intacto, embora tenha sido um dia que viverá na infâmia, e agora a América está em guerra. Mas tudo não está bem. E não é Pearl Harbor. Temos um presidente robótico que nos garante que a América ainda está de pé. Uma ampla gama de figuras públicas, de dentro e fora do governo, que se opõem fortemente às políticas adotadas no exterior por esta Administração, aparentemente se sentem à vontade para dizer que permanecem unidas apoiando o Presidente Bush. Muita reflexão precisa ser feita, e talvez esteja sendo feita em Washington e em outros lugares, sobre a incapacidade da inteligência e contra-inteligência americanas, sobre as opções disponíveis para a política externa americana, particularmente no Oriente Médio, e sobre o que constitui um programa vigoroso de defesa militar. Mas o público não está sendo solicitado a carregar grande parte do fardo da realidade. As presunçosas ladainhas de um Congresso do Partido Soviético, unanimemente aplaudidas, pareceram desprezíveis. A unanimidade da retórica hipócrita e dissimulada da realidade que jorra das autoridades americanas e dos comentaristas da mídia nos últimos dias parece, bem, indigna de uma democracia madura.

Aqueles que ocupam cargos públicos deixam claro que consideram sua tarefa manipulativa: a construção da confiança e o gerenciamento do luto. A política, a política de uma democracia - que implica a divergência, que promove a franqueza - foi substituída pela psicoterapia. Vamos certamente chorar juntos. Mas não vamos ser estúpidos juntos. Um pouco de conhecimento histórico pode nos ajudar a entender o que acabou de acontecer e o que pode acontecer daqui para a frente. "Nosso país é forte", nos dizem, repetidas vezes. Eu, pelo menos, não acho isso muito consolador. Quem duvida que a América é forte? Mas isso não é tudo o que a América precisa ser.

                                                                                        - Susan Sontag

O artigo de Susan Sontag foi publicado na seção The Talk Of The Town (Tuesday, and After - New Yorker writers respond to 9/11), da revista The New Yorker, edição de 24 de setembro de 2001.

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