terça-feira, 2 de novembro de 2021

O 11 de Setembro do reggae


Peter Tosh: excêntrico, errático, espirituoso, furioso


        Peter Tosh sempre foi polêmico, nunca teve papas na língua. Falava o que pensava e o que bem entendia, o que não agradava muita gente. Em 1980, veio pela primeira vez ao Brasil, no 2º Festival Internacional de Jazz São Paulo – Montreux. Ao vivo, sua música era mais vigorosa e incendiária do que a música hipnótica de seus discos de estúdio - o álbum Captured Live é uma ótima amostra. O motivo de seu assassinato, em 1987, até hoje permanece obscuro - oficialmente, foi considerado um latrocínio. Duas semanas antes de ser assassinado, Tosh deu sua última entrevista, publicada na revista Musician. 

***

Peter Tosh

As últimas palavras e a morte violenta de um herói do reggae


    Maureen Sheridan 


    Nuccio's é o restaurante italiano em Ocho Rios, na Jamaica, de propriedade de Chris Blackwell, fundador da Island Records, e administrado por Nuccio. Na noite do MTV Awards, um pequeno grupo reuniu-se no salão inferior do restaurante para assistir ao show durante a refeição. Em algum momento entre Whitney Huston e Prince, um garçom desceu as escadas, seguido de perto por Nuccio, e disparou: “Peter Tosh acaba de ser assassinado por seis atiradores.” A reação inicial dos presentes ficou entre o choque e a resignação, desembocando em profunda tristeza. “Peter tinha muitos inimigos, algum deles o pegou”, disse alguém que o conhecia de sua breve passagem pela Island Records.

    Comentei que tinha passado várias horas com Tosh em sua casa, duas semanas antes, e tinha planos de ir a Kingston, na terça-feira seguinte, para reencontrá-lo. Então, como todos à minha volta, fiquei em silêncio. Lembrei-me do dia em que conversamos. Dava para notar que ele sabia que algo estava para acontecer.

    Antes de recebermos a notícia, o MTV Awards estava entediante. Depois, a música e os discursos na tela pareciam totalmente vazios, contrastando com a música de Tosh, que chegava até nós de um rádio do andar de cima do restaurante. Apesar de a TV ter permanecido ligada até o fim do show, ninguém mais assistia a ele.

    Deitada na cama, naquela noite, ouvindo o ritmo incessante do álbum Mystic Man, de Tosh, na JBC, e o boletim de notícias sombrias repetido a cada 15 minutos, lembrei-me de como estavam estranhas as vibrações em sua casa – nada específico, mas um tipo de sensação espiritual incomum pairando no ar. Tosh falou de morte, e em morrer, várias vezes; falou até da possibilidade de homens armados estarem no seu encalço.


A história foi surgindo, lenta e incompleta. Juntando as peças de fontes oficiais e populares - bem como o relato de uma testemunha ocular - teria acontecido algo assim: 

    Por volta das 8 da noite da sexta-feira, 11 de setembro de 1987, três homens pilotando possantes motocicletas aceleraram colina acima até a casa de Peter Tosh, e estacionaram na entrada. Dois deles vestiam ternos, parecendo mais executivos do que atiradores; o terceiro – um visitante frequente – acalmou os cães que latiam e foi bater à porta, aberta por Michael Robinson, um artesão, que, reconhecendo o rosto familiar, e ouvindo que o trio tinha vindo “para fumar um baseado”, deixou-os entrar. Lá dentro, os homens de terno sacaram pistolas 9mm e forçaram caminho até o andar superior, para a sala onde Tosh e Marlene Brown estavam recebendo alguns amigos. Todos foram obrigados a deitar de bruços no chão. O fitoterapeuta e curandeiro Wilton “Doctor” Brown levou o primeiro tiro e morreu na hora. Marlene Brown foi atingida depois de ter gritado “Podem parar! Nunca vi Rasta atirar em Rasta.” Então, Tosh foi espancado, levou coronhadas e virou alvo de vários tiros. Antes de saquearem a casa e fugirem levando dólares e jóias, os atiradores alvejaram Robinson, DJ Free I (Jeff Dixon), sua esposa Yvonne e o baterista Carlton “Santa” Davis.

    Enquanto o trio fugia, Marlene Brown, cujos ferimentos não eram graves, conseguiu alcançar o telefone e ligou para a polícia, que chegou quando seis das sete pessoas ainda estavam vivas, incluindo Tosh. Todas foram levadas às pressas para o University Hospital, mas já era tarde para Tosh, que morreu durante o trajeto. Na casa, um cachimbo ainda queimava em seu quarto.

    Dois dias depois, Free I morreu. Os outros quatro sobreviveram. 


Nos últimos quatro anos, Tosh - co-fundador do Wailers com Bob Marley e Bunny Wailer, e controverso, declarado devoto de Jah, da maconha e da igualdade de direitos - tinha permanecido num silêncio incomum. Seu álbum mais recente era Mama Africa, lançado na primavera de 1983; seu último concerto aconteceu na Kingston National Arena, em dezembro daquele ano; e ele estava praticamente ausente das rádios jamaicanas. Alguns diziam que estava com câncer, outros, que havia enlouquecido. Não foram poucos que diziam que ele estava envolvido com obeah (vodu). Nunca aceito pela maioria moral da classe média jamaicana (ou imoral, do ponto de vista dele) - para a qual, ele pregava, fumava e vociferava demais - Tosh agora tinha caído em desgraça com muita gente da comunidade musical e da fraternidade Rasta.

    Apesar de ser facilmente encontrado, com o nome no catálogo telefônico de Kingston, poucos tinham coragem de ligar para Peter Tosh, que poderia ser muito intimidador. Mas, se você olhasse além, ele podia ser igualmente generoso, gentil e até afetuoso. No memorável concerto de Natal, no qual se apresentou com Bunny Wailer, Jimmy Cliff, Marcia Griffiths, Judy Mowatt e Gregory Isaacs no National Stadium, em 1982, Tosh afirmou, “Não me importo com o que os homens falam de mim.” Mas ele se importava.

    Peter Tosh vivia em Barbican, rica área residencial de Kingston, afastada, em atitude e estilo de vida, de Belmont, seu local de nascimento, pequena vila de pescadores não muito distante de Negril – e igualmente distante (apesar de geograficamente próxima) de Trench Town, gueto onde cresceu. Liguei para Tosh em agosto, para dizer que estava na cidade e queria vê-lo. Algumas pessoas tentaram me convencer a não ir até ele, dizendo coisas como “você não pode lidar com um louco”, mas, ao telefone, ele foi simpático e sugeriu que eu fosse às 10 horas, na manhã seguinte. Como ele havia se mudado depois da minha última visita, pedi orientação. Sua casa anterior, destruída por incendiários no ano passado, era facilmente identificada por um pé de maconha gigante crescendo livremente no jardim (até a polícia cortá-lo, quase cortando Tosh junto). “Você vai encontrá-la, minha querida”, ele disse; não querendo me prolongar, disse “legal” e desliguei o telefone.

    Pela primeira vez na Barbican Road, me perdi numa curva e fui parar numa estrada deserta que levava às colinas. Estrada deserta em Kingston é um perigo, então, rapidamente mudei de caminho e refiz minha rota. Uma vez na estrada certa, a casa de Tosh se mostrou. Pintada de vermelho vivo, verde e dourado, destacava-se como um farol Rasta em meio à sobriedade da vizinhança. Patos, galinhas e dreads fumando no jardim também não eram comuns por ali. Enquanto eu estacionava, cães de aparência feroz rodearam o carro. Falei a um dos dreads que estava ali para ver Peter; ele fez os cães se acalmarem e pediu para eu sair do carro e esperar. Os cães pararam de latir, mas não se afastaram. Permaneci imóvel até ser conduzida para dentro da casa. “Peter virá logo”, o dread disse, oferecendo três cadeiras na sala de entrada.


    Sentei-me e olhei ao redor. Bem ao meu lado – um pouco perto demais para eu me sentir totalmente confortável – um enorme papagaio branco (cujo nome, descobri mais tarde, era Tosh) estava num galho de árvore suspenso sobre folhas de plástico verdes, cheias de excrementos de vários dias. À minha frente ficava um escritório, escassamente mobiliado com uma mesa e um aparador com troféus. Trabalhadores martelavam um cômodo próximo, mas fora da vista. Cerca de dez minutos depois, fui avisada de que Tosh estava pronto e iria subir.

    Na sala de Tosh, a mobília de vime branco era predominante, as paredes exibiam fotos de Haile Selassie e dele próprio, e elefantes de marfim decoravam a mesa do café. O cantor de 42 anos vestia um moletom azul escuro e tinha suas tranças amarradas para trás, num rabo de cavalo. “Desculpe-me por tê-la feito esperar... Acabei de me levantar e ainda não tinha tomado meu chá quando esse maldito libanês aí de cima” – apontou para o alto da colina – “veio me dizer que não gostou do jeito que pintei minha casa. Como pode um maldito libanês me dizer como eu devo pintar a minha casa?” Ainda resmungando, pegou um cassete e disse que queria tocar para mim seu novo álbum, No Nuclear War, que acabava de ser lançado nos EUA. Quando a canção-título explodiu, eu senti que havia recuperado algo que eu não sabia que tinha perdido. A cena musical jamaicana, mesmo sem perceber, tinha, com certeza, perdido a poesia, o som e o poder de Peter Tosh.

    Enquanto a música tocava, Tosh sentou-se perto da janela, numa cadeira pavão. À sua frente, ficava uma mesinha com um grande saco plástico cheio de uma erva de aparência perigosa. Enrolou um baseado Tosh-sized e deu uma tragada, olhos fechados, escutando a música que saía dos grandes alto-falantes. Depois de quatro músicas, ele virou a fita para o “lado A, parte 2 – minha música não tem lado B.” Cantou junto I’m Gonna Testify, a terceira música da parte 2. A quarta, Come Togheter, foi abafada pelo barulho de um eletrodoméstico. Tosh abriu os olhos para ver a faxineira empurrando a enceradeira na varanda ao lado. Gentilmente, pediu a ela que parasse, mas a música já havia terminado. Xingando (com sua habitual litania de palavrões jamaicanos), ele disse que era um gravador nojento. “Essas máquinas não conseguem tocar música alta, e minha música deve ser ouvida alta.”

    Ele mexeu energicamente nos botões por alguns minutos, sem sucesso, desistiu e voltou à cadeira para fumar outro baseado. Afastei minha cadeira, preparada para recusar um tapa, mas não precisei, pois ele nem me ofereceu o baseado. Começou a falar, antes que eu perguntasse algo.

Peter Tosh com Keith Richards e Mick Jagger

    “São tempos críticos, não é hora para bobagens. Há um buraco na camada de ozônio, contaminação da água e do ar... 5000 substâncias tóxicas na chuva ácida... inseticidas na nossa comida. Sendo um arcanjo da música, é meu dever denunciar essas coisas de maneira mais poética. O homem que caga nas ruas não não se importa em fazer isso, quem tem que se importar é o homem que pisa na merda.”

    Por que esteve tanto tempo em silêncio? “Primeiro, meu tempo estava ocupado com imbróglios burocráticos.” Com raiva, começou a listar seus processos judiciais. Parecia estar processando todos e sendo processado por todos; teve “nove advogados em 24 meses.” Litigantes incluíam sua atual gravadora, a EMI (“não tenho recebido direitos autorais e estão me processando para que eu devolva dinheiro de turnês que eu não devo”); um ex-empresário; a Tuff Gong Records, empresa de Bob Marley que agora pertence aos herdeiros; amigos músicos; e uma empresa brasileira acusada de pirataria. Tinha também travado, e perdido, uma batalha pela custódia do mais novo de oito filhos de diversas mães, e brigou com Bunny Wailer. Não é de admirar que não tivesse tempo para a música.

    “Segundo”, continuou, “No Nuclear War foi gravado em duas semanas e entregue, finalizado, à EMI, em 7 de janeiro. Desde então, ficou na prateleira.” Ele também não tinha dinheiro. “Estou quebrado”, disse, mãos separadas, espalmadas para cima. “Todos me devem dinheiro, e todos aqueles advogados consomem o meu dinheiro.”

    “É muita confusão à minha volta... muitas más vibrações... mas se homens armados vierem atrás de mim amanhã, não vou ter medo. Jah vai me proteger... Balas não podem me atravessar porque eu sou um muro.” Subitamente, ele pulou da cadeira e chamou Marlene Brown, sua esposa-rainha, que estava na varanda acendendo um baseado. “Que cheiro é esse lá fora?”, ele gritou, cabeça voltada para a janela aberta. “O que quer que seja, peça que tirem isso de lá, tem cheiro de morte.” Nem eu nem Brown sentíamos qualquer cheiro – a não ser de maconha – mas ela disse que ia conversar com o jardineiro.


    Tosh não foi o único arquiteto do reggae, mas foi um dos seus músicos mais talentosos. “Comecei a cantar aos dois anos”, ele lembrou, “fiz minha própria guitarra aos cinco. Aos treze, eu cantava na igreja e concluí o (método) Smallwood’s Pianoforte com apenas duas aulas por semana, duas horas por dia... Bob Marley foi meu aluno... Ensinei-o a tocar guitarra. Não sou um superstar, sou um mensageiro musical... Foi abençoado com música... como um outro membro.”

    Os Wailers foram contratados pela Island Records, de Chris Blackwell, no início dos anos 1970, mas logo se separaram. A Island acolheu Bob Marley como artista solo, lançando-o para além do mercado do reggae, para dentro do lucrativo mundo do pop internacional. Tosh nunca superou isso – rebatizou Blackwell “Whitewell”, ignorando os muitos negros jamaicanos levam o nome White – ressentido pela atenção dispensada a Marley. Poucos depois de os Wailers se separarem, Tosh disse que ele teve que sair para “mostrar ao público que não era uma prostituta.” Um vínculo com os Rolling Stones deu a ele a oportunidade.

    Os Stones estavam apaixonados pelo reggae no início dos anos 1970. Keith Richards, que ainda passa um bom tempo por aqui, comprou uma casa em Ocho Rios; ele e Mick Jagger costumam circular por Kingston. Depois do fabuloso concerto One Love Peace, em 1978, cuja apresentação de Tosh é comentada até hoje, os Stones o contrataram para o seu selo, com toda a banda, incluindo a sessão rítmica com Sly Dunbar e Robbie Shakespeare, e o convidou a participar de uma turnê com eles. Tosh também se mudou, levando seus animais para a villa de Richards, na encosta de Ocho Rios. A parceria durou alguns anos e produziu, sob a direção de Sly e Robbie e com os arranjos de Mick Chung, três álbuns magníficos. Mas as coisas começaram a azedar. Tosh não estava contente com o contrato (“Mick Jagger e seus advogados me deram uma enciclopédia de embromação”); Richards não estava feliz com as cabras em sua sala de estar; e Sly e Robbie, maiores colaboradores do som de Tosh, não estavam satisfeitos com a crescente resistência dele ao trabalho em equipe – “tudo começou a mudar”, disse Dunbar.


    Tosh, então, assinou com a EMI. Mal tinha acabado de gravar Mama Africa, seu primeiro álbum para o selo, quando a disputa começou. Depois da muito elogiada turnê de nove meses para divulgar o álbum, na qual tocava uma guitarra no formato de um fuzil M16, ele sumiu das vistas do público.

    Em agosto, se mostrava ansioso para voltar à estrada, pronto para iniciar, em setembro, uma longa turnê pelos EUA, no Madison Square Garden, em Nova Iorque. Em preparação também estava o material de merchandising: uma sacola de compras na sala de estar guardava belas camisetas, com Tosh promovendo a maconha e atacando a guerra nuclear. Estava “procurando por uma negociação que não me causasse prejuízos.”

    A paranoia de Tosh de ser explorado era explícita. Apesar de sempre mostrar desprezo pelo dólar – “esse pedaço de papel que chamam de dinheiro tem matado muitos, mas não vai me matar” – e bens materiais, ele acabou, ironicamente, caindo nas armadilhas sobre as quais ele próprio alertava. Relembrando como tudo era fácil no começo, ele disse, “Agora que está se ganhando dinheiro, e as pessoas estão famosas, tudo mudou. Eu costumava andar pelas ruas com Bunny Wailer por horas, e tudo o que a gente voltava trazendo pra casa era dinheiro para o almoço, mas éramos bons amigos, entende? Bunny está andando em uma rua diferente agora.”


    Durante os quatro anos de ausência de Tosh, mudanças significativas ocorreram no reggae. A mensagem mudou de espiritualidade para sexualidade e de paz e amor para tiroteio, como indicadores de preferência do público. Músicos, antes reverenciados, agora são explorados. “O Dance Hall dá as regras”, de acordo com Bunny Wailer, e, na Jamaica, o DJ ou o reggae, na forma de rap, domina não só as pistas de dança como também toda a rotina. Tosh se referia aos DJs como District Johncrows (intraduzível, mas depreciativo). “DJs, DJs!”, berrou. “O que estão fazendo é indecente... Chegam de uma hora pra outra, não dizem absolutamente nada, lançando músicas sujas que não podem ser tocadas nas rádios. Usam velhos ritmos, alguma música de dois acordes com progressão de oito acordes, e quando a música está em Fá, o cantor está em Sol – o ritmo foi pra cá,” ele aponta para a esquerda, “e o cantor foi pra lá”, aponta para a direita.

    “Os produtores são simplesmente ruins. Pagam a qualquer DJ de merda 300 dólares (jamaicanos) para gravarem uma música, e os levam para o norte, onde eles compram um montão de correntes de ouro, fazem um show para mil pessoas e voltam se achando estrelas. Eu não quero me misturar com essa merda.” Ele aprovava Freddie McGregor e Tiger, as atuais estrelas pop do reggae, “e eu gosto de rap pela sua mensagem”.

    Tosh, agora, parecia relaxado o bastante para responder a uma pergunta sobre uma das histórias que alimentou o boicote contra ele. Um retrato de Bob Marley costumava ficar pendurado na parede do Music Mountain Studio, em Kingston. Os olhos foram arrancados – claramente cortados à faca – e a frase “Peter Tosh fez essa maldade” foi escrita, em vermelho, na parte inferior. Tosh negou tal vandalismo.


    “Não, cara, eu não faria aquilo. Eu estava gravando lá, entende, não queria um morto olhando para mim, então eu o virei para o outro lado. No dia seguinte, voltaram a virar para mim, e eu voltei a virar para o outro lado. Isso durou uma semana, e eu fiquei furioso... mas não arranquei os olhos.” Marlene Brown, que passava pela sala, parou no meio do caminho, olhou para Tosh e disse, “Eu arranquei.” A notícia pareceu surpreender mais a Tosh do que a mim. Ele a fuzilou com um olhar inquisitório, mas ficou em silêncio. Em vez disso, ele agarrou os braços da cadeira, deu um impulso, se levantou, jogou o corpo para cima, abrindo e fechando as pernas como uma tesoura cinco ou seis vezes.

    “Disseram que eu estava doente. Pareço doente pra você? E tentaram me matar, mas não conseguiram.” Abaixou-se e deu uma pausa para deixar que suas palavras fizessem efeito. Quem são “eles”? Ele evitou a pergunta. “Também falaram que eu estava louco... que eu fumava muita erva... não sou viciado em marijuana, eu sou o Ministro da Erva... fumei três baseados desde que você chegou... você acha que sou louco?” Sorri e balancei a cabeça. Excêntrico, errático, furioso e espirituoso, sim. Mas louco, não.

    Tão enérgica quanto a apologia que fazia da erva, era a sua campanha contra as drogas pesadas. “Drogas como cocaína e heroína aumentam o ego e apagam a realidade... Quando o viciado está pra baixo, ele pensa que está numa boa, e de repente se encontra sozinho no mundo. Não tomo drogas pra morrer daqui a um ano, não preciso ir ao banheiro a cada cinco minutos pra cheirar uma carreira, eu vou ao banheiro pra mijar. Erva não é droga, é um agente botânico para o corpo e a mente.” Enfiou a mão num canto e puxou uma valise de couro, com fechadura de combinação, que dificilmente combinava com sua imagem de Rastaman. Abriu e tirou uma cópia de The Emperor Wears No Clothes, de Jack Herer. “Este livro conta a verdade sobre a erva.”


    Tosh escreveu a música-título de No Nuclear War - um apelo à paz com versos simples, mas poderosos - em meia hora, deitado no carpete, enquanto assistia à TV. “Canções não vem até mim, elas estão em mim, como um rio que flui. Não preciso me isolar, posso criar uma melodia mesmo se um sound system estiver tocando. Escrevi Mark of the Beast na casa de um amigo, enquanto rolava uma festa no jardim. Enrolei um baseado com erva da boa e comecei a tamborilar sobre a mesa. Então, policiais invadiram a festa, e eu vi a marca da besta em seus rostos.”


    O novo álbum de Tosh é muito esperado pelos fãs, e dizem que promotores o cortejaram durante meses com ofertas lucrativas. “Essa turnê será a maior de todas,” Tosh previa confiante. “Muitos pensam que eu sou mais perigoso que AIDS, e querem me manter nas sombras porque o que eu canto tem muita força... Mas deixe que os fracos digam fraquezas... Só os fortes sobrevivem.”

    Ele planejava ficar na Jamaica até o início da turnê. “É, cara, vou ficar por aqui. Não vou a lugar nenhum, ficarei aqui pra sempre.” 


Os arranjos do funeral de Peter Tosh se atrasaram por causa de uma disputa entre Marlene e a mãe de Tosh, Alvera Coke, sobre quem teria direito ao corpo. A mãe venceu. Marlene, então, acusou-a de querer enterrar Tosh num chiqueiro, e recusou tempestuosamente o pedido da família para que ele fosse enterrado com a guitarra M16. “Peter”, sua mãe respondeu, “será enterrado a aproximadamente 60 metros de distância dos porcos.” Na quinta-feira, 24 de setembro, foi anunciado que, no dia seguinte, o corpo de Tosh ficaria na National Arena para receber a visitação do público, e que os serviços de ação de graças seriam realizados no sábado, antes do enterro em Belmont, no fim do dia.

    SEXTA-FEIRA: Peter Tosh estava vestido num manto branco adornado com "ites" ("alturas", saudação utilizada para desejar que a pessoa atinja as alturas da espiritualidade), em verde e dourado, sobre um uniforme cáqui. Em sua cabeça, estava um chapéu nigeriano de cetim branco. Suas tranças tinham sido colocadas em ambos os lados e descansavam sobre o seu peito. Ao lado dele, havia uma bengala esculpida com as palavras “Jah Live”. Enquanto milhares de pessoas se enfileiravam para uma olhada final no homem que chamava a si próprio “the toughest” (o mais resistente), seus filhos mais novos, ao lado do caixão, tocavam suavemente seu rosto e brincavam com suas tranças.

    SÁBADO: A Arena parecia vazia. Apenas cerca de mil pessoas compareceram às cerimônias fúnebres – incluindo a ex-amante, Melody Cunningham, e sem Marlene, que também não foi ao enterro. A expectativa de mais violência afastou o público. Alguns tinham outros motivos. Bunny Wailer, I-Threes (o trio vocal feminino dos Wailers) e a família Marley estavam ausentes. “Peter não iria ao funeral deles também”, alguém comentou.


    Seu caixão repousava no palco onde ele se apresentou pela última vez. Ao fundo, estava um banner do ativista Marcus Garvey, usado no Sunsplash Festival, um mês antes. Enquanto as pessoas deixavam o palco para que o serviço pudesse começar, um homem, vestido de branco, com óculos escuros pendendo desajeitadamente na boca, começou a dançar redor do caixão enquanto levantava um cajado. “Levanta, Peter, levanta, Peter”, ele gritava. A congregação achou que os serviços haviam começado. Mas, assim que os ministros da Ethiopian Church subiram os degraus para dar início aos procedimentos convencionais, a polícia tirou o homem dali. O serviço também foi interrompido por um homem que carregava uma bandeira com inscrições “Freedom/Garveyism”, e o público ficou um pouco fora de controle.

    O solo de sax de Dean Fraser, em Many River to Cross, esfriou os ânimos, Horace McIntosh, o filho mais velho de Peter, leu uma passagem bíblica; Andrew, um ano mais novo, com 19 anos, cantou duas músicas de seu pai, evocando sua voz e atitude. O escritor e radialista Dermot Hussey leu uma eulogia que lembrava Tosh como um artista de grande talento e integridade. O momento mais comovente aconteceu quando o caixão, carregado pelos filhos Horace, Andrew e Steve, Sly Dunbar, Robbie Lyn e Carlton Smith, deixou a arena ao som da seção de metais de Dean Fraser tocando Amazing Grace, e foi colocado numa van branca para ser transportado até Belmont. O carro que puxava a procissão, decorado com as cores Rastafari, levava um pé de marijuana e as palavras “Este ramo é para você.”

    DOMINGO: Numa manhã bem tranquila, Dermot Hussey estava sentado em sua varanda. Tem sido um verão longo e quente na Jamaica; com as eleições se aproximando, o calor deve permanecer por um bom tempo. Bob Marley foi baleado um pouco antes das eleições de 1976, mas sobreviveu. Quem atirou em Peter Tosh mirou melhor. Hussey relembrou os bons momentos que teve com Tosh na turnê ao Brasil, e meditou sobre a lei do gueto: “O gueto é muito poderoso... Seus moradores não podem escapar dele... Eles podem se mudar pra longe, mas o gueto sempre os alcança e cobra suas dívidas no fim.” 


A história de quem matou Tosh não terminou. O clima na Jamaica, pesado após sua morte, está quase voltando à rotina. As rádios passaram a tocar sua música, até as banidas Legalize It e Buk-in-hamm Palace, mas já retomaram a programação anterior. Novo susto aconteceu nas primeiras horas da manhã de 2 de outubro, quando, ao guardar o carro na garagem, Marlene, apesar de não ser ferida, foi alvo de tiros de M16 dados por homens que passaram por ela durante o percurso.

    A polícia prendeu Dennis “Leppo” Lobban, um visitante frequente que, segundo rumores, teria sido preso por porte de armas no lugar de Tosh, treze anos atrás. Liberado há nove meses; era supostamente o sustentado por Tosh, que, de repente, teria parado de lhe dar dinheiro. Lobban, que esteve presente durante a minha entrevista, não fala, mas especula-se que, desde então, os outros dois homens teriam deixado a ilha. A polícia acredita que os tiroteios foram consequência de alguma disputa judicial, e disputas judiciais eram o estilo de vida de Tosh.

    Em 8 de outubro, Marlene disse que a história de Lobban cumpriu pena no lugar de Tosh é uma mentira. “Peter e eu encontramos Lobban no mesmo dia. Ele saiu da cadeia há nove meses, sem dinheiro, sem lugar pra ficar, e Peter o ajudou. Lobban é um assassino, um matador de aluguel, contratado (com os outros dois) para matar Peter. Peter Tosh morreu inocente porque não o queriam no caminho. Morreu por dinheiro. Não houve drogas nem assalto. Seus amigos se voltaram contra ele e o mataram. Peter era o líder do reggae. Certas pessoas não queriam vê-lo à frente. Quando estas pessoas estiverem à frente, saberemos quem é o culpado.”


    Quando morreu, Peter Tosh estava desiludido, infeliz e cansado de lutar. “O único lugar em que você encontra a paz é o cemitério”, disse uma vez. Sendo assim, ele finalmente a encontrou.

Maureen Sheridan é uma jornalista inglesa que trabalhou nas revistas Billboard, Musician e Down Beat. Autora do livro “Bob Marley – Soul Rebel: The Stories Behind Every Song”, atuou também na cena musical da Jamaica, onde mora desde 1981. Atualmente, Maureen administra a organização beneficente The Animal House Jamaica, que funciona como abrigo, recolhendo animais feridos e abandonados, e fornecendo comida, atendimento veterinário e demais serviços a animais cujos donos pertencem à população carente.

 

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