Captain Upton's House, tela que Edward Hopper pintou em 1927
Além de ser o comediante que fez parte da trupe do Saturday Night Live; o ator e roteirista de filmes como Cliente Morto Não Paga, Three Amigos! e L.A. Story; o músico habilidoso que dedilha um banjo nas horas vagas, Steve Martin é colecionador de arte.
Entre as obras de seu acervo, está a tela Captain
Upton’s House, de Edward Hopper, que retrata a imponente casa do faroleiro de Cape Elizabeth, em Portland, no estado do Maine. Em um ensaio publicado no livro Edward Hopper’s Maine, ele conta como é ser o proprietário de um autêntico Hopper e ter o privilégio de apreciá-lo diariamente.
De vez em quando, faço longas
viagens pelo país, atuando todas as noites em diferentes cidades, tocando banjo
e contando piadas, ou permaneço por muitos meses em outro país, fazendo um
filme, sempre voltando pra casa e, com um
suspiro de alívio, largando minha bagagem ao entrar. Acendendo
as luzes da sala, vejo Captain Upton’s
House, tela de Edward Hopper. Olho para
Annie, minha esposa, e digo, maravilhado, “Como isto aconteceu?”. Viver com um
quadro durante anos é uma experiência diferente de vê-lo reproduzido ou numa
visita ocasional ao museu, especialmente com os seguranças me enxotando para trás
por eu me inclinar até muito próximo de uma obra.
Vivo com algumas grandes pinturas
(sendo Captain Upton’s House a melhor),
muitas boas, e outras até medíocres, e gosto de todas. Só que eu gosto das boas
e das grandes por mais tempo que das medíocres. São
como as casas dos Três Porquinhos, todas elas resistentes até que o tempo –
o Lobo Mau das pinturas inferiores – eventualmente
acabe com elas num sopro.
O Hopper, no entanto, persiste. Transmite solidez, coerência e peso. Sua atmosfera se irradia pela cena (a casa e o farol),
pela sala onde o quadro costuma ficar, e, presumo, pela galeria onde ele se
encontra temporariamente pendurado. Algumas
vezes, eu o estudo bem de perto, meus olhos explorando-o cientificamente, descobrindo novos pedacinhos de informação, e, às vezes, olho para ele como se fosse uma tela de
cinema ou de TV: deitado, absorvo-o como se ele contasse uma história, uma
história que nunca avança. Os melhores momentos
são aqueles em que eu e o quadro ficamos mudos e fazemos uma festa de arte
silenciosa, com a presença de apenas um ou dois ou três de nós.
Em Captain Upton’s House, muita informação se revela imediatamente: a grande casa branca, o farol monumental, o dia
ensolarado, a encosta; e embora o mar ocupe
menos do que um centésimo da tela, fica claro que a casa está na água. A cena parece muito calma. O tempo que passo com a
pintura revela toques incomuns que me parecem bastante ousados para uma obra
realista. Fiquei espantado ao me concentrar nas
cinco placas de vidro angulares que refletem o sol da tarde no farol. Da esquerda para a direita, a primeira é de um azul escuro
acinzentado, mostrando um céu esmaecido. A seguinte
é uma pincelada ininterrupta tão branca quanto o farol –
brilho puro. Depois, um inesperado painel de
laranja brilhante, o sol refratado; e então um laranja escuro, e um laranja ainda mais escuro no vidro que circunda a torre. Um narrador talentoso, com caneta ou voz, não poderia contar
uma história mais minuciosa de um entardecer ensolarado do que Hopper conta no círculo
colorido da vidraça do farol.
Contrabalançando a densa geometria
da casa há momentos de extrema delicadeza. As grades de ferro aparecem sólidas, mas têm tanta leveza quanto um cordão no pescoço de
uma criança. Um frontão ornamentado apara o
telhado pesado. As janelas da despensa não têm
vida nem cor, mas as janelas dos quartos onde as
pessoas vivem estão suavemente detalhadas. Elas irradiam
sinais de vida. As janelas do quarto estão
abertas. Há cortinas sopradas para dentro pela
brisa. Na varanda, você pode ver através das janelas que estão voltadas para o
céu. Aqui, não é difícil imaginar a presença de móveis de vime e tapetes
artesanais. Hopper entrevê a intimidade desta
casa, nos lembra que ela está respirando.
William Michael Harnett foi um
pintor de naturezas-mortas do século 19, conhecido por muitas pinturas
fotográficas que “enganavam os olhos”, e uma de suas pequenas pinturas costuma
estar na parede do Los Angeles County Museum of Art. Eu a via regularmente e,
entre outras coisas, fiquei admirado com a moeda de cobre tão realisticamente
pintada sobre uma mesa. Certo dia, olhei bem de
perto aquela moeda. Fiquei assombrado ao ver que Hamett não a havia detalhado.
Ele pintou apenas a borda da moeda, meu cérebro preencheu todo o resto dela. Hopper fez o mesmo. Se
você olhar as grades ao redor da passarela do farol, vai notar lacunas
irregulares, lacunas que um pintor “melhor” poderia ter preenchido.
Sempre me perguntei se os
europeus vêem Hopper da mesma maneira que os americanos. Ele parece capturar
perfeitamente a alma yankee, pintando
a América com características que Norman Rockwell omitiu: a solidão meditativa, a tensão sexual, o silêncio após um dia de trabalho duro. Hopper, particularmente, é um artista único. Posso pensar em apenas outro pintor capaz de isolar
uma figura num cômodo com a mesma intensidade, e ele é Vermeer. Mas as raízes do Hopper não estão em Vermeer ou em
nenhum outro. É como se, depois das pinturas convencionais de sua juventude,
ele se rendesse ao próprio mau humor e este se infiltrasse em seus quadros. Começou
então a pintar aquelas cenas cruas de funcionários em escritórios, de lanterninhas
paralisadas num pensamento momentâneo, de comensais noturnos com suas xícaras
de café, e Hopper amadureceu.
Às vezes, poso profissionalmente
para fotógrafos que estão sempre dizendo “Sorria... sorria!”. E eu penso “Estou sorrindo!”.
Então, ao ver as fotos, acontece que, por mais que eu achasse que estava
sorrindo, eu não estava. Nas fotos de Hopper que tenho visto, sisudo é a palavra que me vem à cabeça, e
eu queria saber se ele também pensou que estava sorrindo. Em Capatin Upton’s House, Hopper pode não ter
pensado que sorria, mas pelos os sinais que deixou na pintura de uma tarde fresca
e preguiçosa, desfrutada pelos moradores dessa casa, o esboço de um sorriso talvez
esteja ali.
O ensaio de Steve Martin foi publicado no livro Edward Hopper's Maine, de Kevin Salatino, 2011.
O ensaio de Steve Martin foi publicado no livro Edward Hopper's Maine, de Kevin Salatino, 2011.


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