(Desenho de Wallace "Wally" Wood)
A solidão, na época do Natal, faz aumentar o número de ligações para o CVV, Centro de Valorização da Vida. Por outro lado, tem gente que procuraria o apoio do CVV se tivesse que encarar as festividades e reuniões familiares que comemoram a data. A revista Vice publicou quatro depoimentos de gente que sobreviveu à solidão natalina.
Pedimos a algumas pessoas que contassem suas histórias de dias de Natal solitários.
Hazel Sheffield
Os benevolentes anúncios de Natal têm uma mensagem para nós: essa é uma época do ano difícil para quem vai ficar sozinho. Pensem nos pobres e necessitados, nos sem-teto no frio, nos idosos sem amigos e familiares para comemorar, nos refugiados dos campos da Europa.
Se você é jovem, bem-sucedido e saudável não deve passar o Natal por conta própria. Em lojas de departamento e supermercados, brilham as imagens de famílias fazendo plateia para cães pulando em camas elásticas e amigos reunidos ao redor de tábuas de frutos do mar. Dezembro é o mês do convencionalismo militante. Embora a publicidade festiva tenha abraçado a diversidade religiosa, as relações entre pessoas do mesmo sexo e o veganismo, há a maneira certa de passar o Natal – e ela se parece com uma comédia romântica de Richard Curtis.
Mas, e se você optar por encarar o Natal como mais um dia miserável qualquer? Para descobrir, pedimos a algumas pessoas que, por várias razões, optaram por passar o Natal por conta própria.
Celebrando a solteirice
Eu adorava voltar ao norte para uma grande reunião com meus amigos e familiares. Mas me divorciei, e depois passei por outro rompimento realmente terrível, na época em que todos ao meu redor se estabilizavam. Então, na última vez em que fui para casa, não havia mais ninguém lá.
Essencialmente, não há maneira melhor de fazer você sentir que fracassou na vida do que passar o Natal em casa sozinha, divorciada e sem filhos.
Sendo assim, no ano seguinte, decidi que ficaria sozinha em Londres. As pessoas ficavam me convidando para me juntar a elas, como se eu estivesse afundada na miséria até o pescoço, mas, na verdade, eu estava animada. Comprei toda a comida que eu gosto e, pela manhã, saí para uma caminhada. Liguei para minha família, voltei para casa e preparei o jantar muito lentamente, ouvindo Frank Sinatra. Tudo estava em paz - exatamente como eu queria que estivesse.
Eu acho importante saber que você pode passar de maneira diferente por esses grandes eventos, como o Natal e os aniversários. O Natal tornou-se um lembrete de como vivo honestamente minha vida, em vez de tentar ser o que as outras pessoas querem que eu seja, ou ter que respeitar convenções e tradições.
Laura, Ramsgate
O fora da lei da família
Enquanto eu crescia, nunca celebramos o Natal ou os aniversários em nossa casa. Minha mãe é testemunha de Jeová e meu pai está na América. Saí de casa aos 13 anos e passei sozinho muitos Natais. Eu sou o fora da lei da família, pois sou gay, e minha avó é a outra fora da lei, por ser idosa. Então, nos últimos dois anos, passei o Natal com ela.
Apesar de ser uma situação imposta através de muita pressão, uma coisa que ajuda a enfrentá-la é fazer uma escolha consciente e poder tirar o máximo de proveito dela. Passei a transformar isso em aventuras - ficaria num hotel ou iria a um lugar qualquer. Em Glasgow, quase ateei fogo em um hotel porque deixei velas acesas perto dos enfeites de Natal. Então decidi partir numa missão para encontrar as vacas peludas escocesas - porque tinha determinado que isso seria o meu Natal.
As pessoas talvez não tenham a intenção, mas acabam estabelecendo como norma estar com uma família numerosa e trocar presentes, na suposição de que você tem uma mãe e um pai financeiramente estáveis. E isso não é a realidade de muitas pessoas.
Charlie, Bristol
Ressaca de solidão
Certo ano, no Natal, meus pais saíram de férias com seus parceiros, enquanto meu irmão foi passar com um amigo. Eu tinha passado os três Natais anteriores com minha ex. Eu acho que se alguém me perguntasse o que eu estaria fazendo no Natal, eu diria que iria passá-lo na casa da minha mãe, porque não queria simpatia ou convites embaraçosos.
Naquele ano, passei a véspera de Natal na cidade com meus amigos, e foi realmente uma noite muito divertida. Voltei para casa por volta das 4 da madrugada e decidi abrir meus presentes, antes de ir para a cama. Abrir presentes de Natal é uma cerimônia para a família. Havia uma sensação avassaladora de inutilidade, então fiquei sentado por muito tempo, fumando e bebendo meio litro de uísque.
Me senti um merda no dia seguinte - não realmente de ressaca, apenas realmente chateado. Não acordei até o meio da tarde, mas pensei 'foda-se' e fiquei na cama. Eu me perguntava o que havia de tão errado comigo que me colocara nessa posição, aos 30 anos, completamente sozinho no dia de Natal.
Desde então, tenho passado o Natal na casa de meu pai todos os anos. Ficamos bêbados, e eu discuto política com meus parentes mais velhos, e é legal, mas agora tudo isso me parece desnecessário - alegria por obrigação. Fico ansioso para ver meus amigos que voltam para casa - isso é ótimo.
Scott, Peterborough
O médico-residente
Estarei trabalhando na véspera e no dia de Natal. Divido um apartamento com um colega, em Vauxhall, mas ele vai passar o Natal com a família, então estarei só quando voltar pra casa.
O Serviço Nacional de Saúde costumava fazer uma ceia de Natal nas enfermarias, que era servida gratuitamente pela catina a todos os funcionários. Comentaram que os cirurgiões vinham destrinchar o peru com seus instrumentos. Mas, na situação em que nos encontramos, com cortes de pessoal, isso acabou.
Nunca me importei de verdade com as noites de Natal, porque você tem que entrar com espírito de união; tem que se envolver intimamente. Mas agora que esse compromisso vem como uma imposição, as pessoas estão chegando ao ponto de se ressentir deste tipo de coisa. É o que existe de mais distante do espírito de união. Então, neste ano, me sinto bastante amargo em relação a isso.
Chris, Londres
Artigo de Hazel Sheffield publicado no site da revista VICE, 20 de dezembro de 2016.

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