sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Friends


Amigos à mesa


    Julius Henry Marx e Vincent Damon Furnier se conheceram, nos anos 1970, quando foram convidados a cantar em dueto na festa de aniversário de Frank Sinatra. A música escolhida, Lidia The Tatooed Lady, ficou célebre no filme At the Circus (1939), dos Irmãos Marx. Tinha início uma das mais marcantes e singulares histórias de amizade do showbizz

Julius e Vincent, mais conhecidos como Groucho Marx e Alice Cooper, eram vizinhos em Beverly Hills, endereço das celebridades em Los Angeles, na Califórnia. Groucho sofria de insônia e, numa determinada madrugada, ligou para Alice, convidando-o para um bate-papo - e o que era para ser um breve encontro acabou virando hábito. “Ele ficava numa poltrona perto da cama, com um pack de Budweiser. Ficávamos assistindo a filmes antigos. Após dois filmes, eu percebia que ele tinha dormido, de boina e charuto aceso. Eu apagava o charuto e as luzes, e ia pra casa. Na madrugada seguinte, era ‘Ei, Coop, não consigo dormir. Pula pra cá'”, lembra Alice.


Groucho passou a ir aos shows de Alice, e levava seus amigos - Mae West, George Burns, Fred Astaire e Jack Benny. Alice, por sua vez, passou a ser presença obrigatória nas reuniões desta turma. Devido à diferença de idades, era considerado uma espécie de mascote - ele estava na casa dos 30, Groucho e seu pessoal, na dos 80. “Foi uma época bizarra da minha vida. Eu era um freak em Hollywood. Era Alice Cooper, o monstro que papais e mamães odiavam. Mas os comediantes me diziam: Você é um camarada, é um dos nossos.”

Alice Cooper e mítico letreiro de Hollywood

Groucho faleceu em agosto de 1977. No ano seguinte, foi criada a campanha Save The Sign, com o objetivo de arrecadar 250 mil dólares para a recuperação do famoso letreiro de Hollywood, destruído por uma tempestade. Alice comprou, por US$ 27 mil, uma das letras ‘O’ e dedicou-a à memória do amigo - e ainda convenceu a Warner, sua gravadora na época, a comprar pelo mesmo valor o outro ‘O’.

Aqui vão três breves textos de Groucho, publicados na Raposa Magazine em dezembro de 1981.

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3 Histórias de Groucho Marx

Página-poster da Raposa Magazine


    Eu estava um dia no elevador do edifício Thalberg quando Greta Garbo entrou. Ela estava então no auge de sua carreira, aclamada por todos como a maior atriz de cinema da época.

A Garbo ostentava um chapéu cujo diâmetro igualava ao de uma roda de bicicleta. O restante da sua pessoa estava embutido numas calças e numa jaqueta de corte masculino. Eu estava por detrás dela e, sentindo-me de humor lúdico, ergui com suavidade a aba posterior de seu chapéu. Rememorando o incidente, compreendo que o resultado de levantar a aba posterior de um chapéu feminino é inevitável: a parte dianteira do chapéu resvala sobre o rosto. Na ocasião, entretanto, eu ainda não havia resolvido este pequeno problema de física.

A Garbo voltou-se para mim transbordante de fúria, enquanto levantava o chapéu e exibia as feições clássicas que ainda constituem a admiração de milhões de pessoas.

- Como se atreve? – exclamou num tom glacial.

- Oh, peço milhões de desculpas – respondi – eu a confundi com um cara que conheci em Kansas City.

Esse foi todo o diálogo. No entanto, para qualquer expert em assuntos cinematográficos, é evidente que esta constitui a verdadeira explicação por que Greta Garbo nunca apareceu em nenhum dos filmes dos irmãos Marx.

*

    Antes que se envolvesse em conflitos com as autoridades postais, com a polícia e com Hollywood (para não dizer o contrário), a revista Confidencial publicou dois artigos a meu respeito. Não eram particularmente malignos, mas tenho de admitir que o simples fato de ser citado pela revista me deixou chateado.

No primeiro artigo, eu era acusado de ser chegado a mulheres muito jovens. Eu seria o último a negar tal afirmação. O segundo artigo dizia que meu espetáculo na televisão era desonesto. No entanto, depois de esgotada a minha paciência, escrevi uma carta ao redator chefe, nos seguintes termos: “Prezado Senhor, se continuar a publicar artigos desagradáveis a meu respeito, serei obrigado a cancelar a minha assinatura.”

*

    Certa noite, os estúdios Paramount me convidaram para assistir a uma sessão do filme Sansão & Dalila, interpretado por Hedy Lamarr e Victor Mature. Ao terminar o filme, um dos diretores do estúdio se aproximou e perguntou o que eu tinha achado.

- Bem – comecei – tem um pequeno defeito que...

- O quê? – saltou imediatamente o diretor – O que quer dizer com isso

Prossegui: - Nenhum filme pode me interessar quando o busto do protagonista é mais volumoso do que o da estrela.

Muitos anos se passaram antes que a Paramount voltasse a me convidar para uma sessão de cinema.          


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