sábado, 24 de agosto de 2019

Feliz aniversário / Velhos convidados / Me chateio e saio


Paulo Leminski em ação


        Se estivesse vivo, o escritor curitibano Paulo Leminski teria comemorado, neste sábado, o seu 75º aniversário. Tive o privilégio e o prazer de conhecê-lo quando participei de sua Oficina Textual, de maio a julho de 1988, nas Oficinas Culturais Três Rios (atualmente, Oficinas Culturais Oswald de Andrade), no bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

Em algumas ocasiões, um pouco antes das aulas, eu e alguns colegas nos encontrávamos com o mestre num boteco próximo. Me lembro de uma conversa que tivemos sobre referências à obra de Jung em álbuns do Police, do Tears For Fears e do Peter Gabriel. Ainda guardo alguns textos e exercícios do curso. Numa das aulas, Leminski pediu que escrevêssemos haicais sobre quatro temas: Aeroporto VazioAquário No EscuroFeliz Aniversário e Última Ficha. Em dois deles, tive a ajuda e a aprovação do mestre – uma "parceria" da qual me orgulho. Um dos haicais é sobre a aversão que tenho ao dia do meu aniversário, o outro foi inspirado pelos peixinhos de aquário do filme Rumble Fish, do Coppola

Feliz aniversário
Velhos convidados
Me chateio e saio

Aquário no escuro
Peixes coloridos
É o que procuro

O último dia de aula teve confraternização. Fizemos uma vaquinha e fomos a um supermercado próximo, onde compramos cerveja, vinho, vodca, gelo e salgadinhos. Alguém apareceu com um garrafão de pinga. Um casal ofereceu a casa para darmos continuidade à festa, pois a nossa sala seria utilizada pelo pessoal de outro curso – convite aceito por todos. Quem tinha carro dava carona para quem estava a pé. Para minha surpresa, Leminski não foi. Para compensar, a festa teve a presença da dupla Alice Ruiz e Itamar Assumpção. Leminski morreria um ano depois
.

Aqui vão algumas amostras do muito que Leminski escreveu. Poemas publicados no jornal curitibano Gazeta do Povo, em 1996, antecipando o lançamento do livro póstumo O Ex-estranho; um texto distribuído pelo próprio Leminski durante o curso; um artigo publicado na revista Corpo a Corpo, em 1988; e cinco poemas que apareceram numa newsletter da editora Brasiliense, e que, segundo o escritor, pintaram na sua cabeça durante a tradução do livro Pergunte ao Pó, do John Fante.

***

johnny b. good
tem vezes que tenho vontade
de que nada mude
vou ver
mudar é tudo que pude

*

extra
precisa surpresa
a brisa passa e me deixa acesa
asa que não soube ser estrela
cena que não reprisa
fala desfeita em reza

sobrenoite alémfloresta
aquela estrela é uma fresta
por onde vejo nascer
um novo céu

*

S.O.S.
não houve sim que eu dissesse
que fosse o começo
de um esse o esse

*

chorar por dentro não vale
aquilo que o coração
não quer que se cale

*

insular
uma milha
cercada de mágua
por todos os fados

*

datilografando este texto
ler se lê nos dedos
não nos olhos
que os olhos são mais dados
a segredos

*

viver é super-difícil
o mais fundo
está sempre na superfície

*

acordei e me olhei no espelho
ainda a tempo de ver
meu sonho virar pesadelo

*

    Já era uma vez.

    Era uma vez uma história bem pobrezinha, tão pobrezinha que não tinha personagens, não tinha começo, não tinha meio, não tinha fim, nem enredo ela tinha. E para que serve uma história sem enredo?
    A pobre da nossa história andava por aí pedindo:
    - Um enredo, pelo amor de Deus!
    Mas ninguém dá a mínima atenção a uma história sem enredo.
    E a historinha sem enredo passava por grandes histórias, cada uma mais orgulhosa do seu enredo.
    Uma era a história de um cavaleiro de armadura que atacava até moinhos de vento.
    A historinha olhava e dizia:
    - Puxa! Isso é que é enredo. Quem dera eu tivesse um enredo assim!
    Outra era a história de um médico que virava monstro e de um monstro que virava médico. Tinha também a história de um rei que tinha uma távola redonda. Todas as histórias tinham enredo, menos a nossa.
    Um dia, nossa história decidiu, vou sair pelo mundo e vou encontrar um enredo, custe o que custar.
    Assim, nossa história correu mundo, conheceu todos os lugares, viu cidades imensas, ouviu a queixa das pessoas, o som das trombetas e o barulho dos cascos dos cavalos do rei. Viu bandidos serem enforcados, foi presa, foi solta, foi presa de novo, fugiu.
    Assim, os anos se passaram, e assim nossa história voltou ao ponto de partida. Agora, já era uma velha história, uma história que os pescadores contavam nas noites de lua, as velhas contavam para as crianças dormir, e as pessoas sonhavam quando queriam esquecer da vida.
    Um dia, nossa história estava para morrer. Então, ela reuniu em sua volta todas as pequenas anedotas da vizinhança, os episódios mínimos e as piadas sujas e disse:
    - Meus amores, antes de partir tenho uma coisa muito importante para contar a vocês, que vão alegrar os homens, fazer as mulheres chorarem e apavorar as crianças.
    Já era quase nada, quando conseguiu dizer:
    - Era uma vez uma história bem pobrezinha, tão pobrezinha que não tinha personagens, não tinha começo, não tinha meio, não tinha fim, nem enredo ela tinha.
    E morreu dizendo:
    - Para que serve uma história sem enredo?    

*

    A Idade do Lixo

    O tempo gira ou caminha em linha reta? Para os romanos que o mediam com uma ampulheta, o tempo escorria, como a areia do deserto entre os dedos de um viajante sedento. Para os chineses e japoneses, o tempo, antes do relógio, tinha cheiro, pois media-se o passar das horas queimando varinhas de incenso de duração regular.

    Mas o que está em jogo, e em crise, hoje entre nós, é toda a concepção geral do tempo, baseada na mitologia judaico-cristã que concebeu uma História indo da Criação ao Juízo Final: um tempo retilíneo. Um circuito temporal com antes e depois, com atrás e adiante.

    Nossa querida noção de “progresso” está articulada com esse tipo de visão do tempo. A palavra, na origem, significa “caminhar para a frente”.

    E se não há mais nada lá adiante a não ser um gigantesco cogumelo atômico, ardendo como mil sóis? Adiante de nós, só há o Apocalipse, o final dos tempos, profetizado pelas Escrituras.

    Neste momento, a própria ideia de tempo retilíneo entra em colapso, e o tempo passa a girar circularmente, como o quiseram as mitologias orientais e centro-americanas (maias, astecas). Os gregos também intuíram a circularidade do tempo que Nietzsche, no século passado, recuperou como o “eterno retorno”: o que já aconteceu tornará a acontecer, e assim por diante, indefinidamente.
    
    Essa visão coincide com a Idade do lixo em que entramos recentemente. Mais. A visão circular do tempo é a visão do próprio tempo como lixo, como acúmulo de elementos já usados e reciclados constantemente, sem a perspectiva de novidade ou inovação. Entramos na era da repetição e da cópia, do xerox e do reflexo, da imitação e da redundância.

    Basta, por exemplo, lançar um olhar para o terreno das artes, esse termômetro das mutações. A palavra “vanguarda”, durante muito tempo, teve um peso artístico muito grande. Ora, sabemos, a palavra tem origem militar, designa o grupo que vai à frente da tropa, sondando o terreno e travando os primeiros combates. Hoje, a própria palavra “vanguarda” não faz muito sentido. Não há nada lá na frente. Só o imenso vazio de um “day after”. Uma guerra nuclear vai se dar de modo literalmente global. Quer dizer: de globo. Os mísseis vão cair de cima, não há lugar para onde fugir, a não ser para dentro, para os abrigos, para o útero, para o poço do Eu.

    Não nos iludamos. A guerra nuclear já houve. Já houve em nível imaginário. O medíocre filmeco “The Day After” que o diga. Já vivemos em imaginação todo o horror do Apocalipse. Já podemos inventar uma nova terra e uma nova humanidade. E agora sabemos. Quem causou o Apocalipse foi a concepção do tempo retilíneo. Vamos nos abrigar no colo de um tempo circular, um tempo reiterativo, tautológico.

    O tempo circular é o tempo da Idade do Lixo, essa Idade que sucede à Idade da Pedra, do Bronze, do Ferro e da Matéria Plástica.

    No mesmo monturo em que se transformou a cultura humana, jaz o tempo retilíneo, enorme relógio em pedaços, sucata de horas, restos, detrito de momentos, super-ruína.

    O índice mais seguro do advento da Idade do Lixo é a onipresença da moda, das modas e dos modismos. A Idade do Lixo é a idade da moda. Essa moda veio para ficar. Na alta costura e no vestuário, as épocas são recuperadas, como inovação. Neste verão, vai entrar na moda a década de 40, ombreiras nos vestidos, saias longas, cabelos assim e assado. No próximo inverno, a década de 20. E assim por diante, que o tempo circular não pode parar. Ele já é um tempo parado, rodando sobre si mesmo.

    A trilha sonora da Idade do Lixo é o minimalismo (Glass, Sakamoto), a música repetitiva e obsessiva que não sai do lugar, uma música centrípeta, cada célula/novelo girando em torno das suas probabilidades, como um átomo e seus satélites.
    
    Paira no ar uma consciência muito aguda de uma crise de criatividade geral: na política, na arte, nas ciências, na moda, no comportamento. É como se o novo não estivesse mais sendo possível, como se todo o acúmulo de informação e produção dos séculos (esse gigantesco lixo) embaraçasse nossos passos em direção a um novo, cada vez mais distante e utópico.

    Natural. Na Idade do Lixo, é a própria ideia de novo que vai para o lixo. Afinal, essa ideia de buscar o novo já é velha...

    O planeta Terra, hoje, é uma aeronave tripulada por bilhões de seres humanos que não cessam de produzir detritos e deixar resíduos. Nesse sentido, não há muita diferença entre a “Divina Comédia” e o excremento nosso de cada manhã. Tudo é lixo, matéria a ser reaproveitada, reciclada, retrabalhada. Tudo, hoje, é reretro.

    A crise das artes é sintomática, sendo elas, segundo se crê, as antenas da espécie. Tudo é neo, é “hommage”, é citação: arte de arte. A arte não sai mais da vida, sai da própria arte. E que são os museus, bibliotecas e arquivos senão vastíssimos lixos de informação à espera de re-aproveitamento e re-utilização?

    Esse raciocínio poderia ser estendido a territórios insuspeitados como o nosso corpo, por exemplo. Que é ele senão um lixo de gestos e reflexos, lembranças e cicatrizes, o lixo de nós mesmos, o lixo em que consistimos, memória, nossa irremediável historicidade? E a própria linguagem que mais é além de um lixo de palavras, frases feitas, lugares comuns e clichês, nosso tesouro e nossa escória?

    “No future”. O grito punk tomou conta do planeta em finais dos anos 70. Claro que não há mais futuro num planeta computadorizado.

    O computador aboliu o tempo, proclamando o eterno presente, ao incluir o passado com memória e o futuro com programa e projeto.

    O zen é a atitude filosófico-religiosa da Idade do Lixo, na qual é apenas um lixo a mais, uma “chinoiserie”, um bric-à-brac orientalóide ao alcance de qualquer leitor que consiga pronunciar seu nada santo nome.

    Não há nenhum lugar para ir. Estamos todos aqui, zelando pelo nosso lixo. Esse lixo vale ouro pessoal.

*

    California Dreaming
 
    Uma mulher, uma estação, uma morte que caiu muito perto, uma frase ouvida na rua: tudo musas,  fonte de ímpeto e inspiração. Por que não um livro que a gente está traduzindo?

    Pergunte ao Pó traduzi tão emocionado que, às vezes, tive que parar para tomar nota de uns poemas que me vinham daquela massa incandescente de vida, que é o texto de Fante.

    E foi assim que sonhei estas califórnias.

5 Fantasias

Columbia Buffet
cresce a vida
cresce o tempo
cresce tudo
e vira sempre
esse momento

cresce o ponto
bem no meio
do amor seu centro
assim como
o que a gente sente
e não diz 
cresce dentro

*

Retrato do artista quando jovem
e tolo o bastante
para julgar-se um outro Joyce
o pó se foi
mas a pergunta ainda dói

*

fictícia
john fante
está para mim
assim como um filme
assim como a vida
um dia passou
para arturo bandini

*

Era uma vez a história
de Vera Rivken
que amava Arturo
que amava Camila
que amava Sammy
que não amava ninguém.
A história de John Fante
que os amava todos
porque amava todos nós.

*

ask the dust
the answer is blowing in the wind

*

LEMINSKI


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