quarta-feira, 26 de junho de 2019

Abracadabra


Mágicos nos deixam extasiados
diante da nossa própria ignorância


    No último dia 6, Chanchal Lahiri, um mágico indiano conhecido como Mandrake, morreu afogado ao tentar repetir um truque celebrizado pelo ilusionista húngaro Harry Houdini. A ideia era mergulhar acorrentado nas águas do rio Hooghly, Bengala Ocidental, se soltar e nadar até a costa. Mas Lahiri não voltou à superfície. E, apesar de as buscas terem início logo após seu desaparecimento, o corpo só foi encontrado dois dias depois.

Houdini, nascido Erik Weisz, em 1874, ficou famoso pela ousadia e pelos riscos que envolviam suas apresentações. Além de treinar e ensaiar os truques com afinco, praticava corrida e boxe, atividades que lhe davam resistência, força e agilidade. Morreu em 1926, nos Estados Unidos. A causa da morte foi pura ironia: uma apendicite produzida pelos golpes que levou em uma de suas performances.

Em 1998, o Multishow exibiu o documentário A Arte da Magia, que, entre outras coisas, registra os muitos apuros pelos quais passaram os pioneiros do ilusionismo. Atualmente, são muito bem recompensados por enganarem o público com carisma e habilidade. Aqui vão a resenha do documentário e um texto de Millôr Fernandes sobre Houdini.

***

Iludindo o público

Com um beijo
Eu passaria a chave
E sentiria sua língua
Estimulando e recebendo
Com sua saliva em meus lábios
Você mergulhava na água

    Os versos de Houdini, música do álbum The Dreaming, que a cantora inglesa Kate Bush lançou em 1982, revelam uma das artimanhas que o célebre ilusionista e escapista Harry Houdini utilizava para se safar de empreitadas arriscadas. Sem que ninguém percebesse, ele recebia, num beijo de Bess, sua esposa, as chaves para abrir os cadeados que o aprisionavam, enquanto estivesse submerso num tanque.

Houdini, que fez fama e fortuna com suas apresentações nas primeiras décadas do século XX, é um dos personagens do documentário de A Arte da Magia. Em relatos e demonstrações, profissionais e estudiosos revelam os macetes da prática da magia, desde suas origens, num passado remoto, até os dias de hoje. Segundo registros históricos, a magia era uma forma de o homem da antiguidade mostrar que possuía controle sobre a morte e as forças da natureza. Desta maneira, poderia tornar mais fácil a vida num planeta complexo. Feiticeiros e xamãs diziam ter o dom de transpor qualquer barreira ou limite. Na realidade, seus poderes eram resultado de um conhecimento adquirido através de uma percepção mais aguçada do mundo - pouco ou nada tinham de sobrenatural.

Visões e profecias? Fácil. Bastava ingerir a substância alucinógena adequada. Para os leigos, no entanto, os magos eram detentores de poderes benignos e malignos. Trocando em miúdos, o que é desconhecido é mágico. Na Idade Média, quem alardeasse poderes mágicos iria assar numa fogueira, sob a acusação de heresia e pacto com o diabo. Hoje, apresentada em circos ou teatros, a magia é considerada uma prática inofensiva. Em A Arte da Magia, as performances vão de truques com cartas de baralho até o sumiço de um elefante, coisa que Houdini fez em 1918. Houdini, muitas vezes, inventava histórias sobre proezas que, na verdade, nunca havia realizado mas que são comentadas até hoje como feitos espetaculares. Carismático e bom de papo, Houdini mentia com a maior cara de pau, e o público acreditava.

A força e o sucesso da magia parecem residir no fato de o ser humano trazer dentro de si o desejo de ser enganado. Não é por acaso que, para atrair multidões, um filme como o Titanic dê grande destaque, em sua publicidade, aos muitos milhões de dólares gastos em efeitos especiais, e que só serão revelados num making of da produção.

As cenas finais de A Arte da Magia, focalizando os rostos de crianças que assistem à apresentação de um ilusionista, mostram, sem retoques, o fascínio óbvio que as artes mágicas exercem sobre todos nós. Quanto mais inocentes e ingênuos formos em relação a algo que desconhecemos, maior a possibilidade de sermos enganados. Os mágicos, que nos deixam satisfeitos e extasiados diante de nossa própria ignorância, merecem todos os aplausos.

*

Houdini: A eterna escapada

    Millôr Fernandes

    Daqui a pouco, seremos todos do século passado (exceto o glorioso doutor Barbosa Lima Sobrinho). Isso, e a “ameaça” de um big-bang reversivo (o big-bug), está levando milhões a esoterismos, videntes, curandeiros. As multidões não conseguem nada, mas os espiritualistas de todos os tipos vivem gordos e corados, com seus dízimos e bilheterias. Por isso lembro um dos meus heróis cults, Houdini (o outro é Átila, “O Flagelo de Deus”, um gênio), homem dos espantosos truques de prestidigitação, o mais famoso aquele em que ele se atirava no fundo do mar, algemado nos punhos e nos braços, com correntes ao redor do corpo, joelho e tornozelos, e fechado num cofre solidamente soldado. Contorcionista, trapezista e ilusionista, Houdini fascinava multidões fazendo desaparecer um elefante, atravessando um muro de cimento e, completamente nu, abrindo seis celas do ‘corredor da morte”, trocando os condenados de celas.

Já li bastante sobre o homem, infelizmente não vi os filmes sobre ele, só uns pedaços na tevê, e o documentário, apenas razoável, Houdini, the Great Escape.

Meu interesse por Houdini, húngaro (a Hungria é o único país que tem dois talentos per capita), vem do fato dele não ser um mistificador. Estudava seus números exaustivamente e fabricava seus aparelhos “cientificamente”. Mas fazia questão de afirmar que devia seus feitos à sua força extraordinária e ao fato de ter as pernas completamente abauladas. Sempre avisava que só fazia truques. Os quais, naturalmente, nunca revelava. Muitos nunca foram repetidos, se perderam.

As poucos foi criando uma sólida ojeriza aos milagrosos, aos “metafísicos” e curandeiros, leitores de mente, médiuns e todos os Arigós que apregoavam virtudes sobrenaturais, quando apenas faziam truques que ele achava inferiores. Em 1920, suas experiências resultaram no livro-denúncia Um Mágico no Meio dos Espíritos. Anos antes, ele, que tirara seu pseudônimo do francês Jean-Eugéne Houdin, já tinha escrito outro livro semelhante! Desmascarando Robert-Houdini. Perto dos 50 anos abandonou suas exibições e passou a acompanhar as experiências “milagrosas” que detestava, só para repeti-las posteriormente, desmoralizando-as. Isso levou-o a romper com o seu grande amigo Conan Doyle (Sherlock Holmes), espiritualista convicto, que acreditava firmemente numa vida no além.

Apesar do total ceticismo, Houdini fez com a mulher, Wilhelmina Rahner, partenaire de toda sua vida, um acordo fundamentalmente espiritualista: o primeiro a morrer tentaria se comunicar com o outro. Se a comunicação não viesse num prazo de dez anos, o mundo saberia que o sobrenatural não existia. O sinal, claro, era um código, só dele e da mulher, para que nenhum vigarista pudesse dizer que tinha se comunicado com Houdini. Houdini morreu em 1926, de maneira inesperada e idiota – um soco no estômago dado por um profissional, quando ele estava distraído.

Todos os anos, no aniversário da morte de Houdini, a mulher reunia iniciados em torno de uma mesa redonda, tipo espírita, e convocava o falecido. Em 1936, dez anos depois da morte de Houdini, exatamente na hora que ele havia morrido, tentando uma última vez e não recebendo nenhuma mensagem do companheiro, Wilhelmina deu por encerradas as tentativas de contato e murmurou, comovida: “Adeus, Harry.”

A resenha "Iludindo o público" é de 1998. Foi revista. 

Millôr Fernandes foi jornalista, escritor, tradutor, humorista e desenhista. Faleceu aos 88 anos, em 2012.
O texto de sua autoria foi publicado no Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo, em 21/11/1999                           

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