Jaco e Mary Pastorius
Em 1975, o tecladista Joe Zawinul não levou a sério o jovem de 24 anos que se apresentou como “John Francis Pastorius III, o maior baixista do mundo”. No ano seguinte, o mesmo Zawinul, após ouvir algumas demo tapes do mesmo jovem, convidou-o a substituir Alphonso Johnson no Weather Report, a mais respeitada banda de fusion. Em 1976, Jaco Pastorius lançaria seu primeiro álbum-solo, deixando músicos, crítica e público boquiabertos. Prolífico, em curto espaço de tempo, além do trabalho com o Weather, marcava presença em álbuns de vários artistas, entre os quais se destaca Joni Mitchell. Com a cantora e guitarrista canadense, Jaco teve participação significativa e profícua em quatro álbuns, gravados de 1976 a 1979. No início dos anos 1980, enquanto ainda estava no Weather Report, reuniu a nata do jazz na Word of Mouth Big Band, com a qual gravou dois álbuns. No palco, era um showman irresistível.
Ao mesmo tempo em que se proclamava “o inventor do baixo elétrico”, Pastorius declarava não ser um músico original: “Sou uma espécie de ladrão, uma péssima imitação de Jerry Jemmott, Jimi Hendrix, James Brown, Igor Stravinsky, John Coltrane e Charlie Parker”. Nessa alquimia de talentos roubados residia a sua genialidade.
“Nunca toco a mesma coisa duas vezes”, dizia. A obsessão por originalidade e perfeccionismo o deixava à beira da loucura, situação que se agravou quando, para suportar os momentos de pouca inspiração, passou a consumir descontroladamente álcool e cocaína, o que causou danos psíquicos e emocionais - e trouxe à tona o lado mais violento e autodestrutivo do pai amoroso e do praticante de esportes que sempre cultivou hábitos saudáveis. Seu comportamento irascível e a crescente preferência pelo trabalho com a Word of Mouth Big Band desagradaram Zawinul, que o convidou a se retirar do Weather Report, após seis álbuns que estão entre os melhores da banda.
O que ninguém sabia é que Jaco era um homem doente. Diagnosticado como maníaco-depressivo, estava aprisionado a um inferno particular, e usava as drogas para se automedicar. Seu segundo casamento terminou. Ele sofria – e se culpava - por estar longe dos quatro filhos, John, Mary, Felix e Julius. Aos poucos, músicos e gravadoras passaram a evitá-lo. Com o apoio de alguns poucos admiradores, passou a fazer modestas apresentações em bares e night clubs, sem sucesso, praticamente no anonimato.
Como um mendigo, passou a vagar pelas ruas, carregando o seu baixo, e a morar numa quadra de basquete pública. Roubava carros, interrompia shows de outros músicos e provocava brigas em bares. Numa dessas explosões, em setembro de 1987, após ser tirado do palco durante um show do guitarrista Carlos Santana, tentou entrar num after hours em Fort Lauderdale, na Flórida, e foi espancado brutalmente por um segurança, praticante de artes marciais, que desferiu vários golpes de karatê em sua cabeça. Jaco morreu no hospital, após ficar nove dias em coma.
Ao receber a notícia de sua morte, o baixista Stanley Clarke imediatamente se lembrou de Sid Vicious, da banda punk Sex Pistols. Clarke se referia ao rápido processo de autodestruição de ambos. A semelhança para por aí. Sid foi um poser, contratado pelo empresário Malcolm McLaren para animar o circo armado em torno do Sex Pistols. E embora Pastorius definisse a própria música como punk jazz, musicalmente, ele estava milhões de anos-luz à frente de Vicious. A música de Jaco estava mais próxima da música de Jimi Hendrix, ídolo que homenageava em shows, executando Purple Haze e Third Stone from the Sun. Como Hendrix, Jaco tirava de seu instrumento sons até então inusitados. Sua importância para a música é tão grande que levou muita gente dividir a história do baixo elétrico em dois momentos: antes de Jaco e depois de Jaco. É possível ouvir sua influência – os jacoisms – em muitos baixistas. Pouco antes de sua morte, comentou que, enquanto esteve na cadeia por roubo de carros, compôs material para um álbum que se chamaria Dixie Highway. O material nunca foi divulgado ou gravado.
Fica impossível falar da música do século XX sem mencionar Jaco Pastorius, o homem que acrescentou novas cores à paleta do baixo elétrico - e deu a ele o papel de protagonista. O que restou, além de sua obra, foi o exemplo de um artista que não se rendeu às facilidades do sucesso e da fama. E pagou caro por isso. Mas, como ele mesmo disse, em uma de suas últimas entrevistas, “Não quero vender merda”.
O texto a seguir é um relato bastante honesto e tocante de Mary
Pastorius sobre o pai famoso e a doença mental que herdou dele. O amor de Jaco por Mary e John, filhos de seu primeiro casamento, está registrado em uma música do álbum Word of Mouth, a belíssima John and Mary.
É difícil escrever isso. Tenho procrastinado, apesar de saber que seria preciso
escrever. Vejam, as palavras que estou me preparando para escrever falam dos
eventos mais dolorosos da minha vida. Minha reação inicial, ao ser abordada
para escrever um pouco sobre meu pai, foi de entusiasmo. Senti-me forte e ansiosa
para que minha realidade, minha verdade, circulasse por aí, ao lado dos equívocos
e do monte de besteiras que proliferaram muito antes de meu pai morrer. Há
coisas que precisam ser ditas, que ninguém disse. Há coisas que eu queria
gritar, mas não o fiz; assim, senti-me obrigada, felizmente, a escrever este
artigo.
Tenho ouvido muitas histórias de “Jaco”. Pastorius não é um nome comum,
então, quando meu sobrenome é disponibilizado, descontando um cheque ou usando
meu cartão da biblioteca, há uma chance de eu ouvir uma história de “Jaco”. Podem
ser encontros muito positivos, onde as pessoas que conheço são carinhosas e
sensíveis ao fato de que o homem de quem estão falando está morto, e a pessoa
com quem estão falando é sua filha. Eu gosto dessas pessoas. Elas parecem
genuinamente emocionadas com a música do meu pai e só querem falar comigo por
um minuto ou simplesmente olhar para mim, tentando encontrar a semelhança. Eu
entendo isso. Meu pai deixou uma marca indelével neste mundo e afetou
profundamente muitas pessoas. Eu ficaria triste se ninguém reconhecesse meu
sobrenome, porque tenho um orgulho enorme de meu pai e de suas contribuições
para a música. Talvez eu seja tendenciosa, mas as canções mais lindas que já
ouvi foram escritas por meu pai. Ninguém pode me oferecer melodias mais
contagiantes do que aquelas vão do começo ao fim de Las Olas, Village of the
Angels, Portrait of Tracy, para
citar algumas. Sou maravilhada pela música, mais agora do que nunca, porque
crescer com ela era normal. Achava que fosse assim com todo mundo. (Ledo engano,
certo?) Então, entendo completamente quando as pessoas me encontram e enlouquecem,
porque elas ainda, também estão maravilhadas. Eles só querem uma chance de
expressar sua gratidão ou o impacto que ele teve em suas vidas, e é bom ouvir
essas coisas.
Não posso dizer que compartilho as mesmas experiências edificantes com
todos os “fãs” que se aproximam de mim. Algumas pessoas me contaram histórias horríveis, tentando provar que eram amigos ou muito próximos de meu pai
porque passaram alguns dias com ele em Nova York. O que me choca é a maneira
casual como essas histórias são contadas – e recontadas. A indiferença. As
pessoas realmente me contam suas histórias do “Jaco louco” com um sorriso no
rosto, presumindo que estou feliz em conhecer alguém que “conhecia” meu pai.
Não consigo engolir mais uma dessas histórias. Elas não são engraçados para mim.
São extremamente dolorosas. As pessoas simplesmente não sabem o que realmente
estava acontecendo com meu pai. Nem nós sabíamos.
Jaco Pastorius era um ser humano. Estou afirmando o óbvio, mas, às vezes,
o óbvio precisa ser reafirmado. Meu pai é citado como algo não-humano. Como se
fosse um objeto. Virou um ícone, essa “coisa do Jaco". Sim, ele era um
fenômeno, mas não uma coisa, uma máquina, um deus. As histórias que cercam seu comportamento cada vez mais errático, durante seus últimos anos, tornaram-se
folclore, quase míticas. Mas a realidade é que meu pai era apenas um homem e,
às vezes, um homem muito doente que precisava de ajuda. Não há mito nisso. Não é
emocionante nem romântico, apesar de ser a verdade.
Lembro-me de ter notado mudanças em meu pai no início dos anos 80, por
mais sutis que fossem. Também fica difícil avaliar, porque eu não estava com
ele diariamente, devido ao recente divórcio de meus pais. Até que, no outono de
1982, pude passar um bom período de tempo com ele. Foi durante a turnê da big band no Japão que percebi que algo
estava muito errado. Na verdade, ficou evidente antes mesmo de chegarmos ao
aeroporto, quando ele me pegou em um Silver
Cloud Rolls Royce branco, vestido, da cabeça (raspada) aos pés, como um
índio Miccosukee. Toda aquela viagem foi como estar em um parque temático da Twilight Zone. Eu tinha apenas 12 anos
na época, então, certamente não sabia o que havia causado uma mudança tão
incrivelmente drástica em sua personalidade. Tudo o que eu sabia era que o papai
não era mais o papai. Ele meio que se parecia com ele, mas esse cara era
esquisito, irresponsável, indisciplinado, e tinha um olhar estranho. Meu pai
era a antítese dessas qualidades, então essa transformação repentina foi
especialmente desconcertante. Ainda não testemunhei nada remotamente tão
estranho quanto suas esquisitices durante aquela turnê.
Meu pai se safava de muitos comportamentos ultrajantes, porque ele era Jaco.
Uma pessoa “normal” nunca teria permissão para estar tão fora de controle com
tamanha liberdade. Isso parecia funcionar a seu favor, mas, em retrospectiva,
acredito que funcionou contra ele. Isso o impediu de obter a ajuda de que, desesperadamente,
precisava.
Acho que muitas pessoas descartaram meu pai, jogando-o na categoria “gênio
autodestrutivo/músico de jazz que não consegue lidar com a fama ou sua própria
criatividade, então se volta para o álcool, drogas e, eventualmente,
enlouquece, etc. , etc.”. Esses elementos definitivamente influenciam a
equação, mas não a resolvem. Não concordo com a teoria do músico de jazz predestinado.
Aquele não era o papai, por mais que, clara e superficialmente, ele parecesse
se encaixar na descrição.
A verdade é que meu pai estava mentalmente doente. Sofria de um grave
desequilíbrio químico, uma doença maníaco-depressiva. Não fez nada para contraí-la
ou causá-la, embora definitivamente a agravasse com muitas coisas. Suas
percepções distorcidas da realidade e todos os comportamentos bizarros que a
acompanhavam podem ser atribuídos a episódios maníacos que, às vezes, atingiam
níveis psicóticos. Algumas pessoas não podem ou não querem acreditar nisso.
Algumas pessoas o colocam em um pedestal e não podem aceitar que ele tivesse “defeitos”.
Algumas pessoas, por outro lado, acham que meu pai era um filho da puta que não
conseguia se comportar, criando assim a “desculpa” maníaco-depressiva para explicar
algumas memórias nebulosas.
Bem, garanto a vocês que esta doença é legítima. É grave, e eu sei disso
em primeira mão. Veja bem, além de herdar os braços longos, os lábios enormes e
o gosto pela moda de meu pai, também herdei seu desequilíbrio químico. Como
ele não pode se manifestar, eu gostaria de apresentar a depressão maníaca por
meio de minhas experiências pessoais. Quero escrever isso especialmente para as
pessoas que estão sofrendo sozinhas, porque já passei por isso e sei como foi
valioso me identificar com outra pessoa que passou por isso e viveu para
contar.
Na primeira vez, surgiu do nada, sem aviso prévio. Tudo o que eu sabia era
que eu não era mais eu. Eu estava completamente separada de mim mesmo.
Desconectada. Nada parecia real, exceto pela presença muito real de algo novo e
estranho dentro do meu ser que não me pertencia. Eu tinha ouvido o termo
“maníaco-depressivo” algumas vezes quando meu pai era vivo, mas não sabia o que
significava. Nunca foi discutido. Ele certamente nunca mencionou isso, então nenhuma
conexão foi feita.
Ao contrário de meu pai, minha iniciação ao mundo dos transtornos de
humor foi a depressão clínica – não a mania. Não há palavras nem linguagem para
transmitir com precisão a loucura, a perda e o terror vazio que é a depressão
clínica. Eu penso nisso como um lugar. É o lugar onde você é deixado para
vagar sem rumo depois que tudo o que você é foi arrancado de você, e sua alma
foi tomada por saqueadores invisíveis. Lembro-me nitidamente de quando percebi
que este deve ter sido o lugar onde papai morou. Isso apenas intensificou meu
terror sempre presente e crescente.
Eu não tinha ideia do motivo de essa tortura ter acontecido comigo. Eu
não estava funcionando. Trabalho e escola não estavam nem no reino das
possibilidades. Eu não conseguia comer ou dormir. Eu vagava pela casa chorando,
soluçando até o dia em que não conseguia mais chorar. Sentei-me,
paralisada, enquanto tudo no mundo seguia sem a minha presença.
Eu não sabia mais quem eu era. Fiquei apavorada 24 horas por dia, 7 dias por
semana, consumida por um medo de origem desconhecida. Eu tinha medo de sair de
casa. Eu tinha medo de que alguém olhasse nos meus olhos, visse a insanidade e
me internasse (vocês se lembram da Frances?)*. Eu não tinha sentimentos. Eu era
um zumbi. Eu era nada. Conseguia me lembrar vagamente de ter sido uma pessoa. Tinha fotos, roupas e cadernos para provar - mas essa pessoa se foi. Saiu
às pressas e esqueceu suas coisas.
A doença parece se alimentar de si mesma, ganhando vida própria (ou
melhor, usurpando a do hospedeiro) quanto mais tempo você fica nela. Depois de
dois meses inteiros no inferno, meus surtos psicóticos eram a norma. Eu não
conseguia mais distinguir entre sonho e realidade. Depois disso, decidi que eu devia estar morta. De que outra forma eu poderia continuar a existir num estado
completamente sem vida? Ironicamente, acho que esses pensamentos distorcidos
ajudaram a me manter viva, porque se eu já estivesse morta, não poderia me
matar. Eu estava consumida pela morte. Algo estava tentando me matar por dentro,
e eu não conseguia imaginar que um dia voltaria a viver.
Felizmente, depois de algumas experiências traumáticas com alguns
médicos ineptos, minha mãe ligou para o médico que tratou meu pai em Bellevue e
ele me encaminhou para um médico em Miami. Era novembro de 1988 quando fui
internada no Centro de Neurociências do Hospital St. Francis e recebi o
diagnóstico oficial: transtorno afetivo bipolar. Não fui curada magicamente,
mas pelo menos agora sabia o que havia de errado comigo - e que havia um
tratamento.
Deram-me lítio e antidepressivos. Essas pequenas pílulas salvaram minha
vida. Mas, mesmo com a ajuda da medicina e de um novo conhecimento, a
recuperação foi demorada. É difícil afastar esse sentimento doentio. Eu tomo
lítio desde então. Adoraria parar de tomar os remédios e ver como fico sem
eles, mas não posso correr o risco de ficar doente novamente sem uma rede de
segurança. Eu sei do que essa doença é capaz. Eu sei o que fez comigo. Eu
vi o que fez com meu pai.
Tive mais dois episódios desde o primeiro, apesar de ser uma boa menina.
Tomo meu lítio diariamente, não bebo, não fumo, não uso drogas – nem tomo café!
E ainda fico doente. Não é tão ruim, mas ainda acontece; e, embora eu
já tivesse acontecido uma segunda vez, e ainda uma terceira, isso ainda me derrubava. Cada vez eu pensava que nunca iria melhorar. É a
natureza da doença, e o pensamento pode ser inútil.
Estou tentando transmitir a força dessa doença. Uma vez que ela volta, ela está no controle, e para retomar esse controle é uma batalha. Você pode lutar
contra os sintomas, mas, pessoalmente, acredito que tudo o que você realmente
pode fazer é esperar que o episódio termine e tentar se manter vivo enquanto
isso. Mas, durante esse ínterim, a medicina está, definitivamente, na primeira
linha de defesa.
Não consigo expressar o suficiente a gravidade da doença
maníaco-depressiva. Mas, por mais grave que seja, devo ressaltar que não é
necessariamente uma condição permanente. Os episódios se alternam num vaivém, de acordo com a química de cada um. Existem pessoas que respondem tão bem
ao lítio que seus episódios cessam completamente. Outros precisam de uma
combinação de terapias. Não existe uma fórmula. Existem muitos tratamentos
bem-sucedidos disponíveis. Então, esteja você nas alturas ou nas profundezas do
inferno, você pode se equilibrar.
Não tenho dúvidas de que meu pai teria melhorado. Levaria muito tempo
para ele se recuperar após a guerra química que causou estragos em seu cérebro
por tantos anos, mas ele nem teve essa chance. Ele teria uma vida inteira para se
curar e aprender. Sim, meu pai continuou cometendo erros – todo mundo comete.
Infelizmente, se você está vivendo no auge da doença maníaco-depressiva, seus
erros serão em escala muito maior, com consequências ainda maiores.
No entanto, a depressão maníaca não matou meu pai. Não posso deixar de enfatizar isso. Meu pai foi assassinado por um homem que o espancou
até a morte, usando as próprias mãos. Não há absolutamente nenhuma
justificativa para a surra brutal que meu pai recebeu, e ainda assim seu
assassino cumpriu apenas quatro meses de prisão. Vivemos em uma sociedade que
condena os doentes mentais e tolera a violência contra eles. É nojento. Não
posso deixar de me perguntar quantos doentes, gente como eu, são assassinados
nas ruas e ninguém nunca ouve falar deles porque não são famosos.
Tenho certeza de que meu pai era considerado apenas um vagabundo por seu
assassino. Provavelmente nunca passou por sua cabeça que ele poderia estar
matando um homem brilhante. Um pai. Um irmão. Um filho. Muitos de nós perdemos
tanto, e este homem nunca expressou nenhum remorso, não pediu desculpas nem tentou apoiar
minha família de alguma forma. Dois dos meus três irmãos nunca conhecerão o
próprio pai. Meus avós tiveram que ver seu primogênito ser enterrado com apenas
35 anos de vida. Um dia, vou me casar, mas não terei o orgulho de subir ao
altar nos braços do meu pai. Um dia, terei filhos que nunca conhecerão o avô.
Mas, apesar da perda, da dor e da tragédia, ainda tenho lindas
lembranças de papai – cheias de vida e risadas. Subindo nas árvores, roubando mangas, frisbee na praia, minha
primeira viagem de avião, biscoitos a caminho do Central Park, ouvir Stevie
Wonder, jogos de softball nos fins de
semana, nadando e jogando pingue-pongue na casa da vovó, cartões postais do mundo
todo, me escondendo do monstro das cócegas, ouvindo-o tocar piano, ouvindo-o tocar
bateria, ouvindo-o tocar qualquer coisa, toda a comida nos bastidores dos shows
do Weather Report, assistindo Star Trek, cortando minhas unhas, limpando meus
ouvidos, Burger King Friday, me ensinando a
cantar num microfone, trazendo um cachorrinho para casa, comprando piña colada, uma apresentação solo para
minha turma da 4ª série no Dia da Carreira, abraçando-o com força quando ele foi me
pegar de motocicleta na escola, me dando um beijo de boa noite.
Estas são algumas das minhas memórias de meu pai, e ninguém pode tirá-las
de mim. É isso o que darei aos meus filhos, para que eles o conheçam através
de mim - e da música.
Amo você, papai.
*Referência à atriz norte-americana Frances Farmer que, diagnosticada com esquizofrenia paranoide, passou por terapias de eletrochoque e coma insulínico, antes de ser internada compulsoriamente num hospício, onde permaneceu por cinco anos, sendo violentada e submetida à lobotomia.
O texto de Mary Pastorius foi incluído no encarte do CD “Portrait of Jaco: The Early Years”, 1994. Foi publicado também
na revista da NAMI (The National Alliance for the Mentally Ill), 2001. O texto que abre o post é de 1991.













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