"Ergui os olhos rapidamente e perguntei à senhora se ela não preferiria
o assento ao lado da janela. Ele preferiria e preferiu."
(Foto de Diego Meleiro Novaretti)
Epifania no assento da janela
David Drew Zingg em Sampa
O que é que nos atrai numa mulher?
O que é que nos fisga, naquele minissegundo
de reconhecimento mútuo profundo? Foi o jeito como ela mexeu a cabeça ao rir? O
fato de que sabia tudo sobre vinhos sul-africanos? Aquele sorriso? Aquela
piadinha maliciosa sobre a Austrália?
Não estou falando da espécie de estrelinha de TV óbvia, de pernas compridas e
blusa colada ao corpo revelando as curvas nos lugares certos. Estou falando
daquelas que “permanecem” – o tipo de mulher com quem gostaríamos de ficar por
muito, muito tempo.
Esse é o mistério que mantém escritores e poetas ocupados há séculos, tentando
decifrá-lo. Pode-nos acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento, em
qualquer idade. Para inventar uma frase, eu diria que é como ser atingido por
um raio.
Pode acontecer com você, e aconteceu com seu velho amigo tio Dave. Contei a
experiência que vivi a Roberto Muylaert, que edita a nova versão da revista de
bordo da Varig, a “Ícaro”.
Eis a história da forma como saiu na revista.
***
Janela ou corredor?
Esta é uma história sobre uma epifania1 no assento da
janela. Eu estava viajando para a Austrália recentemente, para a Folha, para
conhecer as vinícolas do país, e a funcionária do portão de embarque confundiu
meu lugar reservado no avião. Em lugar do assento do corredor que eu pedira,
deu-me um lugar ao lado da janela.
Não me considero um sujeito de trato difícil, por isso simplesmente fui para o
lugar que queria desde o início: ao lado corredor.
Eu acabara de abrir a instigante revista de bordo e estava aprendendo tudo
sobre os hábitos de acasalamento dos cangurus, quando a comissária de bordo me
interrompeu.
“Desculpe-me, senhor, mas acho que o senhor está sentado no lugar desta
senhora.”
Ergui os olhos rapidamente e perguntei à senhora se ela não preferiria o
assento ao lado da janela. Ela preferiria e preferiu.
Observei, horrorizado com sua eficiência burocrática, enquanto ela abria uma
daquelas pastas de executivo feitas de náilon à prova de balas e retirava uma
pilha de papéis sobre a Austrália.
“Uma pequena executiva do setor de turismo”, eu disse a mim mesmo, estremecendo
de repulsa.
Eu estava voando para Brisbane para me reunir ao resto do grupo que iria fazer
a viagem organizada. Evitei todo e qualquer contato com a dama ocupadíssima
sentada ao meu lado.
O líder da tour nos recebeu na esteira de bagagens e nos apresentou uns aos
outros. Fez um gesto em direção a alguém escondido na fila de trás e disse: “E
esta é Cecily Cardew2, da África do Sul”.
Desviei-me da tentativa de capturar minha mala pesada a tempo de vislumbrar a
Senhorita Eficiência, aquela do assento ao lado da janela.
Ela estava me olhando com ar abertamente divertido – a um triz, achei, de
sentir desdém pelo homem no avião que havia desperdiçado a grande chance de sua
vida de seduzi-la com seu papo.
O estado de ânimo dela era contagioso. Dei risada.
Ela riu também. Sua risada era clara e límpida. Tinha o som de um sino feito de
cristal.
Ela era minha epifania do assento ao lado da janela.
Nossa viagem pela terra australiana dos vinhos e da comida durou uma semana.
Viajamos juntos num carro durante sete dias inteiros. Para mim, foram sete dias
completos de Natal.
Ela estava na casa dos 30, atraentes. Era especialista em vinhos e tinha sua
própria escola de culinária na África do Sul.
David e Cecily formaram um par imediato – no sentido intelectual do termo. Os
sete dias que passamos na terra de Oz se tornaram quase insuportavelmente
prazerosos.
Ela era engraçada. Seu senso de humor era feito de uma parte de malícia e duas
partes de humor britânico. Rindo à vontade, abrimos caminho por situações
sérias e outras ridículas.
Ela era mestra naquele discreto dialeto feminino que é a linguagem
corporal. Além disso, era acariciadora.
Acariciar constitui o estilo de interação social altamente repleto de nuances
adotado pela mulher inteligente, que não é necessariamente físico e que promove
e mantém a harmonia interpessoal.
Durante um bate-papo, ou toda vez que sentia o pique emocional caindo, Cecily
me consolava com tapinhas carinhosos. Ela fazia gestos estimulantes com a
cabeça, franzia o cenho em sinal de empatia e emitia glissandos3 de
reconforto emocional.
Cecily me enfeitiçou com sua receita de escola culinária de espírito travesso,
empatia, senso de humor e capacidade de me surpreender. Recuso relacionamentos
com mulheres tediosas ou antipáticas. Cecily passou sem dificuldades pelas
rachaduras da minha armadura.
Durante seis dias, o vinho e a comida australianos foram excepcionais. Eles
alimentaram nosso novo, intenso e platônico caso de amor entre mentes e
corações.
Nossas conversas eram boas, e nossas histórias e mentiras, ainda melhores. Eu
teria oferecido a ela minha mão em casamento, mas, não sei bem porque, temi que
sua família pudesse se opor. (Sua família, ela me avisara, era composta de um
bom marido e de uma filha bebê, Sue).
De repente, tudo acabou.
Existe uma teoria, à qual subscrevo, que existem poucos parceiros de alma neste
mundo. Acho que a bela Cecily e eu temos uma ligação real, mas é triste
perceber que ela está tão distante.
Vai ser difícil encontrar com minha doppelgänger4 de
alma. Mas esta saga agridoce tem uma moral: em sua viagem, peça lugar ao
lado do corredor.
Notas de rodapé: 1. Manifestação
divina; 2. Obviamente, seu nome verdadeiro não é Cecily Cardew. Este é o nome
de uma jovem encantadora na peça “A Importância de Ser Sério”, de Oscar
Wilde; 3. Na harpa ou no piano, passagem rápida subindo ou descendo por uma
série de notas; 4. Segundo uma lenda medieval alemã, um fantasma que é sósia da
pessoa que o vê.
David Drew Zingg, fotógrafo e jornalista norte-americano radicado no Brasil, faleceu em 28 de julho de 2000, aos 76 anos.
Texto publicado na Folha de São Paulo, 21 de Agosto de 1997. Tradução de Clara Allain.
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