terça-feira, 16 de setembro de 2014

Epifania no assento da janela


"Ergui os olhos rapidamente e perguntei à senhora se ela não preferiria
o assento ao lado da janela. Ele preferiria e preferiu."
(Foto de Diego Meleiro Novaretti)


Epifania no assento da janela


    David Drew Zingg em Sampa

    O que é que nos atrai numa mulher? 
    O que é que nos fisga, naquele minissegundo de reconhecimento mútuo profundo? Foi o jeito como ela mexeu a cabeça ao rir? O fato de que sabia tudo sobre vinhos sul-africanos? Aquele sorriso? Aquela piadinha maliciosa sobre a Austrália?
    Não estou falando da espécie de estrelinha de TV óbvia, de pernas compridas e blusa colada ao corpo revelando as curvas nos lugares certos. Estou falando daquelas que “permanecem” – o tipo de mulher com quem gostaríamos de ficar por muito, muito tempo.
    Esse é o mistério que mantém escritores e poetas ocupados há séculos, tentando decifrá-lo. Pode-nos acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento, em qualquer idade. Para inventar uma frase, eu diria que é como ser atingido por um raio.
    Pode acontecer com você, e aconteceu com seu velho amigo tio Dave. Contei a experiência que vivi a Roberto Muylaert, que edita a nova versão da revista de bordo da Varig, a “Ícaro”.
    Eis a história da forma como saiu na revista. 

***


    Janela ou corredor?

    Esta é uma história sobre uma epifania1 no assento da janela. Eu estava viajando para a Austrália recentemente, para a Folha, para conhecer as vinícolas do país, e a funcionária do portão de embarque confundiu meu lugar reservado no avião. Em lugar do assento do corredor que eu pedira, deu-me um lugar ao lado da janela.
    Não me considero um sujeito de trato difícil, por isso simplesmente fui para o lugar que queria desde o início: ao lado corredor.
    Eu acabara de abrir a instigante revista de bordo e estava aprendendo tudo sobre os hábitos de acasalamento dos cangurus, quando a comissária de bordo me interrompeu.
    “Desculpe-me, senhor, mas acho que o senhor está sentado no lugar desta senhora.”
    Ergui os olhos rapidamente e perguntei à senhora se ela não preferiria o assento ao lado da janela. Ela preferiria e preferiu.
    Observei, horrorizado com sua eficiência burocrática, enquanto ela abria uma daquelas pastas de executivo feitas de náilon à prova de balas e retirava uma pilha de papéis sobre a Austrália.
    “Uma pequena executiva do setor de turismo”, eu disse a mim mesmo, estremecendo de repulsa.
    Eu estava voando para Brisbane para me reunir ao resto do grupo que iria fazer a viagem organizada. Evitei todo e qualquer contato com a dama ocupadíssima sentada ao meu lado.
    O líder da tour nos recebeu na esteira de bagagens e nos apresentou uns aos outros. Fez um gesto em direção a alguém escondido na fila de trás e disse: “E esta é Cecily Cardew2, da África do Sul”.
    Desviei-me da tentativa de capturar minha mala pesada a tempo de vislumbrar a Senhorita Eficiência, aquela do assento ao lado da janela.
    Ela estava me olhando com ar abertamente divertido – a um triz, achei, de sentir desdém pelo homem no avião que havia desperdiçado a grande chance de sua vida de seduzi-la com seu papo.
    O estado de ânimo dela era contagioso. Dei risada.
    Ela riu também. Sua risada era clara e límpida. Tinha o som de um sino feito de cristal.
    Ela era minha epifania do assento ao lado da janela.
    Nossa viagem pela terra australiana dos vinhos e da comida durou uma semana. Viajamos juntos num carro durante sete dias inteiros. Para mim, foram sete dias completos de Natal.
    Ela estava na casa dos 30, atraentes. Era especialista em vinhos e tinha sua própria escola de culinária na África do Sul.
    David e Cecily formaram um par imediato – no sentido intelectual do termo. Os sete dias que passamos na terra de Oz se tornaram quase insuportavelmente prazerosos.
    Ela era engraçada. Seu senso de humor era feito de uma parte de malícia e duas partes de humor britânico. Rindo à vontade, abrimos caminho por situações sérias e outras ridículas.
    Ela era mestra naquele discreto dialeto feminino que é a linguagem corporal. Além disso, era acariciadora.
    Acariciar constitui o estilo de interação social altamente repleto de nuances adotado pela mulher inteligente, que não é necessariamente físico e que promove e mantém a harmonia interpessoal.
    Durante um bate-papo, ou toda vez que sentia o pique emocional caindo, Cecily me consolava com tapinhas carinhosos. Ela fazia gestos estimulantes com a cabeça, franzia o cenho em sinal de empatia e emitia glissandos3 de reconforto emocional.
    Cecily me enfeitiçou com sua receita de escola culinária de espírito travesso, empatia, senso de humor e capacidade de me surpreender. Recuso relacionamentos com mulheres tediosas ou antipáticas. Cecily passou sem dificuldades pelas rachaduras da minha armadura.
    Durante seis dias, o vinho e a comida australianos foram excepcionais. Eles alimentaram nosso novo, intenso e platônico caso de amor entre mentes e corações.
    Nossas conversas eram boas, e nossas histórias e mentiras, ainda melhores. Eu teria oferecido a ela minha mão em casamento, mas, não sei bem porque, temi que sua família pudesse se opor. (Sua família, ela me avisara, era composta de um bom marido e de uma filha bebê, Sue).
    De repente, tudo acabou.
    Existe uma teoria, à qual subscrevo, que existem poucos parceiros de alma neste mundo. Acho que a bela Cecily e eu temos uma ligação real, mas é triste perceber que ela está tão distante.
    Vai ser difícil encontrar com minha doppelgänger4 de alma. Mas esta saga agridoce tem uma moral: em sua viagem, peça lugar ao lado do corredor.

Notas de rodapé: 1. Manifestação divina; 2. Obviamente, seu nome verdadeiro não é Cecily Cardew. Este é o nome de uma jovem encantadora na peça “A Importância de Ser Sério”, de Oscar Wilde; 3. Na harpa ou no piano, passagem rápida subindo ou descendo por uma série de notas; 4. Segundo uma lenda medieval alemã, um fantasma que é sósia da pessoa que o vê.

David Drew Zingg, fotógrafo e jornalista norte-americano radicado no Brasil, faleceu em 28 de julho de 2000, aos 76 anos.

Texto publicado na Folha de São Paulo, 21 de Agosto de 1997. Tradução de Clara Allain. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário